Texto
. Que ‘túnica peluda’ signifique o vero do natural, é o que se vê pela significação da ‘túnica’, que é tal coisa que reveste outra; por isso, aqui, é o vero, porque este reveste o bem. De fato, o vero é como uma vestimenta (n. 1073, 2576), ou, o que e quase a mesma coisa, o vero é o vaso recipiente do bem (n. 1469, 1496, 1832, 1900, 2063, 2261, 2269). [Vê-se] também pela significação de ‘peluda’, que é o natural quanto ao vero. O pelo (ou o cabelo) é algumas vezes mencionado na Palavra, e nela significa o natural; a causa é, porque os pelos são excrescências196 no último do homem, assim como também o natural o é relativamente ao seu racional e aos seus interiores. Parece ao homem, quando ele vive no corpo, que o natural é nele tudo, mas isto se acha tão afastado do vero, que o natural é antes uma excrescência de seus internos, como os pelos o são das coisas que pertencem ao corpo; eles também procedem quase semelhantemente dos internos. É também por essa razão que os homens que, na vida do corpo, foram meramente naturais, quando eles se apresentam à vista na outra vida segundo esse estado, aparecem cobertos de pelo sobre quase toda a face; e, além disso, o natural do homem é representado por meio de cabelos; quando ele provém do bem, por cabelos belos e elegantemente dispostos; mas quando ele não provém do bem, por cabelos feios e desarrumados.
[2] É desse representativo que os pelos, ou cabelos, na Palavra, significam o natural principalmente quanto ao vero, como em Zacarias:
“Acontecerá que, nesse dia, se envergonharão os profetas, o varão por causa da sua visão, quando tiver profetizado, e não revestirão a túnica peluda para que mintam” (13:4);
os ‘profetas’ estão por aqueles que ensinam os veros; aqui, os que ensinam os falsos (n. 2534); a ‘visão’ está no lugar dos veros (aqui, dos falsos); a ‘túnica peluda’ está pelo natural quanto ao vero; e porque não era o vero mas o falso que estava neles, diz-se ‘para mentirem’. Os profetas vestiam-se com tais [túnicas peludas] para que representassem esse vero, porque ele é externo. É também por isso que Elias, o tisbita, é chamado ‘varão peludo’, por causa de uma tal vestimenta (2Rs. 1:8). E João, que foi o último dos profetas, tinha uma vestimenta de ‘pelos de camelo’ (Mt. 3:4). Que os ‘camelos’ sejam os conhecimentos no homem natural, foi visto (n. 3048, 3071, 3143, 3145), e que os conhecimentos sejam os veros do homem natural, n. 3293.
[3] Que o ‘cabelo’ tenha significado o natural quanto ao vero, vê-se manifestamente pelos nazireus, aos quais se ordenou que, durante todos os dias de seu nazireado, ‘a navalha não passaria sobre a cabeça deles’, até que tivessem sido completados os dias que eles deviam estar em abstinência para JEHOVAH, durante os quais deixariam crescer a cabeleira de sua cabeça; e que então eles ‘aparariam a cabeça de seu nazireado’ à entrada da Tenda da Convenção, e então poriam o ‘cabelo’ sobre o fogo que estava sob o sacrifício eucarístico (Nm. 6:5, 18, 19); os nazireus representavam o Senhor quanto ao Divino Humano e, por isso, o homem da Igreja Celeste, que é a semelhança do Senhor (n. 51), e representavam o natural desse homem pelo cabelo; razão por que, quando eram santificados, deviam despojar o seu velho homem natural ou precedente, em que eles tinham nascido, e revestir o novo [homem], o que é significado por isto, que quando fossem completados os dias que eles deviam estar em abstinência para JEHOVAH, eles lançariam a cabeleira de sua cabeça e poriam sobre o fogo que estava sob o sacrifício. Com efeito, o estado do homem celeste consiste em que ele esteja no bem, e que a partir do bem ele saiba todos os veros, e nunca a partir dos veros [ele pense e fale] a respeito do bem, e menos ainda a partir dos conhecimentos (ver n. 202, 337, 2715, 2718, 3246). Além disso, os homens celestes são tais, que antes que deixem esse estado, eles estão em um natural tão forte quanto ao vero, que eles podem combater contra os infernos, pois é o vero que combate e nunca o bem; os infernos não podem se aproximar do bem nem sequer de longe. Que o vero seja tal e que tal é o bem, foi visto (n. 1950, 1951).
[4] Daí é evidente donde vem que Sansão tirava a sua força de seu cabelo; a esse respeito se fala assim:
“Apareceu o Anjo de JEHOVAH a mãe de Sansão, dizendo: Eis [que] conceberás e parirás um filho, e a navalha não subirá sobre a cabeça dele; será nazireu de Deus o menino desde o útero” (Juízes, 13:3, 5);
em seguida, que ele contou a Dalila que ‘se [o cabelo] fosse raspado, a sua força se retiraria dele e se tornaria fraco’; e então, ‘quando foi raspado’, que ‘sua força tenha se retirado e os filisteus o tenham prendido’. E depois, ‘quando os cabelos de sua cabeça começaram a crescer’, a sua força voltou ao ponto que ele derrubou as colunas da casa (Jz. 16:1 ao fim). Quem não vê que há nesses fatos um arcano celeste e que este arcano ninguém conhece, exceto se for instruído a respeito dos representativos, a saber, que o nazireu se refere ao homem celeste [Coelestem hominem], e que enquanto ele tinha os seus cabelos, ele se referia ao natural desse homem que está, como foi dito, em um vero tão poderoso e tão forte; e porque naquela época todos os representativos que tinham sido ordenados pelo Senhor tinham um tal força e um tal efeito, daí vinha a força de Sansão; mas este não foi um nazireu santificado como os de que acima se tratou, a saber, que ele não tinha revestido o estado do bem em lugar do estado do vero. O efeito de sua força em relação aos seus cabelos vinha principalmente de que ele representava o Senhor, Que, do Homem Natural quanto ao vero, combateria contra os infernos e os subjugaria, e isso antes que revestisse o Divino Bem e o Divino Vero também quanto ao homem natural.
[5] Daí também é evidente por que se ordenou que
“o sumo sacerdote, sobre cuja cabeça foi derramado o óleo da unção, e cuja mão foi cheia para se vestir com as vestimentas, não rasparia sua cabeça, e não rasgaria as suas vestimentas” (Lv. 21:10);
e semelhantemente que os Sacerdotes Levitas, onde se trata do novo Templo, ‘que não raspariam a sua cabeça e não deixariam crescer a sua cabeleira’ (Ez. 44:20), a saber, para que representassem o Divino Natural do Senhor quanto ao vero que provém do bem, e é chamado o vero do bem. Que o ‘pelo’ ou o cabelo significa o natural quanto ao vero, vê-se ainda pelos proféticos da Palavra, por exemplo, em Ezequiel:
“Como o gérmen do campo fiz a ti, daí cresceste e engrandeceste em ornato dos ornatos, os peitos endureceram-se, e o teu cabelo cresceu” (16:7);
onde se trata de Jerusalém, que ali é a Antiga Igreja, que se perverteu com o passar do tempo; os ‘peitos endurecidos’ estão pelo bem natural, o ‘cabelo que cresceu’, pelo vero natural.
[6] Em Daniel:
“Vendo estive até que os tronos foram lançados, e o antigo dos dias se sentou; a vestimenta dele [era] como a neve branca, e o cabelo da cabeça dele como a lã limpa; o trono dele como a chama de fogo” (7:9);
e em João:
“No meio dos sete castiçais, um semelhante ao Filho do homem, vestindo vestes talares, e cingido aos peitos por um cinto de ouro197; a cabeça, porém, e os cabelos brancos, como uma lã branca, como a neve, mas os olhos dele como uma chama de fogo” (Ap. 1:13, 14);
os ‘cabelos brancos como lã limpa’ estão pelo Divino Natural quanto ao vero; o vero mesmo na Palavra e nos ritos da Igreja Judaica foi representado pelo ‘branco’, que, como procede do bem, é chamado ‘lã limpa’; que a representação do vero seja feita pelo ‘branco’, e a do bem pelo vermelho, era porque o vero pertence à luz e o bem ao fogo do qual provém a luz.
[7] Os ‘cabelos’, assim como as outras coisas na Palavra, também tem um sentido oposto, e significa o natural quanto ao vero pervertido, como em Isaías:
“Nesse dia o Senhor aparará com uma navalha mercenária, na travessia do rio pelo rei de Asshur, a cabeça e os pelos dos pés, e também a barba consumirá” (7:20).
Em Ezequiel:
“Filho do homem, toma para ti uma espada aguda, uma navalha de barbeiro tome para ti, a esta passe sobre a tua cabeça, e sobre a tua barba; em seguida toma para ti balanças de pesar, e divide-as; a terça parte no fogo queimarás no meio da cidade; ... [outra] terça parte ferirás com a espada ao redor dela, e [outra] terça parte dispersarás ao vento; ... tomarás deles um pequeno número, e as atarás nas tuas asas; por fim, delas tomarás de novo, e lançá-las-ás no meio do fogo, e queimá-las-ás no fogo, do qual sairá um fogo contra toda a casa de Israel” (5:1, 2, 3, 4);
assim se descreve, de um modo representativo, que não havia mais nenhum vero natural interior nem exterior, o que é o ‘cabelo’ e a ‘barba’; a destruição desse vero pelas concupiscências é significada por que ‘a terça parte era queimada no fogo’; pelos raciocínios, por que ‘[outra] terça parte era ferida pela espada ao redor da cidade’; e pelos falsos princípios, por que ‘[outra] terça parte era dispersada ao vento’. Essas coisas envolvem semelhantemente as mesmas coisas que o Senhor ensina em Mateus, que “a semente (que é o vero), uma parte tenha caído entre os espinhos, outra na rocha e uma outra sobre o caminho” (13:1 ao 9).
[8] Que os ‘cabelos’ signifiquem os veros impuros e os falsos que pertencem ao homem natural, é também o que foi representado por “que a mulher desposada dentre os cativos dos inimigos devia ser conduzida a casa, ‘deviam ser raspados os cabelos da sua cabeça’, as suas unhas cortadas, e removidas as vestimentas de seu cativeiro” (Dt. 21:12, 13); depois que, quando fossem consagrados os Levitas “espalhava-se sobre eles a água de expiação, ‘faziam passar a navalha sobre toda a carne deles’, eram lavadas as vestimentas, e assim tornavam-se puros” (Nm. 8:7); e também, “que Nabucodonosor foi expulso de junto dos homens, para que comesse a erva como os bois, e que o seu corpo fosse molhado com o orvalho dos céus, ‘até que seu cabelo crescesse como [as penas] das águias’, e as suas unhas, como [as] das aves” (Dn. 4:30 [Em JFA, 4:33]). Que na lepra observavam-se as cores do ‘pelo’ e da ‘barba’, como o branco, o avermelhado, o amarelo e o negro; fazia-se o mesmo para as vestimentas; e que o homem limpo da lepra raspava ‘todo o pelo da cabeça, da barba e das pálpebras’ (Lv. 13:1 ao fim; 14:8, 9), significava os falsos impuros provenientes do profano, que é a ‘lepra’, no sentido interno.
[9] A ‘calvície’, ao contrário, significava o natural no qual nada havia de vero, como em Isaías:
“Subiu a Bajith, e a Dibon, aos lugares altos, para chorar sobre Nebo, e sobre Medba Moabe uivará, em todas as suas cabeças a calvície, toda barba raspada” (15:2);
no mesmo:
“Haverá, em lugar de uma obra trançada, a calvície, e queimadura em lugar da beleza” (Is. 3:24).
Que os meninos que disseram a Eliseu ‘Sobe calvo, sobe calvo!’ tenham sido dilacerados por ursos da floresta (2Rs. 2:23, 24), representava aqueles que blasfemam a Palavra, por exemplo, dizendo que ela não tem em si o vero; com efeito, Eliseu representava o Senhor quanto à Palavra (n. 2762). Daí também é evidente quanto tiveram força, naquela época, os representativos.