Texto
. ‘Um varão do campo’, que signifique o bem da vida proveniente dos doutrinais, é o que se vê pela significação do ‘campo’. Na Palavra, são mencionados em muitas passagens a ‘terra’, o ‘homem’ e o ‘campo’; e pela ‘terra’, quando tomada em um sentido bom, é significado o Reino do Senhor nos céus e nas terras, portanto, a igreja, que é o Reino do Senhor nas terras; semelhantemente o ‘húmus’, mas em um sentido mais restrito (n. 566, 562, 1066, 1067, 1068, 1262, 1413, 1733, 1850, 211, 2118 no fim, 2928); essas mesmas coisas são também significadas pelo ‘campo’, mas em um sentido ainda mais restrito (n. 368, 2971); e como a igreja não é igreja pelos doutrinais, a não ser o quanto os doutrinais visam o bem da vida como fim, ou, o que é o mesmo, exceto se os doutrinais estiverem conjuntos ao bem da vida, por isso, pelo ‘campo’ é significado principalmente o bem da vida. Esse bem, para que pertença à igreja, é necessário que haja doutrinais extraídos da Palavra que tenham sido implantados neste bem; sem os doutrinais, há de fato o bem da vida, mas ainda não é o bem da igreja, assim, ele ainda não é verdadeiramente espiritual, ele está somente em potência para que possa tornar-se, do mesmo modo como é o bem da vida com as nações, que não têm a Palavra e, por essa razão, não conhecem o Senhor.
[2] Que o ‘campo’ seja o bem da vida em que devem ser implantadas as coisas que pertencem à fé, isto é, os veros espirituais que pertencem à igreja, pode-se ver manifestamente pela parábola do Senhor em Mateus:
“Saiu o semeador a semear, e enquanto ele semeava, umas caíram sobre o caminho duro, e vieram as aves e as comeram. Outras caíram em [lugares] pedregosos, onde não tiveram muito húmus, donde logo nasceu, porque não tinham profundidade de terra; quando, porém, o sol se levantou, queimaram-se, e porque não tinham raiz, secaram-se. Outras caíram entre espinhos, e cresceram os espinhos, e sufocaram-nas; outras, porém, caíram na terra boa, e deram fruto, uma cem vezes, a outra sessenta, a outra trinta203. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça” (13:4–9; Mc. 4:3–9; Lc. 8:5–8);
aí se trata de um quádruplo gênero de terra ou de húmus no campo, isto é, na igreja. Que a ‘semente’ aí seja a Palavra do Senhor, portanto, o vero que é chamado vero da fé, e que a ‘boa terra’ seja o bem que pertence à caridade, é evidente, pois no homem é o bem que recebe a Palavra; o ‘caminho duro’ é o falso; o ‘[lugar] pedregoso’ é o vero que não tem raiz no bem; os ‘espinhos’ são os males.
[3] Eis o que ocorre com o bem da vida proveniente dos doutrinais, o qual é significado pelo ‘varão do campo’: Aqueles que são regenerados fazem primeiro o bem a partir dos doutrinais, pois por si mesmos eles não conhecem o bem; os doutrinais do amor e da caridade, a partir dos quais eles aprendem, é a partir deles que eles sabem quem é o Senhor, quem é o próximo, o que é o amor e o que é a caridade, assim, o que é o bem. Quando eles estão nesse estado, eles estão na afeição do vero, e são chamados ‘varões do campo’; mas em seguida, quando foram regenerados, eles não fazem o bem a partir dos doutrinais, mas a partir do amor e caridade, pois então eles estão no bem mesmo, que eles aprenderam por meio dos doutrinais, e então eles são chamados ‘homens do campo’. Dá-se com isso o que se dá com um homem que, por natureza, inclina-se para os adultérios, furtos, assassínios, mas que aprende dos Preceitos do Decálogo que tais ações são do inferno, e assim se abstém dessas coisas. Neste estado, esse homem é afetado dos preceitos, porque teme o inferno, e ele aprende desses preceitos, e igualmente da Palavra, muitas coisas a respeito do modo como ele deve regular a sua vida; então, quando faz o bem, ele faz o bem a partir dos preceitos; mas quando ele está no bem, ele começa a ter aversão aos adultérios, aos furtos e aos assassínios aos quais se inclinava [ou era propenso] anteriormente. Então quando ele se acha nesse estado, não é mais a partir dos preceitos que ele faz o bem, mas sim a partir do bem, que então está nele. No estado anterior, é pelo vero que ele aprende o bem, no estado posterior, é pelo bem que ele ensina o vero.
[4] O mesmo acontece com os veros espirituais, que são chamados doutrinais e são preceitos ainda mais interiores. Com efeito, os doutrinais são veros interiores que pertencem ao homem natural; os primeiros são os dos sentidos, os segundos são os dos conhecimentos, os interiores são os doutrinais; esses veros doutrinais se fundam sobre os veros do conhecimento enquanto o homem não puder ter e reter alguma ideia, alguma nação ou alguma concepção senão a partir dos conhecimentos; os veros dos conhecimentos se fundam sobre os veros dos sentidos, porque sem os sentido os conhecimentos não podem ser compreendidos pelo homem204. Esses veros, a saber, os dos conhecimentos e dos sentidos, são o que é significado por ‘varão que sabia da caçada’, mas os veros doutrinais são os que são significados pelo ‘varão do campo’; eles se sucedem assim no homem. É por isso que o homem não pode ser regenerado antes de estar em uma idade adulta e antes que, pelos veros dos sentidos e dos conhecimentos, esteja nos doutrinais. Com efeito, o homem não pode ser confirmado nos veros dos doutrinais senão por ideias provenientes dos conhecimentos e dos sentidos; pois nunca há coisa alguma no homem, em seu pensamento, mesmo quanto ao mais secreto arcano da fé, que não tenha consigo uma ideia natural e sensual, ainda que o homem geralmente não saiba qual é essa ideia. Contudo, na outra vida ela se lhe apresenta, se ele deseja, diante do entendimento, e até diante da visão, se deseja vivamente; pois, na outra vida, tais coisas podem apresentar-se diante da visão, o que parece incrível, mas é entretanto assim.