Texto
. ‘Porque eu [estou] cansado’; que signifique o estado do combate, é o que se vê pela significação de ‘cansado’ ou do ‘cansaço’, que é o estado do combate, de que se tratou acima (n. 3318). Que aqui se diz pela segunda vez que ele está cansado, é por causa da confirmação que a conjunção do bem com o vero no natural acontece por meio de combates espirituais, isto é, por meio das tentações. Assim acontece em geral com a conjunção do bem com o vero no natural: é que o racional do homem recebe os veros antes de seu natural os receber; e isso por esse motivo: para que a vida do Senhor, que é, como foi dito, a vida do amor, possa influir pelo racional no natural, e o dispor e reduzi-lo à obediência; com efeito, o racional é o mais puro e o natural o mais grosseiro, ou, o que é o mesmo, o racional é interior e o natural é exterior. É conforme à ordem, do que pode ser conhecido, que o racional possa influir no natural, mas não vice-versa.
[2] Daí vem que o racional do homem pode se acomodar aos veros e recebê-los antes que o natural o possa, pode-se ver isso de modo manifesto a partir disto, que o homem racional, naquele que deve ser regenerado, combate muito contra o natural, ou, o que é o mesmo, o interno combate muito contra o externo. Com efeito, o homem interno, como também se sabe, pode ver os veros e pode também os querer, mas o homem externo os recusa e lhes resiste, porquanto no homem natural há os conhecimentos, que na sua grande maioria são tirados das falácias dos sentidos, que embora sejam falsos, ainda assim ele crê serem veros. Há também inumeráveis coisas que o homem natural não compreende, pois está relativamente na sombra e na escuridão, e as que ele não compreende, ele crê ou que elas não existem, ou que elas não são assim. Há cobiças que pertencem ao amor de si e do mundo, e as coisas que favorecem essas cobiças ele lhes dá o nome de veros; e quando o homem lhes concede o domínio, todas as coisas que daí provêm são contrárias aos veros espirituais. Há também raciocínios provenientes dos falsos impressos desde a infância; e, além disso, o homem compreende, por um sentido manifesto, as coisas que estão em seu homem natural, mas não do mesmo modo as que estão em seu [homem] racional, antes de ele ter rejeitado o corpo; isso também faz com que ele creia ser o corpo tudo, e o que não cai no sentido natural dificilmente crê ser alguma coisa.
[3] Tais causas e muitas outras fazem com que o homem natural receba os veros muito mais tarde e com muito mais dificuldade do que seu homem racional; daí vem o combate, que persiste por bastante tempo e não cessa antes que os veros recipientes do bem no homem natural tenham sido amolecidos por meio das tentações, como acima se demonstrou (n. 3318), pois os veros não são nada mais do que vasos recipientes do bem (n. 1496, 1832, 1900, 2063, 2261, 2269); esses vasos são tanto mais duros quanto o homem se apega mais obstinadamente a essas coisas de que se acaba de falar; e quanto mais [se apega a elas] teimosamente, tanto mais grave é o combate, se ele deve ser regenerado. Por isso ? como acontece desse modo com o homem natural, para que nele os veros sejam conjungidos ao bem, [e] isso se faz por meio dos combates das tentações ? aqui se diz pela segunda vez “eu [estou] cansado”.