ac 3387

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘Porque temeu dizer: [É] minha mulher: talvez os varões do lugar me matem por causa de Rebeca’; que signifique que não pôde abrir os Divinos Veros mesmos, assim, o Divino Bem não seria recebido, é o que se vê pela significação de ‘temer dizer’, que é não poder abrir; pela significação da ‘mulher’, aqui Rebeca, que é o Divino do Senhor quanto ao Divino Vero (n. 3012, 3013, 3077); pela significação de ‘me matar’, que é a não recepção do bem, visto que por ‘Isaque’, que é aqui ‘Me’, é representado o Divino Bem do Racional do Senhor (n. 3012, 3194, 3210). Com efeito, diz-se então do bem ‘estar morto’ ou ‘perecer’, quando ele não é recebido, pois se torna nulo no homem. E [também se vê] pela significação dos ‘varões do lugar’, que são aqueles que estão nos doutrinais da fé, do que se tratou acima (n. 3385). Agora, a partir dessas explicações, e evidente qual é o sentido interno dessas palavras, a saber, que se os Divinos Veros mesmos fossem abertos, eles não seriam recebidos por aqueles que estão nos doutrinais da fé, porque excedem toda a compreensão racional deles, portanto, excedem toda a fé deles e, consequentemente, nada do bem poderia influir do Senhor, porque o Bem que procede do Senhor, ou o Bem Divino, não pode influir senão nos veros, visto que os veros são os vasos do bem, como se demonstrou tantas vezes.
[2] Os veros ou as aparências do vero são dados ao homem para que o Divino Bem possa formar o intelectual dele, assim, formar o homem mesmo, pois é por causa desse fim, que o bem possa influir, que há veros. Com efeito, o bem sem os vasos, ou os receptáculos, não encontra lugar, porque não acha estado que lhe corresponda; é por isso que onde não há veros, ou onde os veros não foram recebidos, ali não há bem racional, ou humano, consequentemente, o homem não tem vida espiritual. Para que entretanto o homem tenha os veros e, daí, uma vida espiritual, são dadas a ele aparências do vero, e de fato a cada um segundo a sua compreensão. Essas aparências são reconhecidas como veros por serem tais que os Divinos podem estar nelas.
[3] Para que se saiba o que são as aparências, e que são as que servem como Veros Divinos para o homem, sejam os exemplos como ilustração: Se fosse dito que no céu não há ideia alguma de lugar, portanto, nenhuma ideia de distâncias, mas que no lugar dessas ideias há ideias de estado, o homem não poderia compreender isso de modo algum, porquanto acreditaria assim que nada seria distinto, mas que tudo seria confuso, a saber, todos estariam em um só ou juntamente, quando todavia ali todas as coisas são tão distintas, que jamais pode haver coisa mais distinta. Que os lugares, as distâncias e os espaços, que estão na natureza, sejam estados no céu, foi visto (n. 3356); daí é evidente que todas as coisas que, na Palavra, são ainda assim ditas a respeito dos lugares e dos espaços, tanto vindo deles como por meio deles, são aparências do vero, e a não ser que fossem ditas por meio dessas aparências, nunca seriam recebidas; por consequência, dificilmente haveria alguma recepção, pois a ideia do espaço e do tempo está em quase todas e cada uma das coisas do pensamento no homem enquanto ele está no mundo, isto é, no espaço e no tempo.
[4] Que se fale segundo as aparências do espaço na Palavra, vê-se quase em todas e cada uma das coisas ali, como em Mateus:
“Disse Jesus: Como disse Davi: [Disse] o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à Minha direita, até que ponha os teus inimigos por escabelo dos teus pés” (22:44);
onde ‘assentar-se à direita’ vem da ideia de lugar, assim, segundo a aparência, quando todavia é o estado do poder Divino do Senhor que é assim descrito. No mesmo:
“Jesus disse: De agora em diante vereis o Filho do homem assentado à direita do poder, e vindo sobre as nuvens do céu” (Mt. 26:64);
aqui semelhantemente ‘assentar-se à direita’, bem como ‘vir sobre as nuvens’, provêm da ideia de lugar para os homens, mas para os anjos vêm da ideia do poder do Senhor. Em Marcos:
“Os filhos de Zebedeu disseram a Jesus: Concede-nos que um à Tua direita, e outro à Tua esquerda nos assentemos na Tua glória. Jesus respondeu: Assentar-se à Minha direita e à Minha esquerda não Me pertence dar, mas àqueles a quem isso foi preparado” (10:37, 40);
daí é evidente que ideia os discípulos tiveram a respeito do Reino do Senhor, a saber, que fosse se assentar à direita e à esquerda; e como tal era a ideia deles, também o Senhor respondeu conforme a compreensão deles, assim, segundo o que lhes parecia.
[5] Em Davi:
“Este [é] como o noivo saindo do seu quarto nupcial, regozija-se como um herói ao correr o caminho; de um extremo dos céus [é] a saída d’Ele, e a volta d’Ele até os extremos deles” (Sl. 19:6, 7 [Em JFA, 5, 6]);
aí se trata do Senhor, cujo estado de Divino poder é descrito por meio de expressões que dizem respeito ao espaço. Em Isaías:
“Como caíste do céu, Lúcifer, filho da aurora? Disseste no teu coração: Aos céus subirei, acima das estrelas do céu elevareio meu trono, subirei acima das excelsas nuvens” (14:12, 13, 14);
‘cair do céu’, ‘subir aos céus’, ‘elevar seu trono acima das estrelas do céu’, ‘subir acima das excelsas nuvens’, são todas expressões oriundas da ideia e da aparência do espaço ou do lugar, pelas quais se descreve o amor de si profanando as coisas santas. Como as coisas celestes e as espirituais se apresentam diante do homem por semelhantes coisas, por isso o céu é também descrito como se estivesse no alto, quando, todavia, ele não está no alto, mas no interno (n. 450, 1380, 2148).

Versão impressa (opcional)

Para estudo mais confortável, você pode adquirir esta obra em formato impresso: ver orientações.