Texto
. ‘E toma para mim de lá dois bons cabritos das cabras’; que signifique os veros desse bem, é o que se vê pela significação dos ‘cabritos das cabras’, que são os veros do bem, de que se tratará no segue. Que tenham sido dois, é porque, assim como no Racional, há no Natural as coisas que pertencem à vontade e as que pertencem ao entendimento. As que no natural se referem à vontade são os prazeres; as que se referem ao entendimento são os conhecimentos; esses dois devem estar conjuntos para que sejam alguma coisa.
[2] Que os ‘cabritos das cabras’ sejam os veros do bem, pode-se ver pelas passagens na Palavra em que os ‘cabritos’ e as ‘cabras’ são mencionados. Cumpre saber que todas as bestas mansas e úteis que são mencionadas na Palavra significam, no sentido genuíno, coisas celestes que pertencem ao bem e coisas espirituais que pertencem ao vero (ver n. 45, 46, 142, 143, 246, 714, 715, 2180, 2781, 3218); e como há vários gêneros de coisas celestes ou de bens, e, consequentemente, vários gêneros de coisas espirituais ou de veros, por uma besta é significada coisa diferente do que por outra, a saber, uma coisa por um cordeiro, outra coisa por um cabrito, outra coisa por uma ovelha, por uma cabra, por um carneiro, por um bode, por um bezerro, por um boi; depois, também outra coisa por um cavalo e por um camelo; do mesmo modo, outra coisa pelas aves, e outra coisa também pelas bestas do mar, como pelas baleias e pelos peixes. Os gêneros das coisas celestes e das coisas espirituais são demasiado numerosos para que possam ser enumerados; consequentemente, para que possam ser enumerados os gêneros dos bens e dos veros, embora, quando o celeste ou o bem é nomeado, depois, quando o espiritual ou o vero, pareça como se não fosse múltiplo, mas somente um; mas quão múltiplo é um e ou outro, ou quão inumeráveis são os gêneros deles, é o que se pode ver pelas coisas que foram ditas (n. 3241) a respeito do céu, a saber, que ele foi discriminado em inumeráveis sociedades, e isso segundo os gêneros dos celestes e dos espirituais, ou dos bens do amor e dos veros da fé. E, além disso, cada gênero de bem e cada gênero de vero tem inumeráveis espécies, nas quais foram distinguidas as sociedades de cada gênero e cada espécie semelhantemente.
[3] Os gêneros mais universais do bem e do vero são os que foram representados pelos animais que eram oferecidos nos holocaustos e nos sacrifícios; e como os gêneros são em si mesmos distintíssimos, foi expressamente ordenado que esses animais, e não outros, fossem empregados, a saber: em certos sacrifícios, cordeiros e cordeiras, depois, cabritos e cabritos de cabras; e em certos outros, carneiros e ovelhas, depois bodes; em outros, ao contrário, bezerros, touros e bois; depois também pombas e rolas (ver n. 922, 1823, 2180, 2805, 2807, 2830, 3218). Ora, pode-se ver o que significaram os ‘cabritos’ e as ‘cabras’, tanto pelos sacrifícios em que eles eram oferecidos, quanto por outras passagens na Palavra. A partir daí, é evidente que os cordeiros e cordeiras tenham significado a inocência do homem interno ou racional, e que os cabritos e as cabras tenham significado a inocência do homem externo ou natural, assim, o vero e o bem dessa inocência.
[4] Que o vero e o bem da inocência do homem externo (ou natural) sejam significados pelos ‘cabritos’ e a ‘cabra’, pode-se ver por estas passagens na Palavra: em Isaías:
“Morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, também o bezerro e o leãozinho, e a ovelha232 juntamente; e um menino pequeno os conduzirá” (11:6);
aí se trata do Reino do Senhor, e ali do estado em que não há nenhum temor do mal, ou nenhum medo por causa do inferno, porque se está no Senhor; o ‘cordeiro’ e o ‘cabrito’ estão no lugar dos que estão na inocência, que porque estão mais do que todos os outros na defesa [ou segurança], o ‘cordeiro’ e o ‘cabrito’ são nomeados em primeiro lugar.
[5] Quando todo primogênito do Egito foi ferido, ordenou-se que imolassem [uma peça] do gado miúdo íntegra e um macho dentre os ‘cordeiros’ ou ‘cabritos’, e que pusessem o seu sangue nas ombreiras e sobre as vergas das casas, e assim não haveria neles a praga pelo destruidor (Êx. 12:5, 7, 13). O ‘primogênito do Egito’ é o bem do amor e da caridade extinto (n. 3325). Os ‘cordeiros’ e os ‘cabritos’ são os estados da inocência, nos quais aqueles que estão, estão na defesa contra o mal; porquanto todos no céu são defendidos pelo Senhor por meio dos estados da inocência. Essa defesa [ou proteção] foi representada pela imolação do cordeiro ou do cabrito, e pelo sangue sobre as ombreiras e na verga das casas.
[6] Quando JEHOVAH era visto por alguém por meio do Anjo, para que essa pessoa não morresse, era sacrificado um ‘cabrito das cabras’; por exemplo, quando Ele foi visto por Gideão (Jz. 6:19), e por Manoá (Jz. 13:15, 16, 19); a causa era que JEHOVAH, ou o Senhor, não pode aparecer a ninguém, nem mesmo a um anjo, exceto se aquele a quem Ele aparece esteja no estado da inocência; é por isso que, desde que o Senhor está presente, se é levado a um estado de inocência, pois o Senhor entra pela inocência, até nos anjos no céu; por causa disso ninguém pode vir ao céu a não ser que tenha alguma coisa da inocência, segundo as palavras do Senhor em Mateus, cap. 18:3; Mc. 10:15; Lc. 18:17. Que cressem que deviam morrer quando JEHOVAH aparecesse, caso não oferecessem tal holocausto, vê-se em Juízes, 13:22, 23.
[7] Como o amor conjugal genuíno é a inocência (n. 2736), foi um costume na Igreja Representativa introduzir-se para a esposa233 pelo presente de um ‘cabrito das cabras’, como se lê a respeito de Sansão (Jz. 15:1); e também de Judá, quando veio a Thamar (Gn. 38:17, 20, 23). Que o ‘cabrito’ e a ‘cabra’ tenham significado a inocência, é ainda evidente pelo sacrifício do delito, quando alguém tinha pecado por erro, que se ofereciam esses animais (Lv. 1:10; 4:28; 5:6); e o pecado por erro é o pecado que pertence à ignorância, na qual está a inocência. A mesma coisa é evidente por este Mandamento Divino em Moisés:
“As primícias das primícias da tua terra trarás para a casa de JEHOVAH, teu Deus. Não cozerás o cabrito no leite da sua mãe” (Êx. 23:19; 34:26);
onde pelas ‘primícias da terra, que deviam ser levadas à casa de JEHOVAH’ é significado o estado da inocência que existe na infância; e por ‘não cozer o cabrito no leite de sua mãe’, que não deviam destruir a inocência da infância. Como são essas as coisas que são significadas, um dos mandamentos segue imediatamente o outro em uma e outra passagem citada; no sentido literal eles mostram-se completamente diferentes um do outro, mas no sentido interno são coerentes.
[8] Como os ‘cabritos’ e as ‘cabras’ significaram, como foi dito, a inocência, também foi ordenado que as cortinas postas sobre o habitáculo das tendas seriam tecidas de lã de cabras (Êx. 25:4; 26:7; 35:5, 6, 23, 26; 36:14), como sinal de que todas as coisas santas que ali eram representadas tiravam a sua essência da inocência. Pela ‘lã das cabras’ era significado o último ou o mais externo da inocência, o qual está na ignorância tal qual está com as nações, que, no sentido interno, são as cortinas do Tabernáculo. A partir disso agora, é evidente que e quais veros do bem são significados pelos ‘dois cabritos das cabras bons’ que Rebeca, a mãe, disse a Jacó, o filho, para tomar, a saber, que eram os da inocência ou da infância, a saber, aqueles que Esaú devia levar ao seu pai Isaque, dos quais acima se tratou (n. 3501, 3508). Estes, na realidade, não eram eles, mas no começo apareciam como eles; daí vem que por meio deles Jacó simulava ser Esaú.