Texto
. ‘E eu varão liso’; que signifique a qualidade do vero do Natural relativamente, vê-se pela representação de ‘Jacó’, que é aqui ‘eu’, que é o natural quanto ao vero (n. 3505); e pela significação de ‘varão liso’, que é a qualidade dele, de que se tratará no que segue. Antes de se poder saber o que significam essas coisas, deve-se saber o que é ‘cabeludo’ [ou ‘peludo’] e o que é ‘liso’. No homem os seus interiores se apresentam em uma sorte de imagem nos seus exteriores, principalmente na face e no rosto dele; os íntimos não aparecem ali hoje, mas os interiores de certo modo se mostram, a não ser que o homem, desde a infância, tenha aprendido a dissimular, pois então ele assume, por assim dizer, uma outra disposição e, consequentemente, reveste uma outro semblante, pois é a disposição de espírito que se mostra pela face. É isso que, mais do que os outros, os hipócritas imbuíram da vida ativa, portanto, do hábito, e isso mais quanto mais eles são dolosos [ou velhacos]. Nos que não são tais, o bem racional se mostra na face a partir de um certo fogo da vida, e o vero racional a partir da luz desse fogo. O homem conhece isso por uma sorte de ciência inata, sem estudo, pois é o espírito do homem que se manifesta assim pela vida quanto ao bem e quanto ao vero; e porque o homem é um espírito envolto em um corpo, ele conhece isso pela percepção de seu espírito, assim, por si. Daí vem que o homem, às vezes, é afetado pelo semblante de um outro homem, embora seja não por causa do semblante, mas sim por causa da mente que brilha assim. Ora, o natural se mostra pela face em um fogo mais obscuro da vida e em uma luz mais obscura da vida; mas o corporal dificilmente se mostra, a não ser senão em um calor em uma brancura e na mudança de estado deles segundo as afeições.
[2] Como os interiores se manifestam dessa forma, principalmente na face, do mesmo modo que em uma imagem, os antiquíssimos, que foram homens celestes e que desconheciam completamente o que era a dissimulação, e ainda menos o que era a hipocrisia e o dolo [ou embuste], podiam ver claramente as mentes de um outro na face desse como na forma; é também por isso que pela face eram significadas as coisas voluntárias e as intelectuais, ou as interiores racionais quanto ao bem e ao vero (n. 358, 1999, 2434), e de fato esses interiores quanto ao bem pelo sangue e por sua cor vermelha, e os interiores quanto aos veros pela forma que dali resultava e por sua brancura; porém, os interiores naturais eram significados pelas coisas que daí formam uma excrescência234, tais como são os pelos e as escamas da pele, a saber: as coisas interiores que provêm do natural quanto ao bem, os ‘pelos’, e as que provêm do natural quanto ao vero, as ‘escamas’. Consequentemente, os que tinham estado no bem natural eram chamados ‘varões peludos’, mas os que tinham estado no vero natural, ‘varões lisos’. A partir disso, pode-se ver o que é significado, no sentido interno, por estas palavras: “Esaú, meu irmão, é varão peludo, e eu varão liso”; a saber, que é a qualidade do bem natural relativamente, e a qualidade do vero natural relativamente. Daí também fica evidente o que ‘Esaú’ representa, a saber, que o bem do natural, pois é chamado Esaú por ser peludo (Gn. 25:25), e Edom por causa da cor vermelha (Gn. 25:30). A ‘montanha de Seir’, onde ele habita, significa também uma semelhante coisa, a saber, o cabeludo; e porque significa isto, essa montanha era a por meio da qual se havia de subir a Seir, a qual pode ser chamada a montanha glabra235 ou lisa (a respeito da qual fala Js. 11:17; 12:7), que também era representativa do vero que sobe para o bem.
[3] Que ‘peludo’ seja predicado do bem e do vero proveniente do bem, e também, no sentido oposto, do mal e do falso proveniente do mal, foi demonstrado (n. 3301); mas que o ‘liso’ seja predicado do vero e, no sentido oposto, do falso, é também evidente por estas passagens na Palavra: em Isaías:
“[Vós] que [vos] esquentais aos deuses debaixo de toda árvore verde;... nos [lugares] lisos do vale [está] a tua porção” (57:5, 6);
onde ‘esquentar’ é predicado do mal, e os ‘lisos do vale’ o é do falso. No mesmo:
“O artífice fortalece o ourives, o que alisa o martelo com a batida na bigorna, dizendo à juntura: Isto [é] bom” (Is. 41:7);
onde ‘o artífice fortalece o ourives’ é predicado do mal; ‘o que alisa o martelo’, a respeito do falso. Em Davi:
“Torna lisa a tua boca [como] a manteiga, quando se aproxima o seu coração, são macias as palavras mais do que o azeite” (Sl. 55:22 [Em JFA, 55:21]);
onde a ‘boca lisa’ ou lisonjeadora é predicada do falso, o ‘coração’ e, portanto, as ‘palavras macias’ são predicados do mal. No mesmo:
“[...] um sepulcro aberto [é] a garganta deles, pela sua língua falam coisas leves” (Sl. 5:10 [Em JFA, 5:9]);
a ‘garganta como um sepulcro aberto’ se diz do mal; a ‘língua falando coisas leves’ [ou coisas lisonjeiras] se diz dos falsos. Em Lucas:
“Todo vale se encherá, e todo monte e colina será humilhado; e os [caminhos] tortuosos se tornarão em direito, e os ásperos [se tornarão] em caminhos planos” (3:5);
o ‘vale’ está pelo humilde (n. 1723, 3417); o ‘monte e a colina’ estão em lugar dos orgulhosos (n. 1691); o ‘tortuoso que se tornou em direito’ está pelo mal da ignorância mudado em bem, porquanto o comprimento e as coisas que dizem respeito ao comprimento são predicados do bem (n. 1513); os ‘caminhos ásperos [ou pedregosos] que se tornaram planos’ são os falsos da ignorância mudados em veros. (Que os ‘caminhos’ se dizem do vero, n. 627, 2333.)