Texto
. ‘E eis, anjos de Deus subindo e descendo nela’; que signifique a comunicação infinita e eterna e, portanto, a conjunção; e que do ínfimo há por assim dizer uma ascensão, e que, depois, quando a ordem é invertida, há como uma descida, é o que se vê pela significação dos ‘anjos’, que é algum Divino do Senhor que se entende por eles na Palavra quando são nela mencionados (n. 1925, 2319, 2821, 3039). Que seja aqui o Divino Vero, é isso evidente nisso, que eles são ditos ‘anjos de Deus’, pois se diz Deus quando, no sentido interno, se trata do vero, e JEHOVAH quando se trata do bem (n. 2586, 2707, 2822). Daí vem que, embora JEHOVAH seja nomeado logo depois, e que se diga “JEHOVAH estando sobre ela”, contudo eles são aqui denominados anjos de Deus, pois se trata do vero do qual provém o bem, que aqui é Jacó, como acima foi dito muitas vezes. Que por ‘subindo e descendo a escada’ seja significada, no sentido supremo, a comunicação infinita e eterna e, portanto, a conjunção, é o que se pode ver explicação ulterior. Quando se trata do Divino mesmo do Senhor e de seu Divino Humano, não se pode predicar a comunicação e, daí, a conjunção, a não ser que se diga, ao mesmo tempo, que elas são infinitas e eternas, pois no Senhor tudo é infinito e eterno, infinito em relação ao Ser, e eterno em relação ao Existir. Pelo que foi dito até agora, é evidente que pela ‘escada posta na terra, e cuja cabeça atingia o céu’ e ‘pelos anjos de Deus subindo e descendo por ela’ é significado, em suma, que do ínfimo há como uma ascensão [ou subida], e que depois, quando a ordem é invertida, há como uma descensão [ou descida].
[2] O modo como acontece com essa subida e com essa descida, pode-se ver pelas coisas que acima foram ditas e demonstradas (n. 3539, 3548, 3556, 3563, 3570, 3576, 360, 3607, 3610, 3665, 3690). Como, porém, essa ordem, que diz respeito à regeneração do homem e é descrita no sentido interno aqui e no que segue, é inteiramente desconhecida na igreja, é por isso que se permite ilustrá-la ainda quanto à sua qualidade. Sabe-se que o homem nasce na natureza dos seus pais, de seus avós, bem como de seus antepassados remontando aos séculos, assim, no mal hereditário de todos estes sucessivamente acumulado, de tal modo que ele é única e simplesmente o mal, até onde ele foi considerado por ele próprio. Daí se tira que ele ficou inteiramente perdido não só quanto ao entendimento como também quanto à vontade; que por si mesmo ele nada quer do bem e, por conseguinte, nada compreende do vero; consequentemente, que é o mal que ele chama bem, que ele crê mesmo ser o bem, e é o falso que ele chama vero, e que ele crê mesmo ser o vero; assim, por exemplo, amar-se de preferência dos outros, querer para si melhor do que para os outros, desejar o que pertence a outrem, ter somente em vista os seus próprios interesses e não tomar interesse nos dos outros senão por causa de si próprio. Como o homem tem em si próprio tais desejos, ele até os chama bens e também os chama vero; e ainda mais, se alguém o ofende ou tenta ofendê-lo quanto a esses bens e a esses veros, como ele os chama, ele o odeia, medita projetos de vingança e deseja a sua perda, ele até mesmo busca e percebe prazer nisso, e isso, tanto mais quanto mais nisso se confirma em atos, isto é, quanto mais se entrega ativamente a isso com mais frequência.
[3] Quando um tal homem entra na outra vida, ele tem semelhantes desejos; a própria natureza que ele contraiu pela vida ativa no mundo lhe fica, e esse prazer é mesmo manifestamente percebido, por isso ele não pode estar em sociedade alguma celeste, onde cada um quer para os outros melhor do que para si, mas se acha em uma sociedade infernal, onde se depara com um semelhante prazer. É essa natureza que o homem deve extirpar quando ele vive no mundo, o que nunca pode ser feito senão pela regeneração vinda do Senhor, isto é, pelo fato de receber ele uma vontade absolutamente diferente, e, por conseguinte, um entendimento absolutamente diferente, isto é, que ele se torne um homem novo quanto a uma e outra dessas faculdades. Mas, para que isso aconteça, ele deve antes de tudo renascer como uma criança, aprender o que é o mal e o falso, e aprender o que é o bem e o vero, pois sem o conhecimento, ou a cognição, ele não pode ser imbuído de nenhum bem, porquanto por si mesmo ele não reconhece como bem outra coisa que não seja o mal, e como verdadeiro senão o que é o falso.
[4] Para que ele adquira essa instrução, são-lhe insinuadas cognições que, em absoluto, não são contrárias às que ele tivera precedentemente, por exemplo, que todo amor começa por si; que deve primeiro ocupar-se de si e depois dos outros; que se deve fazer bem aos que, pela forma externa, parecem pobres e infelizes, sejam eles quais forem interiormente; que se deve socorrer desse modo as viúvas e os órfãos, porque assim são chamados; e que, finalmente, se devem socorrer seus inimigos em geral, sejam eles quais forem, que é até assim que se pode merecer o céu. Essas cognições e outras semelhantes pertencem à infância de sua nova vida e são tais que, tendo alguma coisa da vida anterior, também têm alguma coisa da nova vida em que o homem é assim introduzido; e, por conseguinte, elas são de natureza a admitirem o que convém para formar a nova vontade e o novo entendimento. São esses os bens e os veros ínfimos pelos quais começam os que estão sendo regenerados, e como esses bens e esses veros admitem em si veros interiores, ou mais perto dos Divinos, pois por eles também podem ser extirpados os falsos, que o homem tinha anteriormente crido que eram veros.
[5] Contudo, os que estão sendo regenerados não aprendem tais veros como conhecimentos nus, mas como na vida, pois eles fazem esses veros, mas se os fazem é pelo princípio da nova vontade que o Senhor insinua sem que eles absolutamente o saibam, e, quanto mais recebem dessa nova vontade, tanto mais também eles recebem dessas cognições e os praticam e creem255, mas quanto mais eles não recebem da nova vontade, tanto mais eles podem aprender tais coisas, mas não pô-las em ato, porque eles se aplicam somente ao conhecimento e não à vida.
[6] É esse o estado da infância e da meninice quanto à nova vida que ocupa o lugar da vida anterior; mas os estados da adolescência e da juventude dessa vida consistem em olhar uma pessoa, não tal qual ela se mostra na forma externa, mas tal qual ela é quanto ao bem, primeiro na vida civil, depois na vida moral e, finalmente, na vida espiritual. Então é o bem que o homem começa a ter em primeiro lugar e a amar, e, por causa do bem, a pessoa. E, finalmente, quando se é ainda mais aperfeiçoado, procura-se fazer bem aos que estão no bem, e isso segundo a qualidade do bem neles, e se sente enfim prazer fazendo-lhes bem. Como há prazer no bem, e até amenidade nas coisas que [o] confirmam, reconhece-se como veros essas coisas que confirmam, e são também os veros de seu novo entendimento, que dimanam dos bens pertencentes à sua nova vontade.
[7] No mesmo grau que se apercebe prazer nesses bens e amenidade nesses veros, no mesmo grau também se sente o desprazer nos males da vida anterior e o desagrado dos falsos dessa vida; por conseguinte, as coisas da vontade anterior e as do entendimento anterior são separadas das do novo entendimento, e isso não segundo a afeição de sabê-las, mas segundo a afeição de fazê-las. Consequentemente, vê-se então que os veros de sua infância foram relativamente invertidos, e que esses veros foram pouco a pouco repostos em uma outra ordem, isto é, que eles foram mutuamente subordinados a si próprios, de modo que os que estavam a princípio no primeiro lugar estão agora no último; que, por conseguinte, por esses veros que pertenciam à sua infância e meninice, os anjos de Deus subiram como por uma escada da terra ao céu, mas que depois pelos veros que pertencem à sua idade adulta, os anjos de Deus desceram como por uma escada do céu para a terra.