Texto
. Havia um certo espírito que, quando vivia no mundo, tinha sido famoso entre o público erudito. Ele era de um gênio sutil para confirmar os falsos, e em extremo grosseiro quanto ao que diz respeito aos bens e aos veros. Ele imaginava, como precedentemente no mundo, que sabia todas as coisas, pois tais espíritos se creem sapientíssimos e que nada lhes é oculto; quais eles foram na vida do corpo, tais eles são na outra vida. Com efeito, todas as coisas que pertencem à vida de alguém, isto é, que pertencem ao seu amor e à sua afeição, o seguem e estão nele como uma alma está em seu corpo, porque é a partir dessas coisas que ele formou a sua alma quanto a qualidade. Esse, que era então um espírito, veio a mim e falou comigo, e como fosse tal, eu lhe perguntei quem seria o mais inteligente, aquele que conhece muitos falsos, ou o que conhece pouco do vero? Ele respondeu que aquele que conhece pouco do vero, porque ele imaginava que os falsos que ele conhecia fossem veros, e que, assim, ele era sábio.
[2] Ele quis, depois, raciocinar a respeito do Máximo Homem e do influxo dele em cada uma das coisas do homem; mas como nada entendia a respeito disso, perguntei-lhe como ele entendia que o pensamento, que é espiritual, move toda a face e apresenta a sua fisionomia, e move também todos os órgãos da linguagem, e isso distintamente conforme a percepção espiritual desse pensamento, e que a vontade move os músculos de todo o corpo e as milhares de fibras que estão espalhadas nele, para uma só ação, quando o que move é o espiritual, e o que é movido é o corporal. Mas ele não sabia o que responder. Finalmente eu lhe falei do empenho, e lhe perguntei se ele sabia que o empenho produz os atos e os movimentos, e que no ato e movimento há o empenho para que ele exista e subsista. Ele disse que desconhecia isto, razão por que lhe foi dito: De que modo então queres raciocinar quando nem sequer conheces os princípios? E se lhe disse que então o raciocínio fica como um pó esparso sem nenhuma coerência, cujos falsos se dissipam de tal modo que, por fim, nada se sabe, assim, nada se crê.