Texto
. ‘E disse-lhe Labão: Certamente, meu osso e minha carne [és] tu’; que signifique as coisas conjuntas quanto aos veros e quanto aos bens, é o que se vê pela significação de ‘meu osso e minha carne [és] tu’, que é a conjunção. Era uma fórmula entre os antigos dizer daqueles que provinham de uma mesma casa, ou de uma mesma família, ou em algum grau de parentesco, ‘meu osso e minha carne’ (ver n. 157). Daí vem que essas palavras significam a conjunção. Que seja a conjunção quanto aos veros e quanto aos bens, é porque toda conjunção espiritual se faz por meio deles, e toda conjunção natural se refere a eles. E, além disso, pelo ‘osso’ e pela ‘carne’ é significado o proprium do homem: pelo ‘osso’, o proprium intelectual dele, e pela ‘carne’ o proprium do voluntário dele, assim, pelo ‘osso’ o proprium quanto ao vero, pois este pertence ao intelectual; e pela ‘carne’, o proprium quanto ao bem, pois este pertence à vontade (ver os n. 148, 149).
[2] Quanto ao que se diz respeito ao proprium em geral, há dois, um infernal e outro celeste. O homem recebe do inferno o infernal e recebe do céu, isto é, do Senhor pelo céu, o celeste. Com efeito, todo mal e, daí, todo falso influi do inferno, e todo bem e, portanto, todo vero influem do Senhor; o homem sabe isso pela doutrina da fé, mas dificilmente um entre dez mil crê. Daí vem que o homem se apropria, ou faz seu, o mal que influi do inferno, e que, o bem que influi do Senhor não o afeta, por conseguinte, não lhe é imputado. Que o homem não creia que o mal influa do inferno, nem que o bem influa do Senhor, é porque ele está no amor de si, amor que tem isso consigo de tal modo, que o indivíduo fica muito indignado quando se diz que tudo influi. Daí vem, pois, que todo proprium do homem é absolutamente o mero mal (n. 210, 215, 694, 731, 874, 875, 876, 987, 1023, 1044, 1047). Mas que o homem creia que o mal procede do inferno e que o bem procede do Senhor, vem isso de que esse homem não está no amor de si, mas no amor em relação ao próximo e no amor ao Senhor, e este amor tem isso consigo; é daí que o homem recebe do Senhor o proprium celeste de que se falou (n. 155, 164, 731, 1023, 1044, 1937, 1947, 2882, 2883, 2891).
[3] Esse proprium, em um e outro sentido, é significado pelo ‘osso’ e pela ‘carne’. Daí vem que, na Palavra, os ‘ossos’ significam o vero e, no sentido oposto, o falso; e que a ‘carne’ significa o bem e, no sentido oposto, o mal. Que os ‘ossos’ tenham essa significação é o que se pode ver pelas passagens seguintes: em Isaías:
“JEHOVAH conduzir-te-á continuamente, e fartará na aridez a tua alma, e tornará dispostos os teus ossos, para que sejas como um jardim irrigado” (58:11);
‘tornar dispostos os ossos’ é vivificar o proprium intelectual, isto é, iluminar pela inteligência; daí se dizer, ‘para que sejas como um jardim irrigado’; que o ‘jardim’ seja a inteligência, foi visto (n. 100, 108, 1588). No mesmo:
“Então vereis, e regozijar-se-á o vosso coração, e os vossos ossos como a erva germinarão” (66:14);
os ‘ossos que germinarão como a erva’ têm semelhante significação.
[4] Em Jeremias:
“Alvos eram os nazireus mais do que a neve branca, eram mais brancos do que o leite, [eram] rubros os ossos mais do que as pedras preciosas, da safira polida deles; escurecem-se mais do que o negrume a forma deles, não se conhecem nas praças, a pele deles se apegou aos ossos deles, secou-se, tornou-se como madeira” (Lamentações 4:7, 8);
o ‘nazireu’ é o homem celeste (n. 3301), ‘mais alvos do que a neve’ e ‘mais brancos do que o leite’ é porque eles estão no vero celeste, vero que, porque procede do amor do bem, se diz que ‘os ossos eram mais rubros do que as pedras preciosas’; a alvura e a brancura se predicam do vero (n. 3301); o ‘rubro’ [ou vermelho] se predica do bem (n. 3300); as ‘pedras preciosas’ se dizem a respeito do vero que provém do bem (n. 114); pela ‘pele que se pegou aos ossos’ se descreve o estado mudado quanto às coisas celestes que pertencem ao amor, a saber, que não há mais carne no osso, isto é, não há mais bem, porque então todo vero se torna equivalente a uma pele que se apegou aos ossos, secou-se e tornou-se como madeira.
[5] Em Ezequiel:
“Profere uma parábola contra a casa de rebelião, e diga-lhes: Assim disse o SENHOR JEHOVIH: Põe a panela, põe[-na] e também derrama nela águas, ajuntando os seus pedaços nela, todo pedaço bom, as coxas e o lombo, de uma escolha de osso enche[-a], da escolha do rebanho que toma, e também uma fogueira de ossos debaixo dela, também se cozamossos no meio dela” (24:3, 4, 5, 10);
a ‘panela’ é a violência feita ao bem e ao vero, daí ela é denominada ‘a cidade de sangue’ ali (vers. 6); os ‘pedaços’, o ‘bom pedaço’, as ‘coxas’ e o ‘lombo’ ‘reunidos na panela’, são carnes, que são os bens; a ‘escolha de ossos’, de que a panela está cheia, são os veros; a ‘fogueira de ossos’ é a afeição do vero; os ‘ossos cozidos no meio dela’ são a violência que se lhes faz. Qualquer um pode ver que esta parábola encerra arcanos que são Divinos e que não podem ser conhecidos exceto se se souber o que é significado, no sentido interno, pela panela, pelos pedaços, pelas coxas e o lombo, pela escolha de ossos, pela fogueira de ossos, por ser cozido. Em Miquéias:
“Não é de vós conhecer o juízo? [A vós] que tendes ódio ao bem e que amais o mal, que arrancais a sua pele de cima deles, e a carne deles de cima dos ossos deles, que comeram a carne do Meu povo, e a pele deles de cima deles arrancaram, e aos ossos deles quebraram, e dividiram como em uma panela, e como carne no meio de um caldeirão?” (Mq. 3:(1,) 2, 3);
[6] e igualmente em Ezequiel:
“Transportou-me no espírito de JEHOVAH, e pôs-me no meio do vale que estava cheio de ossos. ... Disse-me: Não viverão esses ossos? ... E disse: Profetiza sobre esses ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do JEHOVAH. Assim disse o SENHOR JEHOVIH a esses ossos: Eis, Eu farei vir o espírito em vós, para que vivais, porei sobre vós nervos, e farei subir sobre vós carne, e porei em vós o espírito para que vivais. ... Profetizai, e se aproximaram os ossos, o osso para o seu osso; vi e eis sobre eles nervos, e a carne subiu, e estendeu-se sobre eles uma pele por cima, e espírito não havia neles, ... e veio neles o espírito e reviveram e puseram–se sobre os seus pés” (37:1 e seguintes);
trata-se ali, no geral, da instauração da igreja entre as nações, e, no particular, da regeneração do homem; os ‘ossos secos’ estão no lugar do proprium intelectual, que é inanimado antes de receber a ‘vida do bem’ procedente do Senhor; é por ela que ele é animado ou se torna vivo; a ‘carne que o Senhor faz subir sobre os ossos’ é o proprium voluntário, que se chama proprium celeste, assim, é o bem; o ‘espírito’ é a vida do Senhor, que quando influi no bem do homem que do proprium vê a si mesmo querer e fazer, então o bem é vivificado e, pelo bem, o vero, e se faz homem desses ossos secos.
[7] Em Davi:
“Desconjuntados foram todos os Meus ossos, tornou-se o meu coração como a cera, ... posso contar todos os Meus ossos, ... dividiram a Minha veste entre si, e sobre a Minha vestimenta lançaram sorte” (Salmo 22:15, 18, 19 [Em JFA, 22:14, 17, 18]);
ali se trata das tentações do Senhor quanto aos Divinos Veros, que são os próprios do Senhor e, por isso, são chamados ‘Meus ossos’; e quanto ao Divino Bem, que é o proprium do Senhor, e por isso é chamado o ‘Meu coração’. Que o ‘coração’ seja o bem, foi visto (n. 3313, 3635); e porque os ‘ossos’ significam esses veros, ‘contá-los’ é querer dissipá-los pelos raciocínios e pelos falsos; é por isso mesmo que se diz imediatamente, que eles ‘repartiram as vestes entre si e lançaram sorte sobre a vestimenta (túnica)’, porque as ‘vestes’ são também os veros, mas os veros exteriores (n. 297, 1073, 2576); ‘reparti-las e lançar sorte sobre a túnica’, isso envolve a mesma coisa, como também em Mateus (27:3, 5). No mesmo:
“A minha alma exulta em JEHOVAH, alegra-se na Sua salvação; todos os meus ossos dizem: Quem [é] semelhante a Ti?” (Salmo 35:9, 10);
claramente que os ‘ossos’, no sentido espiritual, é o proprium intelectual. No mesmo:
“Farás ouvir o regozijo e a alegria; exultarão os ossos que me quebraste” (Salmo 51:10 [Em JFA, 51:8]);
‘exultarão os ossos que quebraste’ é o restabelecimento pelos veros depois da tentação.
[8] Como o ‘osso’ significa o proprium intelectual, ou o proprium quanto ao vero, e no sentido supremo o Divino vero, que é o proprium do Senhor, daí vem que o estatuto da Páscoa era que não se devia quebrar osso algum do cordeiro pascoal; a este respeito assim se fala em Moisés:
“Em uma casa só será comido; não levarás da carne fora da casa, e nenhum osso quebrareis nele” (Êx. 12:46),
e nesta:
“Não deixarão dele até a manhã, e osso não quebrareis dele” (Nm. 9:12);
‘não quebrar o osso’ é, no sentido supremo, não violar o Vero Divino, e, no sentido representativo, não violar o vero de nenhum bem, pois a qualidade do bem e a forma do bem provêm dos veros, e o vero é o sustentáculo do bem como os ossos são o sustento da carne.
[9] Que a Palavra, que é o vero Divino mesmo, vivifica os mortos, é o que foi representado no fato que o varão que foi lançado no sepulcro de Eliseu, recuperou a vida e se levantou sobre seus pés, quando tocou os ossos de Eliseu: (2 Reis 13:21). Que Eliseu tenha representado o Senhor quanto ao vero Divino ou a Palavra, foi visto (n. 2762). Que os ‘ossos’, no sentido oposto, signifiquem o falso que provém do proprium, é isso evidente por estas passagens: Em Jeremias:
“Nesse tempo tirarão os ossos dos reis de Judá, e os ossos dos seus príncipes, e os ossos dos sacerdotes, e os ossos dos profetas e os ossos dos habitantes de Jerusalém dos sepulcros deles, e expô-los-ão ao sol e à lua, e a todos os exércitos dos céus, que eles amaram, e aos quais eles serviram” (8:1, 2).
Em Ezequiel:
“Porei os cadáveres dos filhos de Israel diante dos ídolos deles, e dispersarei os vossos ossos ao redor dos vossos altares” (6:5).
Em Moisés:
“Deus que o tirou do Egito, e as suas forças são como de um unicórnio; devorará as nações, seus inimigos, e quebrará seus ossos, e os dardos deles romperá” (Nm. 24:8).
No Segundo Livro dosReis:
“Josias, o rei, quebrou os pilares e cortou os bosques, e encheu o lugar deles de ossos de homem; ... tomou os ossos dos sepulcros, e os queimou sobre o altar, para o tornar impuro; ... sacrificou todos os sacerdotes dos lugares altos que ali [estavam] sobre os altares, e queimou os ossos dos homens sobre eles” (23:14, 16, 20).
Em Moisés:
“A alma que tocar sobre a superfície do campo a um perfurado pela espada, ou a um morto, ou a um osso de homem, ou a um sepulcro, impuro será sete dias” (Nm. 19:16, 18).
[10] Como os ‘ossos’ significam os falsos, e os ‘sepulcros’ os males em que estão os falsos, e como a hipocrisia é o mal que se mostra por fora como bem, mas que por dentro está corrompido por falsos e por coisas profanas, é por isso que o Senhor fala assim em Mateus:
“Ai de vós escribas e fariseus, hipócritas! porque semelhantes vos fazeis aos sepulcros caiados, que por fora de fato aparecem belos, dentro, porém, estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia. Assim também vós por fora de fato apareceis aos homens, justos, dentro, porém, cheios estais de hipocrisia e de iniquidade” (23:27, 28).
Agora, a partir dessas explicações, é evidente, que os ossos significam o proprium intelectual tanto quanto ao vero e como quanto ao falso.