ac 3813

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. Quanto ao que diz respeito à carne, ela significa, no sentido supremo, o Proprium do Divino Humano do Senhor, que é o Divino Bem; no sentido relativo, [ela significa] o proprium voluntário do homem vivificado pelo proprium do Divino Humano, isto é, pelo Divino Bem do Senhor; este proprium é o que é chamado proprium celeste, que em si pertence ao Senhor só, e que é apropriado aos que estão no bem e, daí, no vero; tal proprium está nos anjos, que estão nos céus, e nos homens que, quanto aos seus interiores ou quanto ao espírito, estão no Reino do Senhor. Mas, no sentido oposto a carne significa o proprium voluntário do homem, que em si não é absolutamente nada senão o mal, e porque esse proprium não foi vivificado pelo Senhor, ele é chamado morto, e por isso esse homem se diz morto.
[2] Que a ‘carne’ seja, no sentido supremo, o proprium do Divino Humano do Senhor, assim, o Divino Bem do Senhor, vê-se pelas palavras do Senhor em João:
“Jesus disse: Eu sou o Pão vivente que desceu do céu; se alguém tiver comido deste Pão viverá eternamente. O Pão que Eu darei, é Minha carne, a qual Eu darei pela vida do mundo. Os judeus disputavam, pois, entre si, dizendo: Como pode Este dar a carne para comer? Disse-lhes, pois, Jesus: Amém, amém vos digo: Se não comerdes da carne do Filho do Homem e não beberdes do Seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come Minha carne, e bebe Meu sangue, terá a vida eterna, e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia, pois a Minha carne é verdadeiramente comida, e o Meu sangue é verdadeiramente uma bebida; quem come Minha carne, e bebe Meu sangue, em Mim permanece e Eu nele. [...] Este é o Pão que desceu do céu [...]” (6: 51 ao 58)272.
Que aqui a ‘carne’ é o Proprium do Divino Humano do Senhor, assim o Divino Bem, é isso muito evidente, e é ela que na Santa Ceia é chamada o corpo; que ali o ‘corpo’ ou a ‘carne’ seja o Divino Bem, e o Sangue o Divino Vero, foi visto (n. 1798, 2165, 2177, 3464, 3735); e porque o ‘pão’ e o ‘vinho’ significam a mesma coisa que a ‘carne’ e o ‘sangue’, a saber, o ‘pão’ o Divino Bem do Senhor, e o ‘vinho’ o Seu Divino Vero, é por isso que se ordenou que o pão e o vinho substituíssem a carne e o sangue. Daí vem que o Senhor diga:
“Eu sou o pão vivente, o pão que Eu darei é a Minha carne; quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue, em Mim permanece e Eu nele, Este é o Pão que desceu do céu”;
que ‘comer’ seja comunicar-se, conjungir-se e apropriar-se, foi visto (n. 2187, 2343, 3168, 3513, 3596).
[3] A mesma coisa era representada na Igreja Judaica, no fato que Aharão, seus filhos e os mesmos que sacrificavam, e os outros que eram puros, comiam a carne dos sacrifícios, e que isso era uma coisa santa (ver Êx. 12:7, 8, 9; 29:30–34; Lv. 7:15–21; 8:31; Dt. 12:27; 16:4); eis por que se um homem impuro comia dessa carne, ele devia ser cortado de seu povo (Lv. 7:21). Que essas coisas foram chamadas ‘pão’, vê-se no n. 2165; que essa carne foi chamada ‘carne de santidade’, em Jeremias 11:15; Ageu 2:12; e ‘carne da oferta’ que está sobre as mesas no Reino do Senhor, Ezequiel 40:43, onde se trata do Novo Templo, pelo qual é evidentemente significado o culto do Senhor em Seu Reino.
[4] Que a ‘carne’, no sentido relativo, seja, no homem, o proprium no voluntário vivificado pelo Divino Bem do Senhor, foi visto também por estas passagens: Em Ezequiel:
“Dar-lhes-ei um coração só, e darei um espírito novo no meio de vós, e removerei o coração de pedra da carne deles, e dar-lhes-ei um coração de carne” (11:19; 36:26);
o ‘coração de pedraremovido da sua carne’ é o voluntário e o proprium não vivificado; o ‘coração de carne’ é o voluntário e o proprium vivificado. Que o coração seja o representativo do bem voluntário, foi visto (n. 2930, 3313, 3635). Em Davi:
“Ó Deus! Meu Deus [és] Tu! De manhã Te busco; a minha alma tem sede de Ti; a minha carne Te deseja em uma terra seca e cansada sem águas” (Salmo 63:2 [Em JFA, 63:1]).
No mesmo:
“Desejosa a minha alma está pelos átrios [de] JEHOVAH; o meu coração e a minha carne jubilam pelo Deus vivo” (Salmo 84:3 [Em JFA, 84:2]).
[5] Em Jó:
“Conheci o meu Redentor, vive; e enfim sobre o pó [se] levantará, e depois pela minha pele serão envolvidas estas coisas, e da minha carne verei Deus, a Quem eu verei por mim, e os meus olhos verão, e não outros” (19:25, 26, 27);
‘ser envolvido pela pele’ é pelo natural, tal como o homem o tem consigo depois da morte (n. 3539); ‘ver Deus pela carne’ é pelo proprium vivificado, por isso Jó disse:
“A Quem eu verei por mim, e os meus olhos verão, e não outros”.
Como era conhecido nas igrejas que a ‘carne’ significa o proprium, e como o livro de Jó é um livro da Igreja Antiga (n. 3540 no fim), Jó falou assim dessas coisas, como de muitas outras, pelo significativo segundo o costume daquele tempo. Aqueles que deduzem, pois, daí que o cadáver mesmo será reunido dos quatro ventos e ressuscitará, não conhecem o sentido interno da Palavra; aqueles que conhecem o sentido interno sabem que, na outra vida, eles viverão em um corpo, mas em um corpo mais puro. Com efeito, há ali um corpo mais puro, pois os espíritos se veem mutuamente, eles falam entre si mutuamente, desfrutam de todos os sentidos, tais como os que estão no corpo, porém, de forma mais apurada; o corpo de que o homem é circundado na terra é para os usos na terra, por isso consiste em ossos e carne, e o corpo de que o espírito é circundado na outra vida é para os usos ali, e consiste não em ossos nem em carne, mas em coisas tais a que correspondemos ossos e a carne (ver n. 3726).
[6] Que a‘carne’, no sentido oposto, signifique o proprium voluntário do homem, que em si não é senão o mal, é o que se vê por estas passagens: Em Isaías:
“O varão, a carne do seu braço, comerão273” (Is. 9:19 [Em JFA, 9:20]).
No mesmo:
“Darei de comer aos seus opressores da carne deles, e como [com] o mosto [com] o sangue deles se embriagarão” (Is. 49:26).
Em Jeremias:
“Dar-vos-ei de comer da carne dos filhos deles, e da carne das filhas deles, e o varão comerão a carne do seu companheiro” (19:9).
Em Zacarias:
“As restantes comerão cada uma a carne da outra” (11:9).
Em Moisés:
“Castigar-vos-ei ao sétuplo por causa dos vossos pecados, e comereis a carne dos vossos filhos e comereis a carne das vossas filhas” (Levítico 26:28, 29).
Assim é descrito o proprium voluntário ou a natureza do homem; com efeito, dele não provém senão o mal e o falso, assim, o ódio contra os veros e os bens, coisas que são significadas por ‘comer a carne de seu braço’, ‘a carne dos filhos e das filhas’, ‘a carne de outro’.
[7] Em João:
“Vi um anjo que estava no sol, o qual clamou com grande voz, dizendo a todas as aves que voavam no meio do céu: Vinde e ajuntai-vos para a ceia do grande Deus, para comerdes carnes de reis e carnes de quiliarcas, e carnes de fortes, e carnes de cavalos e dos que montam sobre eles, e a carne de todos livres e escravos, e de pequenos e grandes” (Apocalipse 19:17, 18; Ezequiel 39:17, 18, 19, 20).
Qualquer um pode ver que por ‘carnes de reis’, ‘quiliarcas’, ‘fortes’, ‘dos cavalos e dos que as montam’, ‘de livres e escravos’, não são significadas tais coisas, assim, que pelas ‘carnes’ são significadas coisas diferentes que foram desconhecidas até agora; e por cada expressão desta passagem, é evidente que são os males que provêm dos falsos e os males dos quais provêm os falsos, os quais são oriundos do proprium voluntário do homem.
[8] Como o falso que resulta do proprium intelectual do homem é, no sentido interno, o ‘sangue’, e o mal que resulta do seu proprium voluntário é a ‘carne’, o Senhor assim fala do homem que deve ser regenerado:
“A todos que [O] receberam, deu-lhes poder para que fossem filhos de Deus, aos que creem no nome d’Ele, aos quais não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus nasceram” (João 1:12, 13);
daí vem que pela ‘carne’, no geral, se entende todo homem, (ver n. 574, 1050), pois, quer se diga o homem, ou o proprium do homem, é o mesmo.
[9] Que a‘Carne’, no sentido íntimo, significa o Divino Humano do Senhor, é isso evidente pela passagem acima referida, e também por esta em João:
“A Palavra se fez Carne e habitou em nós; e vimos a glória d’Ele, glória como do Unigênito do Pai” (1:14);
por essa Carne é vivificada toda carne, isto é, pelo Divino Humano do Senhor é vivificado todo homem pela apropriação do amor do Senhor, apropriação que é significada por ‘comer a Carne do Filho do Homem’ (João 6:51 ao 58); e por ‘comer o Pão na Santa Ceia’, porquanto o ‘Pão’é o corpo ou carne (Mateus 26:26, 27).

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