Texto
. ‘E disse Leah: DEUS deu a minha recompensa, porque dei minha serva ao meu varão’; que signifique, no sentido supremo, o Divino Bem do Vero e o [Divino] Vero do Bem, no sentido interno, o amor conjugal celeste, no sentido externo, o amor mútuo, é o que se pode ver pela significação da ‘recompensa’. Na Palavra, a recompensa é aqui e ali mencionada, mas há poucos que saibam o que é que a recompensa significa. Sabe-se, nas igrejas, que pelos bens que o homem faz ele nada pode merecer, pois os bens que ele faz não são dele, mas do Senhor, e que merecer (ou o mérito) tem em vista o homem, que assim ele se conjunge com o amor de si e com o pensamento da preeminência de si sobre os outros, consequentemente, com o desprezo para com os outros; é por isso que as obras que são feitas por causa da recompensa não são em si mesmas boas obras, porque elas não procedem de uma fonte genuína, a saber, da caridade para com o próximo. A caridade para com o próximo tem em si que se queira ao próximo tanto bem quanto para si, e entre os anjos, que queiram mais bem ao próximo do que a si. Tal é também a afeição da caridade, é até por isso que ela tem aversão a todo mérito, por conseguinte, a todo bem feito visando uma recompensa. A recompensa para aqueles que estão na caridade é que eles possam fazer o bem e que se lhes permita fazer o bem, e que o benefício seja aceito; é esse o prazer mesmo, ou antes, a bem-aventurança que experimentam os que estão na afeição da caridade. Daí se pode ver o que é a recompensa de que se fala na Palavra, a saber, que é o prazer é a bem-aventurança da afeição da caridade, ou, o que é o mesmo, o prazer e a bem-aventurança do amor mútuo (n. 3816), porque a afeição da caridade e o amor mútuo são uma mesma coisa (ver o que foi dito sobre esse assunto n. 1110, 1111, 1774, 1835, 1877, 2027, 2273, 2340, 2373, 2400); por essas explicações, é evidente que aqui a recompensa, no sentido externo, significa o amor mútuo.
[2] Que em um sentido ainda mais elevado, ou no sentido interno, a recompensa significa o amor conjugal celeste, pode-se ver pelas coisas que já foram ditas (n. 2618, 2739, 2741, 2803, 3024, 3132, 3952) sobre o casamento celeste, a saber, que ele é a conjunção do bem e do vero, e que o amor mútuo vem dessa conjunção, ou desse casamento (n. 2737, 2738); daí se pode ver que a recompensa, no sentido interno, é o amor conjugal celeste.
[3] Que, no sentido supremo, a recompensa seja o Divino Bem do Vero e o Divino Vero do Bem, é o que se vê por isso: que o casamento celeste procede daí, pois no Senhor está essa união, e do Senhor procede essa união que, quando influi no céu, faz o conjugal do bem e do vero e, por esse conjugal, o amor mútuo. Das coisas que foram ditas e pelas que precedem, vê-se claramente o que significam, no sentido interno, estas palavras de Leah: “DEUS deu a minha recompensa, porque dei minha serva ao meu varão”. Com efeito, pela serva foi significado o meio [ou intermediário] afirmativo servindo a conjunção do homem externo e do homem interno (n. 3913, 3917, 3931). Assim, antes que as coisas que foram significadas pelos filhos das servas tenham sido afirmadas e reconhecidas, não pode existir conjunção alguma do bem e do vero, nem, por conseguinte, amor mútuo algum, pois essas afirmações necessariamente precedem. São essas coisas que se entendem por essas palavras.