ac 3957

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘E chamou o nome dele Issascar’; que signifique a qualidade, vê-se pela significação de ‘chamar o nome’, que é a qualidade, como acima (n. 3923, 3935). Com efeito, ele foi nomeado Issascar, de recompensa301; daí, esse nome envolve o que acaba de ser dito sobre a recompensa e, ao mesmo tempo, o que é significado pelas outras palavras de Leah. Como por ‘Issascar’ é significada a recompensa, e que a recompensa, no sentido externo, é o amor mútuo, e no sentido interno, a conjunção do bem e do vero, permite-se referir que, no mundo cristão, há hoje pouquíssimos homens que saibam que a recompensa é isso que se acaba de ser dito, e isso porque não se sabe o que é o amor mútuo e, ainda menos, que o bem deve ser conjungido ao vero para que o homem possa estar no casamento celeste. Concedeu-se conversar sobre esse assunto, na outra vida, com muitos dos que foram do mundo cristão, e até com os mais instruídos; mas, coisa admirável, mal havia alguns, daqueles com que me fora concedido falar, que soubessem alguma coisa a respeito, ainda que tivessem podido saber muita coisa por si mesmos, por pouco que tivessem desejado se servir de sua razão. Como, porém, eles nunca tinham se preocupado com a vida depois da morte, mas só tinham se ocupado da vida no mundo, não tiveram cuidado de tais coisas.
[2] As coisas que eles teriam podido saber por si mesmos, por pouco (como se disse) que tivessem desejado servir-se de sua razão, são as seguintes: Primeiro: é que, quando o homem é privado de seu corpo, ele frui de um entendimento muito mais esclarecido do que quando ele vive no corpo, pela razão que, estando ele no corpo, os seus pensamentos são invadidos pelas coisas corporais e mundanas que introduzem obscuridade; mas quando se despoja do corpo, não há semelhantes interpolações, mas ele é como os que estão no pensamento interior pelo afastando de sua mente das coisas sensuais externas. Por esse modo eles teriam podido saber que o estado depois da morte é muito mais claro e mais iluminado do que o estado antes da morte, e que, quando o homem morre, ele passa relativamente da sombra para luz, porque passa das coisas que são do mundo para as que são do céu, e das coisas que são do corpo para as que são do espírito. Mas, coisa admirável, embora possam compreender isso, eles pensam, entretanto, o contrário, a saber, que o estado da vida no corpo é relativamente claro, e que o estado da vida depois da morte do corpo é obscuro.
[3] A segunda coisa que eles podem saber por pouco que façam uso de sua razão é que a vida que o homem adquiriu no mundo o segue, ou seja, que ele se acha em uma igual vida depois da morte. Com efeito, eles podem saber que ninguém pode abandonar a vida que foi adquirida desde a infância, exceto se morrer inteiramente, e que essa vida não pode em um momento ser mudada em uma outra e, menos ainda, em uma vida oposta. Por exemplo, aquele que adquiriu a vida de dolo e nela teve o prazer de sua vida, não pode deixar a vida de dolo, mas se acha também nessa vida depois da morte; ou os que estão no amor de si e, por conseguinte, nos ódios e nas vinganças contra os que não os servem, ou em outras coisas semelhantes, neles ficam depois da vida do corpo, pois são essas coisas que eles amam e que constituem o prazer de sua vida, por conseguinte, a sua mesmíssima vida; e que assim esses vícios não podem ser-lhes arrebatados, exceto se, ao mesmo tempo, tudo que constitui a sua vida for extinto; semelhantemente para todos os outros casos.
[4] Terceiro: que o homem pode por si mesmo saber, e que, ao passar para a outra vida, ele deixa muitas coisas, como os cuidados pela alimentação, os cuidados pela roupa, pela habitação e também os cuidados para angariar dinheiro e riquezas, pois lá não há tais preocupações, e ainda os cuidados para se elevar em dignidades, a respeito das quais o homem tanto pensa na vida do corpo, e que em vez de tais cuidados existem outros que não são do reino terrestre.
[5] Daí, o Quarto: que se pode saber, é que aquele que no mundo não pensou em outras coisas senão tais, a tal ponto que elas o ocuparam totalmente, e que adquiriu nelas sós o prazer da vida, não está em condições de estar entre aqueles cujo prazer é pensar nas coisas celestes, ou nas coisas que são do céu.
[6] Daí também o Quinto: que se os externos pertencentes ao corpo e ao mundo lhes são tirados, o homem é tal qual ele foi por dentro, isto é, que ele pensa e quer como ele pensava e queria interiormente; se os seus pensamentos por dentro tivessem sido então dolos, maquinações, uma aspiração às dignidades, aos ganhos, à reputação, visando as dignidades e o ganho, se tivessem sido ódios e vinganças, e coisas semelhantes, então ele pensa tais coisas, assim, coisas pertencentes ao inferno, embora para esses fins ele tenha silenciado os seus pensamentos perante os homens, e que na forma externa tenha parecido honrado, e haja dado a crer aos outros que ele não revolvia tais coisas. Que esses externos ou esses fingimentos de honestidade são também retirados na outra vida, é também o que se pode saber, porque os externos são rejeitados com o corpo e os externos não são mais de uso algum. Daí cada um pode por si mesmo concluir qual o homem deve então aparecer aos anjos.
[7] Sexto: que eles também podem saber, é que o céu, ou o Senhor pelo céu, opera continuamente e influi com o bem e o vero; que então se neles, no homem interior deles, que vive depois da morte do corpo, não há algum recipiente do bem e vero como húmus ou plano, o bem e vero que influi não pode ser recebido, e que é por isso que o homem, quando vive no mundo, deve pôr todos os seus cuidados em adquirir para si tal plano interior; esse plano não pode ser adquirido senão tanto quanto o homem pensar o bem para com o próximo, e que lhe queira bem e, por conseguinte, lhe faça bem, e adquira assim o prazer da vida que ele põe nisso. Esse plano é adquirido pela caridade para com o próximo, isto é, pelo amor mútuo; é esse plano que tem por nome ‘consciência’. O bem e vero que procede do Senhor pode influir nesse plano, e ser nele recebido, mas não onde não houver caridade, por conseguinte, onde não há nenhuma consciência; ali, o bem e vero que influi passa através, e se muda em mal e em falso.
[8] Sétimo: que o homem pode saber por si mesmo, e que o amor a Deus e o amor para com o próximo são o que faz com que o homem seja homem, distinto dos animais, e que esses [amores] constituem a vida celeste, ou o céu, e que os [amores] opostos constituem a vida infernal, ou o inferno. Contudo, se o homem não sabe essas coisas, é porque não quer sabê-las, pois vive uma vida oposta, e porque ele não crê que haja uma vida depois da morte, e também porque ele só procurou compreender os princípios da fé e nada da caridade, e que, por conseguinte, segundo os doutrinais de muitos, ele crê que, se há uma vida depois da morte, ele pode ser salvo pela fé, seja qual for o modo que haja vivido, e isso, mesmo embora ele recebesse a fé na última hora, quando ele morre.

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