Texto
. ‘E Jacó temeu muito, e teve angústia’; que signifique o estado quando ele é mudado, é o que se vê a partir disso, que o temor e a angústia são o primeiro das tentações; e que precedem quando o estado é invertido ou mudado. Os arcanos que com maior amplidão estão ocultos aqui, a saber, que Esaú veio ao encontro de Jacó com quatrocentos homens, e que por isso Jacó teve temor e angústia, não podem ser facilmente expostos de modo a serem compreendidos, porque são mais interiores. Eis o que se permite relatar: Quando o bem toma o primeiro lugar e subordina a si os veros, o que acontece quando o homem sofre as tentações espirituais, então o bem que influi do interior tem consigo um grande número de veros que tinham estado ocultos no homem em seu homem interior. Esses veros não podem vir a sua intuição e a sua compreensão antes que o bem faça o primeiro lugar, porque então o natural começa a ser iluminado pelo bem; daí se manifesta quais são as coisas que nele são concordantes e quais são as discordantes, de onde resultam o temor e a angústia que precedem a tentação espiritual. De fato, a tentação espiritual atua na consciência, que pertence ao homem interior; é também por isso que o homem não sabe, quando ele entra nessa tentação, de onde lhe vêm o temor e a angústia, mas os anjos que estão com o homem o sabem muito bem, pois a tentação vem de que os anjos conservam o homem nos bens e nos veros, enquanto os maus espíritos o mantêm nos males e nos falsos.
[2] Com efeito, as coisas que existem nos espíritos e anjos que estão com o homem não são percebidas no homem senão como se elas estivessem nele; as coisas, pois, que existem interiormente, o homem, enquanto ele vive no corpo e considera que todas as coisas influem, imagina que elas não são, fora dele, coisas que produzem, mas que todas as coisas estão dentro dele e lhe são próprias, quando, todavia, semelhante coisa não acontece, porque tudo que o homem pensa e tudo que ele quer, isto é, todo seu pensamento e toda sua afeição lhe vêm ou do inferno ou do céu. Quando ele pensa e quer os males e, por conseguinte, experimenta prazer nos falsos, que ele saiba que os seus pensamentos e as suas afeições vêm do inferno, e quando ele pensa e quer os bens, e que, por conseguinte, encontra prazer nos veros, que ele saiba que eles vêm do céu, isto é, do Senhor pelo céu. Mas os pensamentos e as afeições que estão no homem se apresentam, na maioria das vezes, sob uma outra aparência; por exemplo, o combate dos maus espíritos contra os anjos a partir das coisas que estão no homem que deve ser regenerado se mostra sob a aparência do temor e da angústia, e sob a aparência da tentação.
[3] Esses [arcanos] não podem se mostrar ao homem senão como paradoxos, porque hoje quase todo homem da igreja crê que todo vero que ele pensa e todo bem que ele quer e faz vêm de si próprio, ainda que diga de outro modo quando ele fala pelo doutrinal da fé; ele é mesmo tal que se alguém lhe dissesse que são espíritos do inferno que influem em seu pensamento e em sua vontade quando ele pensa e quer os males, e que são anjos que nele influem do céu, quando ele pensa e quer os bens, ele ficaria então indeciso, muito admirado de que alguém apresentasse uma tal proposição, porquanto diria que ele sente a vida em si, e que ele pensa por si próprio e quer por si próprio; é por esse sensitivo que ele crê e não pelo doutrinal, quando de fato o doutrinal é o vero e o sensitivo é uma falácia. É por uma experiência quase contínua, desde muitos anos até agora, que me foi dado saber isso, e sabê-lo de modo que não me restasse absolutamente a menor dúvida.