Texto
. ‘E ele mancava sobre sua coxa’; que signifique que os veros ainda não tinham sido dispostos nessa ordem, para que todos, junto com o bem, entrassem no bem celeste espiritual, é o que se vê pela significação de ‘mancar’, que é estar em um bem em que não estão ainda os veros genuínos, mas em que há veros gerais nos quais os veros genuínos podem ser insinuados, e [nestes há] coisas tais que não estejam em discordância com os veros genuínos, do que se tratará na sequência. Mas, no sentido supremo, no qual se trata do Senhor, por ‘mancar sobre a coxa’ é significado que os veros ainda não tinham sido dispostos nessa ordem para que pudessem todos entrar com o bem no bem celeste espiritual. Que a ‘coxa’ seja o bem celeste espiritual, acima foi visto (n. 4277, 4278).
[2] Quanto à ordem em que devem estar os veros quando eles entram no bem, aqui no bem celeste espiritual, não é também possível expor de modo que seja compreendido, pois é necessário saber antes o que é a ordem e, depois, qual é a ordem para os veros, então o que é o bem celeste espiritual e, finalmente, de que modo os veros entram pelo bem nesse celeste espiritual. Ainda que essas coisas fossem descritas, elas não se tornariam evidentes senão para os que estão na percepção celeste, e de nenhum modo para os que estão somente na percepção natural. Com efeito, aqueles que estão na percepção celeste, esses estão na luz do céu, que procede do Senhor, luz na qual há inteligência e sabedoria; mas aqueles que estão na luz natural não se acham em nenhuma inteligência nem em nenhuma sabedoria, exceto tanto quanto a luz do céu influi nessa luz e a dispõe de modo que as coisas pertencentes ao céu se mostrem como em um espelho ou em uma sorte de imagem representativa nas coisas que pertencem à luz natural, pois a luz natural, sem o influxo da luz do céu, nada que pertença ao vero espiritual mostra para ver.
[3] É possível dizer somente isto a respeito da ordem em que devem estar os veros para que possam entrar no bem: que todos os veros, assim como todos os bens, tanto os gerais quanto os particulares, e até os mais singulares, foram dispostos no céu nesta ordem, que um se relaciona com o outro na mesma forma que os membros, os órgãos e as vísceras do corpo humano, ou os seus usos, no geral, depois no particular, e também nos mais singulares, se relacionam mutuamente e fazem com que sejam um; daí, a saber, pela ordem em que estão os veros e os bens, o céu mesmo é dito Máximo Homem; a vida mesma dele procede do Senhor, que por Si mesmo dispõe todas as coisas, em geral e em particular, em tal ordem. Por isso o céu é a semelhança e a imagem do Senhor. Quando, pois, os veros foram dispostos na ordem tal em que está o céu, então eles estão na ordem celeste e podem entrar no bem; os veros e bens, em cada anjo, estão em uma tal ordem, e também os veros e bens em cada homem que é regenerado são dispostos em uma tal ordem. Em uma palavra, a ordem do céu é a disposição dos veros pertencentes à fé nos bens que pertencem à caridade para com o próximo e a disposição deles no bem do amor ao Senhor.
[4] Que ‘mancar’ seja estar em um bem em que não estão ainda os veros genuínos, mas onde há, contudo, veros gerais em que aqueles podem ser insinuados, e coisas que não discordem dos veros genuínos, assim, que os ‘mancos’ [ou ‘coxos’] sejam os que estão no bem, mas,por ignorância do vero, não no bem genuíno, bem no qual estão os gentios que vivem em uma caridade mútua, é o que se pode ver nessas passagens da Palavra em que, em um bom sentido, são mencionados os ‘mancos’ [ou ‘coxos’] e ‘os que mancam’, como em Isaías:
“Abrir-se-ão os olhos dos cegos, e as orelhas dos surdos serão abertas, então o coxo saltará como cervo, e a língua dos mudos cantará” (35:5, 6).
Em Jeremias:
“Eis, Eu os trago da terra do norte, e os reunirei dos lados da terra, entre eles o cego e o coxo, a grávida e a parturiente juntamente” (31:8).
Em Miqueias:
“Naquele dia, dito de JEHOVAH, recolherei a que manca, e a repelida reunirei, ... e tornarei a que manca em relíquias, e a repelida em uma nação numerosa, e reinará JEHOVAH sobre eles no monte de Sião, desde agora e pela eternidade’’ (4:6, 7).
Em Sofonias:
“Nesse tempo salvarei a que manca, e a repelida reunirei, e pô-las-ei em louvor em nome” (3:19).
Que nessas passagens o ‘coxo’ e ‘a que manca’ não são o coxo nem a que maca, qualquer um pode ver, pois deles se diz que saltarão, que serão reunidos, que se tornarão relíquias, e que serão salvos, mais é evidente que por eles são significados os que estão no bem e não do mesmo modo no vero, tais como são as nações probas e também os que, dentro da igreja, se assemelham a eles.
[5] Tais homens se entendem também pelos coxos de que o Senhor fala em Lucas:
“Jesus disse: Quando fizeres um banquete, chama os pobres, e os mutilados, e os coxos, e os cegos; então bem-aventurado serás” (14:13,14);
e no mesmo:
“O pai de família disse ao seu servo: Ide depressa às praças e ruas da cidade, e os pobres, e os mutilados, e os mancos. e os cegos, introduze aqui’’ (14:21).
A Antiga Igreja distinguia em classes o próximo ou os próximos para com os quais se prestaria as obras da caridade, e a uns se dava o nome de mutilados [ou aleijados], a outros de mancos [ou coxos], a uns o nome de cego, a outros de surdo, e se entendiam os que eram tais espiritualmente. Do mesmo modo alguns eram chamados famintos, sedentos, peregrinos, nus, doentes, cativos. (Mt. 25:33, 36); e igualmente viúvas, órfãos, indigentes, pobres, míseros; por eles se entendiam somente os que eram tais quanto ao vero e bem, e que deviam ser convenientemente instruídos, conduzidos no caminho, e assim ser aconselhados quanto às suas almas. Como, porém, hoje não é a caridade, mas a fé, que faz a igreja, é por isso que se ignora absolutamente o que se entende por eles na Palavra; e, entretanto, é evidente para todos que não se entende que se deve chamar a um banquete os mutilados, os coxos e os cegos, nem que o pai de família deve mandar introduzir tais convivas, mas sim aqueles que espiritualmente são tais, então que em cada palavra que o Senhor pronunciou há o Divino, por conseguinte, um sentido celeste e espiritual.
[6] O mesmo acontece com estas palavras do Senhor em Marcos:
“Se o teu pé te escandaliza, corta-o; bom [é] a ti entrar coxo na vida do que teres dois pés para ser lançado na gehenna de fogo; no fogo inextinguível” (9:45; Mt. 18:8);
pelo ‘pé’, que se deve cortar se ele escandalizasse, entende-se o natural, que se opõe continuamente ao espiritual, que ele devia ser destruído se ele se esforçasse para infringir os veros; e que assim, por causa da discordância e da dissuasão do homem natural, é preferível estar no bem simples, embora na negação do vero; isso é significado por ‘entrar coxo na vida’. Que o pé seja o natural, foi visto (n. 2162, 3147, 3761, 3986, 4280).
[7] Na Palavra, pelos ‘coxos’ são significados também os que não estão em bem algum, nem, por conseguinte, em nenhum vero, como em Isaías:
“Então dividirão a presa que [se] multiplica, os que mancam predarão a presa” (33:23);
em Davi:
“Quando eu manco, alegram-se e reúnem-se, reúnem-se contra mim os coxos, que não conheço” (Salmo 35:15);
E porque pelo coxo [ou manco] eram significados tais [homens], fora até vetado sacrificar algum animal coxo (Dt. 15:21, 22; Ml. 1:2, 13); como também que nenhum coxo da semente de Aharão fizesse as funções do sacerdócio (Lv. 21:18). Dá-se com o coxo o que se dá com o cego, pois o cego significa, no sentido bom, os que estão na ignorância do vero, e, no sentido oposto, os que estão nos falsos (n. 2383).
[8] Na língua original, ‘coxo’ [ou ‘manco’] é expresso por um vocábulo, e ‘aquele que manca’, por um outro vocábulo.373 E pelo coxo, no sentido próprio, são significados os que estão no bem natural, no qual os veros espirituais não podem influir por causa das aparências naturais e das falácias dos sentidos; e, no sentido oposto, os que não estão no bem natural, mas no mal, que impede completamente o influxo do vero espiritual. Por ‘aquele que manca’, por sua vez, são significados, no sentido próprio, os que estão no bem natural no qual são admitidos os veros gerais, mas não os particulares nem os singulares, por causa da ignorância. No sentido oposto, porém, aqueles que estão no mal, e que, portanto, não admitem sequer os veros gerais.