Texto
. ‘Responderam os filhos de Jacó a Siquém e a Hamor, o pai dele, em fraude’; que signifique uma má opinião e intenção a respeito do vero e bem da igreja entre os antigos, é o que se vê pela representação de ‘Siquém’, que é o vero entre os antigos, ou, o que é o mesmo, o vero oriundo de uma antiga estirpe Divina (n. 4399, 4454); pela representação de ‘Hamor’, que é o bem do qual provém esse vero (n. 4399, 4431, 4447, 4454); e pela significação da ‘fraude’, que é a má opinião e intenção. Com efeito, a fraude envolve, em geral, o mal contra outrem, e contra as coisas que ele diz e as que ele faz, pois aquele que está em fraude pensa e intende o que é contrário a outrem, o que também se vê pelo efeito, a respeito do qual se trata neste capítulo. Daí se vê que por “Responderam os filhos de Jacó a Siquém e a Hamor, o pai dele, em fraude” é significada a má opinião e intenção a respeito do vero e bem da igreja entre os antigos.
[2] Os filhos de Jacó, ou os pósteros dele, não puderam ter outra opinião e intenção a respeito do vero e bem do homem interno senão a má, porque eles estavam nos externos sem os internos (n. 4281, 4293, 4307, 4429, 4433); e também porque eles não fizeram uso algum dos internos e, por isso, os desprezaram completamente. Tal é também essa nação hoje, e tais são todos que estão somente nos externos. Aqueles que estão somente nos externos nem sequer sabem o que é estar no interno, pois não sabem o que é o interno; se alguém, diante deles, nomeia o interno, ou eles afirmam que há um interno — já que a partir do doutrinal eles têm conhecimento de que ele existe —, mas então afirmam por fraude, ou negam tanto de boca como de coração. Com efeito, eles não vão além das coisas dos sentidos, que pertencem ao homem externo; vem daí que eles não creiam que haja uma vida após a morte, e que, exceto se ressuscitassem de corpo, não pode haver ressurreição; por isso é que foi permitido que eles tivessem uma tal opinião a respeito da ressurreição, de outro modo eles não teriam tido nenhuma, pois põem no corpo tudo que pertence à vida, não sabendo que a vida de seu corpo provém da vida de seu espírito, que vive depois da morte. Aqueles que estão somente nos externos jamais podem ter outra fé, pois os externos neles extinguem tudo que pertence ao pensamento, por conseguinte tudo que pertence à fé a respeito dos internos.
[3] Como tal ignorância hoje reina, cumpre dizer o que é estar nos externos sem os internos. Aqueles que estão sem a consciência, estão todos eles somente nos externo, pois o homem interno se manifesta pela consciência; e não têm consciência todos esses que pensam e fazem o vero e o bem não por causa do vero e bem, mas por causa de si próprios, por causa da sua honra e do seu ganho, e também os que agem assim somente por causa do temor da lei e da perda da vida, pois se a reputação, a honra, o proveito, a vida não corressem perigo algum, eles se precipitariam sem consciência em todas as coisas criminosas. É o que se vê claramente, na outra vida, pelos que foram tais na vida do corpo; ali, porque os interiores estão em evidência, eles estão em perpétuo esforço para destruir os outros; por isso é que eles estão no inferno, e são lá mantidos presos de um modo espiritual.
[4] Para que se saiba ainda melhor o que é estar nos externos, e o que é estar nos internos, e que aqueles que estão somente nos externos, não podem compreender o que são os internos nem, por conseguinte, ser por eles afetados, pois ninguém é afetado pelas coisas que não compreende, seja, para exemplo, que ser o menor é ser o maior no céu, e que ser humilde é ser elevado; e ser pobre e indigente é ser rico e abastado. Aqueles que estão somente nos externos, estes não podem compreender isso, pois eles pensam que o menor nunca pode ser o maior, nem o humilde ser o elevado, e o pobre, o rico, e o indigente, o abastado, quando, todavia, acontece absolutamente assim no céu; e porque não podem compreender, por isso não podem ser afetados por isso, e quando refletem sobre essas coisas a partir das coisas corporais e mundanas em que estão, eles sentem aversão por essas coisas. Que as coisas aconteçam assim no céu, é o que eles absolutamente não sabem, e enquanto estão somente nos externos, eles não querem saber, e mesmo não podem saber. No céu, com efeito, aquele que sabe, reconhece e crê de coração (isto é, por afeição) que por si mesmo ele não tem o menor poder, mas que tudo que se refere ao seu poder procede do Senhor, esse se diz o menor, e, entretanto, é o maior, porque o poder dele lhe vem do Senhor; o mesmo acontece com aquele que é humilde, que é elevado, pois quem é humilde, reconhecendo e crendo pela afeição que por si mesmo ele não tem nenhum poder, por si mesmo nenhuma inteligência nem sabedoria, por si mesmo nenhum bem e vero, este, mais do que os outros, é dotado pelo Senhor de poder, inteligência do vero e sabedoria do bem; igualmente aquele que é pobre e indigente é rico e abastado, porque chama-se pobre e indigente aquele que não crê de coração e por afeição que nada possui por si, nada conheça e saiba por si, e nada possa por si; esse, no céu, é rico e está na abundância, porquanto o Senhor lhe dá toda opulência. Com efeito, ele é mais sábio do que os outros, mais rico do que os outros, e habita nos mais magníficos palácios (n. 1116, 1626, 1627) e no meio dos tesouros de todas as riquezas do céu.
[5] Seja ainda um exemplo: Aquele que está somente nos externos, não pode de modo algum compreender que o regozijo celeste consiste em amar o próximo mais do que a si mesmo e ao Senhor acima de todas as coisas, e que segundo a quantidade e qualidade desse amor há felicidade; pois quem está somente nos externos ama a si de preferência ao próximo, e se ama os outros é porque estes lhe são favoráveis, e, assim, ele os ama por causa de si, por conseguinte, ele se ama neles e os ama em si próprio. Quem é tal não pode saber o que é amar os outros mais do que si próprio, e de fato não quer saber, nem pode saber, razão por que quando se lhe diz que o céu consiste em tal amor (n. 548), ele o tem em aversão. Daí vem que os que foram tais na vida do corpo, não podem se aproximar de sociedade celeste alguma, e quando delas se aproximam, lançam-se de cabeça para baixo no inferno por causa da aversão que experimentam.
[6] Como poucos hoje sabem o que é estar nos externos e o que é estar nos internos, e porque a maior parte crê que os que estão nos internos não podem estar nos externos, e vice-versa, permite-se, para ilustração da causa, apresentar ainda um só exemplo: Seja a nutrição do corpo e a nutrição da alma: Aquele que está meramente nos prazeres externos, este cuida de sua pele, trata bem o seu estômago, ama viver suntuosamente, e põe o supremo do prazer no que é bom para comer e agradável para beber; mas aquele que está nos internos também tem prazer em tais coisas, contudo, a afeição reinante dele é que o corpo seja nutrido de comida com prazer por causa da sua saúde, a fim de ter uma mente sã em um corpo são, assim, principalmente para a saúde da mente, para a qual a saúde do corpo serve de meio. Aquele que é o homem espiritual não repousa aí, mas visa a saúde da mente, ou da alma, como um meio para se imbuir da inteligência e da sabedoria, não em vista da reputação, das honras, do lucro, mas por causa da vida depois da morte. Aquele que é espiritual em um grau mais interior considera a inteligência e a sabedoria como um fim médio para que ele possa servir como membro útil no Reino do Senhor; e aquele que é homem celeste, para que ele sirva ao Senhor; para este a comida corporal é um meio para usufruir da comida espiritual, e a comida espiritual é um meio para usufruir da comida celeste; e porque elas devem servir desse modo, essas comidas também correspondem; daí vem mesmo que elas se chamem comidas. Pelo que acaba de ser exposto, pode-se ver o que é estar somente nos externos e o que é estar nos internos. A nação judaica e israelita, de que se trata no sentido interno histórico deste capítulo, com exceção dos que morreram crianças, é tal quanto à maioria; eles estão,com efeito, mais do que todos os outros nos externos, pois estão na avareza. Os que amam os lucros e os proveitos para nenhum outro uso que não seja pelo ouro e a prata, e que põem todo o prazer da vida em possuí-los, estão nos mais externos, ou ínfimos, porque são coisas inteiramente terrestres que eles amam. Mas os que amam o ouro e a prata por causa de algum uso, esses, segundo o uso, se elevam dos terrestres; o uso mesmo que o homem ama determina a sua vida e o distingue dos outros; o uso mau o torna infernal, o uso bom o torna celeste, não é na realidade o uso mesmo, mas é o amor do uso, porque a vida de cada um está no amor.