Texto
. ‘Então o Reino dos céus será semelhante a dez virgens’ significa o último tempo da velha igreja e o primeiro tempo da nova; a igreja é o Reino do Senhor na terra; as ‘dez virgens’ são todos que estão na igreja, a saber, tanto os que estão no bem e no vero, como os que estão no mal e no falso; ‘dez’, no sentido interno, são as relíquias, e também o pleno, assim, todos; e as ‘virgens’ são aqueles que estão na igreja; assim também em outras passagens na Palavra.
[2] ‘Que, tomando as suas lâmpadas’ significa as coisas espirituais em que há o celeste, ou os veros em que há o bem, ou, o que é o mesmo, a fé em que há a caridade para com o próximo, e a caridade em que há o amor ao Senhor, pois o ‘azeite’ é o bem do amor, de que se tratará; mas as ‘lâmpadas em que não há azeite’ são as mesmas coisas em que não há o bem.
[3] ‘Saíram ao encontro do Noivo’ significa a recepção deles. ‘Porém, cinco delas eram prudentes, mas cinco insensatas’ significa a parte deles que está nos veros nos quais há o bem, e a parte que está nos veros em que não há o bem; aqueles são as prudentes, mas estes são as insensatas; ‘cinco’, no sentido interno, são alguns, aqui, portanto, uma parte deles. ‘As que [eram] insensatas, tomando as suas lâmpadas não levaram consigo azeite’ significa que eles não tinham o bem da caridade em seus veros; o ‘azeite’, no sentido interno, é o bem da caridade e do amor. ‘Mas as prudentes levaram azeite em seus vasos com as suas lâmpadas’ significa que eles tinham o bem da caridade e do amor em seus veros; os ‘vasos’ são os doutrinais da fé.
[4] ‘Tardando o Noivo, todas tiveram vontade de dormir, e adormeceram’ significa a demora e, daí, a dúvida, ‘ter vontade de dormir’, no sentido interno, é, por causa da demora, tornar-se preguiçoso nas coisas que pertencem à igreja; e ‘adormecer’ é favorecer a dúvida; as ‘prudentes’, a dúvida em que há o afirmativo; as ‘insensatas’, a dúvida em que há o negativo. ‘À meia-noite, porém, um clamor se fez’ significa o tempo que é o último da velha igreja e o primeiro da nova; é este tempo que, na Palavra, se chama ‘noite’ quando se trata do estado da igreja; o ‘clamor’ é a mudança. ‘Eis [que] vem o Noivo! Saí ao encontro d’Ele!’ significa isto que diz respeito ao juízo, a saber, a aceitação e a rejeição.
[5] ‘Então despertaram todas essas virgens, e espevitaram427as suas lâmpadas’significa a preparação de todos; com efeito, aqueles que estão nos veros em que não há o bem creem-se aceitos qual aqueles que estão nos veros em que há o bem, já que imaginam que a fé só pode salvar, não sabendo que é nula a fé onde não há caridade. ‘Mas as insensatas disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas se apagaram’ significa que eles querem que, pelos outros, o bem seja comunicado aos seus veros vazios, ou a sua fé vaga; com efeito, na outra vida, todas as coisas espirituais e celestes são mutuamente comunicadas, mas não são senão por meio do bem.
[6] ‘Responderam, porém, as prudentes, dizendo: Talvez não baste a nós e a vós’ significa que ele não pode ser comunicado, porque o pouco de vero que eles têm seria arrebatado; com efeito, assim acontece, na outra vida, com a comunicação do bem com aqueles que estão nos veros sem o bem; estes arrebatam, por assim dizer, o bem e se apropriam dele e não comunicam aos outros, mas o corrompem, razão por que não se faz com eles comunicação alguma do bem; a este respeito se falará por experiência no fim do capítulo seguinte (37).
[7] ‘Ide, porém, antes aos que vendem e comprai para vós mesmas’ significa o bem do mérito; os que gabam-sedesse bem são os que o vendem; aqueles que também estão no vero em que não está o bem fazem meritório, na outra vida, mais do que os outros, tudo aquilo que eles fizeram em aparência como bem na forma externa, ainda que fosse o mal na forma interna, segundo o que diz o Senhor em Mateus:
“Muitos dirão a Mim naquele dia: Senhor, Senhor, pelo Teu nome não profetizamos, e pelo Teu Nome não expulsamos os demônios, e no Teu Nome não fizemos muitos milagres? Mas então lhes declararei: Não vos conheço, afastai-vos de Mim operários de iniquidade” (7:22, 23).
E em Lucas:
“Quando se levantar o Pai de família, e tiver fechado a porta, então começareis a dizer: Senhor, Senhor, abre-nos; mas, respondendo, vos dirá: Não vos conheço. De onde vós sois? Então começareis a dizer: Comemos diante de Ti, e bebemos, e nas nossas praças ensinaste. Mas dirá: Digo-vos não vos conheço. De onde vós sois? Apartai-vos de Mim, todos [vós] operários de iniquidade” (13:25, 26, 27);
tais são o que se entendem aqui pelas ‘insensatas’, é por isso que as mesmas coisas se dizem delas com estas palavras: “Vieram também elas dizendo: ‘Senhor, Senhor, abre-nos! Ele, porém, respondendo, disse: Amém vos digo não vos conheço”.
[8] ‘Tendo ido, porém, a eles para comprar, veio o Noivo’ significa a aplicação em ordem inversa [præposteram]. ‘E as que [estavam] preparadas entraram com Ele para as núpcias’ significa aqueles que estavam no bem e, por isso, no vero foram recebidos no céu; o céu assemelha-se às núpcias que provêm do casamento celeste, que é o casamento do bem e do vero, e o Senhor assemelha-Se a um Noivo, porque então a Ele se conjungem, é daí que a igreja se chama a Noiva. ‘E fechou-se a porta’ significa que os outros não podem entrar.
[9] ‘Depois, porém, chegaram também as outras virgens, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos!’ significa que eles querem entrar a partir da fé só, sem a caridade, e a partir das obras em que há não a vida do Senhor, mas a vida de si mesmo. ‘Ele, porém, respondendo, disse: Amém vos digo, não vos conheço’ significa a rejeição; no sentido interno, ‘não ser conhecido’ é não estar em caridade alguma para com o próximo e não estar, pela caridade, na conjunção com o Senhor; dos que não estão na conjunção se diz ‘não serem conhecidos’.
[10] ‘Vigiai, pois, porque não sabeis o dia e nem a hora em que o Filho do homem há de vir’ significa a dedicação da vida segundo os preceitos da fé, o que é vigiar; o tempo da aceitação, que é desconhecido ao homem, e o estado, são significados por “não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir”. Quem está no bem, isto é, quem faz segundo os preceitos, é chamado prudente, mas quem está nas cognições do vero e não pratica, é chamado insensato, como o Senhor também o diz em Mateus:
“Todo aquele que ouve as Minhas palavras e as faz, compará-lo-ei a um varão prudente, ... e todo aquele que ouve as Minhas palavras, mas não as faz, será comparado a um varão insensato” (7:24, 26).
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