Texto
. ‘E veremos o que serão os seus sonhos’; que signifique que as prédicas sobre o Divino Humano serão assim falsas e vistas como falsas, vê-se pela significação dos ‘sonhos’, que são as prédicas (n. 4682), que porque, aos olhos deles, se mostravam como falsos (n. 4726, 4729), aqui, pelos ‘sonhos’ são significadas as pregações a respeito do Divino Vero, principalmente em que o Humano do Senhor seja Divino, as quais, segundo a opinião deles, são falsos. Que eles também fossem vistos por eles como falsos, é isso significado pelo que tinham dito: “veremos o que serão”. Que as pregações [ou prédicas] sobre o Divino Humano do Senhor tenham se mostrado e se mostrem como falsos para aqueles que estão na fé só, é o que se pode ver pelas coisas que logo acima (n. 4729 no fim) foram ditas, pois as coisas que são confirmadas a partir da vida das cobiças não se mostram de outra forma.
[2] Que os falsos sejam confirmados a partir da vida das cobiças, é também por isso, porque eles não sabem o que é o céu e o que é o inferno, então, o que é o amor para com o próximo e o que é o amor de si e do mundo. Se os conhecessem, e mesmo se apenas quisessem saber, eles pensariam de modo absolutamente diferente. Quem hoje sabe outra coisa senão que o amor para com o próximo seja dar aos pobres o que tem, e socorrer seja quem for com as suas riquezas, e lhe fazer bem de qualquer modo, sem distinção, seja ele bom ou seja mau? E porque procedendo assim são privados de seus recursos, e ele próprio se tornaria pobre e mísero, por isso rejeita o doutrinal da caridade e abraça o doutrinal da fé; e depois ele se confirma de muitos modos contra a caridade, a saber, pensando que tenha nascido em pecados, e que, portanto, de si nada de bom possa fazer; e se faz a obra da caridade ou da piedade, que não possa deixar de pôr nelas o mérito; e quando ele pensa assim de uma parte, e da outra ele pensa a partir da vida das cobiças, então ele se converte para a parte daqueles que dizem que só a fé pode salvar. Quando ele está nessa fé, ele se confirma ainda mais, a tal ponto que crê que as obras da caridade não são necessárias para a salvação; excluídas essas obras ele incide neste novo falso: que porque o homem é tal, pelo Senhor foi provido um novo meio de salvação, que se chama fé; e, por fim, neste falso: que o homem é salvo se, pela confiança ou a segurança – ele diz – ainda que na última hora da morte, que Deus tenha misericórdia dele em consideração de que o Filho sofreu por ele, não prestando atenção alguma ao que o Senhor dissera em João, cap. 1, vers. 12, 13, e em mil outras passagens. Daí vem então, que a fé só tenha sido reconhecida nas igrejas como o essencial; que, porém, não seja em toda parte de semelhante maneira, é porque os chefes das igrejas nada podem lucrar pela fé só, mas sim pela prédica das obras.
[3] Mas se os mesmos tivessem conhecido o que é a caridade para com próximo, eles nunca teriam caído nesse falso de doutrina. A coisa fundamental da caridade em relação ao próximo é agir reta e justamente em qualquer coisa que diz respeito ao dever ou ao cargo; como, por exemplo, o que é juiz, se de acordo com as leis ele pune o malfeitor, e isso por zelo, então ele está na caridade para com o próximo, pois ele quer a sua emenda, assim, o seu bem, e também quer o bem para a sociedade e à pátria, para que ele, por isso, não faça mais o mal. Assim, se se emendar, pode amar esse malfeitor como um pai ama o filho a quem castiga, e assim ele ama a sociedade e a pátria, que para ele é o próximo no geral. O mesmo acontece em todas as outras funções; mas, pela Divina Misericórdia do Senhor, tratar-se-á disso em outro lugar mais plenamente.