Texto
. ‘E despiram José da sua túnica’; que signifique que eles repeliram e aniquilaram as aparências de vero, vê-se pela significação de ‘despir’ quando predicado do Divino Vero (que aqui é ‘José’), que é repelir e também aniquilar; e pela significação da ‘túnica’, porque ela era de várias cores, que são as aparências do vero (n. 4677). Repelir e aniquilar as aparências do vero é o que se efetua depois que o vero mesmo é rejeitado. Com efeito, o vero mesmo brilha por si nas mentes, e seja qual for o modo por que ele é extinto, ele aparece, principalmente junto àqueles que estão no bem; isto também veem muito bem aqueles que aniquilam neles mesmos os veros. É também por isso que eles se esforçam para repelir e aniquilar essas aparências.
[2] Seja um exemplo para ilustração: Quem não vê que bem-querer e bem-fazer seja precisamente a vida cristã? E se lhe for dito que isto é a caridade, ele não pode não afirmar. Ainda mais, os que afirmam dirão que isso eles sabem o que é, porque isso pertence à vida; mas pensar que isto ou aquilo é um vero também pela confiança — como querem os que estão na fé separada —, dirão que não sabem o que é, pois não podem ter outra percepção a respeito disso senão como de uma fumaça que desaparece. Como a fé só parece ser tal e, daí, a confiança, em todos aqueles que a respeito dela pensam seriamente, principalmente nos bons, por isso é que os da fé separada também trabalham com esforço para repelir e aniquilar essas aparências, cortando em volta assim tudo que toca de perto e tudo que está ao redor; é isso que é significado por ‘despir José da túnica que estava sobre ele’.
[3] Também esses mesmos [homens], que creem que são mais sábios do que os restantes, julgam que uma vez recebido um dogma, seja ele qual for, podem confirmá-lo por diversos meios e apresentá-lo semelhante ao vero por meio de vários raciocínios; mas não há nada que seja menos próprio de um sábio do que isto. Qualquer um que sobressaia em gênio pode fazer isso, e os maus o fazem com mais habilidade do que os probos. Com efeito, fazer isto não pertence a um homem racional, pois o homem racional pode ver como pelo superior se é verdadeiro o que é confirmado, ou se é falso; e porque ele vê isso, ele considera como nada as coisas confirmativas que pertencem ao falso, e não as considera consigo senão como distrativas e inúteis, ainda que um outro creia serem elas tiradas da escola da sabedoria mesma. Em uma palavra, nada é menos próprio ao sábio, e até nada é menos racional do que poder confirmar os falsos, pois compete a um sábio e é racional ver primeiro que é o vero, e em seguida confirmá-lo, pois ver o vero é ver pela luz do céu que procede do Senhor. Porém, ver o falso como vero é ver pelo lume fátuo que procede do inferno.