Texto
. ‘E eis [que] saiu o irmão dele’; que signifique o vero que pertence ao bem, vê-se pela significação do ‘irmão’, que é o consanguíneo proveniente do bem (n. 3815, 4267), assim, o vero que pertence ao bem, ou é essa fé que provémda caridade. Trata-se aqui, no sentido interno, da primogenitura entre aqueles que renascem ou são regenerados pelo Senhor, por conseguinte, da primogenitura na igreja. Discutiu-se, desde os antiquíssimos tempos, a respeito do que é o primogênito, se seria o bem pertencente à caridade, ou se o vero pertencente à fé; e como o bem, quando o homem renasce e se torna igreja, não se mostra, mas se oculta no homem interior, e somente se manifesta em uma sorte de afeição que não cai manifestamente nos sentidos do homem externo, ou natural, antes que ele renasça, enquanto o vero se manifesta, pois este entra pelos sentidos e se coloca na memória do homem externo ou natural, eis por que muitos caíram nesse erro de que o vero seria o primogênito, e, por fim, também neste, que o vero seja o essencial da igreja, e de tal modo o essencial, que o vero, que é chamado fé, possa salvar sem o bem que pertence à caridade.
[2] Desse único erro derivaram muitos outros que infectaram não só a doutrina, mas também a vida, por exemplo, que o homem é salvo, seja qual for o modo por que ele viva, contanto que ele tenha fé; que até os mais celerados são recebidos no céu, se somente na última hora da morte confessar as coisas que são da fé; que qualquer um possa ser recebido no céu somente pela graça, qualquer que tenha sido a sua vida; e, porque estão nessa doutrina, não se sabe também o que é a caridade, nem dela cuidam; e, por fim, não creem existir, consequentemente, nem céu nem inferno; a causa é, porque a fé sem a caridade, ou o vero sem o bem, nada ensina; e quanto mais o vero se retira do bem, tanto mais ele torna o homem insensato. Com efeito, é no bem e por meio do bem que o Senhor influi e dá inteligência e sabedoria, por conseguinte, a intuição superior, e também a percepção se tal coisa é assim ou não é assim.
[3] Por essas explicações, pode-se ver como acontece com a primogenitura, a saber, que ela existe realmente pelo bem e que ela existe aparentemente pelo vero. É isto o que agora se descreve aqui, no sentido interno, pelo parto dos dois filhos de Thamar. Com efeito, o ‘[escarlate] duas vezes tingido’, que a parteira atou sobre a mão, significa o bem, como se demonstrou (n. 4922); por ‘sair primeiro’ é significada a prioridade (n. 4923); por ‘retirar a mão’ é significado que o bem ocultava o seu poder, como logo acima foi dito; por ‘que saiu o seu irmão’ é significado o vero; por ‘que rompeste sobre ti a ruptura’ é significada a separação do vero de junto do bem aparentemente; por ‘depois saiu o irmão dele’ é significado que o bem é na realidade o primeiro; e por ‘sobre cuja mão estava o [escarlate] duplamente tingido’ é significado o reconhecimento que era o bem, porquanto não se reconhece que o bem seja o primeiro senão depois que o homem é regenerado, uma vez que, então, o homem age a partir do bem, e do bem ele visa o vero e a qualidade do vero.
[4] São essas as coisas que estão contidas no sentido interno, no qual se ensina como acontece com o bem e o vero no homem que nasce de novo, a saber, que o bem realmente fica no primeiro lugar, mas o vero aparentemente, e que não parece que o bem esteja em primeiro lugar enquanto o homem está sendo regenerado, mas então se mostre manifestamente quando o homem foi regenerado. Mas não há necessidade de explicar mais esses arcanos, pois eles foram explicados antes (vejam-se as coisas ditas nos n. 3324, 3325, 3494, 3539, 3548, 3556, 3563, 3570, 3576, 3603, 3701, 4243, 4244, 4247, 4337; e que desde os tempos antigos tenha existido controvérsia acerca da primogenitura, se pertencia ao bem ou ao vero, ou seja, se pertencia à caridade ou à fé, n. 2435).
[5] Como o Senhor, no sentido supremo, é o Primogênito e, daí, o amor a Ele e a caridade para com o próximo, é por isso que na Igreja Representativa foi decidido por uma lei que os primogênitos pertenceriam a JEHOVAH, coisa de que se trata em Moisés:
“Santifica-Me todo primogênito, a abertura do útero entre os filhos de Israel, no homem e na besta Minha será” (Êx. 13:2);
“Farás passar toda a abertura do útero a JEHOVAH e toda abertura do feto da besta, o quanto terás de machos, de JEHOVAH serão” (Êx. 13:12);
“Toda abertura de útero [é] Minha, por isso quanto a todo o teu gado, o macho darás, a abertura de boi e de gado” (Êx. 34:19);
“Toda a abertura do útero quanto a toda carne, que levarão a JEHOVAH, dos homens e das bestas, de ti será, mas, entretanto, resgatando resgatarás todo primogênito do homem” (Nm. 18:15);
“Eu, eis, tomei os Levitas do meio dos filhos de Israel, em lugar de todo primogênito, aberturas de útero dentre os filhos de Israel, para que sejam Meus os levitas” (Nm. 3:12).
[6] Como o que abre o útero é o primogênito, é por isso que onde o primogênito é nomeado, ali também se diz ‘abertura do útero’, para que o bem é que seja significado; que este seja o bem, é evidente por cada uma das coisas, no sentido interno, principalmente pelas coisas que são lembradas a respeito dos filhos de Thamar, a saber, que Zerah abriu por sua mão o útero, pelo qual o bem é representado, vê-se também pelo ‘[escarlate] duplamente tingido sobre a mão dele’ (n. 4922); o ‘útero’ também, do qual se diz a abertura, é onde há o bem e o vero, por conseguinte, a igreja (ver n. 4918); ‘abri-lo’ é dar o poder para que o vero nasça.
[7] Como o Senhor é sozinho o Primogênito, é, pois, o Bem mesmo; e do Bem do Senhor procede todo vero. É também por isso que a Jacó (que não era o primogênito), para que representasse o Senhor, foi-lhe permitido comprar do seu irmão Esaú a primogenitura, e como isso não bastasse, ele foi chamado Israel, a fim de que por este nome ele representasse o bem que pertence ao vero, pois ‘Israel’, no sentido representativo, é o bem que existe por meio do vero (n. 3654, 4286, 4598).