Texto
. ‘E o chefe da casa do cárcere entregou’; que signifique o vero que governou no estado das tentações, vê-se pela significação do ‘chefe’ [ou príncipe], que é o vero principal, assim, o que governa, do que se tratará no que segue; e pela significação da ‘casa do cárcere’, que é a vastação do falso, por conseguinte, a tentação, de que acima se tratou (n. 5038, 5039, 5043). Primeiro se deve dizer o que é o vero que governa no estado das tentações: Em todos aqueles que estão nas tentações, influi do Senhor um vero que rege e governa os pensamentos; esse vero os reergue todas as vezes que eles caem em dúvidas e também em desesperos; é esse vero o vero que governa, e é tal vero que eles aprenderam da Palavra ou da doutrina, e que eles mesmos confirmaram em si. Na realidade, também outros veros são lembrados, mas não governam os seus interiores; às vezes esse vero que governa não se apresenta visivelmente diante do entendimento, mas se oculta no obscuro e, mesmo assim, governa. Com efeito, o Divino do Senhor influi nesse vero e mantém assim os interiores da mente nele; é por isso que, quando esse vero vem à luz, aquele que está na tentação recebe consolação e é aliviado.
[2] Não é por esse vero mesmo, mas é pela afeição desse vero que o Senhor governa os que estão nas tentações, uma vez que o Divino não influi senão nas coisas que pertencem à afeição. O vero que foi implantado e arraigado nos interiores do homem, foi implantado e arraigado pela afeição, e nada há absolutamente que o tenha sido sem a afeição. O vero que foi implantado e arraigado pela afeição, este adere e é recordado pela afeição, e quando esse vero é assim lembrado, ele apresenta a afeição conjunta com ele, a qual é a afeição recíproca do homem. Como acontece assim com o homem que está nas tentações, por isso ninguém é admitido em alguma tentação espiritual antes de estar na idade adulta e de estar, portanto, imbuído de algum vero pelo qual ele possa ser governado; se assim não acontece, ele sucumbe, e então seu estado posterior se torna pior do que seu estado anterior. A partir dessas explicações, pode-se ver o que se entende pelo vero que governa no estado das tentações, vero que é significado pelo ‘chefe da casa do cárcere’.
[3] Que o ‘chefe’ [ou príncipe] seja o principal vero, é porque o rei, no sentido interno, significa o vero mesmo (n. 1672, 1728, 2015, 2069, 3009, 3670, 4575, 4581, 4789, 4966); daí os príncipes [ou chefes], porque são soberanos [Regis], significam as coisas principais desse vero; que os príncipes [ou chefes] signifiquem essas coisas, foi visto (n. 1482, 2089); mas porque ali não foi suficientemente demonstrado a partir de outras passagens na Palavra, permite-se referir aqui algumas. Em Isaías:
“Um menino nos nasceu, um filho se nos deu, sobre cujo ombro [está] o principado;... príncipe de paz, multiplicando o principado, e a paz, não haverá fim” (9:5, 6 [Em JFA, 9:6, 7]);
aí se trata do Senhor; o ‘principado sobre ombro’ é todo Divino vero procedente d’Ele nos céus; com efeito, os céus foram distinguidos em principados segundo os veros provenientes do bem; daí também os anjos são chamados ‘principados’; a ‘paz’ é o estado de bem-aventurança nos céus afetando o bem e o vero pelos íntimos (n. 3780); daí o Senhor é chamado ‘príncipe da paz’, e se diz ‘multiplicando o principado e a paz, para os quais não [haverá] fim’.
[4] No mesmo:
“Insensatos são os príncipes de Zoan, os sábios, conselheiros de faraó; como dizes ao faraó: Filho dos sábios [sou] eu, filho dos reis da antiguidade? [...] Enfatuados [são] os príncipes de Zoan, enganados os príncipes de Noph; e seduziram o Egito, a pedra angular das tribos” (Is. 19:11, 13);
aí se trata do Egito, pelo qual é significado o conhecimento da igreja (n. 4749), assim, o vero natural, que é o último da ordem; razão por que também o Egito é aqui chamado ‘pedra angular das tribos’, visto que as tribos são todas as coisas do vero em um só complexo (n. 3858, 3862, 3926, 3939, 4060); aqui, porém, o Egito é o conhecimento que perverte os veros da igreja, portanto, os veros falsificados no último da ordem, os quais são os ‘príncipes de Zoan’ e os ‘príncipes de Noph’. Que se diga ‘filhos dos reis da antiguidade’, é porque ali os conhecimentos provinham dos veros da Antiga Igreja; os veros mesmos são significados pelos ‘reis’, como acima se demonstrou, e os veros da Igreja Antiga, pelos ‘reis da antiguidade’.
[5] No mesmo:
“Asshur não pensa com retidão, e o coração dele não medida retamente; pois para perder [é] o coração dele, e para exterminar as nações não poucas, pois disse: E meus príncipes não são reis?” (Is. 10:7, 8).
‘Asshur’ está pelo raciocínio a respeito dos veros Divinos, donde vêm as falsidades, assim, está no lugar da razão pervertida (n. 1186); daí, os veros falsificados (ou os falsos), que por meio do raciocínio se tornam e aparecem como muitíssimo verdadeiros, são significados por meio disso, que se diga: “E meus príncipes não são reis?” Que ‘Asshur’ seja o raciocínio, e que os ‘príncipes que [se tornarão] reis’ sejam os principais falsos, que se acredita serem muitíssimo verdadeiros, é o que não se pode ver e, portanto, crer enquanto a mente se detém no sentido histórico da letra, e menos ainda se está no negativo que há interiormente algo que é mais santo e mais universal na Palavra Divina do que o que se apresenta na letra, quando entretanto, no sentido interno, na Palavra, não se entende por Asshur outra coisa senão a razão e o raciocínio, e pelos reis, os veros mesmos, e pelos príncipes, as coisas principais do vero. No céu, até se ignora o que é Asshur, e também os anjos rejeitam para longe deles a ideia de rei e de príncipe, e quando a apercebem no homem, eles a transferem ao Senhor, e percebem aquilo que procede do Senhor e pertence ao Senhor no céu, a saber, o Divino Vero procedente do Divino Bem d’Ele.
[6] No mesmo:
“Asshur cairá pela espada não do varão, e a espada não do homem devorá-lo-á;... E também a sua rocha, por causa do temor, passará, e os príncipes dele se consternarão por causa do estandarte” (Is. 31:8, 9);
aí também se trata do Egito, que é o conhecimento pervertido da igreja, o raciocínio procedente dos conhecimentos é ‘Asshur’, raciocínio que é a respeito dos veros Divinos, de onde resultam a perversão e a falsificação; esses veros pervertidos e falsificados são os ‘príncipes’; a ‘espada’ pela qual Asshur cairá é o falso que combate e devasta o vero (n. 2799, 4499). No mesmo:
“Tornar-se-á para vós a força do faraó em vergonha, e a confiança na sombra do Egito, em ignomínia, quando estiveram em Zoan os príncipes deles” (Is. 30:3, 4);
‘em Zoan os príncipes’ está pelos veros falsificados, assim, pelos falsos, como acima.
[7] No mesmo:
“Possui-la-ão o colhereiro e a águia pesqueira, e a coruja e o corvo habitarão nela; estenderá sobre ela a linha de inanidade e o prumo de vacuidade; os seus nobres não [estarão] ali, chamarão o reino, e todos os seus príncipes serão [como] nada” (Is. 34:11, 12);
o ‘colhereiro’, a ‘águia pesqueira’, a ‘coruja’ e o ‘corvo’ estão pelos gêneros de falso que existem quando os veros Divinos que estão na Palavra tornam-se nada; a desolação e a vastação do vero são significados pela ‘linha de inanidade’ e o ‘prumo de vacuidade’, e os falsos, que são para eles os principais veros, são significados pelos ‘príncipes’. No mesmo:
“Tornarei profanos os príncipes de santidade, e darei Jacó em devoção, e Israel em opróbrio” (Is. 43:28);
‘tornar profanos os príncipes de santidade’ está pelos santos veros; a extirpação do vero da igreja externa e interna é significada por ‘dar Jacó em devoção e Israel em opróbrio’. Que Jacó seja a igreja externa e Israel a interna, foi visto (n. 4286).
[8] Em Jeremias:
“Entrarão pelos portões desta cidade reis e príncipes, assentando-se sobre o trono de Davi, montando no carro e sobre cavalos, eles e os príncipes deles” (17:25).
Aquele que entende aqui a Palavra no sentido histórico, este não pode saber que, nesta passagem, há escondida alguma coisa mais elevada e mais santa do que que reis e príncipes entrarão pelos portões da cidade em um carro e sobre cavalos, e daí recolhe que significa a duração do reino; mas quem conhece o que, no sentido interno, significa a ‘cidade’, o que os ‘reis’, o que os ‘príncipes’, o que o ‘trono de Davi’, e o que ‘montar em um carro e sobre cavalos’, este vê coisas mais elevadas e mais santas ali; com efeito, a ‘cidade’ (ou Jerusalém) significa o Reino espiritual do Senhor (n. 2117, 3654); os ‘reis’, os Divinos Veros, como acima se demonstrou; os ‘príncipes’, as principais coisas do vero; o ‘trono de Davi’, o céu do Senhor (n. 1888); ‘montar em um carro e sobre cavalos’, o intelectual espiritual da igreja (n. 2760, 2761, 3217).
[9] No mesmo:
“Espada contra os caldeus, e contra os habitantes de Babel, e contra os principais deles, e contra os seus sábios; espada contra os mentirosos, espada contra os seus cavaleiros e contra os seus carros” (Jr. 50:35, 36, 37);
a ‘espada’ está pelo vero que combate contra o falso, e pelo falso que combate contra o vero e o que devasta (n. 2799, 4499); os ‘caldeus’ estão pelos que profanam os veros; e os ‘habitantes de Babel’ pelos que profanam o bem (n. 1182, 1283, 1295, 1304, 1307, 1308, 1321, 1322, 1326, 1327 no fim); os ‘príncipes’ estão no lugar dos falsos que são para eles os principais veros; os ‘cavalos’, no lugar dos intelectuais da igreja; e os ‘carros’, no lugar dos seus doutrinais, dos quais a devastação é significada pela ‘espada contra os cavalos e contra os carros’.
[10] No mesmo:
“Assim como o Senhor cobre com nuvens, na sua ira, a filha de Sião,... o Senhor devorou, não poupou de todos os habitáculos de Jacó; destruiu, na sua incandescência, as fortalezas da filha de Judá, lançou em terra, profanou o reino e os príncipes dele. [...] Enterraram em terra os portões, e quebrou os ferrolhos, o rei e os príncipes [estão] entre as nações” (Lm. 2:1, 2, 9);
a ‘filha de Sião e de Judá’ está pela igreja celeste; aqui, está no lugar desta igreja destruída; o ‘reino’ está no lugar dos veros da doutrina nessa igreja (n. 2547, 4691); o ‘rei’ está pelo vero mesmo, os ‘príncipes’, pelas principais coisas do vero.
[11] No mesmo:
“As nossas peles como um forno enegreceram por causa das tempestades da fome. Pressionaram as mulheres em Sião, as viagens nas cidades de Judá. Os príncipes, pela mão deles, foram enforcados; ...” (Lm. 5:10, 11, 12);
os ‘príncipes enforcados pela mão deles’ estão pelos veros profanados, pois a ação de enforcar representava a danação da profanação, e porque o enforcamento a representava, é também por isso que, quando o povo cometia escortação após Baal-Peor e adorava os deuses deles, ordenou-se “que os príncipes fossem enforcados diante do sol” (Nm. 25:1, 2, 3, 4); com efeito, ‘cometer escortação após Baal-Peor e adorar os deuses deles’ era profanar o culto. Em Ezequiel:
“O rei pranteará e o príncipe se vestirá de estupor, e as mãos do povo da terra se conturbarão, do caminho deles agirei com eles” (7:27);
o ‘rei’ está semelhantemente no lugar do vero em geral, e o príncipe, dasprincipais coisas do vero.
[12] No mesmo:
“O príncipe que [estiver] no meio deles, sobre o ombro será levado, sob trevas, e sairá; a furarão parede para fazer sair por ela, a sua face cobrirá para que ele não veja com o olho a terra” (Ez. 12:12).
Que aqui ‘príncipe’ não seja um príncipe, é manifestamente claro, mas que seja o vero da igreja, do qual quando se diz que ‘será levado sobre o ombro sob trevas’, é que esse vero é trazido de todo poder entre os falsos, porquanto as ‘trevas’ são os falsos; ‘cobrir as faces’ é que o vero não seja de modo nenhum visto; ‘para que não veja com o olho a terra’ é que nada da igreja. Que a ‘terra’ seja a igreja, foi visto (n. 662, 1066, 1067, 1262, 1413, 1607, 1733, 1850, 2117, 2928, 3355, 4447, 4535). Em Oseias:
“Por muitos dias os filhos de Israel se assentarão, não [haverá] rei nem príncipe, e não [haverá] sacrifício, nem pilares, nem éfode nem terafins” (3:4).
[13] E em Davi:
“Toda gloriosa [é] a filha do Rei por dentro, e de tecidos de ouro a sua vestimenta; em bordados será levada ao Rei, em lugar dos teus pais estarão os teus filhos, pô-los-ás por príncipes em toda a terra” (Sl. 45:14-17 [Em JFA, 45:13-16]);
a ‘filha do rei’ é o Reino espiritual do Senhor; esse Reino é dito espiritual por causa do Vero Divino do Senhor, que nesta passagem é descrito por meio da ‘vestimenta tecida de ouro e de bordados’; os ‘filhos’ são os veros desse Reino, que procedem do Divino do Senhor; eles serão ‘príncipes’, isto é, os principais veros. Pelo ‘príncipe’, de que se trata em Ezequiel a respeito da posse que ele terá na nova Jerusalém e na nova Terra (cap. 44:3; 45:7, 8, 17; 46:8, 10, 12, 16, 18; 48:21) é significado em geral o vero que procede do Divino do Senhor; porquanto aí, pela nova Jerusalém e pelo novo templo e pela nova terra, se entende o Reino do Senhor nos céus e nas terras, que é descrito ali por meio de coisas representativas quais as que estão descritas em outras passagens na Palavra.