ac 5128

Emanuel Swedenborg
Obra: Arcanos Celestes – Gênesis Explicado

Texto

. ‘Em que foste o copeiro dele’; que signifique assim como têm por hábito os sensuais desse gênero, vê-se pela significação do ‘copeiro’, que são os sensuais, ou as coisas dos sensuais que foram sujeitadas à parte intelectual (n. 5077, 5082); que sejam ‘assim como têm por hábito’ é o que é significado por ‘em que foste’. Que os sensuais devam ser sujeitados e subordinados aos racionais, tratou-se agora nas explicações precedentes; e como aqui, no sentido interno, se trata dessa sujeição e subordinação, deve-se ainda dizer o modo como a coisa acontece.
[2] O homem em quem os sensuais foram sujeitados é chamado racional, mas o homem em quem eles não foram sujeitados é chamado sensual; mas se um homem é racional ou se é sensual, isso não pode ser facilmente discernido pelos outros, mas pode por ele mesmo se examinar os seus interiores, isto é, o seu querer e o seu pensar. Saber se um homem é sensual ou racional, os outros não podem nem pela linguagem nem pela ação, pois a vida do pensamento, que está na linguagem, e a vida da vontade, que está na ação, não se manifestam diante de nenhum sentido do corpo. Ouve-se somente o som e vê-se o gesto com a afeição, sem discernir se a afeição é simulada ou se é verdadeira. Contudo, na outra vida, os que estão no bem percebem distintamente tanto o que está na linguagem quanto o que está na ação, assim, qual é a vida, e também de onde provém a vida na linguagem e na ação. Existem, entretanto, alguns indícios no mundo, a partir dos quais se pode de algum modo concluir se os sensuais foram sujeitados ao racional ou se o racional foi sujeitado aos sensuais, ou, o que é o mesmo, se o homem é racional ou se ele é somente sensual. Esses indícios são: se se nota que homem está nos princípios do falso e não se deixa iluminar, mas rejeita inteiramente os veros e sem razão defende com obstinação os falsos, há indício de que ele é homem sensual e não homem racional; o racional está fechado nele a fim de que ele não admita a luz do céu.
[3] São ainda mais sensuais aqueles que estão na persuasão do falso, porquanto a persuasão do falso fecha completamente o racional; uma coisa é estar nos princípios do falso, e outra coisa estar na persuasão do falso. Aqueles que estão na persuasão do falso têm em seu natural alguma luz, mas tal qual é a luz do inverno; essa luz aparece, na outra vida, nívea entre eles, mas desde que a luz celeste incide nela, ela se obscurece, e segundo o grau e a qualidade da persuasão ela se torna sombria como a noite. Isto também é evidente por eles quando vivem no mundo, pois então eles não podem ver absolutamente nada do vero; ainda mais, pelo obscuro ou o noturno do falso deles, os veros são para eles como nada, eeles também os ridicularizam. Tais homens, diante dos simples, por vezes se mostram como racionais, pois por meio dessa luz nívea de inverno eles podem, por meio de raciocínios, confirmar com habilidade os falsos até que apareçam como veros. Muitos dentre os eruditos estão mais do que os restantes em uma tal persuasão, pois confirmaram consigo os falsos por meio de argúcias silogísticas e filosóficas, e, enfim, por várias coisas dos conhecimentos. Tais homens, entre os antigos, eram chamados serpentes da árvore da ciência (n. 195, 196, 197); mas hoje eles podem ser chamados sensuais interiores sem o racional.
[4] O indício se um homem é somente sensual ou se é racional provém principalmente de sua vida; por vida entende-se a vida não tal qual ela se mostra no discurso e nas obras, mas tal qual ela é no discurso e nas obras, pois a vida do discurso procede do pensamento, e a vida das obras procede da vontade, uma e outra procedendo da intenção, ou fim. Tal qual é, portanto, a intenção ou fim no discurso e nas obras, tal é a vida, pois o discurso sem uma vida interior é somente um som, e a obra sem uma vida interior é somente um movimento; essa vida é a que se entende quando se diz que a vida permanece depois da morte. Se o homem é racional ele fala a partir do bem-pensar e age a partir do bem-querer, isto é, fala a partir da fé e age a partir da caridade; mas se o homem não é racional, então na realidade ele pode agir dissimuladamente como um homem racional e falar do mesmo modo, mas ainda assim não há nele nada da vida que provém do racional. Com efeito, a vida do mal fecha todo caminho ou toda comunicação com o racional e faz com que o indivíduo se torne meramente natural e sensual.
[5] Há duas coisas que não só fecham o caminho de comunicação, mas também privam o homem da faculdade de poder de algum modo se tornar racional, é o dolo e é a profanação; o dolo [ou velhacaria] é equivalente a um veneno sutil que infecta os interiores, e a profanação é o que mistura os falsos com os veros e os males com os bens. É por essas duas coisas que o racional perece inteiramente. Há em cada homem bens e veros escondidos pelo Senhor desde a infância, esses bens e veros, na Palavra, são chamados ‘relíquias’, a respeito dos quais, vejam-se os n. 468, 530, 560, 561, 661, 1050, 1738, 1906, 2284; o dolo infecta essas relíquias, e a profanação as mistura; o que é a profanação, ver os n. 593, 1008, 1010, 1059, 1327, 1328, 2051, 2426, 3398, 3402, 3489, 3898, 4289, 4601. A partir desses indícios, pode-se de algum modo saber que homem é racional e que homem é sensual, ou se os sensuais estão sujeitos ao racional ou se o racional está sujeito aos sensuais.
[6] Quando os sensuais foram sujeitados ao racional, então os sensuais, dos quais provém a primeira imaginação do homem, são iluminados pela luz que, por meio do céu, vem desde o Senhor, e então também os sensuais são dispostos em ordem, a fim de que recebam a luz e para que correspondam. Os sensuais, quando estão nesse estado, não se opõem mais a que os veros sejam tanto reconhecidos como vistos; imediatamente, os sensuais que estão em desacordo são removidos, e os que estão de acordo são aceitos; os que estão então de acordo estão, por assim dizer, nos centros, e os que estão em desacordo estão nas periferias. Os que estão nos centros são como que elevados ao céu, e os que estão nas periferias estão por assim dizer pendentes para baixo; os que estão nos centros recebem a luz pelo racional; e, na outra vida, quando se apresentam assim visíveis, aparecem como estrelinhas que brilham, e espalham a luz ao redor até as periferias, com a diminuição da luz segundo os graus. É em tal forma que são dispostos os naturais e os sensuais quando o racional tem o domínio e os sensuais foram sujeitados; isso sucede quando o homem se regenera; daí há para ele o estado de ver e de reconhecer os veros em sua amplitude. Mas quando o racional está sujeitado aos sensuais, então sucede o contrário, porquanto então no meio (ou no centro) estão os falsos, e nas periferias estão os veros; os falsos que estão no centro, ali estão em um certo de lume, mas em um lume fátuo, ou tal qual o que se levanta de um fogo de carvão; nesse centro influi de todos os lados o lume que procede do inferno; este lume é o que se chama trevas, pois logo que um raio de luz do céu influi nesse lume a luz é vertida em trevas.

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