Texto
. ‘E faças, peço[-te], misericórdia comigo’; que signifique a recepção da caridade, vê-se pela significação da ‘misericórdia’, que é o amor (n. 3063, 3073, 3120, 5042), aqui, o amor para com o próximo, ou caridade, porque acima (n. 5130) foi dito isso a respeito da recepção da fé, pois a fé e a caridade devem fazer um no sensual quando este renasce. Que a misericórdia signifique a caridade, é porque todos que estão na caridade estão na misericórdia, ou seja, os que amam o próximo têm comiseração dele; é por isso que os exercícios da caridade são descritos na Palavra como obras de misericórdia, como em Mateus:
“Tive fome e destes-Me de comer, tive sede e destes-Me de beber, fui peregrino e acolhestes-Me, [estive] nu e vestistes-Me, estive enfermo e visitastes-Me, estive no cárcere e viestes a Mim” (25:35, 36);
e em outras passagens onde se diz que se deve fazer bem aos pobres, aos aflitos, às viúvas, aos órfãos.
[2] A caridade em sua essência é querer bem ao próximo, e ser afetado do bem, e reconhecer por próximo o bem, consequentemente, aos que estão no bem, com diferença quanto ao bem. Daí resulta que a caridade, porque é afetada pelo bem, é afetada de misericórdia em relação àqueles que estão nas misérias. O bem da caridade tem isso consigo porque descende do amor do Senhor para com todo o gênero humano, amor que é a Misericórdia que todo o gênero humano se constitui em misérias. Por vezes, aparece também uma misericórdia juntoaos maus, que estão em uma caridade nula, mas é uma dor que há por essa causa, que o mal mesmo padece; essa misericórdia não é a misericórdia que pertence à caridade, mas é a misericórdia da amizade por causa de si próprio, que, considerada em si mesma, é uma não-misericórdia, pois despreza ou odeia todos os outros além dele próprio, assim, além dos amigos que fazem um consigo.