Texto
. ‘Porque por furto, tirando fui tirado’; que signifique que os celestes tenham sido alienados pelo mal, vê-se pela representação de ‘José’, que diz essas coisas a respeito de si, que é o celeste no natural (n. 5086, 5087, 5106), consequentemente, as coisas celestes ali; e pela significação de ‘ser tirado por furto’, que é ser alienado pelo mal, porquanto ‘furtar’ é alienar; e o furto é o mal que aliena; e também o furto é o mal que reivindica para si as coisas que estão ali506. O ‘furto’ significa a alienação relativamente à sede que ocupa, da qual expulsa os bens e veros, e que enche de males e falsos; e o ‘furto’ significa a reivindicação do que pertence aos outros quando atribui a si e faz seus os bens e veros que estão nessa sede, e também quando ele os aplica aos males e falsos. Para que se saiba o que é o ‘furto’ no sentido espiritual, é necessário dizer o que acontece em relação aos males e aos falsos quando entram e ocupam a sede e, também, quando reivindicam para si os bens e os veros que ali estão.
[2] O homem, desde a infância até a meninice, e às vezes até a primeira adolescência, imbui-se de bens e de veros pela instrução procedente dos pais e mestres, pois então ele se apega a esses bens e veros e os crê com simplicidade. O estado da inocência os impele para a frente e os adapta à memória, mas os coloca no primeiro limiar, pois a inocência infantil e pueril não é a inocência interna que afeta o racional, mas é uma inocência externa, que somente afeta o natural exterior (n. 2306, 3183, 3494, 4563, 4797). Porém, quando o homem avança em idade e começa a pensar não como antes, pelos pais e mestres, mas por si mesmo, então ele retoma e, por assim dizer, rumina as coisas que anteriormente tinha aprendido e crido; e, então, ou ele as confirma, ou duvida delas, ou as nega; se as confirma, é um indício de que ele está no bem, mas se as nega, é um indício de que está no mal; porém, se duvida delas, é um indício de que com a sucessão da idade ele chegará ou ao afirmativo ou ao negativo.
[3] As coisas que o homem pegou ou creu como criança na primeira idade, coisas que, depois, ele ou confirma, ou delas duvida, ou as quais nega, são principalmente que Deus existe e que Ele é um, que Ele tenha criado todas coisas e que Ele recompense aqueles que agem bem e puna aqueles que fazem os males; que há uma vida após a morte, e que os maus vão ao inferno, e os bons ao céu, assim, que exista um inferno e um céu, que a vida após a morte seja eterna; depois, que é preciso orar a cada dia, e isto com humildade, que é preciso guardar santamente os dias de sábado, honrar os pais, não cometer adultério, não matar, não furtar, e vários preceitos semelhantes. Essas coisas o homem haure e imbui desde a infância, mas quando começa a pensar por si mesmo e conduzir a si próprio, se confirma em si tais coisas e lhes acrescenta várias que são ainda mais interiores e vive segundo elas, então isso vai bem com ele; se, porém, começa a infringi-las e, por fim, a negá-las, seja qual for o modo que vive nos externos de acordo com elas por causa das leis civis e por causa da sociedade, então ele está no mal.
[4] É esse mal que é significado pelo ‘furto’, visto que ele, como um ladrão, ocupa a sede onde antes esteve o bem, e em vários até o ponto que ele arrebata os bens e veros que antes ali estiveram e os aplica para confirmar os males e os falsos. O Senhor, o quanto é possível, afasta então dessa sede os bens e os veros da infância e os retrai para os interiores, e os reserva para o uso no natural interior; esses bens e veros reservados no natural interior, na Palavra, são significados pelas relíquias (n. 486, 530, 560, 561, 660, 661, 1050, 1738, 1906, 2284). No entanto, se o mal ali furta os bens e os veros, e os aplica para confirmar os males e os falsos, principalmente se é por dolo, então ele consome essas relíquias, pois então ele mistura os males com os bens e os falsos com os veros a ponto de não poderem ser separados, e então o homem está perdido [actum est cum homine].
[5] Que pelo ‘furto’ sejam significadas tais coisas, pode-se ver pela simples aplicação do furto a coisas que pertencem à vida espiritual. Na vida espiritual não há outras riquezas senão as cognições do bem e do vero, nem outras posses e heranças além das felicidades da vida provenientes dos bens e dos veros; furtá-las, assim como acima foi dito, é o furto no sentido espiritual; é por isso que pelos furtos, na Palavra, não é significada outra coisa no sentido interno, como em Zacarias:
“Levantei meus olhos e vi: eis com um volume voando;... Então me disse: Esta [é] a maldição, saindo sobre as faces de toda a terra, pois todo aquele que furta daqui, como ela [é] inocente, e todo que perjura como ela [é] inocente;... Expulsei-a,... para que entre na casa do ladrão, e na casa de quem perjura pelo Meu Nome a favor da mentira; e pernoitará na sua casa, e a consumirá e as suas madeiras e as suas pedras” (5:1, 2, 3, 4);
o mal que arranca as relíquias do bem é significado por ‘aquele que furta’ e pela ‘casa do ladrão’, e o falso que arranca as relíquias do vero é significado pelo ‘que perjura’ e pela ‘casa do que perjura’; as ‘faces de toda a terra’ está por toda a igreja; por isso disse que ‘essa maldição consumirá a casa, e suas madeiras e as suas pedras’. A ‘casa’ é a mente natural, ou o homem quanto a ela (n. 3128, 3538, 4973, 5023); as madeiras são os bens nela (n. 2784, 2812, 3720, 4943); e as ‘pedras’ são os veros (n. 643, 1298, 3720).
[6] A profanação e, daí, a ação de tirar o bem e o vero são, no sentido espiritual, significadas pela ação de Acã, que, dentre as coisas dedicadas, tinha tomado uma vestimenta de Sinar, 200 ciclos de prata e uma língua de ouro, e os tinha escondido sob a terra, no meio da sua tenda; é por isso que ele foi lapidado e todas essas coisas foram queimadas, a respeito do que se fala assim em Josué:
“[Disse] JEHOVAH a Josué: Pecou Israel, transgrediram a Minha aliança que lhes ordenei, e tomaram de devoção, furtaram, mentiram e puseram entre os seus vasos” (7:11, 21, 25)507;
pelas ‘coisas devotadas’ são significados os falsos e os males, que não deviam de modo algum ser misturados com as coisas santas; a ‘vestimenta de Sinar’, os ‘ciclos de prata’ e a ‘língua de ouro’ são, no sentido espiritual, espécies de falsos; ‘escondê-los sob a terra no meio da tenda’ significava a mistura com as coisas santas. (Que a ‘tenda’ seja o que é santo, foi visto, n. 414, 1102, 1566, 2152, 3312, 4128, 4391, 4599.) Essas coisas foram significadas por isso, de se dizer que eles furtaram, mentiram, o puseram entre os seus vasos, pois os vasos são os santos veros (n. 3068, 3079, 3316, 3318).
[7] Em Jeremias:
“[...] trarei a ruína de Esaú sobre ele, no tempo [em que] o visitarei. Se os vindimadores viessem a ti, não deixariam rabiscos? Se ladrões na noite, não [te] corromperiam o suficiente? Eu denudarei Esaú, revelarei os seus [lugares] ocultos, e não poderá se esconder; foi devastada a semente dele, e os seus irmãos e os seus vizinhos, e ele não [será mais]” (49:8, 9, 10);
‘Esaú’ está pelo mal do amor de si, ao qual os falsos foram adjuntos (n. 3322); que este mal consuma as relíquias do bem e do vero, é o que é significado por “Se ladrões na noite, não [te] corromperiam o suficiente?” e por “foi devastada a semente dele, e os seus irmãos e os seus vizinhos, e ele não [será mais]”. A ‘semente’ está pelos veros pertencentes à fé proveniente da caridade (n. 1025, 1447, 1610, 1940, 2848, 3038, 3310, 3373); os ‘irmãos’ pelos bens pertencentes à caridade (n. 367, 2508, 2524, 2360, 3160, 3303, 3459, 3815, 4121, 4191); os ‘vizinhos’ pelas coisas adjuntas e afins aos veros e aos bens que lhe pertencem.
[8] Trata-se semelhantemente de Esaú em Obadias:
“Se ladrões vierem a ti, se salteadores à noite, como serássaqueado? Não furtarão o que lhes [será] suficiente? Se vindimadores vierem a ti, não deixarão rabiscos?” (vers. 5);
os ‘vindimadores’ estão pelos falsos que não provêm do mal; por esses falsos não são consumidos os bens e veros reservados pelo Senhor no natural interior no homem, isto é, as relíquias; mas o são pelos falsos provenientes dos males, estes últimos falsos furtam os veros e bens, e eles também os empregam até para confirmar os males e os falsos por aplicações perniciosas.
[9] Em Joel:
“Um povo grande, forte, como heróis correrão, como varões de guerra, subirão a muralha, e cada um avançará nos seus caminhos; [...] Na cidade [de todos os lados] correrão, sobre a muralha correrão, nas casas subirão, pelas janelas entrarão como um ladrão” (2:7, 9);
‘um povo grande e forte’ está pelos falsos que combatem contra os veros (n. 1259, 1260); e porque combatem fortemente destruindo os veros, eles são chamados ‘heróis’ e comparados a ‘varões de guerra’; a ‘cidade’ pela qual se diz que eles ‘correm de todos os lados’ estão pelos doutrinais do vero (n. 402, 2268, 2449, 2712, 2943, 3216); as ‘casas nas quais subirão’ estão pelos bens que eles destroem (n. 710, 1708, 2048, 2233, 3128, 3652, 3720, 4982); as ‘janelas pelas quais entrarão’ estão pelos intelectuais e, daí, os raciocínios (n. 655, 658, 3391); por isso eles são comparados a um ‘ladrão’, porque ocupam a sede onde antes estavam os veros e os bens.
[10] Em Davi:
“Visto que tu odeias a disciplina, e rejeita as Minhas palavras para trás de ti, se vês um ladrão corres com ele, e com os adúlteros [é] a tua parte; a tua boca abres para o mal, e a tua língua liga o dolo” (Sl. 50:17, 18, 19);
trata-se aqui do ímpio, ‘correr com o ladrão’ está no lugar de alienar de si o vero por meio do falso.
[11] No Apocalipse:
“Não fizeram penitência dos seus homicídios, nem dos seus encantamentos, nem das suas escortações, nem dos seus furtos” (9:21);
os ‘homicídios’ estão pelos males que destroem os bens; os ‘encantamentos’ estão pelos falsos que destroem os veros; as ‘escortações’ estão pelos veros falsificados; os ‘furtos’, pelos bens que, por isso, são alienados.
[12] Em João:
“Amém, amém, vos digo: Quem não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outro lugar, esse é ladrão e salteador; quem, porém, entra pela porta, é o pastor das ovelhas. Eu sou a entrada; por Mim, se alguém tiver entrado, será salvo, e entrará e saíra, e pasto encontrará; um ladrão não vem senão para furtar, e matar e destruir” (10:1, 2, 7, 9, 10);
aqui também o ‘ladrão’ está no lugar do mal do mérito, pois aquele que arrebata ao Senhor as coisas que Lhe pertencem e as reivindica a si é dito ‘ladrão’. Esse mal, porque fecha o caminho, para que o bem e vero que procede do Senhor não influa, se diz dele ‘matar e destruir’. Por ‘não furtarás’, no Decálogo (Dt. 5:17 [Em JFA, 5:19]), é significada semelhante coisa (n. 4174). Por essas explicações, pode-se ver o que é significado, no sentido espiritual, pelas Leis dadas na Igreja Judaica a respeito dos furtos (por exemplo, Êx. 21:16, 37; 22:1, 2, 3; Dt. 24:7), porquanto todas as Leis ali tiram a origem do mundo espiritual, correspondem às leis da ordem que há no céu.