Texto
. ‘E aparou[-se]’; que signifique a rejeição e a mudança quanto às coisas que são do exterior natural, vê-se pela significação de ‘aparar’, a saber, [os cabelos e pelos] da cabeça e da barba, que é rejeitar as coisas que são do exterior natural; com efeito, o cabelo ou pelo que era aparado significa este natural (n. 3301); e mesmo o pelo tanto da cabeça como da barba corresponde, no Máximo Homem, ao exterior natural; é até por isso que os homens sensuais, isto é, aqueles que nada mais creram senão o que é natural, nem quiseram entender que existe alguma coisa mais interior ou mais pura do que o que eles podem compreender pelos seus sentidos, esses aparecem na outra vida, na luz do céu, cobertos de pelo a tal ponto que as faces dificilmente são outra coisa senão pelo de barba. Vi muitas vezes tais faces peludas; porém, aqueles que foram homens racionais, isto é, espirituais, entre os quais o natural tinha sido regularmente subordinado, esses aparecem decentemente penteados525; e mais, pela cabeleira, na outra vida, pode-se conhecer quais são os espíritos quanto ao natural. Que os espíritos apareçam com uma cabeleira, é porque na outra vida os espíritos aparecem absolutamente como os homens na terra; daí também vem que os anjos que foram vistos são descritos na Palavra, por vezes, também quanto a cabeleira.
[2] A partir dessas explicações, pode-se ver o que significa ‘aparar’, por exemplo, em Ezequiel:
“Os sacerdotes Levitas, filhos de Sadok, despirão as suas vestimentas nas quais servem ministrando, e repô-las-ão nas câmaras de santidade, e vestirão outras vestes; não santificarão o povo com as suas vestes; e não rasparão a sua cabeça, e a cabeleira não deixarão [crescer], APARANDOapararão as suas cabeças” (44:19, 20);
aí se trata do novo templo e do novo sacerdócio, isto é, de uma nova igreja, onde ‘vestir outras vestes’ significa os santos veros; ‘não raspar a cabeça’, ‘não deixar [crescer] a cabeleira’, mas ‘aparando aparar as cabeças’ significa não rejeitar o natural, mas acomodar para que concorde, assim, subordinar. Qualquer um que crê que a Palavra é santa pode ver que nessas passagens e nas restantes acerca da nova terra, da nova cidade, e sobre o novo templo e o novo sacerdócio, no Profeta, as coisas não devem de modo algum ser compreendidas como elas são lembradas aí na letra, por exemplo, que os sacerdotes Levitas, filhos de Zadok, ali exercerão o seu ministério, e que então despirão as vestimentas do ministério e vestirão outras, e que apararão as cabeças, mas sim que ali todas e cada uma das coisas significam arcanos que pertencem à nova igreja.
[3] As coisas que foram instituídas a respeito do sumo sacerdote, dos filhos de Aharão e dos Levitas, em Moisés:
“O sumo sacerdote dentre os seus irmãos, sobre cuja cabeça foi derramado o óleo da unção e encheu a sua mão para vestir as vestimentas, não raspará a sua cabeça, e não rasgará as suas vestimentas” (Lv. 21:10);
“Os filhos de Aharão não revestirão a calvície na sua cabeça, nem rasparão o canto da sua barba; santos serão ao seu Deus, nem profanarão o nome do seu Deus” (Lv. 21:5, 6);
“Purificarás assim os Levitas: Esparge sobre eles as águas da expiação, e farão passar a navalha sobre a sua carne, e lavarão assuas vestimentas, e serão puros” (Nm. 8:7);
isso não teria sido ordenado se não tivesse em si coisas santas; que o sumo sacerdote não rapasse a sua cabeça e não rasgasse as suas vestimentas; que os filhos de Aharão não revestissem sua calvície e não raspassem o canto da barba; e que os Levitas, quando fossem purificados, faziam passar a navalha sobre a carne, o que havia nisso de santo? e o que havia da igreja nisso? Mas ter o homem externo ou natural subordinado ao interno (ou espiritual) e, assim, um e o outro subordinado ao Divino, isso é santo, o que também os anjos percebem quando essas passagens da Palavra são lidas pelo homem.
[4] O mesmo se diz do nazireu, que ele seria santo a JEHOVAH que
“se algum fosse morto perto dele por acidente subitamente, e manchasse a cabeça de seu nazireado, que apararia a sua cabeça no dia de sua limpeza, que no sétimo dia a apararia; ...Depois, que o nazireu, no dia em que fossem cumpridos os dias de seu nazireado,... apararia, à entrada da tenda de convenção, a cabeça de seu nazireado, e tomaria os cabelos de sua cabeça, ...e os poria sobre o fogo que [está] sob o sacrifício dos pacíficos” (Nm. 6:8, 9, 13, 18);
o que era o nazireado, e o que de santo ele representava, foi visto (n. 3301). Que a santidade [sanctum] consistia nos seus cabelos, nunca pode ser compreendido se não se souber o que o cabelo é pela correspondência, assim, a que santidade o cabelo do nazireu correspondia; igualmente, não se pode compreender de que modo a força de Sansão provinha dos cabelos, a respeito dos quais ele diz a Dalila:
“A navalha não subiu sobre a minha cabeça, porque nazireu de Deus eu [sou] desde o útero da minha mãe; se se raspar,a força se apartará de mim, e ficarei fraco, e serei como qualquer homem. ...E Dalila chamou um varão que cortou sete tranças da cabeça dele, e retirou-se a força dele de sobre ele. ... E depois, quando começou o cabelo da sua cabeça a crescer, como foi rapado, a forçavoltou para ele” (Jz. 16:17, 19, 22, 28).
Quem, sem a cognição proveniente da correspondência, pode conhecer que o Senhor, quanto ao Divino Natural, era representado pelo nazireu, e que o nazireado não tenha sido outra coisa, e que a força de Sansão provinha desse representativo?
[5] Quem não sabe e, mais ainda, quem não crê que há um sentido interno da Palavra, e que o sentido da letra seja representativo das coisas que estão no sentido interno, dificilmente reconhecerá alguma coisa de santo nessas passagens; entretanto, há nelas o que há de mais santo. Aquele que não sabe e, mais ainda, quem não crê que a Palavra tem um sentido interno, que é santo, não pode saber o que as palavras seguintes trazem em seu seio, como estas em Jeremias:
“Pereceu a verdade, e foi cortada da boca deles; corta os cabelos do teu nazireado, e lança-os” (7:28, 29).
Em Isaías:
“Nesse dia o Senhor rapará com uma navalha mercenária nas passagens do rio, pelo rei de Asshur, a cabeça e os pelos dos pés e, também, consumirá a barba” (7:20).
Em Miqueias:
“Veste a calvície, e apara-te por causa dos filhos das tuas delícias; alarga a tua calvície como a águia, porque emigraram de ti” (1:16);
E, além disso, não saberá também o que envolve de santo o que é lembrado a respeito de Elias, que era “um varão coberto de pelos e cingido de um cinto de couro ao redor dos seus lombos” (2Rs. 1:8); nem por que “os meninos que chamavam Eliseu de ‘calvo’ foram despedaçados por ursos vindos da floresta” (2Rs. 2:23, 24).
[2] Por Elias e por Eliseu era representado o Senhor quanto à Palavra, assim, por eles era representada a Palavra, em especial a Palavra profética (ver o prefácio ao cap. 18 de Gênesis e o n. 2762). ‘Coberto de pelo e o cinto de couro’ significava o sentido literal; o ‘varão coberto de pelo’ o significava quanto aos veros, e o ‘cinto de couro ao redor dos lombos’ o significava quanto aos bens; com efeito, o sentido literal é o sentido natural, pois se compõe de coisas que estão no mundo, e o sentido interno é o sentido espiritual, porque se compõe de coisas que estão no céu. Esses dois sentidos são, entre si, como o interno e o externo no homem, e como não há interno sem externo, pois o externo é o último da ordem em que subsiste o interno, era ignominioso contra a Palavra chamar a Eliseu calvo, como se estivesse sem externo, assim, como se a Palavra estivesse sem um sentido adequado à concepção do homem.
[7] A partir dessas explicações se pode ver que cada uma das expressões da Palavra são santas; mas a santidade que está em cada expressão não se mostra ao entendimento, a não ser para o homem que conhece o seu sentido interno. Contudo, ela se mostra à apercepção por um influxo oriundo do céu para aquele que crê ser a Palavra santa; esse influxo se opera por meio do sentido interno em que estão os anjos, e embora esse sentido não seja entendido pelo homem, ainda assim ele afeta, porque a afeição dos anjos que estão nesse sentido é comunicada. Daí é também evidente que a Palavra tenha sido dada ao homem para que ele tivesse comunicação com o céu, e para que o Divino Vero, que está no céu, afete [o homem] por meio do influxo.