Texto
. ‘E disse: Paz [seja] convosco. Não temais’; que signifique que vai bem, que não devam se desesperar, vê-se pela significação de ‘paz’, que é o bem-estar, de que se tratará no que segue; e pela significação de ‘não temais’, que é que eles não devem se desesperar. Com efeito, trata-se, no sentido interno, da mudança de estado, que eles não deviam mais adquirir os veros pelo próprio poder, nem o bem por meio dos veros, mas que esses seriam dados vindos do Senhor; e como eles acreditaram que desse modo eles perderiam o proprium, portanto, o livre, consequentemente, todo prazer da vida, eles ficaram em desespero, como se vê claramente pelas coisas que precedem. Daí vem que aqui por ‘não temais’ é significado que não deviam se desesperar. Visto que o temor tem origem em várias causas (n. 5647); por isso significa várias coisas.
[2] Que a ‘paz’ seja o bem-estar, é porque é o íntimo e, portanto, o que reina universalmente em todos e em cada um no céu. Com efeito, a paz é no céu como é na terra a primavera, ou como a aurora, as quais afetam não por variedades sensíveis, mas por um agrado universal que influi em cada uma das coisas que são percebidas e que enche de suaves encantos não somente a percepção mesma, mas também cada um dos objetos. Hoje dificilmente haverá alguém que saiba o que é a ‘paz’ nos lugares em que ela é mencionada na Palavra, por exemplo, na bênção:
“Eleve a JEHOVAH as Tuas faces sobre ti, e ponha em Ti a paz” (Nm. 6:26);
e em outras passagens. Quase todos creem que a paz consiste em estar em segurança em relação aos inimigos, e que seja a tranquilidade em casa e entre os companheiros; mas não é essa a paz que ali se entende, realmente é uma paz que transcende imensamente essa paz, é a paz celeste de que se tratou logo acima. Esta paz não pode ser dada a ninguém a não ser àquele que é conduzido pelo Senhor e está no Senhor, isto é, no céu onde o Senhor é tudo em todas as coisas. Com efeito, a paz celeste influi quando as cobiças oriundas do amor de si e do mundo foram arrebatadas, pois são elas que tiram a paz, uma vez que infestam os interiores do homem e fazem com que, enfim, ele ponha o repouso na inquietação, e a paz nas coisas que atormentam, porque ele põe o prazer nos males. Enquanto o homem está nesses males, ele não pode de modo algum saber o que é a paz, e mesmo durante muito tempo crê que essa paz nada seja; e se alguém lhe disser que então essa paz vem à percepção quando os prazeres que vêm do amor de si e do amor do mundo foram arrebatados, ele ri; a causa é porque põe a paz no prazer do mal, que é o oposto da paz.
[3] Como tal é a paz, a saber, o íntimo de todas as felicidades e de todas as bem-aventuranças, e, portanto, o que reina universalmente em cada coisa, por isso os antigos empregavam como fórmula de uso comum dizer “Paz a vós”, quando entendiam que ‘havia bem’, e perguntar “há bem?”, quando entendiam ‘se tinham paz’. (Vejam-se as coisas que foram ditas e demonstradas anteriormente a respeito da ‘paz’, a saber: que a paz nos céus é equivalente à primavera e a aurora na terra, n. 1726, 2780; que a paz seja, no sentido supremo, o Senhor, no sentido representativo, o Reino do Senhor, e que seja o Divino do Senhor afetando o bem pelo íntimo, n. 3780, 4681; que toda inquietação proceda do mal e do falso, mas a paz procede do bem e do vero, n. 3170).