AE 107

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. (Vers. 6) "Mas [isto] tens, que odeias as obras do nicolaítas, as quais Eu também odeio". Que isto signifique a aversão, por parte do Divino, daqueles que separam o bem do vero, ou a caridade da fé, do que não resulta a vida, pode-se ver pela significação de '[isto] tens, que odeias', que é a aversão. Que seja a aversão por parte do Divino é porque se diz 'as quais também Eu odeio'; pela significação de 'obras', que são as coisas que pertencem à mente, de onde as obras procedem (de que se tratou acima, nº 98); pela significação de 'nicolaítas', que são os que separam o bem do vero, ou a caridade da fé. Os que fazem isso não têm vida. Que não tenham vida é porque toda vida espiritual pertence à caridade e não à fé separada, pois a fé é saber e pensar, mas a caridade é querer e fazer. Os que separam a caridade da fé não sabem absolutamente o que faz o céu e a igreja no homem, portanto, o que é a vida espiritual, porquanto não pensam dentro de si, mas fora de si. Pensar fora de si é fazê-lo somente pela memória, pois ela está fora do homem, como um átrio pelo qual se entra na casa e em seus cômodos. E no pensamento que está fora do homem o céu não pode influir, uma vez que o céu influi nas coisas que estão dentro do homem e, por elas, nas que estão fora dele. Daí é que não podem ser instruídos quanto a o que faz o céu e a igreja, ou a vida eterna, pois cada um é instruído do céu, isto é, pelo céu desde o Senhor, sobre as coisas que pertencem à vida eterna, assim, pelo caminho de sua vida, que é pelo caminho da alma e de seu coração. Muito se engana aquele que crê que os que separam a caridade da fé possam estar nas cognições do vero, pois percebem todas as coisas por si mesmo e nada pelo céu, e as coisas que o homem percebe por si e não pelo céu são coisas falsas, porque pensam nas trevas e não na luz. Do céu vem toda luz sobre as coisas que são da igreja.
[2] Há muitos na igreja que até dizem que a caridade é o essencial da igreja e não a fé separada, mas crer nisso e dizer isso, e não viver a vida da caridade, é somente dizer e não fazer disso o essencial. Por isso, esses se acham na mesma condição daqueles que dizem que a fé é o essencial, porque, para esses, a caridade é da fé somente e não da vida; por esse motivo, tampouco podem ser esclarecidos. No mundo espiritual, nesses aparece uma certa claridade nívea, como uma luz, mas essa luz, de que vem a claridade nívea, é natural, e é tal que, quando influi a luz do céu, que é a luz espiritual, muda-se em trevas. Esses, ali, habitam para à esquerda, quase no ângulo do setentrião e do ocidente, e são inteligentes na medida em que aplicaram à vida as cognições do vero e do bem.
[3] Todos os que estão nas cognições do vero e do bem e não no bem da vida segundo eles podem viver a vida moral, igualmente àqueles que estão nas cognições e, por eles, no bem da vida. Entretanto, a vida moral deles é natural e não espiritual, porquanto não vivem sua vida pela religião bem, sincera e justamente, e os que não vivem bem pela religião não podem ser conjuntos ao céu, porque a religião faz o homem espiritual e o conjunta aos anjos, que são somente espirituais. Viver bem pela religião é pensar, querer e fazer, porque assim foi prescrito na Palavra e porque assim o Senhor ordenou. Mas, não viver pela religião é pensar, querer e fazer somente por causa das leis civis e morais. Esses, como não consideram outra coisa senão estas, conjuntam-se, por isso, somente ao mundo, para o qual essas leis existem, mas aqueles consideram o Senhor e, assim, conjuntam-se a Ele. Que os gentios sejam salvos é unicamente pelo fato de em sua vida considerarem a religião, pensando e dizendo que se deve fazer assim e não de outra maneira, por ser esta contra as leis de sua religião, assim, contra o Divino. E quando pensam e, assim, fazem isso, imbuem-se da vida espiritual que, neles, é tal que, depois, no mundo espiritual, recebem os veros mais do que os cristãos que, quando fazem algo, não pensam pela Palavra e pela doutrina da igreja que procede da Palavra.
[4] Os que não pensam pela religião não têm consciência, porque não são espirituais. Por isso, se os seus vínculos externos, que existem por causa da lei e da reputação, lhes forem removidos, precipitam-se em tudo o que é errado. Mas, ao contrário, se daqueles que pensam pela religião forem tirados os vínculos externos, que são os temores por causa da lei e da reputação, ainda assim agem bem, sincera e justamente, pois temem a Deus e são mantidos na vida da obediência e da caridade pelo céu desde o Senhor, a Quem são conjuntos. Que aqueles que separam a caridade da fé sejam chamados 'nicolaítas' é principalmente por causa do som deste vocábulo no céu, pois soa pelo vero ou pela fé, e não pelo bem ou pela caridade. Que pelos vocábulos na Palavra seja possível saber se envolvem o bem ou o vero, assim, também, se um é separado do outro, vide, na obra O Céu e o Inferno, o nº 241.

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