AE 118

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. "E pobreza, mas és rico". Que isto signifique o reconhecimento de que nada sabem por si vê-se pela significação de 'pobreza', que é o reconhecimento de coração de que nada se sabe por si (de que se tratará a seguir); e pela significação de 'mas és rico', que é a afeição do vero espiritual (de que também se tratará a seguir). Que pela 'pobreza', aqui, se entenda a pobreza espiritual, e que por 'ser rico' se entenda ser rico espiritualmente, é evidente, porquanto essas coisas se dizem à Igreja. Ser pobre espiritualmente e, todavia, ser rico é reconhecer de coração que por si mesmo nada se sabe, entende ou conhece, mas que sabe, entende e conhece inteiramente pelo Senhor. Nesse reconhecimento estão todos os anjos do céu; por isso, também, são inteligentes e sábios, e isto na medida em que estão no reconhecimento e na percepção de que assim é. Com efeito, eles sabem e percebem que nada do vero que é da fé e do bem que é do amor vêm de si mesmos, mas do Senhor, e que todas as coisas que eles entendem e sabem se referem ao vero da fé e ao bem do amor. Assim, sabem também que têm toda inteligência e sabedoria pelo Senhor; e como sabem e reconhecem isso, e também amam e querem isso, por isso o Divino Vero do Senhor influi continuamente, do que vêm a inteligência e a sabedoria, as quais eles recebem na medida em que são afetados, isto é, na medida em que as amam. Ao contrário, porém, os espíritos infernais crêem que todas as coisas que pensam, querem e, assim, falam e fazem, são provenientes deles mesmos e nada de Deus, pois não crêem no Divino. Por isso, também, em lugar da inteligência e da sabedoria eles têm insanidade e estultícia. Com efeito, pensam contra o vero e querem contra o bem, o que é ser insano e estulto. Faz semelhantemente todo homem que está no amor de si; esse, porque visa a si somente, não deixa de atribuir todas as coisas a si; e, porquanto faz isso, não está em reconhecimento algum de que toda inteligência e sabedoria vêm do Senhor. Daí também é que, quando pensam consigo mesmos, pensam contra os veros da igreja e do céu, ainda que digam coisa diferente quando falam com os homens, a fim de não perderem a reputação.
[2] Por aí se pode saber o que se entende pela 'pobreza' no sentido espiritual. Que aquele que é espiritualmente pobre seja, porém, rico, é porque está na afeição do vero espiritual, pois a inteligência e a sabedoria do Senhor influem nessa afeição. Com efeito, a afeição de cada um recebe e absorve as coisas que lhe são convenientes tal como a esponja absorve a água; assim, a afeição do vero espiritual absorve os veros espirituais que são os veros da igreja provenientes da Palavra. Que a afeição do vero espiritual não venha de outra origem senão do Senhor é porque o Senhor no céu e na igreja é o Divino Vero, pois este procede d'Ele. E visto que o Senhor ama conduzir cada um a Si e salvá-lo, e não pode fazer isso senão pelas cognições do vero e do bem da Palavra, por isso Ele ama insinuá-los no homem e fazer deles a sua vida, porque assim, e não de outro modo, Ele pode conduzir alguém a Si e salvá-lo. Daí é evidente que toda afeição do vero espiritual é proveniente do Senhor, e ninguém pode estar nela se não reconhecer o Divino do Senhor em Seu Humano, pois por este reconhecimento há conjunção e, segundo a conjunção, há a recepção. Mas, a respeito deste assunto, vide muitas coisas na obra O Céu e o Inferno, onde se tratou da sabedoria dos anjos do céu, nºs 265-275; dos sábios e dos simples no céu, nºs 346-356; e, além disso, ali, nos nºs 13, 19, 25, 26, 133, 139, 140, 205, 297, 422, 523 e 603; e na Doutrina da Nova Jerusalém, nºs 11-27; e acima, na Explicação do Apocalipse, nºs 6, 59, 112, 115 e 117.
[3] Em vários lugares da Palavra são nomeados os 'pobres e necessitados, como também os 'famintos e sedentos'. Pelos 'pobres e necessitados' são significados aqueles que nada sabem porque não têm a Palavra; e pelos 'famintos e sedentos' são significados aqueles que desejam continuamente os veros e serem por eles aperfeiçoados. Estes e aqueles são os que se entendem pelos 'pobres', 'necessitados', 'famintos' e 'sedentos' nestas passagens:
"Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus; bem-aventurados os famintos e sedentos de justiça, porque serão saciados" (Mt. 5:3, 6);
"Aos pobres é pregado o Evangelho." "E os pobres ouvem o Evangelho" (Lc. 7:22; Mt. 11:15).
O pai de família disse ao servo que fosse às praças e ruas da cidade e introduzisse os pobres (Lc. 14:21);
"Então os primogênitos do pobre serão apascentados, e os necessitados deitar-se-ão seguros" (Is. 14:30);
"Tive fome e Me deste de comer; tive sede e Me deste de beber" (Mt. 25:35);
"Os pobres e os necessitados buscam água, e não há; a sua língua padece de sede; Eu, JEHOVAH os ouvirei (...) abrirei rios sobre os altos, e no meio dos vales porei fontes" (Is. 41:17-18).
Por esta última passagem é evidente que os 'pobres e necessitados' são aqueles que desejam as cognições do bem e do vero, pois a 'água', que eles buscam, é o vero; (que a 'água' seja o vero da fé, vide acima, nº 71). O desejo deles é descritos por 'sua língua padece de sede', e a abundância que haveriam de ter por 'serem abertos rios sobre os altos, e fontes no meio dos vales'.
[4] Os que não sabem que pelos 'ricos' são significados aqueles que têm a Palavra e, assim, podem estar nas cognições do vero e do bem, e que pelos 'pobres' são significados os que não têm a Palavra e, todavia, desejam os veros, não podem saber outra coisa senão que pelo 'rico' (Lc. 16:19 e seq.) 'que se vestia de púrpura e linho fino' se entendem os ricos no mundo, e pelo 'pobre atirado ao seu vestíbulo e que desejava saciar-se com a migalhas que caiam da mesa do rico' se entendem os pobres no mundo. Mas, ali, pelo 'rico' se entende a nação judaica, que tinha a Palavra e podia, daí, estar nas cognições do vero e do bem, e pelo 'pobre' se entendem ali as nações que não tinham a Palavra e, contudo, desejavam as cognições do vero e do bem. Que o rico tenha sido descrito como 'vestido de púrpura e linha fino' é porque a 'púrpura' significa o bem genuíno (nº 9467), e o 'linho fino' o vero genuíno (nºs. 5319, 9469, 9596 e 9744), ambos provenientes da Palavra. E que o pobre tenha sido descrito como 'atirado ao vestíbulo do rico, desejando saciar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico' era porque 'ser atirado no vestíbulo' é ser rejeitado e ser privado da leitura e do entendimento da Palavra; e 'querer saciar-se com as migalhas da mesa do rico' é desejar alguns veros dali, pois a 'comida' significa as que coisas que pertencem à ciência, à inteligência e à sabedoria e, em geral, o bem e o vero (nºs. 3114, 4459, 4792, 5147, 5293, 5340, 5342, 5410, 5426, 5576, 5582, 5588, 5655, 8562 e 9003); e 'mesa' significa o receptáculo delas (nº 9527). Como o pobre estava nesse desejo, que é o mesmo que a afeição do vero espiritual, por isso se diz dele que 'foi levado pelos anjos ao seio de Abrahão', pelo que é significado estar no estado angélico quanto a inteligência e à sabedoria; o 'seio de Abrahão' é o Divino Vero que está no céu, pois os que estão nele estão no Senhor. Que 'Abrahão', na Palavra, signifique o Senhor, vide nºs 2010, 2833, 2836, 3245, 3251, 3305, 3439, 3703, 6098, 6185, 6276, 6804 e 6847.
[5] O que é significado aí pelo 'rico' e pelo 'pobre faminto' é o mesmo que é significado pelos 'ricos' e 'famintos' em Lucas:
"Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos" (Lc. 1:53).
Que pelas 'riquezas' na Palavra se entendam as riquezas espirituais, que são as cognições do vero e do bem provenientes da Palavra, vê-se nos nºs 1094, 4508 e 10227; e, na obra O Céu e o Inferno, nº 365. E, no sentido oposto, as cognições do falso e do mal que se confirmam pelo sentido da letra da Palavra, nos Arcanos Celestes, nº 1694. Que as 'riquezas' na Palavra signifiquem as cognições do vero e do bem e, daí, a inteligência e a sabedoria, isto vem da correspondência, pois no céu todas as coisas aparecem aos anjos como fulgurantes de ouro, prata e pedras preciosas, e isto na medida em que estão na inteligência do vero e na sabedoria do bem. Também com os espíritos, que estão abaixo dos céu, há riquezas em aparência segundo a recepção neles do vero e do bem do Senhor.

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