AE 152

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. "Que tem Seus olhos como chama de fogo". Isto significa a Divina Providência proveniente do Seu Divino Amor e a Divina sabedoria e a inteligência comunicadas àqueles que estão no amor e, daí, na fé n 'Ele. Que 'olhos como chama de fogo', quando se trata do Senhor, seja Sua Divina Providência proveniente do Seu Divino amor, vê-se acima (nº 68); que seja, também, a Divina sabedoria e inteligência comunicada àqueles que estão no amor e, daí, na fé n'Ele é porque na Palavra, quando se trata dos homens, pelos 'olhos' é significado o entendimento do vero, e o entendimento do vero é a inteligência e a sabedoria. Assim, quando se trata do Senhor, pelos 'olhos' é significada a Divina sabedoria e inteligência procedente d'Ele, e o que procede d'Ele é comunicado aos anjos e homens que estão no amor e, daí, na fé n'Ele. Além disso, toda inteligência e sabedoria que os anjos e os homens têm não lhes pertence, mas pertence ao Senhor neles. Isto também é notório na igreja, porquanto se sabe que todo bem que é do amor e todo vero que é da fé são provenientes de Deus e não do homem. Os veros vistos e reconhecidos interiormente fazem a inteligência, e esta, unida aos bens interiormente percebidos e, assim, vistos, fazem a sabedoria. Assim é, então, que 'ter olhos como chama de fogo' significa também a Divina sabedoria e inteligência do Senhor comunicada àqueles que estão nos bens do amor e, assim, na fé n'Ele.
[2] Que os 'olhos' signifiquem o entendimento é porque daí vem toda visão dos olhos nos homens e nos anjos. Que toda visão dos olhos venha daí é algo que parece um paradoxo para aqueles que não conhecem as causas das coisas interiores, cujos efeitos se apresentam no corpo. Os que as não conhecem não crêem outra coisa senão que o olho vê por si, o ouvido ouve por si, a língua saboreia por si e o corpo sente por si, quando, todavia, é a vida interior do homem - que é a vida de seu espírito e a vida de seu entendimento e de sua vontade, ou do pensamento e da afeição - que sente, por meio dos órgãos do corpo, as coisas que estão no mundo e, assim, as percebe naturalmente. O corpo todo, com todos os seus sentidos, é somente um instrumento de sua alma ou de seu espírito. Esta é, também, a razão por que, quando o espírito do homem se separa do corpo, o corpo não sente absolutamente coisa alguma, e em seguida o espírito sente do mesmo modo que antes. (O espírito do homem vê, ouve e sente, após o desprendimento do corpo, do mesmo modo que antes no corpo, como se vê na obra O Céu e o Inferno, nºs 461-469. Além disso, a respeito da correspondência do entendimento com a visão do olho, vê-se nos Arcanos Celestes, nºs 4403-4421 e 4523-4534). Também nos animais, sua vida interior, que também se chama sua alma, sente igualmente por meios dos órgãos externos de seu corpo, mas com a diferença de que não o fazem racionalmente como o homem, por conseguinte, não pelo entendimento e pela vontade, como os tem o homem (vê-se na obra O Céu e o Inferno, nº 108, e, no Juízo Final, nº 25).
[3] Assim é, pois, que pelo 'olho', na Palavra, é significado o entendimento do vero, ou a inteligência e sabedoria, como se pode ver pelas seguintes passagens. Em Isaías:
"Dize a este povo: Ouvindo, ouvis, mas não entendeis, e vendo, vedes e não conheceis; engorda o coração desse povo e endurece seus ouvidos, e cobre os seus olhos, para que talvez não vejam com seus olhos" (Is. 6:9, 10; Jo. 12:40);
'cobrir os olhos para que talvez não vejam com seus olhos' é escurecer o entendimento para que não entendam.
[4] No mesmo:
"JEHOVAH derramou sobre vós um espírito de sonolência e fechou os vossos olhos; cobriu os profetas e vossas cabeças, os que vêem" (Is. 29:10);
'fechou os olhos, cobriu os profetas e cabeças, os que vêem' é o entendimento do vero; 'profetas' são também aqueles que ensinam os veros, que também se chamam 'cabeças' porque a cabeça significa a inteligência; e são também chamados 'os que vêem' por causa da revelação do Divino Vero com eles.
[5] No mesmo:
"Os olhos dos que vêem não se fecharão, e os ouvidos dos que ouvem escutarão" (Is. 32:3);
'os olhos dos que vêem' estão em lugar dos que entendem os veros. No mesmo:
"Que fecha os seus olhos para que não vejam o mal; (...) teus olhos verão o rei em sua beleza" (Is. 33:15,17);
'fechar os olhos para que não vejam o mal' é não admitir o mal no pensamento; 'os olhos verão o rei em sua beleza' é que haverão de entender o vero em sua luz com amenidade, pois pelo 'rei' aí não se entende um rei, mas o vero (vê-se acima, nº 31).
[6] Em Jeremias:
"Ouvi isto, povo insensato, que não tem coração, cujos olhos não ouvem e cujos ouvidos não ouvem" (Jr. 5:21; Ez. 12:2);
nas Lamentações:
"Caiu a coroa de nossa cabeça; por isso ficou enfraquecido o nosso coração, e por isso se escureceram os nossos olhos" (Lm. 5:16, 17);
a 'coroa da cabeça' é a sabedoria (vê-se acima, nº 126); o 'coração enfraquecido' é que não existe mais a vontade do bem. (Que o 'coração' seja a vontade e o amor, vê-se na obra O Céu e o Inferno, nº 95). Os 'olhos' são o entendimento do vero, os quais se dizem 'escurecidos' quando o vero não é mais compreendido.
[7] Em Zacarias:
"Castigo do pastor que abandona o rebanho; a espada sobre o seu olho direito (...) e o olho direito, escurecendo-se, escurecer-se-á" (Zc. 11:17);
a 'espada sobre o olho direito, e o olho direito, escurecendo-se, escurecer-se-á' é que todo vero no entendimento há de perecer pelo falso. Que a 'espada' seja a destruição do vero pelo falso, vê-se acima, nº 131.
[8] No mesmo:
"A praga com que JEHOVAH ferirá todos os povos que combaterão contra Jerusalém (...) seus olhos mirrarão nas suas órbitas" (Zc. 14:12);
os 'povos que combaterão contra Jerusalém' são aqueles que são contra a igreja; 'Jerusalém' é a igreja; os seus 'olhos' que 'mirrarão' é que a inteligência perecerá, pois eles lutam pelos falsos contra os veros.
[9] Em Zacarias:
"Ferirei de espanto a todo cavalo, de cegueira a todo cavalo dos povos" (Zc. 12:4);
trata-se aí da vastação da igreja; pelo 'cavalo' é significado o entendimento; por isso, que 'o cavalo seja ferido de espanto' e de 'cegueira' se diz com relação ao entendimento. Que o 'cavalo' signifique o entendimento, vê-se no opúsculo Do Cavalo Branco, nºs 1-5).
[10] Em David:
"Ouve-me, JEHOVAH, meu Deus; ilumina os meus olhos, para que acaso eu não adormeça na morte" (Sl. 13:4);
'ilumina os olhos' é o entendimento. Em Moisés:
"Não aceitarás presente, porque o presente cega os olhos dos sábios" (Dt. 16:19);
'cegar os olhos dos sábios' é que não vêem ou entendem o vero.
[11] Em Mateus:
"A candeia do corpo é o olho; se o olho for simples, todo o corpo é iluminado; se o olho for mal, todo o corpo é escurecido; se pois o lume são trevas, quão grandes trevas [serão]" (Mt. 6:22, 23; Lc. 11:34);
aqui, pelo 'olho' não se entende o olho, mas o entendimento; pelo 'olho simples', o entendimento do vero; pelo 'olho mal' o entendimento do falso; as 'trevas' são os falsos; 'todo o corpo' é todo o espírito, pois é todo tal qual é sua vontade e, daí, o entendimento: se tem entendimento do vero proveniente da vontade do bem é um anjo de luz; se, porém, tem entendimento do falso é um espírito dos trevas. Essas palavras descrevem a reforma do homem por meio do entendimento do vero. Daí é evidente que aquele que sabe o que o 'olho' significa pode conhecer os arcanos dessas palavras. Que o homem seja reformado por meio dos veros no entendimento vê-se acima (nºs. 112 e 126).
[12] Em Mateus:
"Se o olho direito te escandalizar, arranca-o e lança-o de ti, pois é melhor entrar na vida tendo um olho só do que, tendo dois olhos, ser lançado na Geena de fogo" (Mt. 5:29; 18:9; Mc. 9:47);
tampouco aqui pelo 'olho' se entende o olho, mas o entendimento que pensa; pelo 'olho direito que escandaliza', o entendimento que pensa o mal; 'arrancá-lo e lançá-lo de si' é não admitir, mas rejeitar tal coisa; 'tendo um olho só' é o entendimento que não pensa no mal, mas somente no vero, pois o entendimento pode pensar no vero; se pensa no mal é pela vontade do mal; que se diga olho 'direito' é porque por ele é significado o entendimento do bem, e, pelo 'esquerdo' o entendimento do vero (vê-se nos nºs 4410 e 6923).
[13] Em Isaías:
"Naquele dia, os surdos ouvirão as palavras do livro, e desde a escuridão e as trevas os olhos dos cegos verão" (Is. 29:18);
no mesmo:
"Então se abrirão os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos" (Is. 35:5);
no mesmo:
"Dar-te-ei (...) por luz das nações, para abrir os olhos dos cegos e para tirar do cárcere o acorrentado, e da casa da clausura os que se assentam nas trevas" (Is. 42:6, 7);
no mesmo:
"Faze sair o povo cego que tem olhos, e os surdos que têm ouvidos" (Is. 42:6, 7);
'abrir os olhos dos cegos' é instruir os que ainda ignoram os veros e, no entanto, os desejam, assim, as nações. Coisa semelhante é significada pelas curas dos cegos operadas pelo Senhor (Mt. 9:27-29; 20:29 ao fim; 21:14; Mc. 8:23, 25; Lc.18:35 ao fim; Jo. 9:1-21), pois todos os milagres do Senhor envolviam coisas tais que pertencem à igreja e ao céu, assim, que eram Divinas (vê-se nos nºs 7337, 8364 e 9031).
[14] Como o 'olho' significava o entendimento, por isso entre os estatutos com os filhos de Israel havia este,
Que o cego ou o defeituoso do olho, da semente de Aarão, não se chegaria para oferecer sacrifício nem entraria até o véu (Lv. 21:17-23);
como também entre as maldições havia esta:
"Febre que consome os olhos" (Lv. 26:16).
Por aí se pode ver agora o que é significado pelos 'olhos do Filho do homem que são como chama de fogo', a saber, que a Divina sabedoria e inteligência é comunicada àqueles que estão no amor e, assim, na fé no Senhor.
[15] Que também seja significada a Sua Divina Providência vê-se pelas coisas que foram mostradas acima (nº 68). A elas se deve acrescentar o que se diz a respeito dos querubins em Ezequiel e dos quatro animais em redor do trono, no Apocalipse, pelos quais é também significada a Divina Providência do Senhor e, em particular, a guarda, a fim que não haja acesso ao Senhor a não ser pelo bem. Em Ezequiel:
"Vi, e eis quatro rodas junto aos querubins; (...) toda a carne delas, e as suas costas, e as suas mãos, e as suas asas, e as rodas, eram cheias de olhos em redor" (Ez. 10:9, 12);
e, no Apocalipse,
"Em redor do trono havia quatro animais cheios de olhos por diante e por detrás; cada um tinha (...) asas cheias de olhos ao redor e por dentro" (Ap. 6:6, 8).
Esses quatro 'animais' também eram querubins, pois a descrição deles é quase a mesma que a dos querubins em Ezequiel. São atribuídos tantos 'olhos' a eles porque a Divina Providência do Senhor, que é significada pelos 'querubins' é governar todas as coisas nos céus e nas terras pela Divina Sabedoria. Com efeito, pela Divina Providência o Senhor vê todas as coisas, dispõe todas as coisas e propicia todas as coisas. (Pelos 'querubins' é significada a Divina Providência do Senhor e, em particular, a guarda para que não haja acesso ao Senhor senão pelo bem, como se vê nos nºs 9277, 9509 e 9673).

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