AE 151

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. "Isto diz o Filho do homem". Que isto signifique o Senhor quanto ao Divino Humano, de que vem a igreja, vê-se pela significação de 'Filho do homem', que é o Senhor quanto ao Divino Humano e quanto ao Divino Vero, porque este procede d'Ele (de que se tratou acima, nº 63); que também de quem vem a igreja, a saber, a abertura do interno ou homem espiritual e sua conjunção com o externo é porque toda igreja no homem procede do Divino Humano do Senhor, pois tudo o que é do amor e da fé, que faz a igreja, procede do Divino Humano do Senhor e não imediatamente de Seu Divino. O que procede imediatamente de Seu Divino mesmo não cai no pensamento nem em afeição alguma do homem nem, portanto, na fé e no amor, porque está muito acima daí, como se pode ver pelo fato de que o homem não pode pensar no Divino mesmo, sem a forma a Humana, senão como pensa na natureza em seus mínimos. O pensamento que não é determinado em alguma aparência é difuso em todas as direções e o difuso se dissipa. Isso se sabe sobretudo por aqueles do mundo cristão na outra vida que só tinham pensado no Pai e não no Senhor, os quais fazem Deus a natureza em seus mínimos e, finalmente, separam-se de toda idéia de Deus e, conseqüentemente, da idéia e da fé de todas as coisas que são do céu e da igreja.
[2] Dá-se de modo diferente com os que pensaram em Deus sob a forma Humana. Esses têm todas as idéias determinadas no Divino e não vagantes em todas as direções, como nos citados primeiro. E visto que o Divino sob a forma Humana é o Divino Humano do Senhor, por isso o Senhor determina e volta para Si os seus pensamentos e afeições. Como esta é a primeira idéia da igreja, por isso ela influi do céu continuamente no homem, do que resulta que é um ínsito, por assim dizer, pensar no Divino sob a forma Humana e, assim, ver em si mesmo o seu Divino, exceto no caso daqueles que extinguiram em si esse ínsito (vide, na obra O Céu e o Inferno, o nº 82). A razão disso pode-se ver também do fato de todos os homens, quaisquer que sejam, se voltarem para seus amores após a morte, quando se tornam espíritos; daí, os que adoraram o Divino sob a forma Humana se voltam para o Senhor, que aparece a eles como Sol acima do céu, mas os que adoraram o Divino não sob forma Humana voltam-se para os amores de seu homem natural, que se referem, todos, ao amor de si e do mundo; por conseguinte, voltam as costas ao Senhor, e voltar as costas ao Senhor é voltar-se para o inferno. (Que todos se convertam a seus amores no mundo espiritual, vê-se na obra O Céu e o Inferno, nºs 17, 123, 142-145, 151, 153, 255, 272, 510, 548, 552 e 561).
[3] Todos os que viveram nos tempos antigos e adoraram o Divino, viram o Divino sob a forma Humana no pensamento, e quase ninguém [adorou] o Divino invisível. O Divino sob a forma Humana era então o Divino Humano; mas, como esse Divino Humano era o Divino do Senhor nos céus e passando através dos céus, e como o céu finalmente enfraqueceu pelo fato de que os homens que compunham o céu, de internos tornaram-se sucessivamente externos e, assim, naturais, por isso agradou ao Divino Humano revestir-Se do Humano e glorificá-lo, ou seja, fazê-lo Divino, para que, assim, pudesse afetar todos os que estão tanto no mundo espiritual quanto no mundo natural e salvar aqueles que reconhecem e adoram o Divino no Humano.
[4] Isto foi manifestado em muitas passagens nos Profetas do Velho Testamento e também nos Evangelhos. Delas quero referir somente as seguintes, em João:
"No princípio era a Palavra, e a Palavra estava em Deus, e Deus era a Palavra. Todas as coisas foram feitas por Ele36, e sem Ele nada do que foi feito se fez. N'Ele estava a vida, e a vida era a Luz dos homens; e a Luz brilha nas trevas, e as trevas não compreenderam (...) Era a Luz verdadeira que ilumina todo homem que vem ao mundo; estava no mundo, mas o mundo não o reconheceu (...) E a Palavra se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a Sua glória" (Jo. 1:1-14).
O Senhor quanto ao Humano é aqui entendido por 'Palavra', como se vê claramente, pois se diz que 'a Palavra se fez Carne, e habitou entre nós, e vimos a Sua glória'; e que tenha feito Divino o Seu Humano, também se vê: 'A Palavra estava em Deus, e Deus era a Palavra... e esta se fez carne', isto é, Homem. E visto que todo Divino Vero procede do Divino Humano do Senhor, e este é o Seu Divino nos céus, por isso, também, a 'Palavra' significa o Divino Vero. Por esse motivo se diz que Ele era a 'Luz que ilumina todo homem que vem ao mundo'; a 'Luz' é, também, o Divino Vero. E visto que os homens, de internos, tornaram-se tão externos ou naturais que não mais reconheceriam o Divino Vero nem, por conseguinte, o Senhor, por isso se diz que 'as trevas não compreenderam a Luz' e que 'o mundo O não reconheceu'. (A 'Palavra' é o Senhor quanto ao Divino Humano e, daí, o Divino Vero procedente, como se vê na Doutrina da Nova Jerusalém, nºs 263 e 304; a 'Luz' é o Divino Vero e as 'trevas' são os falsos em que se acham os que não estão na luz, como se vê na obra O Céu e o Inferno, nºs 126-140 e 275).
[5] Que aqueles que reconhecem o Senhor, adoram-No pelo amor e pela fé e não estão nos amores de si e do mundo, sejam regenerados e salvos, também se ensina ali [em João], nessas palavras:
"A todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de serem filhos de Deus, os que crêem no Seu nome; os que nasceram não dos sangues, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus" (Jo. 1:12, 13);
aí, [nascer] 'dos sangues' são os que destroem o amor e a caridade; 'vontade da carne' é todo mal proveniente dos amores de si e do mundo e é o proprium voluntário do homem, que em si nada é senão o mal; 'vontade do varão' é o falso daí, proveniente desse proprium voluntário. Que aqueles que não estão nesses amores recebam o Senhor, sejam regenerados e salvos, entende-se por isto: 'os que crêem no Seu nome' tornam-se 'filhos de Deus' e, assim, são 'nascidos de Deus'. ('Crer no nome do Senhor' é reconhecer o Seu Divino Humano e d'Ele receber o amor e a fé, como se vê acima, nºs 102 e 135; os 'sangues' são as coisas que destroem o amor e a caridade, Arcanos Celestes, nºs 4735, 5476 e 9127; a 'carne' é o proprium voluntário do homem, que em si nada é senão o mal, nºs 210, 215, 731, 874-876, 987, 1047, 2307, 2308, 3518, 3701, 3812, 4328, 8480, 8550, 10283, 10284, 10286 e 10732; e o proprium do homem é o amor de si e o amor do mundo, nºs 694, 731, 4317 e 5660; o 'varão' é o entendimento e, assim, o vero ou o falso, visto que o entendimento é ou um ou outro, nºs 3134, 3309 e 9007; assim, 'vontade do varão' é o proprium do entendimento, que nada é em si senão o falso, quando existe do proprium voluntário, que em si nada é senão o mal, pois onde o mal estiver na vontade, aí o falso estará no entendimento; 'ser nascido de Deus' é ser regenerado pelo Senhor, como se vê na Doutrina da Nova Jerusalém, nºs 172-184. Além disso, que todos os que estão no universo, pelo influxo do céu e pela revelação, adorem o Divino sob forma Humana, vê-se no opúsculo Das Terras no Universo, nºs 98, 121, 141, 154, 158, 159 e 169; bem como todos os anjos dos céus superiores, na obra O Céu e o Inferno, nºs 78-86).
[6] Por aí se pode ver agora que tudo da igreja, assim como tudo do céu nos homens, é proveniente do Divino Humano do Senhor. Visto que assim é, por isso no primeiro capítulo do Apocalipse o 'Filho do homem', que é o Divino Humano, é descrito por meio de vários representativos e, em seguida, dessa descrição são tomadas as introduções a cada uma das igrejas (vide acima, nº 113) e, em especial, a esta igreja, em que se trata do essencial principal da igreja, a saber, da conjunção do interno e o externo, ou da regeneração do homem da igreja, pois se diz ao anjo dessa igreja: 'Isto se diz o Filho do homem, que tem Seus olhos como chama de fogo'.

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