. "Como vasos de barro serão despedaçadas". Que isto signifique a dispersão total dos falsos vê-se pela significação de 'vasos de barro', que são as coisas tais que no homem natural procedem da própria inteligência, e todas as coisas que são da própria inteligência nos assuntos do céu e da igreja são falsas, do que se tratará a seguir; e pela significação de 'despedaçar', que é dispersar. Que pelos 'vasos de barro' sejam significadas as coisas no homem natural que procedem da própria inteligência nos assuntos do céu e da igreja, e sejam falsas, mostrar-se-á na seqüência. Dir-se-á aqui, primeiro, que as coisas da própria inteligência que entram nos assuntos do céu e da igreja são falsas. Os que pensam pela própria inteligência pensam pelo mundo, pois o homem, por seu proprium, não ama senão as coisas que são do mundo e as que são de si mesmo, e as que ele ama, ele também vê e percebe. Às que ama chama bens, e às que daí vê e percebe chama veros. Mas os bens que ele assim chama pelo amor são males, e os veros que pelo amor ele vê são falsos, porquanto nascem dos amores de si e do mundo, amores esses que são opostos aos amores do céu, que são o amor ao Senhor e o amor para com o próximo; e as coisas que nascem de opostos são opostas.
[2] Por esse motivo, os que lêem Palavra somente por causa da reputação de erudição ou para adquirir fama e serem elevados às honras, ou para angariarem riquezas, nunca vêem nem percebem os veros, mas, em lugar destes, vêem falsos. E os veros que ali se apresentam diante dos olhos, ou passam como se não os vissem ou os falsificam. A razão disso é que ler a Palavra por causa de reputação de erudição, ou por causa da fama para que sejam elevados às honras e angariem riquezas, é fazê-lo por causa de si e do mundo como fins, portanto, pelos amores de si e do mundo. Esses amores, por serem do proprium do homem, fazem que as coisas que o homem vê e percebe por eles sejam da própria inteligência.
[3] Por outro lado, os que lêem a Palavra pela afeição do vero espiritual, afeição essa que é o amor de conhecer o vero porque é o vero, esses vêem os veros ali e se regozijam de coração quando os vêem. A razão disso é que estão na iluminação pelo Senhor. A iluminação desce do Senhor por meio do céu, pela luz ali, luz que é o Divino Vero. Por isso lhes é concedido ver os veros por sua luz e isto na Palavra, porque a Palavra é o Divino Vero e nela se acham encerrados todos os veros do céu. Mas, somente estão nessa iluminação aqueles que estão nos amores do céu, que são o amor ao Senhor e o amor para com o próximo, pois esses amores abrem a mente interior ou superior, que é formada para a recepção da luz do céu. Por elas a luz do céu influi neles e ilumina. Todavia, enquanto vivem no mundo eles não percebem os veros nessa mente, mas os vêem na mente inferior, que é a mente externa ou do homem natural. Estes são os que pensam não pela própria inteligência quando lêem a Palavra. A razão principal de eles não pensarem pela própria inteligência quando lêem a Palavra é porque a sua mente interior ou espiritual visa ao Senhor e, então, o Senhor a eleva a Si e, ao mesmo tempo, a mente inferior ou natural, e assim a afasta do proprium do homem. Isto não pode ser feito naqueles visam principalmente a si e ao mundo.
[4] Por aí se pode ver que o homem, pela própria inteligência, não percebe outra coisa senão os males e não vê outra coisa senão os falsos, mas, pelo Senhor, percebe e vê os bens e veros que são do céu e da igreja. Quando é aberto o homem interno ou espiritual, no qual está a mente interior ou superior, como se disse, então o Senhor doma os males e dispersa os falsos que estão no externo ou homem natural. Estas são, pois, as coisas que se entendem, no sentido espiritual, pela afirmação de que o Filho do homem 'dar-lhes-á autoridade sobre as nações, e as governará com vara de ferro; como vasos de barro serão despedaçadas'.
[5] Que os 'vasos de barro' signifiquem as coisas que procedem da própria inteligência, portanto, os falsos que estão no homem natural, vê-se por várias passagens na Palavra, das quais quero citar as seguintes, para confirmação. Em David:
"Esmiúças" as nações "com um cetro de ferro; como vaso de oleiro as despedaças" (Sl. 2:9);
'esmiuçar as nações com um cetro de ferro', aqui, também é corrigir e domar os males que estão no homem natural; pelo 'cetro' é significado aqui o mesmo que pelo 'cajado' ou 'vara'; acrescenta-se 'como vaso de oleiro' porque por isso é significado o falso que procede da própria inteligência. No sentido da letra existe a comparação, pois se diz 'como' vaso de oleiro e 'como' vasos de barro; mas, no sentido interno, as comparações não são percebidas como comparações, visto que as comparações vêm igualmente de significativos (vê-se nos nºs 3579 e 8989). Que o 'vaso de oleiro' ou 'vaso de barro' signifique o falso é porque o oleiro é quem forma e o vaso é o que é formado. Quando o homem forma, é o falso, mas quando o Senhor forma no homem, é o vero. Assim é que o 'vaso de oleiro', na Palavra, significa ou o falso ou o vero, e 'oleiro' é o formador.
[6] Na Palavra, o Senhor mesmo é chamado 'Oleiro', por causa da formação do homem por meio dos veros, como em Isaías:
"JEHOVAH, nosso Pai; nós somos o lodo, Tu és nosso Oleiro; e todos nós, obras de Tuas mãos" (Is. 64:8);
no mesmo:
"Ai daquele que disputa com seu Formador, o caco com os cacos de terra. Acaso dirá o lodo ao seu Oleiro: O que fazes?" (Is. 45:9);
no mesmo:
"Acaso o Oleiro será reputado como lodo? Acaso diria a obra a respeito de seu Feitor: Não me fez? E a imagem diria a respeito de seu Oleiro: Não entende?" (Is. 29:16).
[7] Visto que os judeus e os israelitas falsificaram todos os veros da Palavra pela aplicação a si a à sua grandeza acima de todas as nações em todo o mundo, por isso os seus falsos são chamados 'vasos corrompidos de oleiro', como em Isaías:
Disseram aos videntes: Não vejais; e aos que têm visões: Não vejais para nós coisas direitas; falai-nos coisas agradáveis, vede ilusões, desviai-vos do caminho (...) por isso a iniqüidade (...) os quebrará como fratura de pote dos oleiros, batendo sem poupar, de modo que não se achará no seu fragmento um vaso para tomar fogo da lareira, ou para tirar águas do poço" (Is. 30:10-11, 13-14);
que se tenham privado completamente dos veros e imergido nos falsos se descreve por 'dizerem aos videntes: Não vejais, e aos que têm visões: Não vejais coisas direitas para nós; falai-nos coisas agradáveis, vede ilusões, desviai-vos do caminho'; que se tenham imergido nos falsos a tal ponto que nada restou do vero se descreve por 'fratura de pote dos oleiros, de modo que não se achará no fragmento um vaso para tomar fogo na lareira ou para tirar águas do poço", pelo que é significado que não restava do vero o suficiente para que pudessem receber algum bem e vero da Palavra, pois o 'fogo' significa o bem e as 'águas' o vero; a 'lareira' é a Palavra quanto ao bem, e o 'poço' e a 'fonte' são a Palavra quanto ao vero.
[8] Em Jeremias:
"Veio a palavra a Jeremias: (...) Levanta e desce à casa do oleiro... Desci, pois, à casa do oleiro, quando eis que fazia uma obra sobre a tábua; mas corrompeu-se o vaso que ele fazia (...) e voltou atrás e fez ele outro vaso, do modo como foi direito aos olhos do oleiro fazer" (Jr. 18:1-4);
por estas palavras também se entende que na nação judaica nada havia senão o falso; 'o vaso corrompido na casa do oleiro' é esse falso; a 'casa do oleiro' é onde se encontravam; que o vero da igreja lhes seria tirado e dado a outros se entende por 'voltou atrás o oleiro e fez outro vaso do modo como foi direito aos seus olhos'.
[9] No mesmo:
"Disse JEHOVAH : Indo, compra uma botija das vasilhas de oleiro dos anciãos do povo e dos anciãos dos sacerdotes, e sai ao vale dos filhos de Hinom (...) então quebra a botija perante os olhos dos que saem contigo e diz: Quebrarei este povo e esta cidade como se quebra o vaso de oleiro, que não se pode mais consertar; e enterrarão em Tofete, por não haver mais lugar para enterrar" (Jr. 19:1, 2, 10, 11);
'botija' ou vaso 'das vasilhas de oleiro dos anciãos do povo e dos sacerdotes' é, também aqui, o falso em que se encontravam todos os daquela nação; que esse falso era tanto que não poderia ser disperso pelos veros se descreve por 'quebrar esse vaso perante os olhos dos que saíam consigo, de modo que não pudesse ser consertado'; que 'enterrariam em Tofete, porque não havia mais lugar' significa onde todos e veros bens foram consumidos.
[10] Em Naum:
"Tira para ti águas para o cerco, reforça tua fortaleza, entra na lama e pisa o lodo, conserta a fornalha dos tijolos; ali te consumirá o fogo, cortar-te-á a espada" (Nm. 3:14, 15);
'tirar águas para o cerco e reforçar a fortaleza' é munir-se de vários falsos contra os veros; 'entrar na lama e pisar o lodo' é confirmar os falsos por meio de invenções e falácias; a doutrina daí é chamada 'fornalha de tijolos' pelo fato de o amor infernal ser reforçado por falsificações; daí se dizer que 'o fogo consumirá e a espada cortará"; o 'fogo' é o amor infernal e a 'espada' é o falso que combate e destrói o vero. Que o 'vaso do oleiro' ou 'vaso de barro' signifique o falso é porque corresponde à ficção, e ficção é o que procede da inteligência própria do homem. Por causa dessa correspondência é que aos profetas foram ordenadas as coisas de que se tratou acima.
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