AE 182

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. (Vers. 1) "E ao anjo da Igreja em Sardes escreve" Que isto signifique aqueles que vivem a vida moral, mas não espiritual, porque fazem pouco das cognições espirituais e, daí, da inteligência e da sabedoria, vê-se pelas coisas que foram escritas ao anjo dessa Igreja. Por elas, quando iluminadas no sentido interno ou espiritual, vê-se que se trata daqueles que vivem a vida moral, mas não a espiritual, porque fazem pouco das cognições espirituais e, assim, da inteligência e da sabedoria. Mas, antes de desvendar as coisas que se seguem quanto ao sentido espiritual, deve ser explicado e esclarecido o que é a vida moral, o que é a vida espiritual e, também, o que é a vida moral proveniente da espiritual e o que é a vida moral sem a espiritual. A vida moral é agir bem, sincera e justamente com os companheiros, tanto nas funções quanto nos negócios, quaisquer que sejam. Em resumo, é a vida que aparece perante os homens, porque é vivida com eles. Mas esse vida tem dupla origem: ou vem do amor de si e do mundo ou vem do amor ao Senhor e para com o próximo.
[2] A vida moral que vem do amor de si e do mundo não é, em si, uma vida moral, ainda que pareça moral, pois o homem que está nessa vida age bem, sincera e justamente por causa de si e do mundo. Para ele, o bem, o sincero e o justo lhe servem de meios para um fim, que é ser elevado às honrarias acima dos outros e governar os outros, ou para obter riquezas; ele até pensa assim em seu espírito, porém quando está consigo, em oculto, mas não ousa declarar as coisas que pensa, porque isso destrói a opinião dos outros a respeito dele e, assim, aniquila os meios pelos quais quer alcançar os seus fins. Por aí se pode ver que nada se encerra mais em sua vida moral do que o desejo de possuir todas as coisas mais do que os outros, por conseguinte, o desejo de que os outros o sirvam ou de possuir os bens dos outros. Pode-se ver, por isso, que sua vida moral não é uma vida moral em si, pois se obtivesse aquilo que tem em intenção, ou que tem como fim, sujeitaria os outros a si, como servos, e privá-los-ia de seus bens; e como todos os meios têm sua natureza pelos fins, por isso são também chamados fins intermediários. Por conseguinte, essa vida, considerada em si mesmo, é somente astúcia e fraude. Isso também aparece manifestamente naqueles nos quais os vínculos externos são desprendidos, como acontece com aqueles que agem pelas leis da justiça contra os companheiros, os quais não cobiçam outra coisa senão perverter a justiça e alcançar o favor do juiz ou a graça do rei, e isto ocultamente, para privar os outros de seus bens; quando obtêm isso, regozijam-se no espírito e no coração. Isso aparece ainda mais claramente nos reis que põem a honra nas guerras e nas vitórias; nesses, o maior prazer do seu coração é subjugar províncias e reinos, e, onde encontram resistência, espoliar os súditos de todos os seus bens e, também, de suas vidas. Esse prazer também têm muitos dos que prestam serviço militar. E ainda mais claramente esse prazer se mostra nessas pessoas quando elas se tornam espíritos, o que acontece logo depois da morte de seus corpos; como, então, eles pensam e agem pelo espírito, precipitam-se em tudo o que é nefando, segundo os seus amores, por mais que no mundo tenham vivido a vida moral pelas aparências.
[3] A vida espiritual, porém, é completamente diferente, pois vem do amor a Deus e do amor para com o próximo, e assim é que a vida moral deles é também completamente diferente e é a verdadeira vida moral. Pois esses, quando pensam em seu espírito, o que acontece quando pensam consigo mesmos, no oculto, não pensam por si e pelo mundo, mas pelo Senhor e o céu. Com efeito, os interiores que são de sua mente, isto é, que são de seu pensamento e vontade, são realmente elevados pelo Senhor ao céu e ali são conjuntos a Ele. Assim, o Senhor influi em seus pensamentos, intenções e fins, e os governa, e remove do proprium deles aquilo que vem unicamente do amor de si e do mundo. Esses, nas aparências, vivem a mesma vida moral que aqueles que foram citados acima, mas, no entanto, a vida destes últimos é moral e espiritual, pois vem de uma origem espiritual. A vida moral deles é somente o efeito da vida espiritual, que é a causa eficiente, assim, a origem, porquanto esses agem bem, sincera e justamente com os companheiros pelo temor de Deus e pelo amor ao próximo. Nestes [amores] o Senhor mantém suas mentes e espírito. Por esse motivo, quando esses se tornam espíritos, o que acontece quando morrem quanto ao corpo, pensam e agem inteligente e sabiamente, e são elevados ao céu. A respeito destes pode-se dizer que neles todo bem do amor e todo vero da fé influem do céu, isto é, pelo céu desde o Senhor, mas não daqueles que foram citados acima, pois o bem destes não é o bem do céu, nem o vero é o vero do céu, mas é o prazer da concupiscência da carne a que chamam bem, e o falso daí, a que chamam vero, os quais influem neles por si e pelo mundo. Por aí se pode saber o que é a vida moral pelo espiritual e o que é a vida moral sem o espiritual, ou seja, a vida moral pelo espiritual é verdadeiramente a vida moral, que deve ser chamada espiritual, porquanto sua causa e sua origem vêm dali. Mas a vida moral sem o espiritual não é vida moral, e deve ser chamada infernal, pois quanto mais nela reinam o amor de si e do mundo, mais é fraudulenta e hipócrita.
[4] Pelo que agora se disse também se pode concluir o que é a santidade externa pela qual se entendem o culto nos templos, as preces e, então, os gestos, naqueles que estão no amor de si e do mundo, ainda que se viva a vida moral, ou seja, nada disso é elevado ao céu nem é ouvido ali, mas fluem de algum pensamento externo ou do homem natural e, assim, de suas bocas no mundo. Pois os interiores de seus pensamentos, que são de seus espíritos, estão cheios de astúcia e de fraude contra o próximo, e, todavia, a elevação ao céu se faz pelos interiores. Além disso, o culto deles nos templos, bem como as preces e os gestos ali, procedem ou do costume da infância e, assim, familiar, ou do princípio de que os externos fazem tudo para a salvação, ou porque nos dias de festas não fazem negócios em casa e fora, ou a fim não serem tidos como ímpios pelos companheiros. Mas o culto naqueles que vivem a vida moral por uma origem espiritual é completamente diferente, pois é o verdadeiro culto a Deus, e suas preces são elevadas ao céu e ouvidas, porque o Senhor conduz a Si as suas preces, por meio do céu. (Mas vêem-se muitas coisas a respeito disso na obra O Céu e o Inferno, nºs 468, 484, 529, 530-534, e acima, nas Explicações do Apocalipse, nº 107). Estas coisas foram citadas como premissas porque, no que foi escrito ao anjo dessa Igreja, trata-se daqueles que vivem a vida moral, mas não espiritual, pelo fato de fazerem pouco dos pensamentos espirituais.

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