AE 208

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. "Eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, e ninguém a pode fechar". Que isto signifique que serão introduzidos no céu, e isso não será negado a nenhum dos que são tais, vê-se pela significação de 'por uma porta aberta', que é introduzir no céu (de que se tratará a seguir); e pela significação de 'ninguém a pode fechar', que é não ser negado, pois quando a porta está fechada a introdução é negada, e quando não está fechada, não é negada. Que isto seja para aqueles que estão na caridade é porque se trata deles no que foi escrito a essa Igreja (vide acima, nº 203). Assim, é evidente que a frase 'tenho posto diante de ti uma porta aberta, e ninguém a pode fechar' significa que todos os que são tais serão introduzidos no céu e a nenhum deles isso será negado. Que 'por uma porta aberta' signifique introduzir no céu, vê-se mesmo pela conversação comum, pois a casa e todas as coisas da casa correspondem aos interiores do homem que pertencem à sua mente, e, pela correspondência, elas também significam tais coisas na Palavra. Que isto seja assim pode-se ver pelos representativos e pelas aparências no céu. Ali há palácios, casas, quartos, cômodos, vestíbulos, átrios e, dentro deles, várias coisas para os usos. Os anjos têm essas coisas pela correspondência. Assim é que os anjos mais sábios têm palácios mais magníficos do que os dos anjos menos sábios. (Mas, sobre este assunto, vê-se na obra O Céu e o Inferno, nºs 183-190, onde se trata das habitações dos anjos do céu). E visto que os palácios, as casas e todas as coisas de uma casa são correspondentes, é evidente que também há portões, entradas e portas, e estas correspondem à introdução e a admissão. Também, quando se vêem os portões abertos é um indício de que se tem permissão de entrar, e, quando fechados, não se tem permissão.
[2] Além disso, quando os espíritos noviços são introduzidos em uma sociedade celeste, o Senhor lhes abre o caminho que a ela conduz; e quando chegam ali, aparece-lhes uma porta com entradas dos lados onde há guardas que os admitem e, em seguida, outros que os recebem e introduzem. Por aí se pode ver agora o que significam na Palavra as 'entradas' e 'portas', a saber, a admissão no céu. E como a igreja é o céu do Senhor nas terras, elas também significam a admissão na igreja. E visto que o céu ou a igreja está no homem, por isso, também, os 'portões', as 'entradas' e as 'portas' significam o acesso e a entrada no homem (a cujo respeito logo se dirá alguma coisa). E como todas as coisas que significam o céu e a igreja também significam as coisas que são do céu e da igreja, elas significam aqui as coisas que introduzem, que são os veros do bem que procedem do Senhor; e como estes vêm do Senhor e, assim, pertencem a Ele, e até são o Senhor neles, por isso, pelo 'portão', pela 'entrada' e pela 'porta' do céu e da igreja se entende, no sentido supremo, o Senhor. Daí se vê o que significa o que o Senhor diz em João:
Jesus disse: "Amém vos digo, quem não entra pelo portão no aprisco das ovelhas, mas sobre por outra parte, esse é ladrão e salteador; mas quem entra pelo portão, esse é o pastor das ovelhas; a este o porteiro abre (...) Eu sou a porta das ovelhas (...) se alguém entrar por Mim, salvar-se-á, e entrará e sairá, e achará pastagem" (Jo. 10:1-3, 7, 9);
que 'entrar pela porta', aqui, seja entrar pelo Senhor, é evidente, pois diz: 'Eu sou a porta das ovelhas'. Entrar pelo Senhor é ir a Ele, reconhecê-Lo, crer n'Ele e amá-Lo, como Ele ensina em muitas passagens. Assim, e não de outro modo, o homem é admitido no céu, pelo que Ele diz: 'Se alguém entrar por Mim, salvar-se-á' e 'quem sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador'.
[3] Portanto, quem vai ao Senhor, reconhece-O e crê n'Ele, desse se diz que abre a porta ao Senhor, para que Ele entre, no Apocalipse:
"Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a Minha voz e abrir a porta, entrarei a ele, cearei com ele e ele comigo" (Ap. 3:20);
como isto se passa, dir-se-á na seqüência, onde se trata dessas palavras naquele capítulo. Aqui se dirá somente alguma coisa a respeito das entradas ou portas do homem, pois se diz: 'Estou à porta e bato'. Há dois caminhos que levam ao homem racional, um pelo céu e o outro pelo mundo. Pelo caminho do céu o é introduzido o bem, e pelo caminho do mundo é introduzido o vero. Quanto mais estiver aberto o caminho do céu no homem, mais ele é afetado pelo vero e se torna racional, isto é, mais vê o vero pela luz do vero. Se, porém, o caminho do céu estiver fechado, o homem não se torna racional, pois não vê o vero e, todavia, o vero pela luz do vero é que faz o racional. Ele pode até raciocinar sobre o vero e falar sobre o vero pelo raciocínio ou pela memória, mas não pode ver se algo é um vero ou não. Pensar bem a respeito do Senhor e do próximo abre o caminho do céu, mas pensar não bem do Senhor e mal do próximo o fecha. Como há dois caminhos que levam ao homem, também há dois portões ou portas pelos quais se faz a admissão; pela porta ou portão que se abre do céu entra a afeição do vero espiritual proveniente do Senhor, porque por ali entra o bem, como acima se disse, e toda afeição do vero espiritual vem do bem. Mas pelo portão ou porta que se abre do mundo entra toda cognição da Palavra e das pregações daí, porque por ali entra o vero, como também se disse acima, pois as cognições da Palavra e das pregações daí são veros. A afeição do vero espiritual adjunta a essas cognições faz o racional do homem e o ilumina segundo a qualidade do vero conjunto ao bem e segundo a qualidade da conjunção. Basta dizer estas poucas coisas a respeito dos dois portões ou portas para o homem.
[4] Porquanto os 'portões', as 'entradas' e as 'portas' significam a admissão no céu e na igreja, por isso também significam os veros do bem que vêm do Senhor, porque por eles se faz a admissão, como [se vê] nas seguintes passagens. Em Isaías:
"Abri as portas para que entre uma nação justa, que guarda a fidelidade" (Is. 26:2);
é segundo o sentido da letra que serão admitidos nas cidades aqueles que são justos e fiéis, mas, segundo o sentido interno, serão admitidos na igreja, pois as 'portas' significam a admissão; a 'nação justa' significa aqueles que estão no bem, e 'que guarda a fidelidade' significa os que estão nos veros daí.
[5] No mesmo:
"Tuas portas se abrirão continuamente, de dia e de noite não se fecharão, para conduzir a Ti o exército das nações, e os reis delas serão conduzidos. Mas a nação e43 o reino que não Te servir perecerão; (...) chamarás Teus muros salvação, e tuas portas louvor" (Is. 60:11, 12, 18);
aí se trata do Senhor e da igreja que deve ser instaurada por Ele, e por essas palavras se descreve a admissão perpétua daqueles que estão nos bens e, daí, nos veros. Pelas 'portas que estarão abertas continuamente e não se fecharão de dia e de noite' é significada a perpétua admissão; pelo 'exército das nações' são significados aqueles que estão no bem, e pelos 'reis' aqueles que estão nos veros; e que todos servirão ao Senhor se entende pela frase 'nação e reino que não Te servirem perecerão'; que 'nação' e 'nações' signifiquem aqueles que estão no bem, vê-se acima (nº 175); e que os 'reis' signifiquem aqueles que estão nos veros (nº 31).
[6] No mesmo:
"Assim disse JEHOVAH ao Seu Ungido, a Ciro, por cuja [mão] direita tomei, para sujeitar as nações diante dele, para que Eu desate os lombos dos reis; para abrir portões diante dele, para que as portas não se fechem; (...) e darei os tesouros dos esconderijos e as riquezas ocultas dos lugares secretos" (Is. 45:1, 3);
aqui se trata, igualmente, do Senhor e da igreja que deve ser instaurada por Ele. Por 'abrir portões para que as portas não se fechem' é significada a perpétua admissão; por 'nações' e 'reis' são significados aqueles que estão nos bens e nos veros, e, abstratamente, os bens e veros (como acima); por 'tesouros dos esconderijos e as riquezas dos lugares secretos' são significadas a inteligência e a sabedoria interior do céu, pois as coisas que entram pela porta que se abre para o céu (de que se tratou acima) vêm ocultamente e afetam todas as coisas que há no homem; daí vem a afeição do vero espiritual, pela qual são reveladas as coisas antes desconhecidas.
[7] Em Jeremias:
"Se não introduzirdes a carga pelas portas desta cidade no dia do sabbath, e para santificardes o dia do sabbath (...) então pelas portas desta cidade entrarão reis e príncipes que se assentem no trono de David, montados em carros e em cavalos (...) e a cidade será habitada eternamente" (Jr. 17:24, 25);
o que se entende por essas palavras no sentido da letra, qualquer um vê. Entretanto, pode-se saber que há algo mais santo aí encerrado, pois é a Palavra, e tudo o que há na Palavra contém coisas tais que são do céu e da igreja, e estas somente são santas. A santidade aí entendida se conhece pelo sentido interno, ou seja, pelo 'dia do sabbath'; nesse sentido se entende a conjunção do Divino Humano do Senhor com o céu e a igreja; pela 'cidade', que aí é Jerusalém, se entende a igreja; por 'não introduzir carga pelas portas dessa cidade' se entende não admitir ali o que é do proprium do homem, mas o que vem do Senhor; pelos 'reis e príncipes, que então entrarão pelas portas da cidade' se entendem os Divinos veros que eles terão; por 'assentarem-se no trono de David' se entendem as coisas que vêm do Senhor; por 'montados em carros e em cavalos' se entende que daí estarão na doutrina do vero e na inteligência; por 'habitar eternamente' é significada a vida e a eterna salvação. (Que pelo 'sabbath' seja significada a conjunção do Divino Humano do Senhor com o céu e a igreja, vê-se nos nºs 8494, 8495, 8510, 10356, 10360, 10367, 10370, 10374, 10668 e 10730; que por 'Jerusalém' seja significada a igreja, nºs 402, 3654 e 9166; que pela 'carga' ou 'obra' no dia do sabbath seja significado não ser conduzido pelo Senhor, mas pelo proprium, nºs 7893, 8495, 10360, 10362 e 10365; que pelos 'reis e príncipes' sejam significados aqueles que estão nos Divinos veros e, abstratamente, os Divinos veros, acima, nºs 29 e 31; e que pelo 'carro' seja significada a doutrina do vero e pelos 'cavalos' o entendimento, no opúsculo Do Cavalo Branco, nºs 1-5).
[8] No Apocalipse:
A nova Jerusalém, "tendo um muro grande e alto, doze portas, sobre as portas, doze anjos, e escritos os nomes que são as doze tribos de Israel; (...) doze portas, doze pérolas; (...) as portas não se fecharão" (Ap. 21:12, 21, 25);
que as 'portas' signifiquem os Divinos veros que introduzem na nova igreja, assim, aqueles que estão nos veros do bem proveniente do Senhor, vê-se pela explicação dessas palavras no opúsculo Doutrina da Nova Jerusalém (nº 1 e seq.), o que também se vê pelo fato de se dizer que 'havia doze portas', 'doze anjos sobre as portas e aí escritos os nomes das doze tribos', e que 'as doze portas eram doze pérolas'. (Pois 'doze' significam todas as coisas e se atribuem aos veros do bem, nºs 577, 2089, 2129, 2130, 3272, 3858 e 3913; do mesmo modo que 'anjos', como se vê acima, nºs 130 e 200, semelhantemente ao que é significado pelas 'doze tribos de Israel', nºs 3858, 3926, 4060 e 6335; e, do mesmo modo, pelas 'pérolas').
[9] Em Jeremias:
"Do norte se abrirá um mal (...) para que eles venham e ponham o seu trono à entrada das portas de Jerusalém, e à volta de todos os seus muros (...) porque abandonaram a Mim" (Jr. 1:14, 16);
aí se trata da destruição da igreja; 'norte' significa o falso, aqui, o falso de que procede o mal; 'vir e pôr os tronos nas entradas das portas de Jerusalém' é destruir por meio de falsos os veros que introduzem na igreja; 'e em todos os seus muros' é [destruir] também todos os veros que protegem.
[10] Em Isaías:
"Lamenta, ó porta! Clama, ó cidade! Tu derreteste toda, ó Filístia, porque do norte vem a fumaça" (Is. 14:31);
no mesmo:
"Os teus vales escolhidos estão cheios de carros, e os cavaleiros se puseram até à porta; [ele] despiu a cobertura de Judah" (Is. 22:7, 8);
nessas passagens também se trata da destruição da igreja, e pelas 'portas' aí são significados os veros que introduzem, que foram destruídos. Esses veros são chamados 'cobertura de Judah' porque 'Judah' significa o amor celeste (vê-se acima, nº 119) e os veros o cobrem e protegem.
[11] No mesmo:
"Os restantes na cidade devastada, e a porta é esmigalhada até à devastação" (Is. 24:12);
em Jeremias:
"Judah pranteou, e as suas portas ficaram enfraquecidas" (Is. 14:2);
no Livro dos Juízes:
"Cessaram as aldeias em Israel (...) escolheu novos deuses, logo assaltaram as portas (Jz. 5:7, 8);
em Ezequiel:
"Disse Tiro a respeito de Jerusalém: Ah! Está quebrada, [ela] o portão dos povos, foi trazida a mim" (Ez. 26:2);
nesta passagem também se trata da destruição da igreja; por 'Tiro' são significadas todas as cognições do vero e do bem, que são os veros que introduzem, e por 'Jerusalém' é significada a igreja quanto à doutrina do vero. Daí se vê por que Jerusalém é chamada aqui 'portão dos povos' e o que significa Tiro dizer: 'Ah! Está quebrada' Jerusalém, 'portão dos povos, foi trazida a mim; eu me encherei'.
[12] Visto que, como foi dito acima, pelos 'portões' e pelas 'portas' é significada a admissão e, em particular, os veros que admitem, que são veros do bem que procede do Senhor, daí se vê o que é significado pelos 'portões' e pelas 'portas' nas seguintes passagens. Em David:
"Levantai, ó portas, as vossas cabeças, e levantai, é entradas do mundo, para que entre o Rei da glória" (Sl. 24:7, 9);
no mesmo:
Numerai os louvores a JEHOVAH "nas portas da filha de Sião" (Sl. 9:14);
no mesmo:
"JEHOVAH ama as portas de Sião mais do que a todos os habitáculos de Jacob" (Sl. 87:2);
por 'Sião' e pela 'filha de Sião' se entende a igreja celeste. Em Isaías:
"Teu Redentor, o Santo de Israel, chamado Deus de toda a terra (...) farei de rubi as tuas janelas, e as tuas portas de pedra de carbúnculo" (Is. 54:5, 12);
em Mateus:
As cinco virgens prudentes entraram nas núpcias, "e fechou-se a entrada"; e vieram as cinco virgens insensatas e bateram, mas não se lhes abriu (Mt. 25:10, 12);
em Lucas:
Disse Jesus: "Esforçai-vos para entrar pela porta estreita, porque muitos procurarão entrar, e não poderão; quando o Pai de família tiver levantado e fechado a porta, então começareis a estar de fora e a bater na porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos! Mas, respondendo, dirá: Não sei donde vós sois" (Lc. 13:24, 25).
Nestas duas passagens se trata do estado do homem após a morte, quando os que estão na fé e não no amor não podem ser introduzidos no céu, ainda que o queiram, porque assim acreditaram. Isto é significado pelo fato de 'o portão ser fechado' e eles baterem, ma serem rejeitados.
[13] Como as 'portas' significavam os veros que introduzem, por isso havia nos estatutos
Que os anciãos se sentassem às portas e julgassem (Dt. 21:19; 22:15, 21; Am. 5:12, 15; Zc. 8:16);
e, por isso, foi ordenado
que escrevessem os preceitos nos umbrais e nas portas (Dt. 6:8, 9);
e, também por isso, havia entre os estatutos
Que fosse furada no portão a orelha do servo que não quisesse partir em liberdade no sétimo ano (Êx. 21:6; Dt. 15:17).
pelos 'servos' dos filhos de Israel eram significados aqueles que estavam nos veros e não no bem, e pelos 'livres' aqueles que estavam no bem e, daí, nos veros. Que a 'orelha fosse furada no portão' significava a perpétua obediência e servidão, porquanto não se quer ser admitido no bem por meio dos veros. Com efeito, os que estão nos veros que não são provenientes do bem se acham perpetuamente num estado de servidão, pois não estão na afeição do vero espiritual e, todavia, a afeição que é do amor faz o homem livre (vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém, nºs 141-149). Além disso, os veros que introduzem são descritos, quanto à sua qualidade, pela cobertura da entrada do tabernáculo (Êx. 26:14, 36, 37; 38:18, 19) e pelas medidas em números das entradas e das portas da casa de Deus e do templo em Ezequiel 40:6, 8-11, 13-15, 18-20, 24, 27, 28, 32, 35, 37; 41:1-3, 11, 17-20, 23-25; 42:2, 12, 15; 43:1-4; 44:1-3, 17; 46:1-3, 8, 12, 19; 47:1, 2; 48:31-34. Quem sabe o que significa cada um dos números ali pode saber muitos arcanos a respeito desses veros. Também são mencionadas as portas da casa de JEHOVAH voltadas ali para o norte e para o oriente, no mesmo profeta (Ez. 8:3-4; 10:19).

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