AE 209

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. "Porque tens algum poder, e observaste a Minha palavra, e não negaste o Meu nome." Que isto signifique que quanto mais aplicam à vida os veros da Palavra e reconhecem o Divino do Senhor em Seu Humano, mais têm poder do Senhor contra os males e os falsos vê-se pela significação de 'ter poder', que é o poder vindo do Senhor contra os males e os falsos; e visto que aqui se trata daqueles que estão na fé proveniente da caridade, se diz que 'têm algum poder' (de que se tratará a seguir); pela significação de 'observar Minha palavra', que é fazer da vida os veros da Palavra, pois observar os veros ou os preceitos significa não somente sabê-los e percebê-los, mas também querê-los e praticá-los, ou observá-los; e aqueles que querem e praticam, fazem de sua vida os veros que sabem e percebem da Palavra (vê-se, também, acima, nº 15); e pela significação de 'não negar o Meu nome', que é reconhecer o Divino do Senhor em Seu Humano (de que se tratou acima, nº 135).
[2] Cumpre saber que há duas coisas principais da igreja, a saber, reconhecer o Divino do Senhor em Seu Humano e fazer de sua vida os veros da Palavra. Também, ninguém pode estar em um sem estar ao mesmo tempo no outro, pois todos os veros que se fazem da vida vêm do Senhor, e isto naqueles que reconhecem o Divino no Seu Humano. Pois o Senhor influi em todos, tanto nos céus quanto nas terras, de Seu Divino Humano e não do Divino em separado nem do Humano em separado. Por isso, aqueles que em seu pensamento separam o Divino do Senhor de Seu Humano, e visam ao Divino do Pai não no Humano, mas ao lado ou acima do Humano, por conseguinte, separado, não recebem influxo algum do Senhor nem, tampouco, do céu, pois todos os que estão nos céus reconhecem o Divino Humano do Senhor (este assunto também se vê na obra O Céu e o Inferno, nºs 2-12, 59-72, 78-86 seq. e 212). Por aí é evidente que todos os veros que se tornam da vida são provenientes do Senhor naqueles que reconhecem o Divino em Seu Humano, isto é, o Divino Humano. Os veros se tornam da vida quando o homem os ama, assim, quando os quer e pratica, pois quem ama também quer e faz. Em suma, tornam-se da vida quando o homem vive pela afeição segundo os veros. Que esses veros procedam do Senhor é porque o Senhor influi no amor no homem e, pelo amor, nos veros, e assim os torna da vida.
[3] Agora se dirá alguma coisa a respeito do poder que se tem pelo Senhor contra os males e falsos. Todo o poder que os anjos e também os homens têm é proveniente do Senhor, e quanto mais ele recebem o Senhor, mais poder têm. Quem crê que há poder do proprium do homem contra os males e falsos está muito enganado, pois são os maus espíritos, que estão conjuntos aos infernos, que insinuam nos homens os males e, daí, os falsos, e esses espíritos são muitos, sendo cada um deles conjunto a muitos infernos e, em cada um dos infernos há também muitos maus espíritos. O homem não pode se desviar deles senão pelo Senhor somente, pois só o Senhor tem autoridade sobre os infernos, e o homem não a tem absolutamente por si ou por seu proprium. Portanto, quanto mais o homem é conjunto ao Senhor pelo amor, mais poder tem. Há dois amores que reinam nos céus e fazem os céus, a saber, o amor ao Senhor e o amor para com o próximo. O amor ao Senhor se chama amor celeste, e o amor para com o próximo se chama amor espiritual. Aqueles que estão no amor celeste têm muito poder, enquanto aqueles que estão no amor espiritual têm algum poder. E como nos escritos ao anjo desta Igreja se trata daqueles que estão no amor para com o próximo ou na caridade e, daí, na fé, que é o amor espiritual, por isso se diz 'tens algum poder'.
[4] Mas, cumpre saber que todo poder que os anjos e homens têm do Senhor vem do bem do amor, e como o bem do amor não age por si, mas por meio dos veros, por isso todo poder pertence ao bem do amor por meio dos veros, e, nos espíritos, ao bem da caridade por meio dos veros da fé. Com efeito, o bem se qualifica pelos veros, pois o bem sem os veros não tem qualidade, e onde não há qualidade não há força ou poder. Daí é evidente que todo poder pertence ao bem por meio dos veros, ou à caridade por meio da fé, e não à caridade sem a fé nem à fé sem a caridade. Isto também se entende pelas chaves dadas a Pedro, pois por 'Pedro', no sentido espiritual, se entende o vero do bem que procede do Senhor, por conseguinte, a fé que procede da caridade, e pelas 'chaves' dadas a ele se entende o poder sobre os males e falsos. Essas palavras foram ditas a Pedro quando ele reconheceu o Divino do Senhor em Seu Humano, pelo que também se entende que têm poder aqueles reconhecem o Divino do Senhor em Seu Humano e por Ele estão no bem da caridade e, daí, nos veros da fé. Que essas palavras tenham sido ditas então a Pedro, vê-se pela seguinte passagem em Mateus:
Jesus disse aos discípulos: "Vós, quem dizeis que Eu sou? Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, Filho do Deus vivente; então, respondendo Jesus, disse-lhe: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não te revelou a carne e o sangue, mas Meu Pai que está nos céus. Mas eu também te digo: Tu és Pedro, e sobre esta rocha44 edificarei a Minha igreja, e as portas dos infernos não prevalecerão contra ela; e te darei as chaves do reino dos céus" (Mt. 16:15-19).
(Mas, a respeito de Pedro e de suas chaves vejam-se as coisas que foram ditas e mostradas acima, nº 9, no opúsculo Do Juízo Final, nº 57, e na Doutrina da Nova Jerusalém, nº 122. E que todo poder pertença ao vero do bem que procede do Senhor, na obra O Céu e o Inferno, nºs 228-233, 539, e nos Arcanos Celestes, nºs 3091, 3387, 3563, 4592, 4933, 6344, 6423, 7518, 7673, 8281, 8304, 9133, 9327, 9410, 10019 e 10182).

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