. "Que nem és frio nem quente". Que isto signifique que se está entre o céu e o inferno, porque se está sem caridade vê-se pela significação de 'frio', que é aquele que não está no amor espiritual, mas no amor infernal (de que se tratará a seguir), e pela significação de 'quente', que é aquele que está no amor espiritual (de que também se tratará a seguir). Daí é evidente que 'nem és fio nem quente' significa que não se está no amor infernal nem no amor espiritual, mas entre um e outro; e quem está entre um e outro está entre o inferno e o céu.
[2] Ainda não se sabe que sejam assim os que estão na fé só ou na fé separada da caridade, mas, por cada uma das coisas no que foi escrito ao anjo dessa Igreja vê-se que de fato eles são tais. E vê-se, além disso, pelo fato de que aqueles que estão na fé separada da caridade vivem para si, para o mundo e para sua índole, e os que assim vivem estão no amor infernal, e isso ainda que visem ao céu por lerem a Palavra, ouvirem as pregações a partir dela, participarem da Santa Ceia, e por várias coisas da Palavra que ele retêm apenas na memória. Quando fazem isso, estão em algum calor espiritual; como, todavia, não é o calor ou amor espiritual, pois não vivem segundo a Palavra, por isso não são quentes nem frios. Também, assim eles dividem a mente em duas partes, pois pelas coisas que são da Palavra voltam-se para céu, e pelas coisas que são da vida voltam-se para o inferno, assim pendendo entre um e outro. Os que são assim, quando vêm à outra vida desejam o céu, dizendo que tiveram fé, leram a Palavra, ouviram as pregações, freqüentaram a Santa Ceia e que devem ser salvos por essas ações. Todavia, quando sua vida é examinada, mostra-se inteiramente infernal, ou seja, consideraram como nada as inimizadas, o ódio, as vinganças, a astúcia e as maquinações dolosas. Praticaram o que é reto, o sincero e o justo somente na forma externa, a fim de parecerem tais no mundo, mas interiormente em si mesmos, ou em seu espírito, pensaram outras coisas e muito contrárias, acreditando que os pensamentos e as intenções nada fazem, contanto que não apareçam perante o mundo. Daí é que espírito deles é tal, quando está livre do vínculo com o corpo terrestre, pois o espírito do homem é que pensa e tem em intenção.
[3] Esses são os que se entendem pelas palavras do Senhor:
"Muitos Me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, em Teu nome não profetizamos? E em Teu nome não expulsamos demônios? E em Teu nome não fizemos muitos atos poderosos? Mas então lhes confessarei: Nunca vos conheci; apartai-vos de Mim, vós todos, obreiros de iniqüidade" (Mt. 7:10-27);
depois também por estas:
"Quando começardes a estar de fora e a bater, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos. Mas, respondendo, dirá: Não sei de onde sois. Então começareis a dizer: Comemos diante de Ti, e bebemos, e em nossas ruas ensinaste. Mas dirá: Digo-vos, não sei de onde sois; apartai-vos de Mim, vós todos, obreiros de iniqüidade" (Lc. 13:25-27).
[4] O 'frio' significa o amor infernal porque o 'calor' significa o amor celeste. (Que o 'calor' signifique o amor celeste vê-se na obra O Céu e o Inferno, nºs 126-140, 567 e 568; e que o amor ao Senhor e amor para com o próximo sejam amores celestes e façam o céu, na mesma obra, nºs 13-19; e que o amor de si e o amor do mundo sejam amores infernais e façam o inferno, ali, nºs 551-565. Nos infernos também há um calor, mas imundo, como se vê nos Arcanos Celestes, nºs 1773, 2757 e 3340; mas esse calor se muda em frieza quando o calor celeste influi, como se vê na obra O Céu e o Inferno, nº 572).
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