. (Vers. 16) "Assim, porque és morno". Que isto signifique aqueles que vivem pela doutrina da fé só e a justificação por ela vê-se pela significação de 'mornos', que são aqueles que se acham entre o céu e o inferno e, por esse modo, servem a dois senhores. Ainda não se sabe que aqueles que pensam, crêem e vivem pela doutrina da fé só e da justificação por ela são tais, pelo que isto será exposto. Existem dois estados de fé e da vida decorrente daí, ou, dois estados de vida e da fé decorrente daí, para os homens que estão na igreja: um vem da doutrina e o outro vem da Palavra e das pregações da Palavra. Quase ninguém sabe que existem esses dois estados; que, todavia, eles existam, e que em alguns esses estados atuem como um só, e com muitos atuem não como um, é o que me foi dado ver e reconhecer por viva experiência nos espíritos recentemente chegados do mundo, porquanto eles levam consigo todos os estados de sua vida. Isto, porém, não pode ser visto e reconhecido nos homens enquanto vivem no mundo, porque aquilo que o espírito do homem pensa consigo mesmo, crê e ama nas coisas espirituais não pode ser divulgado a ninguém senão pela linguagem e pelas ações externas, e estas, quanto às coisas que pertencem à fé, são provenientes ou da doutrina aceita na igreja ou dos preceitos do Senhor na Palavra, sem o pensamento pela doutrina. O primeiro caso se dá com os eruditos, e o outro com os simples.
[2] Assim, primeiro se dirá a respeito da qualidade do estado do pensamento, da fé e da vida pela doutrina. A doutrina das igrejas no mundo cristão de hoje dita que a fé, só, salva, e que a vida do amor nada faz; dita, também, que o homem é justo quando recebe a fé e, quando está assim justificado, nenhum mal lhe pode ser imputado depois; por conseguinte, que todo homem é salvo, mesmo o mau, se tão somente tiver a fé ou receber a fé, ainda que seja na última hora da vida. Por conseguinte, os que pensam e vivem assim pela doutrina omitem os bens, porque crêem que estes nada produzem no homem ou nada efetuam para a salvação. E, também, essas pessoas não prestam atenção aos males de seu pensamento e de sua vontade, quer sejam inimizades, ódios, vinganças, astúcias, dolos e outras coisas semelhantes, pois crêem que tais coisas não podem ser imputadas àqueles que foram justificados pela fé. Dizem, de coração, que não estão sob o jugo da lei, porque o Senhor cumpriu a lei por eles, nem estão em condenação, porque o Senhor a tirou. Assim é, pois, que aqueles que pensam, vivem e crêem pela doutrina da fé só e da justificação não visam a Deus em suas vidas, mas apenas a si mesmos e ao mundo; e os que visam a si somente e ao mundo no curso de sua vida, esses se adjuntam aos infernos, pois todos os que estão nos infernos consideram como nada o bem e o mal. Em suma, viver por essa doutrina é confirmar-se na vida de que tanto faz se pensam, querem e fazem o bem, porque a salvação não vem daí; e, também, que tanto faz se pensam, querem e - tanto quanto não temem a lei - façam o mal, porque daí não vem condenação, se tão somente tiverem a confiança ou segurança que se chama fé salvífica (de que se tratou na Doutrina da Nova Jerusalém, nº 115). Que estes sejam os 'mornos' vê-se pelo fato de que, quando pensam, falam ou pregam pela doutrina a respeito de Deus, do Senhor, da Palavra e da vida, eles, de fato, pensam, falam ou pregam, mas absolutamente nada disso fazem quando estão fora da doutrina. Pelo pensamento sobre tais assuntos eles visam ao céu, mas, pela vida, se conjuntam ao inferno. Por causa disso, estão entre o céu e o inferno, e os que estão entre um e outro são 'mornos'.
[3] Estas coisas foram ditas a respeito do estado da fé e, daí, da vida dos homens dentro da igreja, pela doutrina. Agora se dirá a respeito do estado da fé e, daí, da vida dos homens da igreja, pela Palavra. Aqueles que nasceram nas igrejas onde a doutrina da fé só e da justificação pela fé foi aceita, esses, quanto à maior parte, não sabem o que é a fé só nem o que se entende por justificação. Por isso, quando ouvem a respeito disso pela pregação, pensam que se entende a vida segundo os preceitos de Deus na Palavra, pois crêem que isto é a fé e também a justificação. Não entram mais profundamente nos arcanos da doutrina. Esses, também, quando são instruídos a respeito da fé só e da justificação, não crêem outra coisa senão que a fé só é pensar em Deus e na salvação, e de que maneira se deve viver, e que a justificação é viver diante de Deus. Nesse estado de pensamento e de fé são mantidos pelo Senhor todos os que são salvos dentro da igreja e, também, após a saída do mundo, eles são esclarecidos nos veros, pois podem receber a iluminação. Mas aqueles que viveram pela doutrina da fé só e da justificação por ela (dos quais se tratou acima), ficam cegos, pelo fato de que a fé só não é fé alguma e, assim, a justificação pela fé é coisa nula. (Que a fé só seja uma fé nula vê-se no opúsculo Do Juízo Final, nºs 33-39).
[4] Por aí se pode ver quem são os se entendem pelos 'mornos', a saber, são aqueles que dizem de coração: 'Que diferença faz se penso no bem, se o quero e faço? Porque por isso não há salvação. Basta que eu tenha a fé'. E, também: 'Que diferença faz se eu penso no mal e o quero? Porque por isso não há condenação'. Desse modo relaxam todos os freios de seus pensamentos e intenções, por conseguinte, de seu espírito, pois o espírito é que pensa e tem em intenção, e se tornam inteiramente segundo fazem. Cumpre saber, porém, que são muito poucos os que vivem assim pela doutrina, ainda que os pregadores creiam que são tais todos os que ouvem suas pregações. Pois é pela Divina providência do Senhor que sejam poucos, em razão de que a sorte dos 'mornos' não é diferente da sorte dos profanadores. E a sorte dos profanadores é que deles, após a vida do mundo, são tiradas todas as coisas que souberam da Palavra e, em seguida, são deixados no pensamento e no amor de seu espírito; e quando lhes é arrebatado o pensamento que tiveram da Palavra, tornam-se os mais estúpidos de todos. Eles até aparecem à luz do céu como esqueletos queimados revestido de alguma pele. (Sobre a profanação e a sorte dos que profanam vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém, nº 172).
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