AE 275

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. (Vers. 6) "E à vista do trono um mar de vidro semelhante ao cristal". Que isto signifique a aparência [do Divino] Vero nos últimos, onde estão seus gerais, transluzindo pelo influxo do Divino Vero unido ao Divino Bem nos primeiros, vê-se pela significação de 'à vista do trono', que é a aparência; pela significação de 'mar', que são os veros gerais (de que se tratará a seguir); pela significação de 'vidro', que é a translucidez. Diz-se, também, 'semelhante ao cristal' para que se exprima a translucidez pelo influxo do Divino Vero unido ao Divino Bem nos primeiros, que é significado pelas 'sete lâmpadas de fogo ardendo diante do trono', como se mostrou logo acima (nº 274). No que precedeu e até aqui foi descrito o estado de todo o céu, ordenado para o juízo, e o seu último é descrito pelo 'mar de vidro semelhante ao cristal'. Que seja o vero do último do céu que é significado pelo 'mar de vidro' é porque o 'mar' significa os gerais do vero, tal como é o vero nos últimos do céu e, com o homem, no homem natural, vero esse que é chamado conhecimento. O 'mar' significa esses veros porque no mar há o ajuntamento das águas, e pelas 'águas' são significados os veros (vê-se acima, nº 71).
[2] Que o 'mar' signifique esses veros, vê-se por muitas passagens na Palavra, das quais quero citar grande quantidade. Em Isaías:
"Encerrarei os egípcios na mão de um duro senhor, e um rei violento dominará sobre eles; (...) então faltarão as águas ao mar, e o rio se esgotará e secará" (Is. 19:4, 5);
pelos 'egípcios' são significadas as ciências [scientiae] que pertencem ao homem natural; pelo 'duro senhor' em cujas mãos seriam encerrados é significado o mal do amor de si; pelo 'rei violento' é significado o falso daí; por 'as águas faltarem ao mar' é significado que de ciências em tanta abundância não haveria veros; e pelo 'rio que se esgotará e se secará' é significado que não haveria doutrina alguma do vero e, assim, nenhuma inteligência.
[3] No mesmo:
"JEHOVAH visitará com sua espada dura, grande e forte, sobre o leviatã, a serpente comprida, e sobre o leviatã, a serpente tortuosa, e matará as baleias que há no mar" (Is. 27:1);
estas expressões se dizem também a respeito do Egito, pelo qual são significados as ciências que pertencem ao homem natural. Pelo 'leviatã, a serpente comprida' são significados aqueles que rejeitam tudo o que não vêem com os olhos, assim, aqueles que são meramente sensuais, os quais estão sem fé porque não compreendem; pelo 'leviatã, a serpente tortuosa' são significados aqueles que não crêem e, no entanto, dizem que crêem; pela 'espada dura, grande e forte' com que serão visitados é significada a extinção de todo vero, pois a 'espada' é o falso que destrói o vero; pelas 'baleias no mar', que serão mortas, são significados os conhecimentos em geral. (Que estes sejam significados pelas 'baleias' vê-se no nº 7293).
[4] No mesmo:
"Calai-vos, habitantes da ilha! Ó mercador de Sidon que passa no mar, encheram-te (...) enrubesce Sidon, porque disse o mar, a fortaleza do mar, dizendo: Não tive dores do parto e não pari, e não criei os jovens [nem] fiz amadurecer as virgens; quando a notícias chegar ao Egito, serão tomados de dor, assim como a notícia de Tiro" (Is. 23:2-5);
por 'Sidon' e 'Tiro' são significadas as cognições do bem e do vero, pelo que se diz: 'mercador de Sidon que passa no mar'; 'mercador' é o que adquire para si e comunica as cognições. Que nada do bem e do vero tenham adquirido para si é significado por: 'disse o mar: Não tive dores de parto nem pari; não criei os jovens nem fiz amadurecer as virgens'; 'ter dores de parto' e 'parir' é produzir algo com as cognições; 'jovens' são os veros e as 'virgens' são os bens. Que, assim, os usos das cognições e das ciências pereceriam é significado por 'quando a notícia chegar ao Egito, serão tomados de dor, assim como a notícia de Tiro'.
[5] Em Ezequiel:
"Descerão de seus tronos todos os príncipes do mar, e lançarão foram os seus mantos, e despirão suas vestes de bordadura, e se revestirão de terror; trarão sobre ti uma lamentação, e dirão: Como pereceste, ó habitada pelos mares, cidade afamada que foi forte nos mares (...) pelo que se perturbarão as ilhas no mar desde a tua saída" (Ez. 26:15-18);
estas coisas se referem a Tiro, pela qual são significadas as cognições do vero; a negligência e a perda destas é desse modo descrita; os 'príncipes do mar que descerão de seus tronos' significam as cognições primárias; que elas seriam abandonadas juntamente com os conhecimentos é significado por 'lançarão fora seus mantos e despirão suas vestes de bordadura' ('bordadura' é o conhecimento); a 'cidade habitada pelos mares e forte no mar' significa o cognitivo em toda abundância (os 'mares' significam as coleções); as 'ilhas no mar' significam as nações mais afastados dos veros, as quais desejam as cognições; delas se diz: 'pelo que se perturbarão as ilhas no mar desde a tua saída'.
[6] Em Isaías:
"Não farão o mal nem se corromperão em todo o monte de Minha santidade, porque a terra será cheia da ciência de JEHOVAH, como as águas cobrem o mar" (Is. 11:9);
trata-se aí do novo céu e da nova igreja, os quais se entendem pelo 'monte de santidade' no qual não farão o mal nem se corromperão; a inteligência do vero deles, vinda do Senhor, é descrita por 'a terra será cheia da ciência de JEHOVAH'; e como as 'águas' significam os veros, e o 'mar' a plenitude deles, por isso se diz: 'como as águas cobrem o mar'.
[7] No mesmo:
"Por Minha repreensão seco o mar, faço dos rios um deserto, apodreço o seu peixe, por não haver água, e morre de sede" (Is. 50:2);
'secar o mar' significa a total falta das cognições gerais do vero; 'fazer dos rios um deserto' significa a privação de todo vero, assim, da inteligência; 'apodrecer o peixe' significa que os conhecimentos que são do homem natural estarão desprovidos de vida espiritual, o que acontece quando são aplicados para confirmar os falsos contra os veros da igreja; 'por não haver água' significa por não haver vero algum; 'morrer de sede' significa a extinção do vero. (Os 'rios' significam as coisas que pertencem à inteligência, como se vê nos nºs 108, 2702 e 3051; o 'deserto' significa onde há não bem, por não haver vero, nºs 2708, 4736 e 7055; o 'peixe' significa o conhecimento que é do homem natural, nºs 40 e 991; a 'água' significa o vero, nºs 2702, 3424, 3058, 5668 e 8568; e 'morrer de sede' significa a privação da vida espiritual pela falta do vero, nº 8568, no fim).
[8] Em David:
"JEHOVAH (...) dominas na elevação do mar, quando suas ondas se levantam" (Sl. 89:9);
pelo 'mar', aqui, é significado o homem natural, porque nele estão os veros gerais; sua 'elevação' significa quando se ergue contra o Divino, negando as coisas que são da igreja; pelas 'ondas' que se levantam são significados os falsos.
[9] No mesmo:
JEHOVAH' sobre os mares fundou' a cidade, 'e sobre os rios a estabeleceu' (Sl. 24:2);
pela 'cidade' é significada a igreja; pelos 'mares', as cognições em geral, que estão no homem natural; pelos 'rios', os veros da fé; sobre estes e aquelas se funda a igreja.
[10] Em Amós:
JEHOVAH' que edifica nos céus os seus degraus (...) e chama as águas do mar, e as derrama sobre as faces da terra" (Am. 9:6);
pelos 'degraus' que JEHOVAH' edifica nos céus' são significados os veros interiores, que se chamam espirituais; pelas 'águas do mar' são significados os veros exteriores, que são naturais por estarem no homem natural; por 'derramá-las sobre as faces da terra' é significado derramá-las sobre os homens da igreja, pois a 'terra' é a igreja.
[11] Em David:
"Pela Palavra de JEHOVAH foram feitos os céus, e pelo espírito de Sua boca todos os seus exércitos; ajunta como um montão as águas do mar; põe em tesouros os abismos" (Sl. 33:6, 7);
a 'Palavra de JEHOVAH' pela qual 'foram feitos os céus', e o 'espírito da boca' pelo qual foram feitos os 'seus exércitos' significa o Divino Vero procedente do Senhor; (os 'exércitos dos céus' são todas as coisas do amor e da fé); as 'águas do mar' que Ele 'ajunta num montão' significam as cognições do vero e os veros no geral, que estão juntamente no homem natural; os 'abismos' que 'põe em tesouros' significam os conhecimentos dos sentidos, que são os mais gerais e os últimos do homem natural e nos quais se acham juntamente os veros interiores ou superiores, pelo que se chamam 'tesouros'.
[12] No mesmo:
JEHOVAH "fundou a terra sobre suas bases, para que não seja abalada na eternidade e perpetuamente; [Tu] cobriste o abismo como de uma veste" (Sl. 104:5, 6);
pela 'terra' é significada a igreja; as 'bases' sobre as quais JEHOVAH' a fundou na eternidade' são as cognições do vero e do bem; o 'abismo' que 'cobriu como de uma veste' é o conhecimento dos sentidos, que é o último do homem natural, e, como é o último, se diz: 'como de uma veste o cobriu'.
[13] No mesmo:
JEHOVAH, 'no mar [está] o Teu caminho, e Tua vereda nas muitas águas; mas Tuas pegadas não são conhecidas" (Sl. 77:19);
em Isaías:
"Assim disse JEHOVAH, que pôs no mar um caminho, e nas fortes águas uma vereda" (Is. 43:16);
é evidente que por 'mar', aqui, não se entende o mar, nem por 'águas' se entendem águas, porque se diz que ali há 'caminho e vereda de JEHOVAH'; por isso, pelo 'mar' e pelas 'águas' se entendem as coisas tais em que JEHOVAH ou o Senhor está, que são as cognições do vero em geral, provenientes da Palavra, e os veros ali; o 'mar' são essas cognições e as 'águas' são os veros. As cognições e os veros diferem no fato de que as cognições são do homem natural e o veros do homem espiritual.
[14] Em Jeremias:
"Eis que Eu pleiteio a tua causa, e vingarei a tua vingança, até que [Eu] seque o mar de Babel e esgote a sua fonte; (...) o mar subirá sobre Babel, pela multidão de suas ondas será coberta" (Jr. 51:36, 42)
por 'Babel' se entendem os que profanam os bens; o 'mar de Babel' são as suas tradições, que são adulterações do bem da Palavra; as 'ondas' são os seus falsos; por essas palavras foi descrita a destruição deles quando houvesse o juízo final.
[15] No mesmo:
"Um povo que vem do norte, e uma grande nação e muitos reis se levantarão dos lados da terra; (...) a voz deles é tumultuada como o mar, e montam em cavalos" (Jr. 50:41, 42);
'um povo que vem do norte' são os estão nos falsos do mal; 'uma grande nação' são os males e os 'muitos reis' são os falsos; os 'lados da terra' são os que estão fora da igreja e que não são da igreja, pois a 'terra' é a igreja; 'a voz deles, tumultuada como o mar' é o falso vindo do homem natural que se exalta contra o vero da igreja; os 'cavalos em que montam' são os raciocínios pelas falácias dos sentidos.
[16] No mesmo:
"JEHOVAH, que dá o sol por luz do dia, e os estatutos da lua e das estrelas por luz da noite, que abala o mar, para que se agitem as suas ondas" (Jr. 31:35);
pelo 'sol', de que vem a 'luz do dia' é significado o bem do amor celeste do que vem a percepção do vero; pelos 'estatutos da lua e das estrelas' do qual vem a 'luz da noite' são significados os veros provenientes do bem espiritual e provenientes das cognições, das quais vem a inteligência; pelo 'mar' que é abalado e pelas 'ondas' que se agitam são significados os veros gerais no homem natural e os conhecimentos.
[17] Em Isaías:
"Os ímpios são como o mar impetuoso, quando não pode se aquietar, mas lançam de suas águas lama e lodo" (Is. 57:20);
pelo 'mar impetuoso', que são os 'ímpios', são significados os raciocínios pelos falsos; pelas 'águas' que 'lançam lama e lodo' são significados os falsos mesmos, dos quais procedem os males da vida e os falsos da doutrina.
[18] Em Ezequiel:
"Estenderei Minha mão sobre os filisteus, e cortarei os quereteus, e destruirei as relíquias da costa do mar' (Ez. 25:16);
pelos 'filisteus' são significados os que estão na doutrina da fé só, e pelas 'relíquias da costa do mar', que serão destruídas, são significadas todas as coisas do vero.
[19] Em Oséias:
"Não voltarei para destruir os de Efraim (...) após JEHOVAH irão (...) e com honra subirão do mar os filhos, com honra virão do Egito como um pássaro, e da terra da Assíria como uma pomba" (Os. 11:9-11);
pelos 'de Efraim' é significada a igreja quanto ao entendimento do vero'; pelos 'filhos que sobem do mar' são significados os veros de uma fonte geral, que é a Palavra; pelo 'pássaro que vem do Egito' é significado o conhecimento que concorda, pela 'pomba que vem da terra da Assíria' é significado o racional.
[20] Em Zacarias:
"Naqueles dia sairão águas vivas de Jerusalém, uma parte delas para o mar oriental, e uma parte delas para o mar posterior" (Zc. 14:8);
pelas 'águas vivas saindo de Jerusalém' são significados os veros de origem espiritual na igreja, que são os veros que são recebidos pelo homem quando está na iluminação pelo Senhor ao ler a Palavra; 'Jerusalém' é a igreja quanto à doutrina; pelo 'mar' é significado o homem natural, no qual descem as coisas que estão no espiritual; pelo 'mar oriental' é significado o homem natural quanto ao bem, e pelo 'mar posterior' o homem natural quanto ao vero; e como o homem natural está nos veros mais gerais, por isso, pelo 'mar' são também significados os gerais do vero.
[21] Quem não sabe alguma coisa a respeito do homem espiritual e a respeito dos veros e bens que há nele pode achar que os veros que estão no homem espiritual, e que se chamam cognições e conhecimentos, não são os gerais do vero, mas todas as coisas do vero que há no homem. Mas saiba que os veros no homem espiritual, do qual vêm os veros que estão no natural, excedem em número imenso. Todavia, as coisas que estão no homem espiritual não chegam à percepção do homem natural a não ser quando ele vem ao mundo espiritual, o que acontece após a morte, porque, então, o homem se despe do natural e se reveste do espiritual. Que isto seja assim, pode-se ver somente pelo fato de os anjos estarem em inteligência e sabedoria inefável, acima do homem, e, no entanto, os anjos procedem do gênero humano. (Que os anjos procedam do gênero humano, vê-se na obra Do Juízo Final, nºs 14-22 e 23-27).
[22] Visto que o 'mar' significa os gerais do vero, por isso o grande vaso que era usado para a ablução geral foi chamado 'mar de bronze' (I Re. 7:23-26), pois as abluções representavam as purificações dos falsos e dos males, e as 'águas' significam os veros pelos quais se fazem as purificações. E como todos os veros são provenientes do bem, por isso o seu continente era de bronze, donde foi chamado 'mar de bronze', pois o 'bronze' significa o bem. A purificação espiritual, que é a purificação dos falsos e males, é descrita ali plenamente pelas medidas daquele vaso e por sua base, entendidas no sentido espiritual. Pelas coisas que foram aduzidas pode-se ver que o 'mar' significa os gerais do vero, ou as cognições do vero junta e coletivamente. O que mais é significado pelo 'mar' ver-se-á nas explicações da seqüência, pois na seqüência o mar é mencionado em vários sentidos (como no Apoc. 5:13; 7:1-3; 8:8,9; 10:2, 8; 12:12; 13:1; 14:7; 15:2; 16:3; 18:17, 19, 21; 20:13; 21:1).

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