AE 406

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. Mostrou-se até aqui o que ‘monte’ significa; resta que seja mostrado o que significa ‘ilha’, porque se diz: ‘todos os montes e ilhas foram removidos de seus lugares’ e, em outra passagem:
“Toda ilha fugiu, e os montes não mais se acharam” (Ap. 16:20).
Por ‘ilhas’, na Palavra, não se entendem ilhas nem os que habitam nas ilhas, mas entende-se o homem natural quando aos veros que há nele e, assim, são significados abstratamente os veros do homem natural. Os veros do homem natural são os conhecimentos verdadeiros [vera scientifica], que estão sob a intuição do homem racional, e são as cognições do vero, que estão sob a intuição do homem espiritual. As cognições do vero são aquelas que o homem natural conhece pela Palavra, e os conhecimentos verdadeiros são aqueles que o homem natural vê pelo racional, pelos quais também costuma confirmar os veros da igreja. Há no homem duas mentes: uma superior ou interior, que se chama mente espiritual, e outra inferior ou exterior, que se chama mente natural. A mente natural é aberta e cultivada primeiro nos homens porque ela fica mais próxima do mundo; a mente espiritual, porém, é aberta e cultivada depois, mas na medida que o homem recebe pela vida as cognições do vero provenientes da Palavra ou da doutrina procedente da Palavra, não se abrindo, pois, naqueles que não as aplicam à vida. E quando a mente espiritual se abre, então a luz do céu influi por essa mente na mente natural e a ilumina, pelo que essa mente se torna espiritual natural, porque então a mente espiritual vê no natural quase como se o homem visse a sua face num espelho, e reconhece as coisas que concordam consigo. Quando, todavia, a mente espiritual não é aberta, como ocorre naqueles que não aplicam à sua vida as cognições do vero e do bem que há na Palavra, então, forma-se nele, mesmo assim, uma mente interior no natural, mas essa mente consiste de meros falsos e males, pelo fato de que não foi aberta a mente espiritual pela qual a luz do céu fosse incidisse no natural por uma via direta, mas somente por frestas ao redor, donde ele tem a faculdade de pensar, de raciocinar e de falar, e também a faculdade de entender os veros, mas não a faculdade de os amar ou de fazê-los por afeição. Com efeito, a faculdade de amar os veros porque são veros só existe pelo influxo da luz do céu pela mente espiritual, porque a luz do céu pela mente espiritual é conjunta ao calor do céu, que é o amor, tal como é, comparativamente, a luz do mundo na estação da primavera, enquanto a luz do céu influindo por frestas no natural é a luz separada do calor do céu – que é o amor – tal como é, comparativamente, a luz do mundo na estação do inverno. Daí pode ser evidente que o homem em quem a mente espiritual foi aberta é como um jardim e um paraíso, e o homem em quem a mente espiritual não foi aberta é como o ermo e como a terra coberta de neve. Visto que a mente faz o homem, pois sua mente é o entendimento e a vontade, por isso dá no mesmo dizer mente ou homem, por conseguinte, dizer mente espiritual e natural ou dizem homem espiritual e natural. A mente natural ou o homem natural quanto aos seus veros e quanto aos seus falsos é significada pelas ‘ilhas’ na Palavra; quanto aos veros naqueles em quem a mente espiritual foi aberta, e quanto aos falsos naqueles em quem a mente espiritual foi fechada.
[2] Que elas sejam significadas pelas ‘ilhas’, pode-se ver pelas seguintes passagens na Palavra. Em Ezequiel:
“Assim disse o Senhor Jehovih a Tiro: Acaso não tremerão as ilhas ao som de tua queda, quando gemer o ferido, quando se cumprir a matança no meio de ti? E todos os príncipes do mar descerão sobre68 seus tronos;... as ilhas tremerão no dia de tua queda, e ficarão perturbadas as ilhas que estão no mar por causa de tua saída... Todos os habitantes das ilhas ficaram espantados a respeito de ti, e os reis delas tremem de horror; suas faces se turbaram” (Ez. 26:15-16, 18; 27:35).
Nesses dois capítulos se trata de Tiro, por quem é significada a igreja quanto às cognições do vero e do bem, e, assim, são significadas abstratamente as cognições do vero e do bem. Aí se trata primeiramente da inteligência e da sabedoria dos homens da igreja pelas cognições do vero e do bem provenientes da Palavra e, depois, da igreja devastada quanto à cognições. A igreja devastada quanto a elas, ou onde as cognições do vero e do bem pereceram, é descrita pelas coisas que há nesses versículos no Profeta; a vastação das cognições do vero e do bem por ‘quando gemer o ferido, e quando se cumprir a matança no meio de ti’, pois pelos ‘feridos’ se entendem aqueles em quem os veros foram extintos, e pela ‘matança’ se entende a extinção mesma do vero e do bem. Que então todas as cognições de que o homem se imbui da Palavra desde a infância e todos os conhecimentos verdadeiros pelos quais as confirma sejam perturbados, removidos de seu lugar e retirados, é significado por ‘as ilhas tremerão, e descerão de sobre os seus tronos todos os príncipes do mar’ e também por ‘as ilhas tremerão no dia de tua queda, e ficarão perturbadas as ilhas que estão no mar’; as ‘ilhas’ são essas cognições e esses conhecimentos que estão no homem natural, os ‘príncipes do mar’ são as coisas primárias ali (‘mar’ significa o homem natural e todas as coisas ali em geral). Que todos os bens e veros do homem natural sejam mudados quanto ao seu estado pelas cognições do vero é significado por ‘todos os habitantes das ilhas ficaram espantados, e os reis delas tremerão [de horror]; as faces se turbaram’; os ‘habitantes das ilhas’ são os bens e veros do homem natural, porque ‘habitar’, na Palavra, significa viver, e ‘habitantes’ significam os bens da vida; os ‘reis’ são todos os veros do bem; ‘faces’ significam os interiores e as afeições; ‘espantar-se’, ‘tremer [de horror]’ e ‘turbar-se’ significam ser mudado completamente quanto ao estado. Por aí é evidente o que essas coisas envolvem no sentido interno, a saber, que todas as cognições do vero e do bem, assim como os conhecimentos que confirmam, dos quais o homem se imbui da Palavra desde a infância, mudam-se de seu lugar e de seu estado no homem natural, e perecem da vista, quando os falsos entram.
[3] Em Isaías:
“O rei da Assíria levará o cativeiro do Egito69, e a turba deportada de Cush;... então ficarão consternados e enrubescerão por causa de Cush70, sua esperança, e por causa do Egito, seu adorno. E dirá o habitante desta ilha naquele dia: Eis que tal é nossa esperança que fugimos por auxílio, para que fôssemos arrebatados de diante do rei da Assíria; e de que modo seremos libertos? (Is. 20:4-6).
Por essas palavras ninguém há de perceber coisa alguma da igreja, mas somente um relato histórico obscuro que não se saber ter ocorrido, como, por exemplo, que o rei da Assíria levará ao cativeiro o Egito e Cush, e que alguns habitantes da ilha se comovam de coração a esse respeito. Ainda assim, porém, aqui como em outras passagens trata-se de assunto da igreja, assunto esse que é evidente quando se sabe que o ‘rei da Assíria’ significa o racional pervertido e, assim, o raciocínio pelos conhecimentos falsos que favorecem o prazer dos amores naturais, pelo que o homem natural se comove, por ser desse modo pervertido . Com efeito, ‘o rei da Assírio levará o cativeiro do Egito, e a turba deportada de Cush’ significa que o racional pervertido adjudicará a si os conhecimentos do homem natural e se confirmará por eles e pelos seus prazeres, aos quais os conhecimentos favorecem; ‘rei da Assíria’ é o racional pervertido; ‘levar o cativeiro’ e ‘deportar a turba’ é adjudicar a si pelos raciocínios e confirmar-se; ‘Egito’ é o conhecimento do homem natural, e ‘Cush’ é o prazer ao qual favorece. Que os bens do vero do homem natural se comovam por causa disso, ou que o homem natural em quem estão os bens do vero se comova, é significado por todas as coisas que se seguem, ou saber, que ‘ficarão consternados e enrubescerão por causa de Cush, esperança deles, e por causa do Egito, seu adorno; e dirá o habitante da ilha naquele dia’, e sequência; ‘habitante da ilha’ é o bem do vero do homem natural, ou o homem natural em que há o bem do vero, pois ‘habitante’ significa o bem, e ‘ilha’ o vero, ambos no homem natural (como acima). Dificilmente se crê que há tal sentido nessas palavras, mas há.
[4] No mesmo:
“Estes alçarão a sua voz, jubilarão; por causa da magnificência de JEHOVAH, clamarão desde o mar. Por isso honrai a JEHOVAH no urim, nas ilhas do mar o nome do Deus de Israel” (Is. 24:14, 15).
Trata-se nesse capítulo da devastação da igreja, e nesses versículos se trata da instauração de uma nova igreja com as nações71. O regozijo delas o que se descreve por ‘alçarão a sua voz, jubilarão; por causa da magnificência de JEHOVAH clamarão desde o mar’, ou desde o ocidente, porque o ‘mar’, quando por ele se entende o ocidente, significa o natural, pelo fato de que aqueles que habitam na região ocidental no mundo espiritual estão no bem natural, enquanto os da região oriental estão no bem celeste; e como as nações, dos quais haveria a igreja, estavam no bem natural, por isso se diz: ‘honrai a JEHOVAH no urim, nas ilhas do mar o nome do Deus de Israel’, pelo que é significado que o Senhor deve ser adorado pelos bens e veros que há no homem natural, porque ‘urim’ significa chama e fogo72 ??? [dif inglês], pelos quais é significado o bem do amor do homem natural; as ‘ilhas do mar’ significam as cognições do vero e do bem, que são os veros do homem natural; e ‘honrar’ significa cultuar e adorar; por ‘JEHOVAH’ e ‘Deus de Israel’ se entende o Senhor, que é chamado ‘JEHOVAH’ onde se trata do bem, e ‘Deus de Israel’ onde se trata do vero. Por isso se diz ‘honrai a JEHOVAH no urim’, isto é, pelo bem, e ‘nas ilhas do mar o nome do Deus de Israel’, isto é, pelos veros. Daí também é evidente que pelas ‘ilhas do mar’ são significados os veros do homem natural.
[5] No mesmo:
“Não extinguirá nem quebrará, até que tenha posto o juízo na terra, e na Sua lei as ilhas esperem... Cantai a JEHOVAH um cântico novo, o Seu louvor desde extremidade da terra, os que descem ao mar, sua plenitude, as ilhas e os seus habitantes. Alcem [a voz] o deserto e as suas cidades, as vilas que a Arábia habita. Cantem os habitantes da rocha, clamem desde a cabeça dos montes; deem glória a JEHOVAH e anunciem Seu louvor nas ilhas” (Is. 42:4, 10-12).
Também aí se trata do Senhor e de uma nova igreja ser instaurada por Ele, e pelas ‘ilhas’ se entendem os que estão somente nos veros do homem natural e, assim, que estão ainda distantes do verdadeiro culto. Assim, por ‘até que tenha posto na terra o juízo, e na Sua lei as ilhas esperem’ é significado até que tenha dado a inteligência aos que são da igreja e as cognições do vero aos que estão mais afastados da igreja; ‘por o juízo’ é dar a inteligência, ‘esperar na lei’ é dar as cognições do vero, porque ‘terra’ significa os que são da igreja e, abstratamente, a igreja mesma quanto à inteligência proveniente dos veros espirituais, e ‘ilhas’ são os que se acham afastados da igreja e, abstratamente, a igreja quanto às cognições do vero e do bem, ou a igreja quanto aos veros do homem natural correspondentes aos veros espirituais; ‘cantai a JEHOVAH um cântico novo, o Seu louvor desde a extremidade da terra, os que descem ao mar e sua plenitude, as ilhas e os habitantes delas’ significa o culto do Senhor por aqueles que estão distantes e, num sentido abstrato, o culto do homem natural pelos veros e bens; ‘cantar um cântico’ e ‘louvar’ significa o culto por um ânimo contente; a ‘extremidade da terra’ significa os que estão nos últimos da igreja e, num sentido abstrato, os seus últimos; o ‘mar e sua plenitude’ significam o homem natural e todas as coisas que há nele; as ‘ilhas’ e os ‘habitantes’ significam os veros e bens do homem natural; as ‘ilhas’ os seus veros, e os ‘habitantes’ os seus bens (como acima). O que é significado por ‘alcem [a voz] o deserto e as suas cidades, e as vilas em que a Arábia habita; cantem os habitantes da rocha e clamem desde a cabeça dos montes’ vê-se acima (n. 405), onde essas expressões são explicadas. ‘Deem glória a JEHOVAH, e anunciem Seu louvor nas ilhas’ significa o culto pelos internos e externos; ‘dar glória’ é o culto pelos internos, e ‘anunciar o louvor’ é cultuar pelos externos, porque os externos anunciam, e as ‘ilhas’ são os veros do homem natural pelos quais há o culto.
[6] No mesmo:
“Atendei-Me, povo Meu, e dai-Me ouvidos, ó nação Minha, pois de Mim sairá a lei, e Meu juízo suscitarei por luz dos povos. Perto está a Minha justiça, saiu a Minha salvação, e Meus braços julgarão os povos. Em Mim as ilhas esperarão, e sobre o Meu braço confiarão” (Is. 51:4, 5).
Essas palavras são a respeito do Senhor. ‘Atendei-Me, povo Meu, e dai-Me ouvidos, ó nação Minha’ significa todos os da igreja que estão nos veros do bem; ‘povos’ são os que estão nos veros, e ‘nação’ os que estão nos bens. Diz-se ‘atendei’ e ‘dai ouvidos’, no plural, porque se entendem todos. ‘De Mim sairá lei, e Meu juízo suscitarei por luz dos povos’ significa que d’Ele vêm o Divino Bem e o Divino Vero, pelos quais há iluminação; ‘lei’ significa o Divino Bem, e ‘juízo’ significa o Divino Vero da Palavra; ‘por lei dos povos’ significa a iluminação; ‘perto está a Minha justiça, saiu a Minha salvação’ significa o juízo, quando são salvos os que estão no bem do amor e os que estão nos veros daí. Diz-se ‘justiça’ a respeito da salvação dos que estão no bem, no dia do juízo, e ‘salvação’ a respeito da salvação dos que estão nos veros; ‘Meus braços julgarão os povos’ significa o juízo sobre os da igreja que estão nos falsos (‘povos’, aqui, no sentido oposto); ‘em Mim as ilhas esperarão, e sobre o Meu braço confiarão’ significa o acesso à igreja dos que estão distantes dos veros da igreja e a confiança deles no Senhor; as ‘ilhas’ significam os que estão distantes dos veros da igreja, porque estão no lume natural não ainda na luz espiritual proveniente da Palavra; e ‘confiar sobre o Seu braço’ significa a confiança no Senhor, que tem o poder (‘braço’, quando se trata do Senhor, é a onipotência.
[7] No mesmo:
“Ouvi, ó ilhas... e escutai, ó povos de longe” (Is. 49:1);
o vocábulo ‘ilhas’ está em lugar dos que estão nos veros, ‘povos de longe’, dos que estão nos bens, e abstratamente os veros e bens, uns e outros no homem natural. Diz-se ‘de longe’ a respeito dos bens que estão no homem natural, mas ‘de perto’ dos bens que estão no espiritual. Os ‘povos’ aqui significam os bens, porque são referidos na língua original por um vocábulo variante de ‘povos’ pelo qual são significados os veros. Com efeito, por esse vocábulo são também nomeadas as ‘nações’, pelas quais são significados os bens (como é evidente por esse vocábulo no Gênesis 25:23).
[8] Em Jeremias:
“Ouvi a Palavra de JEHOVAH, ó nações, e anunciai nas ilhas de longe” (Jr. 31:10);
‘nações’ está em lugar dos que estão nos bens e, abstratamente, em lugar dos bens, e ‘ilhas’ em lugar dos que estão nos veros e, abstratamente, em lugar dos veros no homem natural; ‘de longe’ significa afastado dos veros da igreja que são espirituais (que ‘de longe’ signifique isso, vê-se no n. 8918). Todavia, essas palavras no sentido espiritual puro significam que o homem interno ensinará o externo, ou o espiritual ao natural, todos os veros da Palavra, pois isto é o que quer dizer ‘as nações anunciem nas ilhas de longe’. Esse sentido puro, contudo, que é para os anjos, dificilmente é percebido pelos homens, porquanto os homens dificilmente podem pensar abstratamente de pessoas e de lugares, pelo fato de que o pensamento dos homens é natural, e o pensamento natural difere do pensamento espiritual por ser ligado aos lugares e às pessoas, sendo, assim, mais finito que o espiritual. Esta é também a razão pela qual muitas coisas que foram explicadas talvez dificilmente caiam nas ideias do pensamentos daqueles que mantêm a visão da mente fixa no sentido das palavras.
[9] Em David:
“Os reis de Tarshish e das ilhas farão vir ofertas, os reis de Scheba e de Seba trarão ofertas” (Sl. 72:10).
palavras estas que são a respeito do Senhor; por ‘fazer vir’ e ‘trazer ofertas’ se entende cultuar, e pelos ‘reis de Tarshish e das ilhas’ se entendem os veros interiores e exteriores do homem natural; pelos ‘reis de Tarshish’, os seus veros interiores, e pelas ‘ilhas’ os seus veros exteriores; pelos ‘reis de Scheba e de Seba’ se entendem os bens interiores e exteriores do homem natural; por ‘Scheba’ os seus bens interiores, e por ‘Seba’ os seus bens exteriores. Pelos veros do homem natural se entendem as cognições do vero, e pelos bens do homem natural se entendem as cognições do bem (que estas coisas se entendam por ‘Scheba’ e por ‘Seba’, vê-se nos n. 1171 e 3240; e que elas se entendam por ‘Tarshish’, ver-se-á logo abaixo). E visto que se entendem tais coisas, entendem-se também os que estão nas cognições do vero e do bem.
[10] Em Isaías:
“Quem são aqueles que voam como nuvens, e como pombas para as suas janelas? Porque em Mim as ilhas confiam, e os navios de Tarshish no princípio, para trazer de longe os teus filhos.” (Is. 60:8, 9).
Essas palavras também foram ditas a respeito do Senhor e elas significam que por Ele serão recebidos e reconhecidos os que estão no vero e bem simples, que são os que percebem os veros da Palavra apenas naturalmente, ou seja, segundo o sentido da letra, e os fazem. As ‘ilhas’ significam aqueles que percebem a Palavra apenas naturalmente, isto é, segundo o sentido da letra, e ‘os navios de Tarshish no princípio’ são os bens que eles trazem e praticam, porque ‘Tarshish’ significa o homem natural quanto às cognições do bem, já que em Tarshish havia ouro e prata, e os navios os traziam de lá (I Reis 10:22), e no princípio traziam o ouro, pelo qual é significado o bem; e visto que os veros provêm do bem, por isso também se diz: ‘para trazer de longe os teus filhos’. E como pelas ‘ilhas’ e pelos ‘navios de Tarshish’ são significadas as cognições do vero e do bem do homem natural, por isso se diz: ‘Quem são esses que voam como nuvens, e como pombas para as suas janelas?’; as ‘nuvens’ significam os veros do sentido da letra da Palavra, as ‘pombas’ significam os bens aí, e as ‘janelas’ os veros do bem na luz. (Que os ‘navios’ signifiquem as cognições do vero e do bem provenientes da Palavra, vê-se nos n. 1977 e 6385; e que as ‘janelas’ signifiquem os veros na luz e, assim, o entendimento, ns. 655, 658 e 3391).
[11] No mesmo:
“Uivai, ó navios de Tarshish, porque Tiro foi devastada a ponto de não haver casa nem alguém que entre; da terra de Quitim isso manifestamente lhes virá. Calem-se os habitantes da ilha, o mercador de Sidon que passa no mar; eles te encheram. ... Enrubesce, ó Sidon, pois disse o mar, a fortaleza do mar: Não tive dores de parto, nem pari, e não criei jovens, nem fiz crescer as virgens. Quando a notícia vier do Egito, serão pegos pela dor, como pela notícia de Tiro. Passai em Tarshish, uivai, ó habitantes da ilha” (Is. 23:1, 2, 4-6);
assim se descreve a desolação do vero na igreja, pois pelos ‘navios de Tarshish’ são significadas as cognições do bem provenientes da Palavra e por ‘Tiro’ são significadas as cognições do vero daí. Que não haja bem por não haver veros é significado por ‘uivai, ó navios de Tarshish, porque Tiro foi devastada a ponto de não haver casa nem alguém que entre’. Que então os falsos entrem a ponto de não haver mais quaisquer bens do vero e veros do bem no homem natural é significado por ‘da terra de Quitim isso manifestamente lhes virá. Calem-se os habitantes da ilha, o mercador de Sidon que passa no mar; eles te encheram’; ‘terra de Quitim’ significa os falsos; ‘habitantes da ilha’ significa os bens do vero no homem natural (como acima); ‘mercador de Sidon’ significa as cognições provenientes da Palavra; ‘que passa no mar’ significa o que está no homem natural; ‘os que te encheram’, a saber, os navios de Tarshish, significa que te enriqueceram por eles. A vastação do vero e do bem no homem natural é além disso descrita por ‘enrubesce, ó Sidon, porque disse o mar, a fortaleza do mar: Não tive dores de parto, não pari, e não criei jovens, nem fiz crescer as virgens’; por ‘Sidon’, igualmente a Tiro, são significadas as cognições do vero e do bem na igreja; ‘não tive dores de parto, não pari’ significa nada da igreja foi concebida e gerada; pelos ‘jovens’ são significadas as afeições do vero, e pelas ‘virgens’ as afeições do bem. Que isto tenha acontecido porque as cognições da Palavra e os conhecimentos que confirmam foram aplicados aos falsos e males é o que significa ‘quando a notícia vier do Egito, serão pegos pela dor, como pela notícia de Tiro’; o ‘Egito’ significa os conhecimentos, ‘Tiro’ as cognições provenientes da Palavra, aqui sendo elas devastadas pelos falsos e males aos quais são aplicadas; e como há lamento por esse motivo, por isso se diz: ‘pegos pela dor’. Que assim pereceria todo bem no natural e o vero ali, é o que significa ‘passai em Tarshish, uivai, ó habitantes da ilha’; ‘Tarshish’ significa os bens e veros interiores no natural, ‘habitantes da ilha’ os bens e veros exteriores ali (como também acima), ‘uivar’ significa a dor por causa da devastação.
[12] Em Jeremias:
“Tomei o cálice da mão de JEHOVAH, e fiz que bebessem todas as nações, às quais JEHOVAH me enviou... todos os reis de Tiro e todos os reis de Sidon, e os reis da ilha que está na passagem73 do mar” (Jr. 25:17, 22).
São numeradas aí muitas nações que aqui não são citadas, pelas quais são significados todos os bens e veros da igreja em geral e em particular, os quais foram devastados. Pelos ‘reis de Tiro e de Sidon’ são significadas as cognições do vero e bem provenientes da Palavra no homem natural, pois todas as cognições do vero e do bem, tanto quanto são cognições, estão no homem natural e tornam-se veros e bens quando se vive segundo elas, porque pela vida são recebidas no homem espiritual; pelos ‘reis da ilha que está na passagem do mar’ são significadas as cognições do vero no último do homem natural, o qual se chama natural sensual, porque por este há passagem nos interiores do homem natural; ‘mar’ significa o homem natural no geral (vide acima, n. 275 e 342). A devastação deles se entende por ‘cálice de JEHOVAH que fez todas as nações beberem’.
[13] No mesmo:
“Por causa do dia que vem para devastar todos os filisteus, para cortar de Tiro e de Sidon todo restante que auxilia, porque JEHOVAH devasta os filisteus, os remanescentes da ilha Caphtor” (Jr. 47:4);
pelos ‘filisteus’ se entendem os que estão na fé só, ou na fé separada da caridade; por isso eles também eram chamados de ‘incircuncisos’, que significa que eles não têm caridade (vide n. 2049, 3412, 3413, 8093 e 8313); ‘para cortar de Tiro e de Sidon todo restante que auxilia’ significa que eles nenhuma cognição têm do vero e do bem; ‘restante que auxilia’ significa que não concorda mais. Pelo ‘restante que auxilia’ é significado o mesmo que é significado pelos ‘remanescentes da ilha de Caphtor’.
[14] No mesmo:
“Passai nas ilhas de Quitim74 e vede; enviai à Arábia e atentai bem, e vede se porventura aconteceu algo assim, se porventura uma nação teria mudado os deuses” (Jr. 2:10, 11);
que ‘passassem e enviassem às ilhas de Quitim e à Arábia’ não significa que fossem enviados ali, mas a todos os que vivem naturalmente nos veros e bens segundo sua religiosidade; as ‘ilhas de Quitim’ são onde há os que vivem naturalmente no veros, e a ‘Arábia’ onde há os que vivem naturalmente nos bens, a saber, segundo a sua religiosidade; ‘Quitim’ e ‘Arábia’ significa uns e outros, pois todos os que não têm a Palavra ou alguma revelação do céu e vivem segundo a sua religiosidade, vivem naturalmente, pois viver espiritualmente é unicamente segundo os veros e bens da Palavra e pela revelação vinda do céu.
[15] Em Sofonias:
“Terrível será JEHOVAH sobre eles, porque definhará todos os deuses das nações para que O adorem, cada um de seu lugar; todas as ilhas das nações, também vós, etíopes, serão feridos por Minha espada” (Sf. 2:11, 12);
por essas palavras é significado, no sentido interno, que os falsos do mal serão dissipados e que os veros e bens serão dados mesmo aos que estão nos falsos, mas não nos falsos do mal; pelo ‘deus das nações’ que Ele definhará são significados os falsos do mal; pelos ‘deuses’ os falsos, pelas ‘nações’ os males, e por ‘definhar’ é significado pelos falsos remover os males. Pelas ‘ilhas das nações’ e pelos ‘etíopes’ são significados os que estão mesmo nos falsos mas não nos falsos do mal, e, abstratamente, os falsos mas não os falsos do mal; e como os falsos não do mal estão no homem natural, por isso pelas ‘ilhas das nações’ é significado o homem natural quanto aos falsos, ou quando a eles no homem natural. Esses falsos são significados por ‘feridos por Minha espada’. (Sobre os falsos do mal e os falsos não do mal vide, na Doutrina da Nova Jerusalém, o n. 21).
[16] Em David:
“Dominará de mar a mar, e desde o rio até a extremidade da terra; diante d’Ele curvar-se-ão as ilhas, e Seus adversários lamberão o pó” (Sl. 72:8, 9).
Essas palavras são a respeito do Senhor. Por ‘dominar de mar a mar, e desde o rio até a extremidade da terra’ se entende o Seu domínio sobre todas as coisas do céu e da igreja. Com efeito, os limites no mundo espiritual são mares, e no intermédio há terras onde estão as habitações para os anjos e os espíritos; assim, ‘de mar a mar’ são significadas todas as coisas do céu, e visto que são significadas todas as coisas do céu, também são significadas todas as coisas da igreja, porque há bens do amor e, daí, veros da fé que fazem o céu e também a igreja; por isso, ‘de mar a mar’ são significadas todas as coisas da igreja. Todas as coisas do céu e da igreja são significadas por ‘desde o rio até a extremidade da terra’, mas por estas palavras são significadas todas as coisas do céu e da igreja quanto aos veros, enquanto ‘de mar a mar’ significa todas as coisas do céu e da igreja quanto aos bens, porque os mares no mundo espiritual são os limites da terra oriental e ocidental ali, e nas terras do oriente para o ocidente habitam os que estão no bem do amor; o ‘rio’, porém, significa o primeiro limite, e a ‘extremidade da terra, os últimos, do meridião para o norte, onde habitam os que estão nos veros do bem. Os rios Jordão e Eufrates também representavam esses limites em relação à terra de Canaan. Os lugares que estão ao redor dos últimos limites se entendem pelas ‘ilhas’, pelas quais são significados, por isso, os veros nos últimos, os quais, entretanto, não são veros antes de serem aceitos como veros, porque os veros genuínos diminuem do meio para os limites, pelo fato de ao redor, nos limites, estarem aqueles que se acham na luz natural e não tanto na luz espiritual. Pelos ‘adversários’ são significados os males, dos quais se diz que ‘lamberão o pó’, isto, que foram condenados.
[17] No mesmo:
“JEHOVAH reina; a terra exultará, as muitas ilhas se alegrarão” (Sl. 97:1).
Por essas palavras é significado que a igreja onde há a Palavra e a igreja onde não há a Palavra, por conseguinte, os que estão nos veros espirituais e nos veros não espirituais, se alegrarão por causa do reino do Senhor. Pela ‘terra’ é significada a igreja onde há a Palavra, e pelas ‘ilhas’, onde não há a Palavra, por conseguinte, os que estão distantes dos veros espirituais, pois somente os veros da Palavra são espirituais. Naqueles, porém, que estão fora da igreja, por não terem os veros da Palavra, há somente os veros naturais; daí é que são chamados ‘ilhas’.
[18] Pelas ‘ilhas’ na palavra não se entendem algumas ilhas do mar, mas entendem-se os lugares no mundo espiritual habitados por aqueles que estão no conhecimento natural das cognições de algum modo concordantes com as cognições do vero e do bem que há na Palavra, lugares esses que às vezes aparecem como ilhas no mar. Assim, no sentido abstrato, pelas ‘ilhas’ são significados os veros do homem natural. Essa denominação vem do mar em que está a ilha, pois o ‘mar’ significa os gerais do vero, ou os veros do homem natural no geral. Estas coisas são significadas pelas ‘ilhas’ no Gênesis:
“Os filhos de Javan eram Elishah e Tarshish, Quitim e Dodanim. Por estes foram dispersas as ilhas das nações em suas terras, cada um conforme a sua língua, conforme as suas famílias, em suas nações” (Gn. 10:4, 5)
e em Isaías:
“Virá para congregar todas as nações e línguas, para que venham e vejam a Minha glória; e porei entre eles um sinal, e enviarei deles os que escaparam para as nações, Tarshish, Pul e Lud, que trazem o arco, Tubal e Javan, ilhas longínquas, que não ouviram a Minha fama, nem viram a Minha glória, a anunciarão a Minha glória entre as nações” (Is. 66:18-19; e também 11:10-11).
[19] Uma vez que a maioria das coisas na Palavra também tem um sentido oposto, assim também as ‘ilhas’. Nesse sentido as ‘ilhas’ significam os falsos opostos aos veros que há no homem natural. Nesse sentido as ‘ilhas são citadas nas seguintes passagens. Em Isaías:
“Devastarei os montes e as colinas, e toda a erva deles farei secar; e tornarei os rios em ilhas, e secarei as lagoas” (Is. 42:15-16),
coisas que se veem explicadas no artigo precedente (n. 405). Em Ezequiel:
“Enviarei fogo sobre Magog, e sobre os seguros habitantes das ilhas” (Ez. 39:6).
Em Isaías:
“Ira aos seus inimigos, retribuição aos seus adversários; às ilhas dará retribuição” (Is. 59:18).
No mesmo:
“Eis que as nações são como gota de um balde, e como resíduo de balança são reputados; eis que levanta as ilhas como coisa diminutíssima” (Is. 40:15);
‘nações’ está em lugar dos males, e ‘ilhas’ em lugar dos falsos. No mesmo:
“Calai-vos, ó ilhas; os povos renovem as forças, aproximem-se, então falem; cheguemo-nos juntos a juízo;... as ilhas viram e temeram, as extremidades da terra tremeram” (Is. 41:1, 5).
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