AE 513

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. (Vers. 9) “E foi morta a terça parte de suas criaturas, que têm almas no mar”. – Que isto signifique que daí pereceu todo conhecimento vivo no homem natural vê-se pela significação de ‘morrer’, que é perecer espiritualmente ou quanto à vida do céu; pela significação de ‘terça parte’, que é tudo (de que se tratou acima, n. 506); pela significação de ‘criaturas no mar’ ou peixes, que são os conhecimentos (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘ter almas’, que é estar vivo. Assim, por ‘foi morta a terça parte das criaturas no mar, que têm almas’ é significado que assim pereceu todo conhecimento vivo. Por conhecimento vivo se entende o conhecimento que extrai a vida da afeição espiritual, pois essa afeição dá vida aos veros e, daí, vida aos conhecimentos, porque os conhecimentos são continentes das verdades espirituais (vide acima, n. 506, 507 e 511).
[2] Que as ‘criaturas do mar’, ou peixes, signifiquem os conhecimentos é porque ‘o mar’ significa o homem natural; daí os ‘peixes no mar’ significam os conhecimentos mesmos que estão no homem natural. Que os ‘peixes’ signifiquem isso é também da correspondência, pois o espírito que não está nos veros espirituais, mas apenas nos naturais, que são os conhecimentos, aparecem no mundo espiritual em mares, como peixes, quando vistos por aqueles que estão acima, pois são os pensamentos, que procedem dos conhecimentos neles, que aparecem assim. Com efeito, todas as ideias do pensamento dos anjos e os espíritos são mudadas em diversos representativos fora deles. Quando voltadas para as coisas tais que pertencem ao reino vegetal, mudam-se em árvores e arbustos de vários gêneros, e quando em coisas tais que são do reino animal mudam-se em animais da terra e em voláteis de vários gêneros. As ideias dos anjos do céu, quando voltadas para os animais da terra, mudam-se em cordeiros, ovelhas, cabras, bois, cavalos, mulas e em outros semelhantes, mas quando voltadas para os voláteis mudam-se em rolinhas, pombos e muitas espécies de pássaros que são belos. Mas as ideias do pensamento daqueles que são naturais e pensam somente pelos conhecimentos mudam-se em formas de peixes. Daí, também, muitas espécies de peixes aparecem nos mares, o que também muitas vezes me foi concedido ver.
[3] Daí vem que pelos ‘peixes’ na Palavra são significados os conhecimentos, como nas seguintes passagens. Em Isaías:
“Por Minha repreensão faço secar o mar, ponho rios no deserto; apodrece o seu peixe, por não haver água, e morrerá de sede” (Is. 50:2);
pela ‘repreensão de Jehovah’ se entende a destruição da igreja, que acontece quando não cognição alguma do vero e do bem, ou nenhuma cognição viva, por não haver percepção; ‘secar o mar’ significa privar o homem natural dos conhecimentos verdadeiros e, assim, a vida natural da espiritual; ‘pôr rios no deserto’ significa o homem racional semelhantemente, onde não mais há inteligência; ‘apodrece o seu peixe, por não haver água, e morrerá de sede’ significa que não há mais conhecimento vivo, por não haver vero; ‘peixe’ é o conhecimento, ‘água’ é o vero, ‘apodrecer’ é findar-se quanto à vida espiritual.
[4] O mesmo que é dito aqui a respeito do mar, que ‘a terça parte tornou-se sangue’, e que ‘dai foi morta a terça parte das criaturas ali’, também é dito a respeito do Egito, que o seu rio e todas as águas se tornaram sangue, e que daí os peixes foram mortos. Em Moisés:
Moisés disse ao faraó que as águas do rio seriam transformadas em sangue, e que, portanto, o peixe morreria, e o rio cheiraria mal, a ponto de os egípcios tivessem nojo de beber as águas do rio; isso também aconteceu com toda água no Egito (Êx. 7:17-25);
a cujo respeito também está em David:
“Converteu as águas deles em sangue, e matou o peixe delas” (Sl. 105:29).
Que algo semelhante tenha ocorrido no Egito é porque pelo ‘Egito’ é significado o homem natural quanto ao seu conhecimento, ou o conhecimento que pertence ao homem natural. Pelo ‘rio do Egito’ é significada a inteligência adquirida por meio dos conhecimentos; ‘o rio tornar-se sangue’ a inteligência formada por meros falsos; e que ‘o peixes morreria’ significa que os verdadeiros conhecimentos pereceriam pelos falsos, pois os conhecimentos vivem pelos veros, mas perecem pelos falsos. A causa disso é que todo vero espiritual é vivo e daí vem toda vida, ou, por assim dizer, a alma, que está nos conhecimentos. Por isso, sem o vero espiritual o conhecimento é morto.
[5] Em Ezequiel:
“Eu estou contra ti, faraó, rei do Egito, grande cetáceo, que se deita no meio dos seus rios; que disse: Meu, o rio é meu, e eu me fiz. Por causa disso porei anzóis em teus queixos, e farei o peixe dos rios apegar-se às tuas escamas, e te farei subir do meio dos teus rios, para que todo peixe de teus rios se apegue a [tuas] escanas; e te deixarei no deserto, a ti e a todo peixe dos teus rios” (Ez. 29:3-5);
por ‘faraó’ é significado o mesmo que pelo ‘Egito’, pois pelo ‘rei’ é significado o mesmo que pelo ‘povo’, a saber, o homem natural e o conhecimento aí; por isso ele é também chamado ‘grande cetáceo’, pois pelo ‘cetáceo’ ou ‘baleia’ é significado o conhecimento no geral, e por isso se diz que ela seria ‘tirado do rio’ e então ‘o peixe se apegaria a suas escamas’, pelo que é significado que toda inteligência pereceria e que a ciência, que haveria no lugar dela, estaria no homem sensual sem vida. No homem sensual, que é o ínfimo natural que se encontra mais próximo ao mundo, há falácias e, assim, falsos. Isto é significado por ‘o peixe apegar-se às escamas’ do cetáceo. Que o homem natural e o conhecimento aí seriam sem vida proveniente de alguma inteligência é significado por ‘deixar-te-ei no deserto, a ti e todo peixe dos teus rios’. Que isto aconteceria porque o homem natural atribui a si toda inteligência é significado por ‘porque disse: Meu, o rio é meu, eu me fiz’. O ‘rio’ é a inteligência.
[6] Em Moisés:
Diziam os filhos de Israel no deserto: “Lembramos do peixe que comemos de graça no Egito, e dos pepinos, e dos melões, e dos porros, e das cebolas e dos alhos. Agora nossa alma está seca, não há coisa alguma senão o maná aos nossos olhos”. Em seguida “saiu um vento de Jehovah, trouxe codornizes do mar, e as deixou cair sobre os acampamentos”. Mas, por causa da concupiscência “Jehovah feriu o povo [original: Egito] com mui grande praga, pelo que o nome daquele lugar foi chamado Sepulcros da concupiscência” (Nm. 11:5, 6, 31, 33, 34);
Por estas coisas era significado que os filhos tinham aversão ??? às coisas espirituais e apeteciam as naturais; eram, também, meramente naturais e não espirituais e somente representavam a igreja espiritual pelos externos. Que eles tenham tido aversão às coisas espirituais é significado por ‘nossa alma está seca, não há coisa alguma senão o maná aos nossos olhos’; o ‘maná’ significava a comida espiritual, que é a ciência, a inteligência e a sabedoria. Que eles tenham apetecido as coisas naturais é significado pelo fato de terem desejado ‘peixe no Egito, pepinos, melões, porros, cebolas e alhos’. Todas essas coisas significam coisas tais que são os ínfimos naturais, isto é, os sensuais e corpóreos do homem. E visto que rejeitaram as espirituais e, em lugar destas, cobiçaram as coisas meramente naturais, por isso ‘foram feridos com grande praga, e àquele lugar foi dado o nome Sepulcros das concupiscências’;
[7] Em Ezequiel:
Disse-me: “Essas águas que saem para o termo oriental, e descem na planície, e vêm em direção ao mar, no mar são lançadas para que curem as águas, donde será que toda alma vivente, que rasteja, de qualquer parte que venham do rio, viverá; donde haverá muita quantidade de peixe;... será, pois, que estando sobre ele os pescadores desde Engedi até En-eglaim, com expansão das redes, conforme a espécie será o peixe deles, assim como o peixe do grande mar em muita quantidade; os charcos e os pântanos, que não serão curados, irão no sal” (Ez. 47:8-11).
Trata-se aí da casa de Deus, pela qual são significados o céu e a igreja, e pelas ‘águas que saem da casa de Deus em direção ao oriente’ é significado o Divino Vero que reforma e regenera; pela ‘planície’ e pelo ‘mar’, nos quais as águas descem, são significados os últimos do céu e da igreja, que nos homens da igreja são as coisas pertencem ao homem natural e sensual, sendo que a ‘planície’ são os seus interiores e o ‘mar’ os seus exteriores. Que tanto as cognições vindas da Palavra quanto os conhecimentos que confirmam recebam a vida espiritual pelo Divino Vero é significado por ‘as águas do mar serão curadas’ daí, ‘toda alma que rasteja viverá’ e ‘haverá muita quantidade de peixe’. Que daí haja todo gênero de conhecimento verdadeiro e vivo é significado por ‘conforme a espécie será o peixe deles, assim como o peixe do grande mar, em muita quantidade’. Os que são reformados e, assim, se tornam inteligentes, entendem-se pelos ‘pescadores desde Engedi até En-eglaim’; os que não podem ser reformados porque estão nos falsos do mal são significados pelos ‘charcos e pântanos que não são curados, e irão ao sal’. Que aqui não se entendam peixes, que, saindo da casa de Deus, são multiplicados, qualquer um pode ver, mas pelo’ peixes’ se entendem as coisas no homem que podem ser reformadas, porquanto pela ‘casa de Deus’ se entende o céu e a igreja, e pelas ‘águas’ que saem entende-se o Divino Vero que reforma.
[8] Em várias passagens na Palavra são mencionados a ‘besta da terra’, a ‘ave do céu’ e o ‘peixe do mar’, e quem não sabe que pela ‘besta da terra’ ou do ‘campo’ entende-se o voluntário do homem, pela ‘ave do céu’ o seu entendimento, e pelo ‘peixe do mar’ o seu conhecimento não pode absolutamente saber qual é o sentido dessas passagens, como as que se seguem. Em Oséias:
“Contenda de Jehovah com os habitantes da terra, porque não há verdade, não há misericórdia e não há cognição de Deus na terra;... por causa disso chora a terra, e perturba-se todo habitante nela, entre a besta do campo e ente a ave dos céus, e também os peixes que se ajuntam no mar” (Os. 4:1, 3);
em Sofonias:
“Consumirei o homem e a besta; consumirei a ave dos céus, e os peixes do mar, e os escândalos com os ímpios” (Sf. 1:3);
em Ezequiel:
“No dia em que Gog vier sobre a terra de Israel... haverá um grande terremoto sobre a terra de Israel, e estremecerão diante de Mim os peixes do mar, e as aves dos céus e a besta do campo” (Ez. 38:18-20);
em Jó:
“Pergunta às bestas e te ensinarão, ou às aves do céu e te anunciarão, ou ao rebento da terra, e te ensinará, e os peixes do mar te narrarão. Quem não sabe por todos eles que a mão de Jehovah faz isto?” (12:7-9).
Nessas passagens, pela ‘besta do campo’ entende-se o voluntário do homem, pela ‘ave do céu’ o seu entendimento e pelo ‘peixe do mar’ o seu conhecimento. De outro modo, o seria isso, ‘que as bestas te ensinarão, as aves do céu te anunciarão e os peixes do mar te narrarão que a mão de Jehovah fez isto”? E mesmo foi dito: “Quem não sabe por todos eles?”
[9] Semelhantemente, em David:
“Fizeste-O dominar sobre as obras de Tuas mãos; todas as coisas pudeste sob os seus pés, o rebanho e todas as manadas, as bestas dos campos, a ave do céu e o peixe do mar, o que passa pelos caminhos dos mares” (Sl. 8:6-8).
Essas palavras foram ditas a respeito do Senhor e de Seu domínio. Que o Seu domínio seja nos céus, sobre os anjos, e nas terras, sobre os homens, é notório pela Palavra, pois Ele mesmo diz que foi-Lhe ‘dado todo poder no céu e na terra’ (Mt. 28:18). Que, porém, Lhe tenha sido dado domínio sobre os animais, as aves e os peixes, não é tão [relevante] para que seja relatado na Palavra, onde todas e cada uma das coisas se referem ao céu e a à igreja. Daí se pode ver que por ‘rebanho e manadas, bestas dos campos, ave do céu e peixe do mar’ entendem-se coisas tais que são do céu no anjo e da igreja no homem; por ‘rebanho e manadas’ são significados em geral as coisas espirituais e naturais; por ‘rebanho’ as espirituais e por ‘manadas’ as naturais que há no homem, ou que são da mente espiritual e da mente natural nele; pelas ‘bestas dos campos’ são significadas as coisas voluntárias que pertencem às afeições; pelas ‘aves do céu’ as intelectuais que pertencem aos pensamentos; e pelos ‘peixes do mar’, os conhecimentos, que pertencem ao homem natural.
[10] Coisas semelhantes são significadas por estas, no primeiro capítulo de Gênesis :
“Disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, segundo nossa semelhança, para dominar sobre o peixe do mar, e sobre a ave do céu... e sobre todo animal que rasteja sobre a terra” (Gn. 1:26, 28).
Trata-se nesse capítulo, no sentido interno, da instauração da Igreja Antiquíssima, por conseguinte, da nova criação ou regeneração dos homens daquela igreja. Que lhes tenha sido concedido perceber todas as suas afeições, que pertencem à vontade, e vier todos os seus pensamentos, que pertencem ao entendimento, e assim governa-los, a fim de não caírem em concupiscência do mal e em falsidades, entende-se por ‘para que domine sobre o peixe do mar, a ave do céu e todo animal da terra’. E o homem domina sobre eles quando o Senhor domina sobre o homem, porque o homem, de si mesmo, não domina sobre coisa alguma em si. Que ‘peixe do mar, ave do céu e besta do campo’ sejam significadas tais coisas é porque elas correspondem. As correspondências dos interiores do homem com elas se apresentam claramente à vista no mundo espiritual, pois ele aparece todo gênero de besta e também de aves e peixes nos mães, que, todavia, não são outra coisa senão ideias do pensamento profluentes de afeições, que se apresentam sob tais formam porque correspondem.
[11] Visto que por ‘peixes’ são significados os conhecimentos e as cognições que pertencem ao homem natural, os quais servem ao homem espiritual como meio de se tornar sábio, daí, pelos ‘pescadores’, na Palavra, entendem-se os que estão somente nas cognições, ou que adquiriram cognições para si e também ensinam aos outros e pelas cognições reformam. As suas obras se entendem por ‘lançar e expandir as redes’, como nas seguintes passagens. Em Isaías:
“Os pescadores chorarão, e todos os que lançam anzol ficarão tristes, e os que estendem a rede sobre as faces das águas desfalecerão” (Is. 19:8).
Aqui, por ‘pescadores que lançam o anzol no rio, e os que estendem a rede’ se entendem os que querem adquirir para cognições e, por elas, a inteligência. Aqui, que eles não podem fazê-lo, porque não há cognições do vero em parte alguma.
[12] Em Jeremias:
“Trarei de volta” os filhos de Israel “sobre a sua terra; enviarei a muitos pescadores, que os pescarão; então enviarei a muitos caçadores, que os caçarão de cima de todo monte, e de cima de toda colina, e dos buracos das rochas” (Jr. 16:15, 16);
por ‘enviar a pescadores que os pescarão, e a caçadores que os caçarão’ se entende convocar e instaurar a igreja com aqueles que estão no bem natural e no bem espiritual, conforme se vê acima (n. 405).
[13] Em Habacuque:
“Por que fazes o homem como os peixes do mar, como o réptil que ele não domina? {1} A todos arraste com anzol e o ajunte em sua rede;.... não esvaziará, pois, a sua rede, e não se absterá de matar continuamente as nações?” (Hb. 1:14, 15, 17).
Isto é dito da nação dos caldeus, que devasta e destrói a igreja; pela ‘nação dos caldeus’ é significada a profanação do vero e a vastação da igreja; ‘fazer homens como peixes do mar, e como réptil que ele não domina’ significa fazer o homem tão natural que seus conhecimentos fiquem sem o vero espiritual, e os prazeres sem o bem espiritual, porque no homem natural há conhecimentos pelos quais há cognições, e prazeres pelos quais há afeições, e se o espiritual não dominar sobre eles, serão vazios, tanto os pensamentos quanto às afeições; assim o homem fica sem a inteligência que conduz e governa. Que então todo falso e mal possa atraí-los para seus lados e, assim, destruí-los completamente, e significado por ‘a todos arraste com o anzol e ajunte em sua rede, e em seguida mate’; ‘arrastar’ é pelo vero e bem; ‘em sua rede’ é no falso e mal, e ‘matar’ é destruir.
[14] Em Amós:
“Dias virão em que vos tirarão com aguilhões [aculeis], e à vossa posteridade com anzóis de pescadores” (Am. 4:2),
pelo que é significado que por agudos raciocínios pelos falsos e pelas falácias seria tirados e desviados dos veros. Essas coisas foram daqueles que têm abundância de cognições por terem a Palavra e os profetas; esses se entendem ali pelas ‘vacas de Bashan no monte de Samaria’.
[15] Por estas explicações pode-se ver agora o que se entende por ‘pescadores’, ‘peixes’ e ‘redes’, que são mencionados tantas vezes no Novo Testamento, como nas seguintes passagens:
“Jesus... vendo os dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão, lançando rede no mar, pois eram pescadores; e lhes disse: Vinde após Mim, e vos farei pescadores de homens” (Mt. 4:18, 19: 1:16, 17);
e em outra passagem:
Jesus entrou no barco de Simão, e ensinava a multidão; e depois disse a Simão que lançasse sua rede para a pesca; e apanharam imensa quantidade de peixe, de sorte que encheram os barcos, que ameaçavam afundar. E o espanto se apoderou de todos a respeito da pesca de peixe. E Ele disse a Simão: “Não temas; de agora em diante serás pescador [capiens] de homens” (Lc. 5:3-10).
Esses relatos encerram igualmente um sentido espiritual, como o resto da Palavra. O Senhor escolher aqueles pescadores e dizer ‘que seria pescadores de homens’ significava que eles arrebanhariam para a igreja; pelas ‘redes que eles estenderam e que encheram de imensa quantidade de peixe, de sorte que os barcos ameaçavam afundar’ era significada a reforma da igreja por eles, pois pelos ‘peixes’ aí são significadas as cognições do vero e bem, pelas quais há a reforma e também a multidão de homens que seriam reformados.
[16] Coisas semelhantes são também significadas pela pesca de peixe que os discípulos faziam, após a ressurreição do Senhor, a cujo respeito assim se lê em João:
Disse Jesus, quando se manifestou aos discípulos que estavam pescando, que lançassem a rede na parte direito do barco; e pescaram [tanto] que não conseguiam mais puxar a rede, por causa da multidão de peixes. Depois de descerem em terra, veem brasas acesas e um peixinho sobre elas, e pão; e Jesus lhes deu o pão e semelhantemente o peixinho (Jo. 21:2-13).
Que o Senhor tenha Se manifestado quando eles estavam pescando era porque ‘pescar’ significava ensinar as cognições do vero e do bem e, assim, reformar. Que tenha ordenado ‘que lançassem a rede na parte direita do barco’ significava que todas as coisas vêm do bem do amor e da caridade, pois a ‘direita’ significa esse bem de que procede. Com efeito, quanto mais as cognições derivam do bem, mais vivem e mais se multiplicam. Eles disseram, também, que ‘tinham trabalhado toda a noite e nada tinham apanhado’, pelo que era significado que nada vem de si mesmo ou de seu proprium, mas todas as coisas vêm do Senhor. O mesmo foi também significado pelas ‘brasas sobre as quais estava o peixinho’ e pelo ‘pão’, pois pelo ‘pão’ era significado o Senhor e o bem do amor proveniente d’Ele, e pelo ‘peixinho sobre o fogo’ a cognição do vero proveniente do bem; pelo ‘peixinho’ a cognição do vero, pelas ‘brasas’ ou pelo ‘fogo’, o bem. Naquele tempo não havia pessoas espirituais algumas, porque a igreja tinha sido completamente devastada, mas todos eram naturais. A reforma deles era representada por essa pesca e também pelo peixe sobre as brasas. Quem acredita que o peixe sobre as brasas e pão, que foram dados aos discípulos para comerem, não eram significativos de alguma coisa superior está muito engano, porque cada coisa que o Senhor fez e falou era significativa de coisas Divinas celestes e elas só se evidenciam pelo sentido espiritual. Que as ‘brasas’ e o ‘fogo’ sejam o bem do amor, e que o ‘pão’ seja o Senhor quanto a esse bem, foi mostrado acima; e que o ‘peixe’ seja a cognição do vero e o conhecimento que pertence ao homem natural, é evidente pelo que foi dito e mostrado neste artigo.
[17] O Senhor também disse que
“O reino dos céus é semelhante à rede de arrasto lançada no mar e que apanha de todo gênero de peixes a qual, depois de estar cheia, [ele] a puxa para a praia, e ajunta os bons numa vasilha, e joga fora os maus. assim será na consumação do século” (Mt. 13:47-49);
a separação ente bons e maus é assemelhada aqui à ‘rede de arrasto lançada no mar e que apanha de todo gênero de peixes’, pelo fato de que os ‘peixes’ significam os homens naturais quanto aos conhecimentos e às cognições, e estes, na consumação do século ou no tempo do juízo final, são separados um dos outros, pois há naturais do bem e naturais do mal. A separação deles aparece no mundo espiritual como uma rede ou rede de arrasto lançada no mar, apanhando peixes e os puxando à praia. Essa aparência também vem da correspondência, pelo que o Senhor assemelhou o reino dos céus a uma ‘rede arrasto apanhando peixes’. Que a separação entre os bons e os maus apareça assim, eu também o vi.
[18] Que os homens naturais sejam significados pelos ‘peixes’, vê-se pelo seguinte milagre do Senhor:
“Aproximaram-se os que receberiam a didracma.” Jesus disse a Simão: “Os reis da terra, de quem recebem o tributo e o imposto? de seus filhos ou dos estrangeiros? Disse-lhe Pedro: Dos estrangeiros. Disse-lhe Jesus: Os filhos, portanto, estão livres. Todavia, para que não sejamos para eles escândalo, vai ao mar, e lança o anzol, e apanhado o primeiro peixe, toma-o e abre a sua boca, e acharás um estáter. toma-o, dá a eles por Mim e por ti” (Mt. 17:24-27);
por ‘pagar tributo e imposto’ é significado estar sujeito e servir; por isso se impunham tributos aos estrangeiros, que não faziam parte dos filhos de Israel, como é evidente pelos relatos históricos da Palavra. Pelos ‘filhos de Israel’, com os quais havia a igreja, eram significados os espirituais, e pelos ‘estrangeiros’ os naturais, e o natural está sujeito ao espiritual e a este serve. Portanto, o homem espiritual é como um senhor e o homem natural como um servo; e como os naturais são servos e, assim, se entendem pelos ‘tributários’, por isso aconteceu que nem o Senhor nem Pedro pagaram o tributo, mas o ‘peixe’, pelo qual é significado o homem natural.
[19] Que o Senhor tenha glorificado o Seu Humano até o seu último, que se chama natural e sensual, é significado pelo seguinte:
Jesus, manifestado aos discípulos, disse: “Vede as Minhas mãos e os Meus pés, que sou Eu. Apalpai-Me e vede, porque um espírito não tem carne e ossos, como Me vedes ter; e... mostrou-lhes as mãos e os pés;... e lhes disse: Tendes aqui algo que comer? Eles Lhe deram parte de um peixe assado, e dum favo de colmeia, os quais, tomando, comeu diante deles” (Lc. 24:38-43).
Que o Senhor tenha glorificado o Seu Humano até o seu último, que se chama natural e sensual, Ele o manifestou ao mostrar as mãos e os pés, pelo fato de os discípulos os terem apalpado, por ter dito a eles que um espírito não tem carne e ossos como Ele e por ter comido do peixe assado e do favo de colmeia. Por ‘mãos e pés’ são significados os últimos do homem, do mesmo modo que por ‘carne e ossos’; pelo ‘peixe assado’ é significado o natural quanto ao vero do bem, e pelo ‘mel’ é significado o natural quanto ao bem de que procede o vero. Estes alimentos foram comidos na presença dos discípulos porque correspondiam ao homem natural e, assim, o significavam, pois o ‘peixe’, como foi mostrado neste artigo, significa pela correspondência o natural quanto ao conhecimento. Por isso, também, o ‘peixe’ na Palavra significa o conhecimento e o cognitivo que pertencem ao homem natural, e o ‘peixe assado’ o conhecimento que vem do bem natural. No Senhor, porém, significava o Divino natural quanto ao vero do bem. Que o ‘mel’ signifique o bem natural vê-se nos Arcanos Celestes (n. 5620, 6857, 10137 e 10530). Quem não sabe que em cada coisa da Palavra há um sentido espiritual e que o sentido da letra, que é o sentido natural, consiste de correspondências com as coisas espirituais não pode conhecer o arcano do por que o Senhor na presença dos discípulos comeu do peixe assado e do favo de colmeia e também, acima, por que deu aos discípulos peixe assado e pão, quando, todavia, todas e cada uma das coisas que o Senhor falou e fez foram coisas Divinas, que se encerram interiormente em cada coisa que há escrita na Palavra.
[20] Por aí se pode ver agora o que é significado por ‘foi morta a terça parte das criaturas no mar, que têm almas’, ou seja, que pereceu todo conhecimento vivo no homem natural ou, o que é o mesmo, que o homem natural é morto quanto aos conhecimentos aí. É chamado morto quanto não é vivificado espiritualmente, isto é, pelo influxo do céu, desde o Senhor, por meio do homem espiritual, pois o Senhor influi pelo homem espiritual no natural. Por isso, quando nenhum vero do céu é reconhecimento mais, e nenhum bem do céu afeta, então a mente espiritual, que se chama homem espiritual, é fechada, e a mente natural recebe meramente falsos do mal, e os falsos do mal são espiritualmente mortos, porque os veros do bem são espiritualmente vivos.
[21] Diz-se ‘a terça parte das criaturas’, porque pelas ‘criaturas’ e pelos ‘animais’, na Palavra, são significadas as afeições e, daí, as cognições no homem, por conseguinte, entendem-se os homens mesmos quanto a elas. É semelhante a significação de ‘criaturas’ em Marcos:
Jesus disse aos discípulos: “Indo por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Mc. 16:15),
e também acima, no Apocalipse:
“E ouvi toda criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, as que estão no mar e todas as coisas que há neles, dizendo: ao que está assentado no trono e ao Cordeiro, bênção, e honra e glória, e força no século dos séculos” (Ap. 5:13).
É evidente que aí, por ‘toda criatura’, entendem-se tanto os anjos quanto os homens, pois é dito que ‘os ouviu dizer’. (Vide acima, n. 342 a 346, onde essas coisas são explicadas).

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