AE 514

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E a terça parte dos barcos pereceu.” - Que isto signifique que também pereceram todas as cognições do vero e do bem provenientes da Palavra e da doutrinas daí vê-se pela significação de ‘terça parte”, que é tudo, aqui, todos, porque se diz das cognições do vero e do bem; pela significação de ‘barcos’, que são as cognições do vero e do bem e também as coisas doutrinais. Que os ‘barcos’ signifiquem isso é porque eles transportam riquezas sobre o mar para negociação, e pelas ‘riquezas’ na Palavra são significadas as cognições do vero e do bem, que também são as coisas doutrinais. Pelos ‘barcos’, no sentido restrito, no qual se entende o continente, é significada a Palavra e a doutrina proveniente da Palavra, porque a Palavra e as coisas doutrinais daí contêm as cognições do vero e do bem, assim como os barcos contêm as riquezas. E ‘negociar’, que se faz principalmente por meio de barcos, significa adquirir para si cognições e comunicá-las aos outros. Quando, porém, os conteúdos se entendem pelo continente, pelos ‘barcos’ são significadas as cognições provenientes da Palavra e da doutrina procedente da Palavra.
[2] Que os ‘barcos’ signifiquem tais coisas pode-se ver pelas passagens na Palavra onde eles são nomeados, como em Ezequiel:
Tiro, “no coração dos mares está o teu limite. Teus arquitetos aperfeiçoaram a tua beleza. De abetos de Senir edificaram para ti todas as tábuas; tomaram o cedro do Líbano para fazer um mastro para ti, e com carvalhos de Basan fizeram os teus remos, os teus bancos fizeram de marfim; a filha dos saídos das ilhas de Kittim;... os habitantes de Sindon e de Arvad foram os teus remadores. Teus sábios, ó Tiro, estiveram em ti, foram os teus capitães [de navio]. Os idosos de Gabal e os seus sábios estiveram em ti, confirmando a tua rachadura. Todos os barcos do mar e os seus marinheiros estiveram em ti, para negociar a tua negociação. ... Barcos de Tarshish, teus esquadrões em teu mercado, donde te encheste e te honraste muito no corações dos mares” (Ez. 27:4-6, 8, 9, 25).
Trata-se nesse capítulo de Tiro, e como por ‘Tiro’ são significadas as cognições do vero e do bem, por isso se trata de suas negociações e das várias mercadorias com as quais se enriqueceu, pois por sua ‘negociação’ com várias mercadorias, com as quais se enriqueceu, é significada a aquisição daquelas cognições e, assim, a opulência espiritual. Aqui, pois, se descreve o barco com todo o seu equipamento, como as tábuas, os remos e o mastro, como os capitães, os remadores e os marinheiros, e quanto às mercadorias, no que antecede e no que se segue. Mas seria prolixo descrever aqui o que cada coisa significa no sentido espiritual; basta que daí se possa ver que o ‘barco’ significa a doutrina da Palavra, e as ‘tábuas’, os ‘remos’ e o ‘mastro’ significam várias coisas de que se forma a doutrina; e aqueles que ensinam, conduzem e governam se entendam pelo ‘piloto’ [gubernatorem], pelos ‘capitães’, ‘remadores’ e ‘marinheiros’, e as coisas doutrinais mesmas por suas ‘mercadorias’. A aquisição de opulência e das riquezas espirituais, que são as cognições do vero e do bem pelos quais há a sabedoria, entende-se pela ‘negociação’; por isso se diz ‘Teus sábios, ó Tiro, estiveram em ti, foram os teus capitães’.
[3] E, no capítulo seguinte, onde também se trata de Tiro:
“Eis, tu és sábio mais que Daniel; nada há oculto que tenham escondido de ti. Na tua sabedoria e na tua inteligência fizeras opulência para ti, e fizeras ouro e prata em teu tesouro. Pela grandeza [multitudinem] de tua sabedoria na negociação fizeras para ti opulência” (Ez. 28:3-5),
pelo que é evidente que por ‘Tiro” e suas ‘negociações’ se entendem as cognições do vero e do bem, pelos quais há sabedoria. De outro modo, o que seria dizer tantas coisas de seus bens [mercibus] e de suas mercadorias, se não significassem coisas espirituais? (Que por ‘Tiro’ se entenda a igreja quanto às cognições do vero e do bem, e, daí, as cognições do vero e do bem que pertencem à igreja, vê-se nos Arcanos Celestes, n. 1201).
[4] Trata-se em seguida, no mesmo capítulo, da vastação da igreja quanto às cognições do vero e do bem, que também é descrita nesses termos:
“À voz de clamor de teus capitães os subúrbios tremerão, e todos os que pegam no remo descerão de teus barcos. Todos os capitães do mar... clamarão sobre ti amargamente” (Ez. 27:28-30);
pelos ‘capitães’ são significados os que são sábios pelas cognições da Palavra; pelos que ‘pegam no remo’ são significados os que são inteligentes; a vastação da sabedoria e da inteligência é significada pela ‘voz de clamor dos capitães’ e por ‘descerão dos barcos os pegam no remo’.
[5] Que pelos ‘barcos’ na Palavra entendem-se as cognições do vero e do bem, e também os doutrinais da Palavra, quando por ‘barcos’ se entendem as riquezas, assim, o conteúdo em lugar continente é ainda mais evidente por estas passagens. - Em Isaías:
“Uivai, barcos de Tharschisch, porque Tiro foi devastada;... calem-se os habitantes da ilha, o mercador de Sidon que passa no mar; eles te encheram. ... Uivai, barcos de Tharschisch, porque foi devastada a vossa fortaleza” (Is. 23:1, 2, 14);
pelos ‘barcos de Tharschisch’ entendem-se os doutrinais da Palavra, pois esses barcos transportavam ouro e prata, pelos quais são significados os bens e veros, e as cognições destes, da Palavra; e como por ‘Tiro’ é significada a igreja quanto às cognições do vero e do bem, aqui, a igreja vastada, por isso se diz: ‘uivai, barcos de Tharschisch, porque Tiro foi devastada’; pelos ‘habitantes da ilha’ entendem-se os que estão nos bens da vida segundo os seus doutrinais; pelos ‘mercadores de Sidon’ são significados o que estão nos veros da Palavra, dos quais se diz que ‘te encheram’; por ‘vossa fortaleza’ é significada a doutrina da Palavra que protege, e por ‘ela ‘devastada’ é significado que não há seu percepção e, assim, não há vero, pois semelhantes doutrinais da Palavra sem a percepção espiritual não são veros, porquanto são falsificados por ideias não justas a respeito deles.
[6] No mesmo:
“Em Mim as ilhas confiarão, e os barcos de Tharschisch no princípio, para trazer os teus filhos de longe, sua prata e seu ouro com eles” (Is. 60:9).
Que pelos ‘barcos de Tharschisch no princípio’ entendam-se as cognições do vero e do bem, tais como têm no princípio os que são reformados, vê-se acima, n. 405), onde essas palavras são explicadas, pois os barcos de Tharschisch no princípio levavam ouro e prata em grande quantidade, pelos quais são significados os bens da vida e os veros da doutrina.
[7] A respeito dos barcos de Tharschisch assim se lê nos Primeiro Livro dos Reis:
“Salomão fez um barco em Ezion Jeber, que está em Eloth, junto à praia do Mar Vermelho, na terra de Edom; e Hiram enviou... seus servos, varões de barco, conhecedores do mar, com os servos de Salomão. Vieram a Ophir, e tomaram quatrocentos e vinte talentos de ouro, que trouxeram ao Rei Salomão” (I Re. 9:26-28);
e depois,
“O rei tinha um barco de Tharschisch no mar, com o barco de Hiram; uma vez a cada três anos vinha o barco de Tharschisch, carregando ouro e prata, marfins, e símios, e pavões” (I Re. 10:22)
e em seguida, no mesmo livro:
O rei ‘Jeosafá fez barcos de Tharschisch, para irem a Ofir, por causa do ouro, porém não foram, porque os barcos se quebraram em Ezion Jeber” (I Re. 22:48).
Embora sejam históricos, mesmo assim esses relatos contêm um sentido espiritual, igualmente às partes proféticas. Que ‘os barcos tenham sido feitos em Ezion Jeber, na praia do Mar Vermelho, na terra de Edom’ significava as ciências do homem natural, pois elas contêm e, por assim dizer, carregam em si as riquezas espirituais, assim como os barcos levam as riquezas terrenas. Com efeito o ‘Mar Vermelho’ e a ‘terra de Edom’, onde ficava Ezion Jeber, eram os últimos limites da terra de Canaan, e pelos ‘últimos limites da terra de Canaan’ são significados os últimos da igreja, que são as ciências que envolvem as cognições do vero e do bem. Por ‘ouro’ e ‘prata’ são significados os bens e veros da igreja interna; pelos ‘marfins’, ‘símios’ e ‘pavões’ são significados os veros e bens da igreja externa. Por ciências se entendem as ciências tais como existiram com os antigos, a saber, as ciências das correspondências, das representações, do influxo e a respeito do céu e do inferno, que envolviam principalmente as cognições do vero e do bem da igreja e a elas serviam. Por ‘Hiram’ são significadas as nações que estão fora da igreja, com quem também havia as cognições do bem e do vero. Que os ‘barcos’ feitos sob o reinado de Jeosafá ‘se quebraram’ significa a devastação da igreja quanto aos seus veros e bens.
[8] Por aí se pode ver o que é significado em particular pelos ‘barcos de Tharschisch no que precedeu e também em David:
“Pelo vento oriental despedaças os barcos de Tharschisch” (Sl. 48:7);
por ‘vento oriental’ é significada a devastação e a desolação, pois pelo vento que vem do oriente no mundo espiritual as moradias dos maus são totalmente reviradas, e eles, com os tesouros em que puseram o coração, são lançados no inferno (a respeito desse vento vide o opúsculo Do Juízo Final, n. 61). Aqui, pelos ‘barcos de Tharschisch’ são significados os falsos doutrinais.
[9] E em Isaías:
“O dia de Jehovah Zebaoth... sobre todos os altos e elevados cedros do Líbano, e sobre todos os carvalhos de Bashan, e sobre todos os montes altos, e sobre todas as colinas elevadas, e sobre toda torre eminente, e sobre todo muro fortificado, e sobre todos os barcos de Tharschisch, e sobre todas as imagens de desejo, para que seja destruída a soberba do homem, e seja abatida a altivez dos varões, e somente Jehovah seja exaltado naquele dia” (Is. 2:12-17);
por ‘dia de Jehovah’ se entende o advento do Senhor, quando foi realizado o juízo final pelo Senhor. (Que isto tenha sido realizado pelo Senhor quando esteve no mundo vê-se no opúsculo Do Juízo Final, n. 46). São listados aqui aqueles sobre os quais, dentro da igreja, foi feito o juízo, e pelos ‘cedros do Líbano altos e elevados’ são significados os que se jactanciam da própria inteligência, e pelos ‘carvalhos de Bashan’ os que o fazem da ciência, pois os ‘cedros’ na Palavra se referem ao homem racional e os ‘carvalhos’ ao natural, e a inteligência pertence ao homem racional e o ciência ao homem natural. Por ‘montes altos e colinas elevadas’ são significados os que estão no amor de si e no amor do mundo (vide acima, n. 405); por ‘torre eminente’ e ‘muro fortificado’ são significados os princípios do falso confirmados, como também os que estão nesses; por ‘barcos de Tharschisch’ e ‘imagens de desejo’ são significados os falsos doutrinais que favorecem os prazeres dos amores terrestres. A destruição do orgulho pela própria inteligência e própria ciência se entende por ‘para que seja destruída a soberba do homem, e [abatida] a altivez dos varões. Que toda inteligência e ciência sejam provenientes do Senhor é significado por ‘para que somente Jehovah seja exaltado naquele dia’. Acredita-se que a ciência vem do homem, mas a ciência, enquanto serve à inteligência, na qual há a percepção do vero, vem somente do Senhor.
[10] Em Isaías:
Em Sião e em Jerusalém “o Senhor será magnífico para nós, ??? um lugar de rios e ribeiros, de largueza de espaços; não entrará nele barco de remo, e o barco magnífico não passará nele” (Is. 33:21);
por ‘Sião’ e ‘Jerusalém’ se entende a igreja do Senhor, por ‘Sião’ a igreja onde reina o bem do amor, e por ‘Jerusalém’ onde reina o vero da doutrina; aí se diz ‘Jehovah magnífico’ quando os homens da igreja são tais que são recepções do Divino Bem e Vero do Senhor, e Sião e Jerusalém se chamam ‘lugar de rios, de ribeiros e de largueza de espaços’ quando toda sabe e inteligência deles, assim como o bem e o vero, são provenientes do Senhor. Os ‘rios’ significam a sabedoria, o ‘ribeiro’ a inteligência, a ‘largueza de espaços’ os veros do bem na abundância [multitude] e na extensão; ‘não entrará nele barco de remo, e o barco magnífico não passará nele’ significa que não haverá na igreja inteligência e sabedoria provenientes do proprium; ‘barco de remo’ é a inteligência oriunda do proprium, porque é conduzido pelos homens por meio de remos, e ‘barco magnífico’ é a sabedoria oriunda do proprium, porque o homem se gloria e se ensoberbece por causa dela. Com efeito, o ‘barco’ significa a inteligência e a sabedoria quando vai no mar e o cruza, estando, assim, no curso em que carrega suas riquezas. Que não se entenda um barco é evidente, porque se diz a respeito de Sião e de Jerusalém.
[11] Em David:
“Muitas são as Tuas obras, ó Jehovah;... este grande mar e largo de espaço; ali há o réptil inumerável, os animais pequenos com os grandes; ali vão os barcos; o leviatã, a quem formaste para brincar nele. Todas as coisas Te esperam, para que lhes dê a sua comida em seu tempo” (Sl. 104:24-27);
aqui não se entende o mar nem se entendem os répteis, animais, leviatã ou baleia, nem barcos, mas coisas tais que pertencem aos homens da igreja, pois estes ‘esperam Jehovah’. Por ‘mar grande e largo’ é significado o homem externo ou natural, que recebe os bens e veros como conhecimentos ???; diz-se grande em relação ao bem aí, e ‘largo’ em relação ao vero. Por ‘répteis’ são significados os conhecimentos vivos; por ‘animais grandes e pequenos’, as cognições do bem e vero de todo gênero, superiores e inferiores, e em geral e particular (como no artigo logo acima, n. 513); por ‘barcos’ entendem-se os doutrinais; por ‘leviatã’ ou ‘baleia’ todas as coisas do homem natural em conjunto, das quais se diz ‘brincar no mar’ pelo prazer de saber e, assim, de se tornar sábio. Visto que o homem é por elas tocado pelo desejo de saber e de entender, diz-se ‘todas as coisas Te esperam, para que lhes dê a sua comida a tempo’; ‘esperar’ significa desejar, e ‘comida’ significa o conhecimento [scientiam] e a inteligência, porque o homem não os deseja por si mesmo, mas pelas coisas que vêm do Senhor nele, por conseguinte, elas no homem, embora pareça que o homem os deseja por si.
[12] No mesmo:
“Os que descem ao mar em barcos, os que fazem a obra em muitas águas, esses viram a obra de Jehovah e as Suas maravilhas nas profundezas” (Sl. 107:23, 24);
‘os que descem ao mar em barcos, os que fazem a obra em muitas águas’ significa aqueles que examinam intensamente as doutrinas do vero proveniente da Palavra; ‘eles viram a obra de Jehovah, e as Suas maravilhas nas profundezas’ significa que eles entendem os veros e bens do céu e da igreja, e suas coisas ocultas; ‘a obra de Jehovah’ são todas as coisas da Palavra que aperfeiçoam o homem, as quais se referem todas ao vero e ao bem; e as ‘maravilhas nas profundezas’ são as coisas ocultas da inteligência e da sabedoria.
[13] Em Isaías:
“Assim disse Jehovah, vosso Redentor, o Santo de Israel: Por causa de vós enviei à Babilônia, e lançarei fora todos os fugitivos ???, e os caldeus, em cujos barcos há clamor” (Is. 43:14).
Essas palavras são a respeito da libertação dos fiéis da opressão daqueles que devastam a igreja. Por ‘Babilônia’ entendem-se os que a devastam, e a devastam pelo fato de manterem a todos afastados das cognições do vero e do bem, dizendo que eles sabem e que se deve crer neles, quando, todavia, nada sabem do vero. Assim mantêm os outros consigo em densa ignorância e os deviam do culto do Senhor a fim de eles mesmos serem cultuados. ‘Lançar fora os seus fugitivos’ significa os princípios falsos deles e os falsos que devastam os veros; ‘fugitivos’ são os princípios do falso, e ‘caldeus’ são os que devastam por meio dos falsos, uma vez que por ‘Babilônia’ entendem-se os que destroem os bens pelos males, e por ‘caldeus’ os que destroem os veros pelos falsos. ‘Em cujos barcos há clamor’ significa a destruição de seus doutrinais.
[14] Essa destruição é descrita por meio dos ‘barcos’ também no Apocalipse:
“Numa só hora foram devastadas tantas riquezas. Também todo piloto, e todo aquele que é versado em barcos, e marinheiros, e todos os que negociam no mar, puseram-se de longe.... e lançaram pó em suas cabeças, e clamavam chorando e lamentando, e dizendo: Ai, ai da grande cidade”, Babilônia, “na qual se enriqueceram todos os que têm barcos no mar, por sua preciosidade, porque em uma hora foi devastada” (Ap. 18:16, 17, 19);
mas essas palavras ver-se-ão mais explicadas na sequência. Em Daniel:
“Finalmente, no tempo do fim, o rei do meio-dia colidirá com ele; por isso como uma procela precipitará sobre ele o rei do setentrião, com carro e com cavaleiros, e com muitos barcos, e virá à terra, e inundará e penetrará” (Dn. 11:40);
o ‘tempo do fim’ significa o último tempo da igreja, quando não há vero, por não haver bem; por ‘rei do meio-dia’ entende-se o vero na luz, que é o vero do bem; por ‘rei do setentrião’ entende-se o que não é vero, por não haver o bem, por conseguinte, o que é falso, pois onde não há o vero há o falso, porque o homem então se desvia do céu para o mundo, e do Senhor para si, e do mundo e de si só influi o falso do mal, quando nada influi do céu desde o Senhor. As lutas entre o bem do vero e o falso do mal nos últimos tempos da igreja são descritas neste capítulo pelas lutas entre o rei do meio-dia e o rei do setentrião. Que então os falsos se precipitem e destruam os veros entende-se por ‘o rei do setentrião precipitará contra o rei do meio-dia com carro, cavaleiros e muitos barcos’; por ‘carro’ entende-se a doutrina do falso; por ‘cavaleiros’, os raciocínios daí; por ‘barcos’, todo gênero de falso e falsificações do vero. Que ‘virá à terra, e inundará e penetrará’ significa que os falsos destruirão todas as coisas da igreja, tanto a exteriores quanto as suas interiores.
[15] Em Moisés:
“Jehovah te trará de volta ao Egito em barcos, por um caminho de que te disse: Não tornarás mais a vê-lo, onde sereis vendidos aos vossos adversários por servos e escravas, sem que todavia haja comprador” (Dt. 28:68).
Aí se trata da desolação da igreja quanto ao vero, se não é vivido segundo os preceitos do Senhor na Palavra. Os ‘filhos de Israel’, a quem essas palavras foram ditas, representavam e, daí, significavam a igreja onde há a Palavra e, assim, a verdadeira doutrina, portanto, onde há homens espirituais, mas o ‘Egito’ os meramente naturais. Que ‘Jehovah os trará de volta ao Egito em barcos’ significa que se tornariam meramente naturais, por doutrinais do falsos; ‘barcos’ são os doutrinais do falso; por ‘um caminho de que te disse: Não tornarás mais a vê-lo’ significa de homem espiritual [tornar-se] meramente natural, pois o homem da igreja de homem natural se torna espiritual, mas quando não vive segundo os preceitos da Palavra, de homem espiritual se torna meramente natural. ‘Onde sereis vendidos aos vossos adversários por servos e escravas’ significa que os falsos e males os dominariam; ‘sem que todavia haja comprador’ significa inteiramente vis.
[16] Em Jó:
“Meus dias foram mais velozes que um corredor. Fugiram, não viram o bem; passaram com os barcos de desejo, como a águia que voa para a comida” (Jó 9:25, 26);
‘barcos de desejo’, com os quais os dias passaram, significam as afeições e os prazeres naturais de todo gêneros, que pertencem somente ao mundo e ao corpo. Como elas são apetecíveis e são absorvidas mais do que as coisas espirituais, dizem-se ‘como a águia que voa para a comida’.
[17] Em Moisés:
“Zebulon no porto dos mares habitará, e ele no porto dos barcos, e seu lado sobre Sidon” (Gn. 49:13);
‘Zebulon’ significa a conjunção do bem e do vero; ‘no porto dos mares habitará’ significa a vida do vero; ‘e ele no porto dos barcos’ significa segundo os doutrinais da Palavra; ‘seu lado sobre Sidon’ significa a extensão de uma parte às cognições do bem. (Essas coisas, porém, veem-se explicadas nos Arcanos Celestes, n. 6382-6386).
[18] No mesmo:
“Então [virão] barcos do lugar dos de Quitim, e afligirão a Asshur, e afligirão os de Eber, mas, todavia, este também [será] para o que está perecendo [ad intereuntem]” (Nm. 24:24).
Isto se encontra na profecia de Balaão. Pelos ‘barcos do lugar dos de Quitim’ são significadas as cognições do vero e do bem, que tiveram os que foram da Igreja antiga; por ‘Asshur’, a quem afligirão, são significados os externos do culto, tais como existiram com os filhos de Jacob; a vastação deles quanto ao vero e ao bem é significada por ‘também este [será] para o que está perecendo’.
[19] No Livro dos Juízes:
“Ó Gileade, na passagem do Jordão habitas? E por que Dan temerá os barcos?” (Jz. 5:17);
por ‘Gileade’ se entende o mesmo que por Manassés, e por ‘Manassés’ é significado o bem do homem natural. E como a tribo de Manassés não lutou juntamente com Débora e Baraque contra os adversários, é dito: ‘Ó Gileade, na passagem do Jordão habitas’, pelo que é significado: Por que vives somente nos externos que pertencem ao homem natural? O externo da igreja era significado pelas regiões além do Jordão, e seu interno pelas regiões aquém do Jordão; o externo da igreja está com aqueles que são mais naturais do que espirituais. E como a tribo de Dan não foi à luta com Débora e Baraque contra os adversários, é dito: ‘Por que Dan temerá os barcos?, que significa: Por que não repele as falsidades e os doutrinais do falso?
[20] Assim como todas as coisas no Velho Testamento contêm um sentido espiritual, assim também todas as coisas no Novo Testamento que estão nos Evangelhos e no Apocalipse. Ainda, todas as palavras do Senhor e também os Seus feitos e milagres significam coisas Divinas celestes, pelo fato de que o Senhor falou pelo Divino e operou e opera os milagres pelo Divino, assim, dos primeiros pelos últimos e assim no pleno. Disso se pode ver que era um significativo o Senhor ter ensinado estando em barcos, Ele ter escolhido alguns discípulos de barcos, quando pescavam, e o fato de Senhor, quando andou sobre o mar, ter ido para o barco onde os discípulos se achavam e dali ter reprimido o vento. Sobre o Senhor ensinando a partir do barco, assim se lê nos Evangelhos:
“Jesus... sentou-se junto ao mar; e reuniram-se a Ele grandes multidões, de sorte que Ele entrou num barco e Se sentou, e toda a multidão ficou de pé na praia; e falou-lhes muitas coisas em parábolas” (Mt. 13:1, 2, e seq.; Mc. 4:1, 2, e seq.).
e em outra passagem:
Jesus, “estando na praia de Genezaré... como visse dois barcos que estavam no lago... então entrou em um dos barcos, que era o de Simão, e pediu-lhe que se afastasse um pouquinho da terra; e assentou-se e ensinou do barco a multidão” (Lc. 5:1-9).
Em cada uma dessas coisas também há um sentido espiritual, no que Ele ‘assentou-se junto mar’ e ‘na praia de Genezaré’, também que ‘entrou no barco de Simão e dali ensinou muitas coisas’. Isto aconteceu porque o ‘mar’ e o ‘lago de Genezaré’, quando se trata ao Senhor, significam as cognições do vero e do bem em todo o conjunção, e o ‘barco de Simão’ significa a doutrina da fé. Assim é que o fato de Ele ‘ter ensinado do barco’ significava que o fez pela doutrina.
[21] A esse respeito, que o Senhor tenha andado sobre o mar até o barco em que estavam os discípulos, assim se lê nos Evangelhos:
“O barco” em que estavam os discípulos do Senhor “era afligido pelo vento no meio do mar...; na quarta vigília da noite veio a eles Jesus, andando sobre o mar. ... E disse Pedro: ... Manda-me ir a Ti, sobre as águas. Disse: Vem. Descendo, pois, Pedro, andou sobre as águas para ir a Jesus; mas teve medo, começando a afundar. ... Jesus, estendendo a mão, segurou-o, e disse: Homem de pouca fé, porque duvidavas? E quando entrou no barco aquietou o vento; e os que estavam com Ele no barcos O adoraram, dizendo: Verdadeiramente, Tu és o Filho de Deus” (Mt. 14:24-33; Mc. 6:48-52);
e em outra passagem:
“Quando caiu a tarde, desceram os discípulos ao mar, e depois de entrarem no barco, atravessaram o mar, a Cafarnaum, e já havia trevas, mas Jesus não veio ter com eles. E o mar estava agitado por grande vendo que soprava. Tendo avançado quase vinte e cinco a trinta estádios, veem Jesus andando sobre o mar, e chegava próximo ao barco, e por isso ficaram atemorizados. Mas Ele disse: Sou Eu, não temais. E quiseram receber” Jesus “no barco, mas logo o barco estava em terra, para onde iam” (Jo. 6:16-21 e seq.).

Também aqui, cada coisa significa coisas Divinas espirituais que, todavia, não aparecem na letra, como o mar, o Senhor andando sobre ele, a quarta vigília em que veio aos discípulos, bem como o barco, o fato de Jesus entrar nele e que dali reprimiu o vento e as ondas do mar, além de outras. Mas não é preciso expor aqui em detalhes as coisas espirituais que essas significam, exceto somente que o ‘mar’ significa o último do céu e da igreja, visto que nos últimos limites dos céus existem mares. O ‘Senhor andando sobre o mar’ significava a presença e o influxo do Senhor também ali, e assim a vida proveniente do Divino para aqueles que estão nos últimos do céu; a sua vida, proveniente do Divino, foi representada por ‘o Senhor andar sobre o mar’, e a sua fé obscura e vacilante foi representada por ‘Pedro andando sobre o mar e começando a afundar’, mas salvo após ter sido segurado pelo Senhor. Além disso, na Palavra ‘andar’ significa viver. Que esse fato tenha ocorrido ‘na quarta vigília’ significava o primeiro estado da igreja, quando é madrugada e a manhã se aproxima, pois então começa a praticar o bem por meio do vero, e então é o advento do Senhor. Que ‘o mar tenha sido agitado pelo vento enquanto isso’ e que o Senhor ‘o tenha reprimido’ significa o estado da vida natural que precede, estado esse que é sem paz e, por assim dizer, tempestuoso, mas quando está próximo o estado matutino, que é o primeiro estado da igreja no homem, há a tranquilidade da mente, porque então o Senhor está presente no bem do amor.
[22] O mesmo é significado também por o Senhor ‘ter acalmado o vento e as ondas do mar’, de que também de se trata nos Evangelhos:
“Subindo” Jesus “ao barco, os Seus discípulos O seguiram; mas eis que houve um grande abalo no mar, de sorte que o barco era coberto pelas ondas; ele, porém, dormia. Aproximando-se, pois, os discípulos, despertaram-No, dizendo: Senhor, salva-nos, perecemos... então ergue-Se e repreendeu o vento... e fez-se grande tranquilidade” (Mt. 8:23-26; Mc. 4:36-40; Lc. 8:23, 24).
Por aí era representado o estado dos homens da igreja, quando estão no natural e ainda não no espiritual. Nesse estado, as afeições naturais, que são as cobiças oriundas dos amores de si e do mundo, se levantam e causam diversos abalos da mente. Nesse estado o Senhor parece estar ausente; essa aparente ausência é significada por ‘o Senhor dormir’, mas quando eles vêm do estado natural ao espiritual, então esses abalos cessam e há a tranquilidade da mente, pois os abalos intempéricos do homem natural são acalmados pelo Senhor, quando a mente espiritual é aberta e o Senhor, por ela, influi no natural. Visto que as afeições que pertencem ao amor de si e do mundo, e, assim, aos pensamentos e raciocínios, provêm do inferno – pois há todo gênero de concupiscência que dali se levantam no homem natural – por isso também elas são significadas no sentido espiritual pelo ‘vento’ e pelas ‘ondas do mar, e o inferno mesmo é significado pelo mar.
[23] É o que também se pode ver pelo fato de se dizer que ‘o Senhor repreendeu o vento’ e, em Marcos:
“Jesus, desperto, repreendeu o vento e disse ao mar: Cala-te e emudece; e aquietou-se o vento, e fez-se grande tranquilidade” (Mc. 4:39).
Isto não poderia ser dito ao vento e ao mar a menos que por eles se entendesse o inferno, de onde se levantam os abalos intempéricos da mente por diversas cobiças se levantarem. Que os ‘mares’ signifiquem os infernos vê-se acima (n. 342).

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