AE 526

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E escureceu-se a terça parte deles”. Que isto signifique que todas essas coisas foram convertidas em falsos do mal e males do falso vê-se pela significação de ‘trevas’, que são os falsos; assim, ‘ser escurecido’ é ser convertido em falsos. Que tenham sido convertidas em falsos do mal e em males do falso é porque se diz que ‘foi escurecida a terça parte do sol, a terça parte da lua e a terça parte das estrelas’, pelo ‘sol’ é significado o bem do amor, pela ‘lua’ o bem e o vero da fé, e pelas ‘estrelas’ as cognições do bem e do vero. Assim, por ‘ser escurecida a terça parte do sol’ é significado que o bem do amor foi convertido em mal e, daí no falso, que é o falso do mal, pois o bem é convertido em mal e, daí, em falso. Já o vero da fé, que é significado pela ‘lua’, foi convertido em falso e, daí, em mal, que é o mal do falso. O mal do falso é o falso da doutrina de que vem o mal da vida, e o falso do mal é o mal da vida de que vem o falso da doutrina.
[2] Que as ‘trevas’ signifiquem o falso é porque ‘ luz’ significa o vero, e o falso é oposto ao vero assim como as trevas são opostas à luz. E, também, quando a luz da vida, que é o Divino Vero, não está no homem, então há nele a sombra da morte, que é o falso, pois o homem, pelo proprium, está em todo mal e, daí, no falso, e é removido deles unicamente pelos veros da igreja. Por isso, onde não há veros, aí há falsos do mal. (Que o homem seja removido dos males, purificado e reformado unicamente pelos veros vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém, n. 24 ao fim).
[3] Que as ‘trevas’, na Palavra, signifiquem os falsos de vários gêneros vê-se pelas seguintes passagens. Em Joel:
“Se será convertido em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o dia de Jehovah, grande e terrível” (Jl. 2:31);
que ‘o sol seja convertido em trevas e a lua em sangue’ significa o mesmo que ‘a terça parte do sol e a terça parte da lua foram escurecidas’, a saber, que no fim da igreja o falso do estará no lugar do bem do amor, e o mal do falso em lugar do vero da fé.

[4] Coisas semelhantes são também significadas em outras passagens na Palavra onde se fala do escurecimento do sol e da lua, como em Isaías:
“As estrelas dos céus e os seus astros não luzirão sua luz; o sol será escurecido no seu nascimento, e a lua não fara resplandecer a sua luz” (Is. 13:10; 24:21, 23);
em Ezequiel:
“Cobrirei os céus, quanto te tiver extinguido, e escurecerei as suas estrelas; o sol cobrirei com nuvem, e a lua não fará luzir a sua luz. Todas as luminárias de luz nos céus escurecerei sobre ti, e porei trevas sobre a tua terra” (Ez. 32:7, 8);
em Joel:
“Perto está o dia de Jehovah no vale da decisão; o sol e a lua se escureceram, e as estrelas recolheram o seu esplendor” (Jl. 3:14, 15);
no mesmo:
“Vem o dia de Jehovah, dia de trevas e de escuridão, dia de nuvem e de obscuridade. Diante d’Ele foi abalada a terra, o sol e a lua escureceram e as estrelas recolheram o seu esplendor” (Jl. 2:1-12, 10);
nos Evangelhos:
“Logo após a aflição daqueles dias, o sol será obscurecido, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu” (Mt. 24:29; Mc. 13:24, 25).
Estas palavras foram ditas a respeito do último tempo da igreja, quando não há mais o bem e vero espiritual, ou o bem e vero do céu e da igreja, mas o mal e falso. Que os bens e veros da igreja, que são chamados bens do amor e veros da fé, são convertidos em males e falsos, é significado por ‘o sol e a lua serão obscurecidos’ e ‘escurecidos’ e ‘as estrelas não luzirão’. O juízo final, que então se segue, se entende pelo ‘dia de Jehovah, grande e terrível’; e como isto acontece quando a igreja está nas trevas e na escuridão, por isso esse dia é também chamado ‘dia de trevas e de escuridão’, e também ‘dia de nuvem e de obscuridade’, como também passagens seguintes.
[5] Em Amós:
“Ai dos que desejam o dia de Jehovah. Que tendes vós com o dia de Jehovah? Ele será de trevas e não de luz;... acaso não é dia treva o dia de Jehovah, e não de luz? E escuridão, mas não esplendor nele?” (Am. 5:18, 20);
em Sofonias:
“O dia de Jehovah é um dia de desolação e de devastação, dia de trevas e de escuridão, dia de nuvens e de nebulosidade” (Sf. 1:14, 15);
em Isaías:
“Naquele dia... olhará para a terra, que, eis, [está em] trevas e ansiedade, e a luz entenebrece em suas ruinas” ??? (Is. 5:30);
no mesmo:
“Olhará para a terra e, eis, angústia e escuridão, obscurecida com angústia e empurrada para a escuridão” (Is. 8:22);
no mesmo:
“Eis que as trevas cobrem a terra, e a escuridão os povos” (Is. 60:2);
em Jeremias:
“Dai glória a Jehovah vosso Deus, antes que traga trevas, e antes que os vossos pés tropecem nos montes do crepúsculo; então esperaremos a luz, mas [Ele] a converterá em sombra da morte, converterá em escuridão” (Jr. 13:16).
Essas palavras são a respeito do último tempo da igreja, quando o Senhor viria ao mundo e faria o juízo. Como então não haveria mais bem algum do amor nem vero da fé, mas o mal do falso e o falso do mal, por isso esse dia é chamado ‘dia de trevas e de escuridão’.
[6] Coisa semelhante é significada pelas
Trevas que ‘se fizeram sobre toda terra desde a hora sexta até a hora nona”, quando o Senhor foi crucificado (Mt. 27:45; Mc. 15:33; Lc. 23:44-49);
pelas ‘trevas sobre toda a terra’ era representado que em toda a igreja não havia senão o mal e o falso daí, e o falso e o mal daí; ‘três horas’ também significam pleno e completamente, pois todas e cada uma das coisas que são relatadas nos Evangelhos a respeito da paixão do Senhor encerram em si arcanos e significam coisas Divinas celestes, as quais somente se tornam evidentes pelo sentido interno espiritual.
[7] Que as ‘trevas’ signifiquem o falso vê-se ainda pelas passagens que se seguem. Em Isaías:
“Ai dos chamam ao mal bem e ao bem mal, os que põem as trevas por luz e a luz por trevas” (Is. 5:20);
‘pôr as trevas por luz e a luz por trevas’ significa dizer que o falso é vero e que o vero é falso. Que as ‘trevas’ sejam o falso e que a ‘luz’ seja o vero é evidente, pois primeiro se fala a respeito do bem e do mal, e por isso, depois, a respeito do vero e do falso.
[8] Em João:
“Este é o juízo, que a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque suas obras eram más” (Jo. 3:19).
O Senhor se chama ‘Luz’ porque era o Divino Vero mesmo quando no mundo. Assim, pela ‘Luz’ é significado o Senhor quanto ao Divino Vero, depois também o Divino Vero proveniente do Senhor. E visto que as trevas se opõem à luz, pelas ‘trevas’ que os homens amaram mais do que a luz é significado o falso infernal, que é o falso do mal. Que seja o falso do mal que é aí é significado pelas ‘trevas’ vê-se pelo fato de se dizer ‘porque as suas obras eram más’. Das más obras ou dos males da vida surge o falso do mal, pois assim como o bem conjunge a si o vero, também o mal conjunge a si o falso, pois é do outro.
[9] Coisas semelhantes são significadas pela ‘luz’ e pelas ‘trevas’ nas seguintes passagens em João:
“N’Ele estava a vida, e a vida era a luz dos homens; e a luz aparece nas trevas, mas as trevas não a compreenderam” (Jo. 1:4, 5);
no mesmo:
Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo; quem Me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo. 8:12);
no mesmo:
Jesus disse: “Andai enquanto tendes a luz, para que as trevas não vos apanhem; pois quem anda nas trevas não sabe para onde vai. Eu, a Luz, vim ao mundo para que todo aquele que crê em Mim não permaneça em trevas” (Jo. 8:35, 46).
Nessas passagens, pelas ‘trevas’ é significado o falso infernal, pois pela ‘luz’, a que as trevas se opõem, é significado o Divino Vero. Que a ‘luz’ signifique o Divino Vero é porque a luz nos céus é, em sua essência, o Divino Vero procedente do Senhor (vide, na obra O Céu e o Inferno, os n. 126-140). Ora, visto que o Divino Vero é a luz nos céus, segue-se que o falso do mal, que é o falso nos infernos, é as trevas. Não há realmente trevas para os que estão nos infernos, pois eles se veem mutuamente, mas o lume em que veem é como o lume de brasas, e esse lume, quando nele influi a luz do céu, se torna mera escuridão. Assim é que as cavernas e os antros em que eles estão aparecem àqueles que estão nos céus como grutas tenebrosas.
[10] Por aí se pode ver de onde procede que as ‘trevas’ signifiquem os falsos do mal e que o Senhor tenha dito
Que devem ser lançados nas trevas exteriores os que estão nos infernos (Mt. 8:12; 22:13; 25:30).
Em David:
“O adversário perseguiu a minha alma, abateu até a terra a minha vida, me fez sentar nas trevas, como os mortos do mundo” (Sl. 143:3);
pelo ‘adversário’ que perseguiu a sua alma é significado, no sentido espiritual, o mal, pelo que ‘fez-me sentar nas trevas’ significa nos falsos.
[11] Em Isaías:
“Longe de nós está o juízo, e não nos alcança a justiça; esperamos a luz, mas eis que há trevas; e esplendores, andamos na escuridão” (Is. 59:9);
‘longe de nós está o juízo’ significa que não há entendimento do vero; ‘não nos alcança a justiça’ significa que não há bem da vida; ‘esperamos a luz, mas eis que há trevas’ significa a expectação do vero, mas eis que há o falso; ‘ esplendores, andamos na escuridão’ significa a expectação dos bens pelos veros, mas eis que há vida do falso oriundo dos males, pois os ‘esplendores’ significam os bens do vero, porque a ‘luz’ significa o vero e porque o vero resplandece pelo bem; ‘escuridão’ significa os falsos do mal, e ‘andar’ significa viver.
[12] Em Lucas:
“Mas esta é a vossa hora e o poder das trevas” (Lc. 22:53).
O Senhor disse essas palavras aos principais dos sacerdotes, encarregados do templo e anciãos, que O prenderam por intermédio de Judas. Ao poder de praticar esse crime o Senhor chama ‘poder das trevas’, porque eles estavam nos falsos do mal, nos falsos a respeito do Senhor e nos males contra Ele. Por ‘trevas’ aí também se entende o inferno, porque tais falsos do mal ali estão.
[13] No mesmo:
“A candeia do corpo é o olho. Se, pois, o teu olho for puro, também todo o corpo será luminoso; se, porém, o teu olho for mal, também todo o teu corpo será tenebroso. Vê, pois, que a luz que em ti há não seja trevas. Se, pois, teu corpo todo é luminoso, não tendo parte tenebrosa, será todo luminoso, assim quando a candeia te ilumina com esplendor” (Lc. 11:34-36; Mt. 6:22, 23);
por ‘olho’, aqui, é significado o entendimento, e por ‘olho puro’ ou ‘simples’ o entendimento do vero proveniente do bem; por ‘olho mal’, porém, é significado o entendimento do falso oriundo mal; por ‘corpo’, que é ou ‘luminoso’ ou ‘tenebroso’, entende-se todo o homem. Daí se pode concluir o que é significado por essas palavras em série, a saber, que o homem todo é tal qual é o seu entendimento proveniente da vontade. Com efeito, todo homem é seu vero e o seu bem, porque é o seu amor ou sua afeição; por isso, ele é inteiramente tal pelo ??? todo que é quanto ao entendimento da vontade, pois todo vero pertence ao entendimento e todo bem pertence à vontade. O corpo é somente a obediência, porque é o efeito da causa eficiente, e o entendimento da vontade é a causa eficiente. Deve-se cuidar para que o vero, uma vez percebido com o entendimento e recebido na vontade, não seja convertido em falso, o que se faz a partir do mal; isto é o que se entende por ‘vê, pois, que a luz que em ti há não seja trevas’, pois daí os falsos se tornam piores. Por isso em Mateus, na passagem ora citada, é dito:
“Se, pois, o lume que em ti há forem trevas, quão grande trevas serão!” (vers. 2).
[14] Por ‘trevas’ são significados os falsos do mal também em Isaías:
“Assenta-te em silêncio, e entra nas trevas, ó filia dos caldeus, por que não mais te chamarão senhora dos reinos” (Is. 47:5);
por ‘filha dos caldeus’ é significada a falsificação do vero; assim, por ‘trevas’ são significados os falsos do mal, porquanto o mal falsifica o vero. Pela
Escuridão de trevas que houve em toda a terra do Egito por três dias, quando havia luz nas habitações dos filhos de Israel (Êx. 10:21-23),
é significado também o falso do mal, como também pelas ‘trevas’ em Gênesis 15:7 e muitas outras passagens.
[15] Mostrou-se até aqui que pelas ‘trevas’, na Palavra, são significados os falsos do mal. Que pelas ‘trevas’ sejam também significados os falsos não do mal, tais como foram os falsos da religião nas nações probas, falsos esses que eles tiveram por causa da ignorância do vero [mostrar-se-á agora]. Que esses falsos sejam chamados ‘trevas’ vê-se pelas seguintes passagens. Em Isaías:
“Estes povos, que andam nas trevas, viram uma grande luz, e os que habitam na terra da sombra da morte, sobre eles a luz brilhou” (Is. 9:2);
em Mateus:
“O povo que está assentado nas trevas viu grande lume; aos que se assentam na região e sombra da morte nasceu a luz” (Mt. 4:6);
em Lucas:
O Oriente do alto apareceu “aos que estão assentados nas trevas e na sombra da morte” (Lc. 1:78-79);
em Isaías:
“Se abrires a tua alma ao faminto, e a alma aflita saciares, tua luz nascerá nas trevas, e tua escuridão [será] como o meio-dia” (Is. 58:10);
no mesmo:
“Dirá aos presos: Saí; aos que estão nas trevas: Aparecei” (Is. 49:9);
no mesmo:
“Naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro, e da escuridão e das trevas os olhos dos cegos verão” (Is. 29:18);
no mesmo:
“Conduzirei os cegos por um caminho que não conheceram; tornarei em luz as trevas diante deles, e os tortuosos em retidão” (Is. 42:16);
em Miquéias:
“Quando [me] assentar nas trevas, Jehovah [será] luz para mim” (Mq. 7:8).
Nessas passagens, as ‘trevas’ significam os falsos da ignorância, quais existiram e ainda hoje existem nas nações probas. Esses falsos são inteiramente distintos dos falsos do mal, pois aqueles escondem em si mesmos o mal, porque vêm do mal, mas estes escondem em si o bem, pois têm o bem como fim. Por esse motivo, os que estão naqueles falsos podem ser instruídos nos veros, e, quando instruídos, também recebem os veros de coração, pelo fato de que o bem que está em seus falsos ama o vero, e também se conjunge ao vero quando é ouvido. É de outro modo com os falsos do mal; estes têm aversão a todo vero e o rejeitam, pelo fato de ser vero e, assim, não concorda com o mal.
[16] As ‘trevas’ também significam na Palavra a mera ignorância por causa da privação do vero (como em Davi, Sl. 18:29, 139:11, 12). As ‘trevas’ significam ainda o lume natural, pois este, relativamente à luz espiritual, é como trevas. Por isso, também, quando os anjos olham para o lume natural do homem, como está na cognição natural dos homens, veem isso como trevas. Esse lume é significado pelas ‘trevas’ em Gênesis 1:2-5. E como o sentido da letra da Palavra é natural, por isso também esse sentido na Palavra se chama ‘nuvens’ e também ‘trevas’, relativamente ao sentido interno espiritual, que está na luz do céu e se chama ‘glória’.

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