AE 527

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “Para que o dia não luzisse em sua a terça parte, e a noite semelhantemente”. Que isto signifique que a luz do vero espiritual e a luz do vero natural foram completamente extintas vê-se pela significação de ‘dia’, que é a luz espiritual, e pela significação de noite, que é a luz natural. Estas são significadas porque acima foi dita que a ‘terça parte do sol’, a ‘terça parte da lua’ e a ‘terça parte das estrelas’ se escureceram, e pela ‘dia’ se entende a luz do sol, e pela ‘noite’ se entende a luz da luz e das estrelas, porque o sol dá luz durante o dia, e a lua e as estrelas na noite. Dir-se-á primeiro a respeito da luz do sol, que se chama luz do dia, e da luz da lua e das estrelas, que se chama luz da noite.
[2] Pela luz do sol, que se chama ‘lua do dia’ e ‘dia’, entende-se a luz espiritual, qual é a dos anjos que veem o Senhor como Sol, enquanto pela luz da luz e das estrelas, que se chama ‘luz da noite’ e ‘noite’, entende-se a luz natural, qual é dos anjos que contemplam o Senhor como Lua. (Que o Senhor apareça aos anjos como Sol e também como Lua, vide a obra O Céu e o Inferno, n. 116-125). Os anjos do céu que contemplam o Senhor como Sol estão na afeição do vero espiritual, isto é, amam o vero porque é vero. Como isto é espiritual, por isso a luz que vem do Senhor como Sol é espiritual. Mas os anjos do céu que veem o Senhor como Lua estão na afeição do vero natural, isto é, amam o vero para serem cultos e instruírem aos outros. Esses, porque amam o vero porque lhes é útil e não porque é vero mesmo, estão, por isso, na luz que procede do Senhor como Lua. Essa luz difere da luz que procede do Senhor como Sol assim como em nosso mundo a luz do dia vinda do sol difere da luz da noite vinda da lua e das estrelas. Semelhantemente às luzes, também os veros diferem neles, pelo fato de que o Divino Vero que procede do Senhor produz toda luz nos céus (vide, na obra O Céu e o Inferno, os n. 126-140).
[3] Os que estão na luz espiritual, estão, por isso, nos veros genuínos; e, também, quando ouvem veros que antes não conheciam, logo os reconhecem e veem que são veros. É de outro modo com aqueles que estão na luz natural; esses, quando ouvem os veros, recebem-nos, ainda que não vejam e percebam, mas porque foram ensinados por varões de reputação nos quais eles têm fé. A esses céus vêm todos os que viveram no bem, ainda que tenham estado em falsos da doutrina, porém ali os falsos são continuamente purificados até aparecerem como veros. Por aí se pode ver o que é significado por ‘para que o dia não luzisse em sua a terça parte, e a noite semelhantemente’. (Que ‘terça parte’ signifique o todo, pleno e completamente, vide acima, n. 506).
[4] Por ‘dia e noite’ aqui é significado algo semelhante ao que é significado por ‘dia e noite’ no primeiro capítulo de Gênesis, onde é dito:
“Disse Deus: Haja luz, e houve luz. E viu Deus a luz, que era boa, e distinguiu Deus entre a luz e entre as trevas; e chamou Deus à luz dia, e às trevas chamou noite. E houve tarde e houve manhã, o dia primeiro” (Gê. 1:3-5);
e, depois,
“E disse Deus: Haja luminares na expansão dos céus, para distinguir entre o dia e entre a noite; e serão para sinais, e para estados dos tempos, e para dias e anos... E fez Deus dois grandes luminares, um luminar grande para dominar no dia, e um luminar menor para dominar na noite, e as estrelas. E pô-los Deus na expansão dos céus, para dar luz sobre a terra, e para dominar no dia e na noite, e para distinguir entre a luz e entre as trevas... E houve tarde e houve manhã, o dia quarto” (Gê. 1:14-19);
pela ‘luz’ eu foi feita no dia primeiro é significada a Divina Luz que em si e sua essência é o Divino Vero, assim, a luz espiritual, que ilumina o entendimento. Trata-se nesse capítulo, no sentido interno, da instauração da igreja com os antiquíssimos pelo Senhor, e como a primeira coisa é que o entendimento seja iluminado, pois sem sua iluminação não é feita reforma alguma pelo Senhor, por conseguinte, não há igreja no homem, por isso a primeira coisa de todas que se diz é a respeito da luz, ou que a luz foi feita no primeiro dia. Que se diga que ‘viu Deus a luz, que era boa’ significa que neles a iluminação e a recepção eram boas. Pelas ‘trevas’, porém, é significado o lume que está no homem natural, que também se chama lume natural. Como esse lume em relação à luz espiritual é relativamente como trevas, por isso ele se entende pelas ‘trevas’. Com efeito, há em cada homem a mente inferior ou exterior e a mente superior ou interior. A mente inferior ou exterior é a mente natural, que é chamada homem natural; mas a mente superior ou interior é a mente espiritual, e é chamada homem espiritual. Que a mente seja chamada ‘homem’ é porque o homem é homem por sua mente. Essas duas mentes, a superior e a inferior, são inteiramente distintas. Pela mente inferior o homem está no mundo natural, associado aos homens aí, e pela mente superior está no mundo espiritual, com os anjos ali. Essas duas mentes foram distintas assim a fim de que o homem, enquanto vive no mundo, não saiba o que se passa na sua mente superior; e, quando se torna espírito, o que acontece logo após a morte, não saiba o que se passa na mente inferior. Daí se diz que “Deus distinguiu entre a luz e entre as trevas, e chamou a luz dia, e às trevas chamou noite”. Por aí se pode ver que pelo ‘dia’ é significada a luz espiritual, e pelas ‘trevas’ a luz natural. Visto que todos os céus foram de tal modo distintos que aqueles que estão na luz espiritual são os que se acham na luz proveniente do Senhor como Sol, enquanto os que estão na luz espiritual natural são os que se acham na luz proveniente do Senhor como Lua (como foi dito acima, neste artigo), por esse motivo se diz que ‘os dois luminares na expansão dos céus seriam para distinguir entre o dia e entre a noite, e para dominar no dia e na noite, e para distinguir entre a luz e entre as trevas’. Por aí, pois, pode-se ver que pelo ‘dia’ aí se entende a luz espiritual, e pela ‘noite’ a luz natural, que é chamada luz espiritual natural no céu.
[5] Coisas semelhantes são significadas por ‘dia’ e ‘noite’ nas seguintes passagens. Em David:
Jehovah, “que fez os céus por inteligência... que expandiu a terra sobre as águas... que fez os grandes luminares... o sol para dominar no dia... a lua e as estrelas para dominar na noite” (Sl. 136:5-9);
em Jeremias:
Jehovah “que dá sol para luz do dia, os estatutos da lua e das estrelas para luz da noite” (Jr. 31:5);
em David:
“Teu, ó Jehovah, é o dia, e Tua a noite; Tu preparaste a luz e o sol” (Sl. 74:16);
em Jeremias:
“Se tornares nula a Minha aliança com dia e Minha aliança com a noite, para que não haja dia e noite em seu tempo, também se tornará nula a Minha aliança com David, Meu servo, para que não um filho seu reinando sobre o seu trono, e com os sacerdotes levitas, Meus ministros... Se [Eu] não estabelecer Minha aliança do dia e da noite, os estatutos do céu e da terra, também rejeitarei a semente de Jacob e de David” (Jr. 33:20, 21, 25, 26);
por ‘aliança do dia e da noite’ entendem-se todos os estatutos da igreja prescritos aos filhos de Israel na Palavra, pelos quais há conjunção com o céu e, pelo céu, com o Senhor. Que sejam chamados ‘aliança do dia e da noite’ é porque eles são para o céu e também para a igreja; para o céu são as coisas espirituais que são representadas e significadas, e para a igreja são as coisas naturais que representam e significam; por isso as ‘alianças do dia e da noite’ são aí chamados ‘estatutos do céu e da terra’, e as ‘alianças da noite’ são chamadas ‘estatutos da luz e das estrelas’; ‘tornar nula’ significa não observar. Que de outra maneira não haveria conjunção com o Senhor pelo Divino Vero nem pelo Divino Bem é significado por ‘tornar-se-á nula a aliança com David, para que não haja filho reinando sobre o seu trono, e com os sacerdotes levitas, Meus ministros’; ‘aliança com David’ é a conjunção com o Senhor pelo Divino Vero; ‘não haver filho reinando sobre seu trono’ significa não haver recepção do Divino Vero por pessoa alguma; e ‘aliança com os sacerdotes levitas, ministros’ é a conjunção com o Senhor pelo Divino Bem.
[6] Em David:
“Se eu disser, as trevas decerto me cobrirão, também não [haverá] luz para mim, também as trevas não farão trevas diante de Ti, mas a noite será luminosa como o dia; como as trevas assim a luz” (Sl. 139:11, 12);
por essas palavras é significado que o Senhor ilumina o homem natural igualmente ao espiritual; a luz natural é significada por ‘trevas’ e ‘noite’, e a luz espiritual por ‘luz’ e ‘dia’; que ‘a noite será luminosa como o dia, e como as trevas assim a luz’ significa o mesmo que em Isaías:
“Será a luz do dia como a luz do sol” (Is. 30:26).
Essas coisas foram referidas para que se saiba que ‘o dia não luzisse em sua a terça parte’ significa a luz espiritual; e ‘a noite semelhantemente’ significa a luz natural, assim, o mesmo que ‘lua do sol’ e ‘luz da lua’.

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