. “E seus dentes eram como os de leões”. Que isto signifique que as coisas sensuais, que são os últimos da vida intelectual, lhes são aparentemente como se tivessem poder sobre todas as coisas vê-se pela significação de ‘dentes’, que são as coisas sensuais, as últimas da vida natural quanto ao entendimento (de que se tratará a seguir), e pela significação de ‘leões’, que são os veros da igreja quanto ao poder, aqui, porém, os falsos, também quanto ao poder (de que se tratou acima, n. 278); que sejam aqui os falsos é porque pelos ‘gafanhotos’ são significados os sensuais do corpóreo que estão nos falsos do mal. Que lhes apareçam no entendimento e, assim, no poder sobre todas as coisas é porque o persuasivo mesmo, de que se tratou acima, reside no sensual, que é o último da vida natural, pois este, ou o homem sensual, está na confiança em si mesmo e na fé de que é mais sábio do que todos, uma vez que não pode ponderar e se examinar, pois não pensa interiormente; e quando se persuade disso, então essa confiança e fé está em todas as coisas que ele fala. Assim, a fala, que ressoa somente por essa confiança e fé, fascina e torna insana a mente dos outros, pois o som da confiança e da fé causa esse efeito, que se manifesta principalmente no mundo espiritual, onde o homem fala por seu espírito, porque a afeição de sua confiança e, daí, da fé de que algo é assim, está no espírito do homem, e o espírito do homem fala pela afeição. É diferente no mundo natural. Neste, o espírito do homem discursa pelo corpo e, por causa do mundo, produz coisas tais que não são da afeição de seu espírito, a qual ele raramente exibe, para que não se saiba qual ela é. Daí vem, também, que no mundo não se sabe que existe um persuasivo que fascina e sufoca, como o que há no espírito do homem sensual que se crê mais sábio que os outros. Por aí se pode ver de onde vem que por ‘seus dentes como os de leões’ seja significado que os homens sensuais aparecem a si mesmos como se estivessem no entendimento e, daí, no poder acima de todas as coisas. Que os ‘dentes’ signifiquem as coisas sensuais, que são os últimos da vida natural quanto ao conhecimento, pode-se ver pela correspondência dos dentes (de que se tratou nas obras O Céu e o Inferno, n. 575, e Arcanos Celestes, n. 5565-5568).
[2] Que os ‘dentes’ signifiquem isto, pode-se ver pelas seguintes passagens na Palavra. Em David:
“Minha alma, no meio de leões me deito; os dentes deles são lança e flechas, e a língua deles uma espada aguda” (Sl. 57:4);
por ‘leões’ são significados os que pelos falsos destroem os veros da igreja; os ‘dentes deles’, que são ‘lança e flechas’, significam os conhecimentos que eles aplicam para confirmar os falsos e males, assim, para destruírem os veros e bens da igreja; ‘a língua deles como espada aguda’ significa os astutos raciocínios pelos falsos, que se chamam ‘espada aguda’, porque a espada significa o falso que destrói o vero.
[3] No mesmo:
“Ó Deus, destrói os dentes deles na sua boca; afasta os molares dos leões jovens” (Sl. 58:6);
os ‘dentes na sua boca’ significam os conhecimentos pelos quais produzem os falsos; os ‘molares dos leões jovens’ significam os veros da Palavra falsificados, os quais em si mesmos são falsos, pelos são muito poderosos para destruir os veros da igreja.
[4] Em Joel:
“Uma nação sobe à minha terra, forte e inumerável; seus dentes são dentes de leão, e tem molares de um leão feroz; faz da Minha vide devastação, e da Minha figueira espuma” (Jl. 1:6, 7);
pela ‘nação’ que ‘sobe à terra’ é significado o mal que devasta a igreja (‘nação’ é o mal, e ‘terra’ é a igreja); ‘forte e inumerável’ significa poderosa e a múltipla (‘forte’ se atribui ao poder do mal, e ‘inumerável’ ao poder do falso); ‘seus dentes são dentes de leão’ significa os falsos que destroem; ‘molares de leão feroz’ significam falsificados; ‘fez da videira devastação, e da figueira espuma’ significa que destrói os veros espirituais e naturais; os veros espirituais são os que pertencem ao sentido espiritual da Palavra, e veros naturais são os que pertencem ao seu sentido da letra. (Vide também acima, n. 403, onde isto foi explicado). Por ‘dentes de leões’ nessas passagens são significadas as mesmas coisas que pelos ‘dentes como de leões’ aqui, no Apocalipse. Pelos ‘dentes’ propriamente são significadas as coisas que se acham somente na memória e daí são extraídas, pois as coisas que são da memória do homem sensual correspondem aos ossos e aos dentes.
[5] Em Daniel:
Subiu do mar “uma segunda besta, semelhante a um urso;... havia três costelas em sua boca, entre os seus dentes. Foi dito a ela: Levanta, come muita carne. (...) Depois subiu a quarta besta, terrível, temível e muito forte, que tinha grandes dentes de ferro; comeu e despedaçou, e ao resto pisou os pés” (Dn. 7:5, 7);
por ‘besta do mar’ entende-se o amor de dominar, ao qual as coisas santas servem de meios, e por ‘quatro bestas’ são significados o seu sucessivo aumento; por esta ‘segunda besta, semelhante a um urso’, é significado o segundo estado, quando esse domínio é confirmado pela Palavra; os que fazem isso aparecem mesmo semelhante a ursos, no mundo espiritual; ‘três costelas na boca, entre os dentes’, significa todas as coisas da Palavra que eles aplicam, as quais não entendem senão segundo a letra; ‘três costelas’ são todas as coisas da Palavra, ‘na boca’ é que eles aplicam ensinando, e ‘entre os dentes’ é que não as entendem senão quando à letra, isto é, como o homem sensual; ‘foi dito a ela: Levanta, come muita carne’ significa aplicassem muitas coisas e por esse modo destruíssem o sentido genuíno da Palavra. Pela ‘quarta besta subindo do mar, terrível, temível e muito forte’ é significado o quarto e último estado, quando, pelas coisas santas como meios, estabeleceram para si o domínio sobre o céu e a terra; desse estado, por ser profano e poderoso, se diz ‘terrível, temível e muito forte’; ‘tinha grandes dentes de ferro’ significa que tem do homem sensual duros falsos contra os veros e bens da igreja; ‘comeu e despedaçou’ significa que perverteu e destruiu; ‘e ao resto pisou aos pés’ significa que as coisas que eles não puderam perverter e destruir, contaminaram e destruíram pelos males dos amores naturais e corpóreos. (As demais coisas a respeito dessas bestas veem-se explicadas acima, n. 316).
[6] Em Moisés:
“Dente de bestas enviarei sobre eles, com veneno de répteis da terra” (Dt. 32:24).
Entre muitos outros, esse mal foi também anunciado ao podo israelita e judaico, se não guardassem e cumprissem os estatutos e preceitos. Por ‘dente de bestas’ são significados os falsos dos males de todo gênero, e por ‘veneno de répteis da terra’ são significadas as coisas que matam e extinguem completamente a vida espiritual; por ‘bestas’, na Palavra, são significadas as coisas tais que são do homem natural, e por ‘répteis da terra’ as que são do homem sensual. Estas e aquelas, quando separadas do homem espiritual, são meramente falsos dos males, porque são somente coisas tais que se aderem somente ao corpo e tais que são do mundo, de que estão próximas, e do corpo e do mundo vem toda escuridão nas coisas espirituais.
[7] Em David:
“Levanta, ó Jehovah, salva-me, ó meu Deus! pois feres a todos os meus adversários no queixo, e despedaças os dentes dos ímpios” (Sl. 3:7);
‘ferir os adversários no queixo’ significa destruir os falsos interiores naqueles que são contra os bens e veros da igreja; eles e os seus falsos entendem-se na Palavra por ‘adversários’; e ‘despedaçar os dentes dos ímpios’ significa destruir os falsos exteriores, que são aqueles fundamentados em falácias dos sentidos e por elas confirmados.
[8] Visto que em David se diz ‘ferir o queixo’ e ‘despedaçar os dentes’, e por estas expressões é significado destruir os falsos interiores e exteriores, pode-se ver o que se entende por ‘dar bofetada no queixo’, em Mateus:
“Ouvistes o que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não se deve resistir ao mal, mas qualquer que te der bofetada no queixo direito, volta-lhe também o outro; e se alguém quiser te levar a juízo e tirar tua túnica, cede-lhe também a capa. Quem quer que te tiver impelido por uma milha, vai com ele duas. Dá a todo o que te pede, e de quem desejar tomar muito de ti, não te desvies” (Mt. 5:38-42);
É evidente a qualquer um que essas palavras não devem ser entendidas segundo a letra, pois quem é obrigado por amor cristão a voltar o queixo esquerdo ao que o feriu no direito, e dar a capa ao que quer tomar-lhe a túnica? Em suma, a quem não é lícito resistir ao mal? Como, porém, todas as coisas que o Senhor falou foram em si Divinas celestes, pode-se ver que há um sentido celeste nessas palavras, assim como as demais coisas que o Senhor falou. Que tenha havido com os filhos de Israel essa lei, que retribuíssem
“Olho por olho, dente por dente” (Êx. 21:23, 24; Lv. 24:20; Dt. 19:21),
foi porque eles eram homens externos e, daí, estiveram somente nos representativos de coisas celestes e não nas celestes mesmas, assim, não na caridade, misericórdia, paciência e algum bem espiritual. Por isso estiveram na lei de Talião, pois a lei celeste e, assim, a lei cristã, é aquela que o Senhor ensinou nos Evangelhos:
“Tudo o que quiserdes que os homens vos façam, assim também vós lhes fareis; esta é a Lei e os Profetas” (Mt. 7:12, Lc. 6:31).
Como essa lei está no céu e, do céu, na igreja, daí também todo mal tem consigo a sua pena, que é chamada pena do mal, e está como que conjunta ao mal. Dela flui a pena de Talião, que foi ditada aos filhos de Israel, porque eram homens externos e não internos. Os homens internos, como são os anjos do céu, não querem a retribuição do mal pelo mal, mas perdoam por caridade celeste, pois sabem que o Senhor protege contra os maus a todos os que estão no bem, e protege segundo o bem neles, e não os protege se, pelo mal que lhes fazem, inflamarem-se de inimizade, ódio e vingança, pois essas coisas afastam a proteção.
[9] São estas, pois, as coisas envolvidas nas palavras que o Senhor disse. O que eles significam, porém, dir-se-á em ordem. ‘Olho por olho, e dente por dente’ significa que quanto mais alguém tirar de outrem o entendimento do vero e o sentido do vero, mais estes lhe serão tirados; por ‘olho’ é significado o entendimento do vero, e por ‘dente’ o sentido do vero, pois o ‘dente’ significa o vero e o falso tais como tem o homem sensual. Que aquele que está no bem cristão as tire tanto quanto pode, descreve-se pelas palavras que o Senhor responde sobre esse assunto. ‘Não resistir ao mal’ significa não lutar contra e não dar retribuição, pois os anjos não lutam com os maus e ainda menos retribuem o mal com mal, mas permitem que façam, pois são protegidos pelo Senhor e, daí, nenhum mal do inferno lhes pode causar dano. ‘Qualquer que te tiver dado bofetada no queixo direito, volta-lhe também o outro’ significa que se alguém quiser causar dano à percepção e ao entendimento do vero interior, que se lhe permita o quanto tente; pelo ‘queixo’ é significada a percepção e o entendimento do vero interior; pelo ‘queixo direito’, a afeição e, daí, a sua percepção, e pelo ‘queixo esquerdo’, o seu entendimento; e como se diz ‘queixo’, por isso também se diz ‘dar bofetada’, pelo que se entende causar dano, pois todas as coisas que são da boca, por exemplo, a garganta, a boca, os lábios, o queixo e os dentes significam coisas tais que são da percepção e do entendimento do vero, porque a elas correspondem; por isso são expressas por elas no sentido da letra da Palavra, que consiste de meras correspondências. ‘Se alguém quiser te levar a juízo e tirar a túnica, cede-lhe também a capa’ significa se alguém quiser tirar o vero interior que há em ti, que lhe seja permitido tirar o vero exterior, pois ‘túnica’ significa o vero interior, e ‘capa’ o vero exterior. Isto também os anjos fazem quando estão nos maus, pois os maus não podem tirar dos anjos coisa alguma do vero e do bem, mas podem as coisas pelas coisas pelas quais ardem de inimizade, ódio e vingança, pois esses males afastam e rejeitam a proteção do Senhor. ‘Quem quer que te tenha impelido por uma milha, vai com ele duas’ significa que a quem quer desviar do vero ao falso e do bem ao mal não lhe impeça, porque não o pode; por ‘milha’ é significado o mesmo que pelo ‘caminho’, a saber, o que desvia e conduz. ‘Dá a todo o que te pede’ significa que lhe seja permitido. ‘E de quem muito deseja tomar de ti, não te desvies’ significa que, se deseja ser instruído, que instrua, pois maus desejam isso para que o pervertam e privem, mas não o podem. Este é o sentido espiritual dessas palavras, no qual se acham ocultas as coisas que agora foram ditas, as quais são principalmente para os anjos, que percebem a Palavra somente segundo o seu sentido espiritual. São também para os homens no mundo que estão no bem, quando os maus tentam seduzi-los. Que tais sejam os maus contra aqueles que são protegidos pelo Senhor, foi-me dado saber por muitas experiências, pois continuamente pelejaram de todo modo e esforço para me privar dos veros e bens, mas em vão. Pelo que foi mencionado pode-se também de algum modo saber o que pelo ‘dente’ é significado o vero ou falso no sensual, que é o último da vida intelectual no homem. Que isto seja significado pelo ‘dente, é vidente pela resposta do Senhor, na qual se trata da percepção e do entendimento do vero, os quais os maus procuram tirar dos bons.
[10] Que isto seja significado pelos ‘dentes’ pode-se ver ainda pelas seguintes passagens. Em Jeremias:
“Naqueles dias não dirão mais: Os pais comeram uva silvestre, e os dentes dos filhos se embotaram, mas cada um morrerá na sua iniquidade; de todo homem que tiver comido uva silvestre os dentes embotar-se-ão” (Jr. 31:29, 30; Ex. 18:2-4).
É evidente que essas palavras envolvem que os filhos e os descendentes não sofrerão a pena por causa dos males dos pais, mas cada um por causa de seu próprio mal. Por ‘comer uva silvestre’ é significado apropriar-se do falso do mal, pois ‘uva silvestre’, que é uma uva amarga e ruim, significa o falso do mal, ‘comer’ significa apropriar-se e por ‘embotarem-se os dentes’ é significado estar no falso do mal, pois os ‘dentes’, aqui como acima, significam os falsos nos últimos ou no homem sensual, no qual principalmente se encerram nos filhos os males dos pais, chamados males hereditários, e ‘embotar-se’ significa a apropriação do falso do mal. Com efeito, o homem não é punido por causa dos males hereditários, mas por causa dos seus, e também se faz do hereditário coisas ativas em si, pelo que se diz que ‘cada um morrerá em sua iniquidade, e de todo homem que tiver comido uva silvestre os dentes embotar-se-ão’.
[11] Em Jó:
“Todos os homens me abominam... meu osso se apega à minha pele e à minha carne, escapei com a pele dos meus dentes” (Jó 19:19, 20).
Por essas palavras, no sentido da letra, entende-se que ele ficou macilento e magro assim, mas, no sentido espiritual, significa que as tentações oprimiram os interiores de sua mente a tal ponto que tornou-se sensual e pensa somente nos extremos, não, contudo, nos falsos, mas nos veros. Isto é significado por ‘escapei com a pele dos meus dentes’, pois ‘dentes’ sem a pele significam os falsos, mas com a pele não são os falsos, porque ainda são de certo modo revestidos.
[12] Em Amós:
“Eu vos dei vazio de dentes em todas as vossas cidades, e falta de pão em todos os vossos lugares” (Am. 4:6);
‘vazio de dentes nas cidades’ está em lugar da penúria do vero nas doutrinas, e ‘falta de pão em vossos lugares’ em lugar da penúria do bem delas ??? na vida.
[13] Em Zacarias:
“Removerei os seus sangues de sua boca, e suas abominações de entre os seus dentes” (Zc. 9:7),
a respeito de Tiro e Sidon, pelas quais são significadas as cognições do vero e do bem, aqui, elas falsificadas; por ‘sangues da boca’ são significadas as falsificações das cognições do vero, e por ‘abominações de entre os dentes’ são significadas as adulterações das cognições do bem. As cognições do bem são também veros, pois conhecer os bens se faz pelo entendimento, e o entendimento é do vero.
[14] Em David:
“As águas nos teriam submergido… águas soberbas teriam passado sobre a nossa alma. Bendito é Jehovah, que não nos entregou como rapina dos dentes deles” (Sl. 124:4-6);
pelas ‘águas’ que teriam submergido são significados os falsos que inundam e, por assim dizer, submergem o homem quando nas tentações, pelo que se diz: ‘Bendito é Jehovah, que não nos entregou como rapina dos dentes deles’, isto, aos infernos que, pelos falsos, destroem os veros, assim, os falsos que destroem.
[15] Em Jó:
“Despedacei os molares do iníquo, e dos seus dentes arrebatei a presa” (Jó 29:17).
Essas são palavras de Jó, a seu próprio respeito. ‘Despedaçou os molares do iníquo’ significa que lutou contra os falsos e os venceu; os ‘molares’ significa os conhecimento do sentido da letra da Palavra, aplicados para confirmar os falsos, pelos quais destroem os veros; ‘e dos seus dentes arrebatei a presa’ significa que livrou os outros dos falsos, instruindo-lhes.
[16] Visto que os ‘dentes’ significam os falsos nos extremos, assim, por ‘ranger os dentes’ é significado lutar pelos falsos com veemência e ira contra os veros, nas passagens que se seguem. Em Jó:
“Na sua ira despedaça, e tem ódio a mim; range contra me os seus dentes o meu adversário; aguça os seus olhos contra mim” (Jó 16:9);
em David:
“Ajuntam-se contra mim uns mancos que não conheci; atormentam, não se calam. (...) Rangem contra mim os seus dentes” (Sl. 35:15, 16);
no mesmo:
“O ímpio medita o mau contra o justo, e range sobre ele os seus dentes” (Sl. 37:12);
no mesmo:
“O ímpio verá e irritar-se-á; range os seus dentes e se dissolve” (Sl. 112:10);
em Miquéias:
“Contra os profetas que seduzem o povo... que mordem com seus dentes” (Mq. 3:5);
nas Lamentações:
“Abriram a sua boca contra ti”, ó filha de Jerusalém, “todos os teus adversários; assobiaram, rangeram o dente” (Lm. 2:16);
em Marcos:
Um disse a Jesus: “Trouxe-Te o meu filho, que tem espírito mau; e em toda parte onde o apanha, dilacera-o; espuma e range os dentes, e definha. Eu disse aos Teus discípulos que o expulsarem, mas não o puderam”. E Jesus lhe disse: “Espírito mudo e surdo, Eu te mando, sai dele, e não entres mais nele” (Mc. 9:17, 18, 25).
Quem não conhece o sentido espiritual da Palavra pode achar que se diz ‘rangem os dentes’ somente porque estavam irados e intentavam o mal, pelo fato de então comprimirem os dentes, mas se diz que ‘rangem os dentes’ porque se entende o esforço e a ação de destruir os veros por meio de falsos. Isto se diz na Palavra porque os ‘dentes’ significam os falsos nos extremos, e o ‘ranger’ significa a veemência de lutar por eles. Esse esforço e essa ação também vêm da correspondência.
[17] Tal foi também o espírito surdo e mudo que o Senhor expulsou, pois todos os espíritos provêm do gênero humano, e esse foi do gênero de homens que lutaram veemente por meio de falsos contra os veros; daí é que o que foi obsedado por ele ‘espumava e rangia os dentes’. Ele foi chamado de ‘surdo e mudo’ pelo Senhor porque não quis perceber e entender o vero, pois ‘surdo e mundo’ significa esses. E como tinha sido firme e obstinado contra os veros e tinha-se confirmado nos falsos, esse espírito não pôde ser expulso pelos discípulos, porque os falsos pelos quais tinha lutado não podiam ainda ser dispersos por eles, não ainda não eram tais. Por isso, também, os discípulos foram repreendidos pelo Senhor por causa disso. Que o espírito tenha sido tal e não o que fora obsedado por ele é significado pelo fato de ‘o espírito o dilacerava’ e o ‘obsedado definhava’, e por o Senhor dizer ao espírito ‘que não entrasse mais nele’.
[18] Por aí também se pode ver o que é significado por
“Ranger de dentes” (Mt. 8:12; 13:42, 50; 22:13; 24:51; 25:30; Lc. 13:28).
Por ‘ranger de dentes’ nos infernos entendem-se a contínua contenda e a luta dos falsos entre si e contra os veros, por conseguintes, dos que estão nos falsos, juntamente a desprezo pelos outros, inimizades, zombaria, escarnecimentos e blasfêmias, que também irrompem em dilacerações, pois cada um luta pelo falso do amor de si, da erudição e da reputação. Essas dilacerações e lutas são ouvidas fora dos infernos como ranger de dentes e também se tornam ranger de dentes quando os veros do céu ali influem. (A respeito deste assunto, porém, veem-se muitas coisas na obra O Céu e o Inferno, n. 575).
[19] Pelo fato de dentes nos maus corresponderem aos falsos que eles têm nos últimos da vida intelectual, os quais se chamam sensuais corpóreos, por isso os espíritos que são tais aparecem deformados de face, grande parte da qual consistindo de dentes, que são amplamente salientes, como grades num riso escancarado ???, e isto porque esse escancarar de dentes corresponde ao amor e à cobiça de lutar pelos falsos contra os veros.
[20] Como os dentes correspondem aos últimos da vida intelectual do homem, os quais se chamam sensuais, e estes estão nos falsos do mal quando são separados dos veros interiores do entendimento, que se chamam espirituais, enquanto os mesmos, quando não separados, correspondem aos veros do bem no sensual, daí é que os ‘dentes’, na Palavra, significam os veros últimos (como em Jó 19:19, 20, Amós 4:6, que se veem explicados acima).
[21] E como o Senhor glorificou todo o Seu Humano, isto é, fê-lo Divino, por isso se diz a respeito d’Ele em Moisés:
“Os olhos vermelhos pelo vinho, e os dentes brancos pelo leite” (Gn. 49:12);
pelos ‘olhos vermelhos pelo vinho’ é significado que o Seu intelectual foi o Divino Vero do Divino Bem; e pelos ‘dentes brancos pelo leite’ é significado que o Seu sensual foi semelhantemente o Divino Vero do Divino Bem, porque por ‘Schiloh’, ali (vers. 10), entende-se o Senhor.
[22] Porque os dentes correspondem aos últimos da vida intelectual, que se chamam sensuais, por isso os bons espíritos e os anjos se comprazem com os dentes, assim como os homens, mas neles os dentes correspondem aos veros no último do sensual, pois o sensual neles não é separado dos veros interiores do entendimento, que se chamam espirituais.
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