. “E fui ao anjo, dizendo[-lhe]: Dá-me o livrinho.” Que isto signifique a faculdade de perceber pelo Senhor a qualidade da Palavra vê-se pela significação de ‘ir ao anjo e dizer: Dá-me o livrinho’, que, no sentido próximo, é obedecer à ordem, porque foi-lhe dito que fosse e o tomasse. Num sentido mais remoto, que também é o sentido interior, por essas palavras se entende a faculdade de perceber pelo Senhor a qualidade da Palavra. O Senhor concede a cada homem perceber isso, todavia ninguém pode perceber a menos que queira perceber como por si mesmo. Deve haver esse recíproco da parte do homem para que ele receba a faculdade de perceber a Palavra, pois a menos que o homem queira e faça como por si mesmo, nenhuma faculdade lhe pode ser apropriada. Deve haver um ativo e um reativo, para que se faça a apropriação. O ativo vem do Senhor, e também o reativo, mas este parece como se viesse do homem. Contudo, visto que o homem não pode saber outra coisa senão que vive por si mesmo, por conseguinte, que pensa e quer por si mesmo, assim deve agir como se fosse pelo próprio de sua vida, e quando age desse modo, então pode pela primeira ser iniciado, conjungido e apropriado.
[2] Quem crê que as Divinas verdades e bondades influem sem tal reativo ou recíproco está muito enganado. Com efeito, isto seria encolher as mãos e esperar o influxo imediato, como imaginam aqueles que fazem completa separação entre a fé e a caridade, e dizem que os bens da caridade, que são os bens da vida, influem sem cooperação alguma da vontade do homem, quando, todavia, o Senhor ensina Ele está continuamente à porta e bate, e que o homem deve abri-la, e que o Senhor entra para aquele que abre (Ap. 3:20). Em suma, ação e reação fazem toda a conjunção, enquanto a ação e a mera passividade não fazem conjunção alguma, pois o agente, ou passivo, quando influi no meramente paciente ou passivo, passa e se dissipa, pois o passivo cede e foge. Mas quando o agente ou ativo influi num passivo tal que também é reativo, eles então se combinam [applicantur] ??? e ambos permanecem conjuntos. Assim é com o influxo do Divino Bem e do Divino Vero na vontade ou no amor do amor; por causa disso, quando o Divino influi no entendimento somente, então passa e se dissipa, mas quando na vontade, onde está o proprium do homem, então permanece conjunto. Por aí se pode o que está envolvido no que se diz, inicialmente: ‘Vai, toma o livrinho aberto na mão do anjo que está [de pé] sobre o mar e a terra’, e, depois, que ele ‘foi ao anjo, dizendo: Dá-me o livrinho’, ao que o anjo então disse: ‘Toma e devora-o”. Assim se descreve ou reativo ou recíproco. Daí é, agora, que por essas palavras é significada a faculdade de receber e de perceber pelo Senhor a qualidade da Palavra. A recepção do influxo Divino é descrita semelhantemente também em outras passagens na Palavra.
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