AE 617

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E me disse: Toma e devora-o”. Que isto signifique que lesse, percebesse e examinasse a Palavra, qual ela é por dentro e qual ela é por fora, vê-se pela significação de ‘Disse-me: Toma o livrinho’, que é a faculdade dada de perceber a qualidade da Palavra, isto é, a qualidade do entendimento da Palavra agora na igreja (de que se tratou no artigo imediatamente precedente, n. 616); e pela significação de ‘devorar’ ou comer, que é conjungir e apropriar a si. E visto que a Palavra conjunge o homem pela leitura e pela percepção, por isso, por ‘devorar’ ou comer, aqui, é significado ler e perceber. Que ‘devorar’ signifique aqui também examinar é porque se segue que ‘o livrinho amargou o seu ventre’, e ‘na boca foi percebida doce como mel’, pelo que é examinada a qualidade da Palavra quanto entendimento por dentro e a qualidade por fora. Por dentro é significado pelo ‘ventre’ e seu amargor, e por fora, pela ‘boca’, na qual foi percebida ‘doce como mel’. Por aí se pode ver que ‘Disse-me: Toma e devora o livrinho’ significa que lesse, percebesse e examinasse a qualidade da Palavra por dentro e por fora.
[2] Na Palavra se diz muitas vezes ‘comer’ e ‘beber’, e quem não conhece alguma coisa a respeito do sentido espiritual não pode saber outra coisa senão que por essas palavras é significado comer e beber naturalmente, quando, todavia, por elas é significado nutrir-se espiritualmente, por conseguinte, apropriar a si o bem e o vero; por ‘comer’, apropriar a si o bem, e por ‘beber’, apropriar a si o vero. Qualquer um que crê que a Palavra também é espiritual pode saber que por ‘comer’ e ‘beber’, assim como pelo ‘pão’, pela ‘comida’, pelo ‘vinho’ e pela ‘bebida’ entende-se a nutrição espiritual. Se não fossem entendidas tais coisas a Palavra seria meramente natural e não ao mesmo tempo espiritual, e ainda menos para os anjos. Que por ‘pão’, ‘comida, ‘vinho’ e ‘bebida’ se entenda no sentido espiritual a nutrição da mente foi mostrado acima em várias passagens. E foi mostrado também que a Palavra é espiritual em toda parte, ainda que no sentido da letra seja natural. Nutrir-se espiritualmente é instruir-se e imbuir-se, por conseguinte, saber, entender e ser sábio. A menos que o homem frua dessa nutrição espiritual juntamente com a nutrição do corpo, o homem não é homem, mas besta. Esta é a razão pela qual todos aqueles que põem todo o prazer nas comilanças e glutonarias, e diariamente são indulgentes com a gula, são obesos espiritualmente, por mais que possam raciocinar sobre as coisas do mundo e do corpo. Após a morte, levam uma vida mais ferina do que humana, pois em lugar de inteligência e sabedoria eles têm insanidade e estultícia. Estas coisas foram ditas para que se saiba que, aqui, ‘devorar’ ou comer o ‘livrinho’ significa ler, perceber e examinar a Palavra, pois pelo ‘livrinho’ que estava na mão do anjo que descia do céu entende-se a Palavra, como foi dito acima. Além disso, ninguém pode naturalmente comer ou devorar livrinho algum, nem a Palavra, pelo que também se pode ver claramente que ‘comer’, aqui, significa nutrir-se espiritualmente.
[3] Pelas passagens que se seguem pode-se ver que ‘comer’ e ‘beber’, na Palavra, também significa comer e beber espiritualmente, que é instruir-se e, pela instrução e pela vida, imbuir-se do bem e do vero e apropriá-los a si, por conseguinte, apropriar a si a inteligência e a sabedoria. Em Jeremias:
“Tuas palavras foram achadas, para que eu as coma, e assim Tua Palavra seja mim por gozo e por alegria de meu coração” (Jr. 15:6);
aqui, ‘comer’ está claramente em lugar de comer espiritualmente, que é saber, perceber e apropriar a si, pois se diz: ‘para que eu coma as Tuas palavras, e a Tua Palavra seja para mim por gozo e por alegria de coração’; as ‘palavras’ de Deus significam os preceitos ou os Divinos Veros. Isto é semelhante às palavras que o Senhor disse ao tentador,
Que o homem não vive só de pão, “mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt. 4:3, 4; Lc. 4:4; Dt. 8:3);
depois:
“Não trabalheis pela comida que perece, mas pela comida que permanece na vida eterna” (Jo. 6:27),
semelhantemente também às palavras do Senhor aos discípulos:
“Os discípulos diziam: Rabi, come. Ele, porém, disse: Uma comida tenho para comer que vós desconheceis. Diziam os discípulos uns aos outros: Acaso alguém Lhe trouxe o que comer? Disse-lhes Jesus: Minha comida é fazer a vontade d’Aquele que Me enviou, e completar a Sua obra” (Jo. 4:31-34).
[4] Também por essas citações é evidente que ‘comer’, no sentido espiritual, significa receber na vontade e fazer, donde há a conjunção, pois o Senhor, pelo fato de ter feito a Divina vontade, conjungiu o Divino que estava n’Ele com o Seu Humano, assim, apropriou o Divino ao Seu Humano. A isto também se pode referir
Que o Senhor alimentou cinco mil varões, além de mulheres e meninos, com cinco pães e dois peixes, e, depois de comerem e se saciarem, levantaram-se doze cestos de pedados (Mt. 14:15-22; Jo. 6:5, 13, 23).
E alimentou quatro mil homens com sete pães e uns poucos peixes (Mt. 15:32 e seq.).
Este milagre foi feito porque o Senhor antes os tinha ensinado e porque eles receberam a Sua doutrina e a apropriaram a si. Isto quer dizer que eles tinham comido espiritualmente e daí seguiu-se o alimento natural, a saber, fluía do céu neles como o maná nos filhos de Israel, sem que eles o soubessem, porque, querendo o Senhor, a comida espiritual – que também é comida real, mas somente para espíritos e anjos – se converte na natural, semelhantemente ao maná, a cada manhã.
[5] O mesmo é significado por ‘comer pão no reino de Deus’, em Lucas:
“Ordeno-vos o reino... para que comais e bebais sobre a mesa em Meu reino” (Lc. 22:27, 29, 30);
aqui, também, por ‘comer’ e ‘beber’ é significado comer e beber espiritualmente; por isso, ‘comer’ significa aí receber do Senhor, perceber e apropriar a si o bem do céu, e ‘beber’ significa receber, perceber e apropriar a si o vero desse bem, pois ‘comer’ se diz do bem porque o ‘pão’ significa o bem do amor, e ‘beber’ se diz do vero porque a ‘água’ e o ‘vinho’ significam o vero desse bem. O mesmo é significado em outra passagem, em Lucas:
“Bem-aventurado aquele que come pão no reino de Deus” (Lc. 14:15).
Daí é que o Senhor assemelhou o reino de Deus a
Uma grande ceia, à qual os convidados não vieram, mas somente aqueles que das ruas foram introduzidos (Lc. 14:16-24).
[6] O alimento espiritual, de que alma se nutre, é também significada por ‘comer’ nas seguintes passagens. Em Isaías:
“Se quiserdes e ouvirdes, comereis... o bem” (Is. 1:19);
‘comer o bem’ aqui significa o bem espiritual, pelo que se diz: ‘se quiserdes e ouvirdes’, isto é, se fizerdes, pois o bem espiritual é dado, conjungido e apropriado ao homem por seu querer e, daí, seu fazer. Em David:
“Bem-aventurado todo aquele que teme Jehovah, que anda em Seus caminhos; do trabalho de suas mãos comerás; bem-aventurado tu serás, e terás o bem” (Sl. 128:1, 2);
por ‘comer do trabalho de suas mãos’ é significado o bem celeste que o homem recebe do Senhor por uma vida segundo os Divinos veros e, como que por seu trabalho e sua dedicação, adquire para si; por isso se diz que “aquele que teme Jehovah e anda em Seus caminhos’ comerá, e, depois, ‘bem-aventurado tu serás, e terás o bem’.
[7] Em Isaías:
“Dizei ao justo que está no bem, porque comerão do fruto de suas obras” (Is. 3:10);
por ‘comer do fruto das obras’ é significado o mesmo que ‘comer do trabalho de suas mãos’, de que se tratou logo acima. Em Ezequiel:
“Flor de farinham mel e azeite comeste, pelo que te tornaste muito formosa, e próspera até o reino” (Ez. 16:13).
Essas palavras são a respeito de Jerusalém, pela qual é significada a igreja, aqui, a Igreja antiga, que esteve nos veros e no bem espiritual e natural ao mesmo tempo. Pela ‘flor de farinha’ é significado o vero, pelo ‘mel’ o bem natural ou do homem externo, e pelo ‘azeite’ o bem espiritual ou do homem interno. A recepção, a percepção e a apropriação destes é significada por ‘comer flor de farinha, mel e azeite’. Que por estes ela tornara-se inteligente é significado por ‘pelo que te tornaste muito e extremamente formosa’ (a ‘formosura’ significa a inteligência). Que, daí, por estes ela se tornara igreja é significado por ‘próspera és até o reino’ (o ‘reino’ significa a igreja).
[8] Em Isaías:
“Eis que a virgem conceberá e parirá um Filho, e chamará o Seu nome Deus conosco. Manteiga e mel comerá, para que saiba rejeitar o mal e escolher o bem, pois antes que o menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, será abandonada a terra que tu aborreces de diante dos seus dois reis” (Is. 7:14-16);
que o ‘Filho’ que a virgem conceberá e parirá, e cujo nome será chamado ‘Deus conosco’, seja o Senhor quanto ao Humano, é o que se vê. A apropriação do Divino Bem espiritual e natural quanto ao Humano entende-se por ‘manteiga e mel comerá; o Divino Bem espiritual, pela ‘manteiga’, o Divino Bem natural pelo ‘mel’, e a apropriação por ‘comer’. E visto que se sabe rejeitar o mal e escolher o bem na proporção que é apropriado o Divino Bem espiritual e natural, por isso se diz: ‘para que saiba rejeitar o mal e escolher o bem’. Que a igreja tenha sido abandonada e devastada quanto a todo o bem e vero pelos conhecimentos falsamente aplicados e pelos raciocínios daí é significado por ‘então será abandonada a terra que aborrecerá de diante de Seus dois reis’; a ‘terra’ significa a igreja; o seu abandono e a a sua devastação se entende por ‘será abandonada e aborrecida’, e os ‘dois reis’, que são o rei do Egito e o rei da Assíria, significam os conhecimentos aplicados ao mal e os raciocínios daí; o ‘rei do Egito’, esses conhecimentos, e o ‘rei da Assíria’, os raciocínios daí. Que se entendem esses dois reis é evidente pelo que se segue imediatamente nos versículos 17 e 18, onde o Egito e a Assíria são nomeados. São estas, também, as coisas que principalmente devastam a igreja. Que o Senhor viria ao mundo quando não houvesse mais na igreja nenhum vero e bem, assim, quando não restasse igreja alguma, foi dito algumas vezes acima.
[9] No mesmo:
“Acontecerá... por causa da multidão de produzir leite, cada um comerá manteiga, pois manteiga [e mel] comerá todo o que restar... na terra” (Is. 7:22).
Essas palavras s]ao a respeito de uma nova igreja a ser instaurada pelo Senhor, e por ‘manteiga e mel’ são significados o bem espiritual e o bem natural, e por ‘comê-los’ é significado apropriar a si (como acima); pelo ‘leite’ é significado o espiritual do celeste, do que vêm esses bens.
[10] No mesmo:
“Ah! Todos os que têm sede, ide às águas! E os que não têm prata, ide, comprai e comei! Ide e comprai, sem prata e sem preço, vinho e leite. Por que pesais a prata para aquilo que não é pão, e vosso trabalho para aquilo que não sacia? Ouvindo ouvi-Me, e comereis o bem, para que vossa alma se delicie na gordura” (Is. 55:1, 2).
É claramente evidente que ‘comer’, aqui, significa apropriar a si pelo Senhor, pois se diz: ‘todos os que têm sede, ide às águas; e os que não têm prata, comprai e comei’ pelo que é significado que todo aquele que deseja o vero, e que não o tinha antes, adquira-o e o aproprie a si, pelo Senhor; ‘o que tem sede’ significa o que deseja, a ‘água’ é o vero, a ‘prata’ o vero do bem, aí, o que não tem o vero do bem; ‘ir’ é ir ao Senhor; ‘comprar’ significa adquirir para si, e ‘comer’ é apropriar a si. “Ide, comprai sem prata e sem preço vinho e leite’ significa adquirir-se, sem a própria inteligência, o Divino Vero espiritual e o Divino Vero natural; ‘vinho’ significa o Divino Vero espiritual, e ‘leite’ o Divino Vero espiritual natural. ‘Por que pesai a prata para aquilo que não é pão, e vosso trabalho para aquilo que não sacia?’ significa que inútil adquiri para si, pelo proprium, o bem do amor, e pelo proprium aquilo que nutre a alma; pela ‘prata’ aqui é significado o vero oriundo do proprium ou da própria inteligência, do mesmo modo que pelo ‘trabalho’; pelo ‘pão’, o bem do amor, por ‘saciar’ é significado aquilo que nutre a alma, aqui [por ‘aquilo que não sacia’], o que não nutre. ‘Ouvindo ouvi-Me’ significa que essas coisas vêm somente do Senhor; ‘e comerás o bem, para que vossa alma se delicie na gordura’ significa que apropriassem a si o bem celeste, do qual vem todo prazer da vida; ‘deliciar-se na gordura’ significa ter o prazer do bem, e ‘alma’ significa a vida.
[11] No mesmo:
“Para os que habitam diante de Jehovah será o comércio” de Tiro, “para comerem até se saciarem, e para se cobrirem com o antigo” (Is. 23:18);
pelo ‘comércio de Tiro’ são significadas as cognições do bem e do vero de todo gênero; ‘habitar diante de Jehovah’ significa viver pelo Senhor; ‘comer até se saciar’ significa receber, perceber e apropriar a si as cognições do bem o quanto basta para a nutrição da alma; ‘cobrir-se com o antigo’ significa imbuir-se das cognições do vero genuíno, pois ‘cobrir’ se atribui aos veros, porque as ‘vestes’ significam os veros que revestem o bem, e ‘antigo’ se diz do que é genuíno, porque havia os veros genuínos com os antigos. O mesmo é significado em Moisés,
Que comeriam até se saciarem e comeriam da [colheita] velha há longo tempo guardada [vetus vetustum]” ??? (Lv. 26:5, 10);
no mesmo:
Comerás e te saciarás na boa terra (Dt. 11:15);
E também que comeriam e não ficariam saciados (Lv. 26:26).
[12] Em Isaías:
“Edificarão casas e habitarão [nelas], e plantarão vinhas e comerão do seu fruto. Não edificarão para que outro habite, nem habitarão para que outro coma” (Is. 65:21, 22).
Qualquer um pode ver o que é significado por essas palavras no sentido da letra. Como, porém, a Palavra em seu seio é espiritual, por elas também se entendem coisas espirituais, a saber, coisas tais que são do céu e da igreja, pois estas são espirituais. Por ‘edificar casas e habitar’ é significado encher os interiores da mente de bens do céu e da igreja e desse modo fruir a vida celeste; as ‘casas’ significam os interiores da mente, e ‘habitar’ significa a vida celeste daí. Por ‘plantar vinhas e comer de seu fruto’ é significado enriquecer-se com os veros espirituais e apropriar a si os bens daí; as ‘vinhas’ são os veros espirituais, os ‘frutos’ são os bens daí e ‘comer’ é receber, perceber e apropriar a si, pois todo bem é apropriado ao homem pelos veros, a saber, por uma vida segundo eles. Pelo que foi dito é agora evidente o que é significado por ‘não edificarão para que outro habite, nem plantarão para que outro coma’; ‘outro’ significa o falso e o mal que destrói o vero e o bem, pois quando os veros e bens perecem no homem, os falsos e males entram. Em Jeremias:
“Edificai casas e habitais, e plantai jardins e comei de seu fruto” (Jr. 29:5, 28), palavras que devem ser entendidas como as que foram agora explicadas.
[13] Em Moisés:
Haveria na terra cidades grandes e boas que eles não tinham edificado, casas cheias de todo bem as quais eles não tinham enchido, cisternas cavadas que eles não tinham cavado, vinhas e olivais que eles não tinham plantando; comeriam até se saciarem (Dt. 6:10, 11).
O homem natural não entende essas palavras de outro modo senão segundo o sentido da letra, mas, se não houvesse um sentido espiritual em cada uma das coisas, a Palavra seria meramente natural e não espiritual, e assim acreditar-se-ia que somente a opulência e a abundância mundana são prometidas aos que vivem segundo os preceitos Divinos. Mas, o que seria do homem se ele ganhasse todo o mundo e perdesse a sua alma? Isto é, o que seria do homem se lhe fossem dadas casas cheias de todo bem, como cisternas, e se lhe dessem vinhas e olivais, e deles comesse até se saciar? Mas essas riquezas enumeradas são riquezas mundanas pelas quais se entendem as riquezas espirituais, pelas quais o homem tem a vida eterna. Pelas ‘cidades grandes e boas’ que haveria são significados os doutrinais oriundos dos genuínos bens e veros, e pelas ‘casas cheias de todo bem’ são significados os interiores da mente, cheios de amor e sabedoria; pelas ‘cisternas cavadas’ são significados os interiores da mente naturais cheios de cognições do bem e do vero; pelas ‘vinhas’ e pelos ‘olivais’ são significadas todas as coisas da igreja, tanto os seus veros quanto os seus bens ( a ‘vinha’ é a igreja quanto ao vero, e o ‘olival’ é a igreja quanto ao bem, pois o ‘vinho’ significa o vero, e o ‘azeite’ o bem); ‘comer até se saciar’ significa a recepção, a percepção e a apropriação plena.
[14] Em Isaías:
Deleitar-te-ás em Jehovah, “e te farei cavalgar sobre as alturas da terra, e te alimentarei com a herança de Jacob” (Is. 58:14);
por ‘fazer cavalgar sobre as alturas da terra’ é significado dar entendimento das verdades superiores ou interiores a respeito das coisas da igreja e do céu, e por ‘alimentar com a herança de Jacob’ é significado conceder todas as coisas do céu e da igreja; pela ‘herança de Jacob’ se entende a terra de Canaan, e por essa terra é significada a igreja e, no sentido superior, o céu.
[15] Visto que ‘comer’ significa apropriar a si, pode-se ver o que é significado por
“Comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso” (Ap. 2:7),
a saber, é apropriar a si a vida celeste. E, também, o que é significado por
“comer da árvore da ciência”, em Gênesis:
“Ordenou Jehovah Deus ao homem, dizendo: De toda árvore do jardim comendo comereis, mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás, porque no dia em que comeres dela morrendo [vós] morrereis” (Gn. 2:16, 17);
pela ‘árvore da ciência do bem e do mal’ é significada a ciência das coisas naturais, pelas quais não é permitido entrar nas coisas celestes e espirituais, que são do céu e da igreja, por conseguinte, do homem natural no espiritual, via essa que é inversa e, assim, não conduz à sabedoria, mas a destrói. Por ‘Adão e sua esposa’ se entende a Igreja Antiquíssima, que foi uma igreja celeste. Como os homens dessa igreja estiveram no amor ao Senhor, ele tiveram os Divinos veros inscritos em si, e, assim, por um influxo conheceram as coisas correspondentes no homem natural, as quais se chamam conhecimentos. Em suma, havia neles o influxo espiritual, assim, da mente espiritual na natural, e, daí, nas coisas que há ali, cuja qualidade eles viram como num espelho, pela correspondência.
[16] As coisas espirituais neles eram inteiramente distintas das naturais; as espirituais residiam em sua mente espiritual, e as naturais em sua mente natural, e assim não imergiam espiritual algum na mente natural, como costumam fazer os homens espirituais naturais. Por esse motivo, se eles confiassem as coisas espirituais à memória natural, e desse modo as apropriassem a si, pereceria o ínsito que havia neles, e pelo homem natural começariam a raciocinar sobre as coisas espiritual e daí tirariam conclusões a respeito deles, o que nunca fazem. Isto seria, também, querer saber pela própria inteligência e não pelos Divinos, como antes, e por aí extinguiriam toda a sua vida celeste, e conceberiam ideias naturais também a respeito das coisas espirituais. É isto, pois, que é significado por ‘não comeriam da árvore da ciência do bem e do mal’, e, se comessem, ‘morrendo morreriam’. A mesma coisa que houve em relação aos antiquíssimos, que se entendem por ‘Adão’, há também com os que estão no reino celeste do Senhor. Se eles imbuírem o homem natural e sua memória de cognições do vero e do bem espirituais, e por estas quiserem ser sábios, tornam-se estúpidos, quando, todavia, são os mais sábios de todos no céu. (Mas, a respeito disso, muitas coisas se veem na obra O Céu e o Inferno, n. 20-28, onde se tratou dos dois reinos, celeste e espiritual, em que o céu em geral foi distinto).
[17] Em David:
“Quem comeu o Meu pão levantou contra Mim o seu calcanhar” (Sl. 41:9).
Essas palavras foram ditas a respeito dos judeus, com os quais havia os Divinos veros, porque tinham a Palavra, como se pode ver em João (13:18), onde essas palavras foram aplicadas aos judeus. Por isso, por ‘comer o pão’ do Senhor é significada a apropriação do Divino Vero, aí, a sua comunicação, porque est não lhes pôde ser apropriado. O ‘pão’ significa a Palavra, da qual vem a nutrição espiritual; ‘levantar contra Ele o calcanhar’ significa perverter o sentido da letra da Palavra até a negação do Senhor e a falsificação de todo vero, pois o Divino Vero se apresenta em imagem como um Homem, donde o céu em todo o conjunto é chamado Máximo Homem’ e corresponde a todas coisas do homem, pois o céu foi formado segundo o Divino Vero procedente do Senhor. E como a Palavra é o Divino Vero, por isso este, também diante do Senhor, está numa imagem como o Divino Homem, pelo que o seu sentido último, que é o sentido meramente da letra, corresponde ao calcanhar. A perversão da Palavra ou do Divino Vero pela aplicação do sentido da letra a falsidades, tais como foram as tradições dos judeus, é significada por ‘levantar contra o Senhor o calcanhar’. Que todo o céu seja em imagem como um Homem e que, daí, corresponda a todas as coisas do homem, e que o céu seja assim por ter sido criado e formado pelo Senhor por meio do Divino Vero procedente d’Ele, que é a Palavra pela qual todas as coisas foram feitas (Jo. 1:1-3), vê-se na obra O Céu e o Inferno (n. 59-102 e, também, n. 200-212).
[18] Em Lucas:
“Começarão a dizer: Comemos diante de Ti, e bebemos diante de Ti, e em nossas ruas ensinastes. Mas dirá: Não sei de vós onde sois; apartai-vos... obreiros de iniquidade” (Lc. 13:26, 27);
que diriam assim, quando se apresentassem ao juízo, que tinham ‘comido’ e ‘bebido’ diante do Senhor, significa que tinham lido a Palavra e haurido daí as cognições do bem e do vero, achando que por isso seriam salvos, pelo que se segue: ‘em nossas ruas ensinaste’, que significa que tinham sido instruídos nos veros da Palavra, assim, pelo Senhor. Mas, que ler a Palavra e ser instruído por ela nada faça para a salvação, a menos que se viva segundo ela, é o que significa a resposta que dirá: ‘Não sei de onde vós sois; apartai-vos de Mim, obreiros de iniquidade’, pois nada faz para a salvação enriquecer a memória com a Palavra e com os doutrinais da igreja, se essas coisas não forem aplicadas à vida.
[19] Em Mateus:
Disse o Rei aos da direita: “Tive fome, e destes-Me de comer; tive sede, e destes-Me de beber”. E, aos da esquerda: “Tive fome e não Me destes de comer, tive sede e não Me destes de beber” (Mt. 25:34, 35, 41, 42).
Por essas palavras também são significadas a fome e a sede espirituais, como também a comida e a bebida espiritual. A fome e a sede espirituais são a afeição e o desejo pelo bem e o vero, e a comida e a bebida espirituais são a instrução, a recepção e a apropriação. Aí se diz a respeito do Senhor que Ele tem fome e sede porque pelo Divino Amor deseja a salvação de todos; e, respeito do homem, que Lhe tenha dado de comer e beber, o que se faz quando pela afeição do Senhor recebem e percebem o bem e o vero , e pela vida os apropriam a si. O mesmo se diz a respeito do homem que de coração ama instruir outro homem e quer a sua salvação. É, pois, a caridade, ou a afeição do vero espiritual, que também é descrita por essas e as demais palavras.
[20] Pelo que foi dito pode-se ver o que é significado no sentido espiritual por comer o pão e beber o vinho na Santa Ceia, em Mt. 26:26 e Mc. 14:22, onde também é dito que ‘o pão é o Seu corpo’ e ‘o vinho, o sangue’. Que pelo ‘pão’ seja significado o bem do amor e pelo ‘vinho’ o vero desse bem, que também é o vero da fé, e que o mesmo seja significado por ‘carne e sangue’, e também que pelo ato de ‘comer’ [manducationem] seja sida a apropriação e a conjunção com o Senhor, pode-se ver pelas coisas que foram ditas e mostradas na Doutrina da Nova Jerusalém (n. 210-222). Que tais coisas sejam significadas pelo ‘pão e o vinho’, e pelo ‘corpo e o sangue’, como também pelo ato de ‘comer’, pode-se ver ainda mais evidentemente pelas palavras do Senhor em João:
“Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram. Este é o Pão que desceu do céu;... se alguém comer deste pão, viverá no século; mas o pão que Eu darei é a Minha carne, a qual Eu darei para a vida do mundo. ... Amém vos digo, se não comerdes a carne do Filho do homem, e [não] beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no dia final. ... Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue permanece em Mim, e Eu nele. ... Este é o Pão que desceu do céu;... quem come deste pão viverá eternamente” (Jo. 6:49-58).
Que não se entenda aqui carne nem sangue, tampouco pão e vinho, mas o Divino procedente do Senhor, qualquer um que goze da faculdade de penar interiormente pode ver, pois é o Divino procedente, que é o Divino Bem e o Divino Vero, que dá a vida eterna e faz com que o Senhor esteja no homem e o homem permaneça no Senhor, visto que no homem o Senhor está em Seu Divino, e não no proprium do homem, porquanto este nada é senão o mal. O Senhor está no homem e o homem está no Senhor e quando o Divino procedente é apropriado ao homem por justa recepção. A apropriação mesma é significada pelo ato de comer’; o Divino Bem procedente, pela ‘carne’ e pelo ‘pão’; e o Divino Vero procedente pelo ‘sangue’ e pelo ‘vinho’. Dá-se de modo semelhante nos sacrifícios, nos quais a ‘carne’ e o ‘minchah’, que era o pão, significavam o bem do amor, e o ‘sangue’ e o ‘vinho’, que era a libação, significavam o vero desse bem, um e outros vindos do Senhor. Como a ‘carne’ e o ‘pão’ significam o Divino Bem procedente, e o ‘sangue’ e o ‘vinho’ o Divino Vero procedente, por isso pela ‘carne’ e pelo ‘pão’ entende-se o Senhor mesmo quanto ao Divino Bem, e pelo ‘sangue’ e pelo ‘vinho’ entende-se o Senhor mesmo quanto ao Divino Vero. Que por estas coisas se entenda o Senhor mesmo é porque o Divino procedente é o Senhor mesmo no céu e na igreja. Por isso o Senhor diz a Seu próprio respeito: ‘Este é o pão que desceu do céu’, e ‘quem come e bebe estes permanece em Mim e Eu nele”.
[21] Visto que o ‘pão’ significa o Senhor quanto ao Divino Bem, e ‘comê-lo’ significa apropriação e conjunção, por isso,
Quando o Senhor, após a morte, se manifestou diante dos discípulos, ao partir e lhes dar o pão, “seus olhos se abriram e eles O reconheceram” (Lc. 24:30, 31).
Por aí também é evidente que ‘comer o pão’ dado pelo Senhor significa a conjunção com Ele, pela qual foram iluminados e O reconheceram, porque os ‘olhos’ correspondem na Palavra ao entendimento e, daí, o significam, e aqui é o entendimento iluminado, assim, ‘os olhos se abriram’. Por ‘partir o pão’, na Palavra, é significado comunicar o seu bem a outrem.
[22] Que o Senhor tenha comido com publicanos e pecadores,
Pelo que os judeus murmuravam e se escandalizavam (Mc. 2:15, 16; Lc. 5:29, 32; 7:33-35),
foi porque os gentios, que se entendem por ‘publicanos e pecadores’, receberam o Senhor, hauriram os Seus preceitos e viveram segundo eles, pelo que o Senhor lhes apropriou os bens do céu, o que é significado no sentido espiritual por ‘comer com eles’.
[23] Visto que ‘comer’ significava apropriar a si, por isso foi concedido aos filhos de Israel comer das coisas sacrificadas, ou dos sacrifícios, porque pelos ‘sacrifícios’ eram significadas as coisas Divinas celestes e espirituais, e por ‘comer’ deles era significada a sua apropriação. E como a apropriação das coisas santas era significada pelo ato de comê-las, por isso muitas leis foram estabelecidas a respeito de como onde comeriam, e de que sacrifícios. Assim,
Que Aarão e seus filhos tomasse e comessem dos sacrifícios (Êx.. 29:31-33; Lv. 6:16-18; 7:6, 7; 8:31-33; 10:13-15);
Que eles comessem os pães da proposição no lugar santo (Lv. 24:5-9);
Que a filha do sacerdote que fosse casada com estrangeiro não comesse das coisas sacrificadas, mas a filha do sacerdote que fosse viúva ou repudiada, que não tivesse filhos, retornando à casa do pai, comesse (Lv. 22:12, 13);
Quem do povo comeria (Nm. 18:10, 11, 13, 19);
Que o estrangeiro, o inquilino e o sacerdote contratado não comessem delas, mas o que tivesse sido comprado com prata comesse (Lv. 22:10-12;
Que o imundo não comesse (Lv. 7:19-21; 21:16 ao fim; 22:2-8);
Que nada comessem dos holocaustos, mas comessem dos sacrifícios eucarísticos e se alegrassem diante de Jehovah (Dt. 12:27; 27:7).
Neste e em muitos outros estatutos e leis a respeito do ato de comer das coisas sacrificadas estão contidos arcanos da apropriação do Divino Bem e do Divino Vero, e, assim, da conjunção com o Senhor. Mas aqui não é o lugar para se mostrar o que cada uma dessas coisas envolve; foram citadas somente para que se saiba que ‘comer’ significa a apropriar a si e ser conjungido. Por isso, também,
Quando os filhos de Israel foram conjuntos ao Senhor pelo sangue da aliança, e depois que Moisés leu o Livro da Lei diante deles, e logo depois eles viram o Deus de Israel, se diz que comeram e beberam (Êx. 24:6-11).
[24] Que ‘comer a carne e beber o sangue’ signifique a apropriação espiritual do bem e do vero pode-se ver em Ezequiel:
“Assim disse o Senhor Jehovah:... Ajuntai-vos dos arredores para o Meu sacrifícios que Eu sacrifico para vós, um grande sacrifício sobre os montes de Israel, para que comais a carne e bebais o sangue; a carne dos fortes comereis, e o sangue dos príncipes da terra bebereis;... e comereis gordura até vos saciardes, e bebereis o sangue até vos embriagardes, do Meu sacrifício que sacrifico para vós. Sobre a Minha Seres sereis saciados de cavalo e de carro, do forte e do varão de guerra;... assim porei Minha glória entre as nações” (Ez. 39:17-21).
Aí se trata da convocação de todos ao reino do Senhor e, em, particular, da instauração da igreja entre as nações, pois se diz: ‘Assim porei a Minha glória entre as nações. Por ‘comer a carne e beber o sangue’ entende-se apropriar a si o Divino Bem e o Divino Vero; a ‘carne’ significa o bem do amor, e o ‘sangue’ o vero desse bem; pelos ‘fortes’ ou bois são significadas as afeições do bem, pelos ‘príncipes da terra’ as afeições do vero; a plena fruição deles é significada por ‘comer gordura até se saciar e beber o sangue até se embriagar’; pela ‘gordura’ são significados os bens interiores, e pelo ‘sangue’ os veros interiores, que foram manifestos quando o Senhor veio ao mundo e que foram apropriados aos que O receberam.
[25] Antes de Seu advento ao mundo era proibido comer gordura e beber sangue, pelo fato de que os filhos de Israel estiveram somente nos externos. Eles eram homens naturais e sensuais, e não estavam absolutamente nos internos ou nas coisas espirituais. Por isso, se lhes fosse permitido comer gordura e sangue, pelos quais era significado apropriar a si os bens e veros interiores, eles os teriam profanado, pelo que ‘comer’ tais coisas significava a profanação. Coisas semelhantes são significadas por ‘saciar-se sobre a mesa’ do Senhor ‘de cavalo, de carro, de forte e do varão de guerra’; pelo ‘cavalo’ é significado o entendimento da Palavra, pelo ‘carro’ a doutrina da Palavra, pelo ‘forte e o varão de guerra’ o bem e o vero que combatem o mal e o falso e os destroem; pelos ‘montes de Israel’ sobre os quais comeriam, é significada a igreja espiritual, na qual o bem da caridade é essencial. Por aí é claramente evidente que ‘comer’ significa apropriar a si, e que por ‘carne’, ‘sangue’, ‘forte’, ‘príncipes da terra’, ‘cavalo’, ‘carro’ e ‘varão de guerra’ são significadas as coisas espirituais que são apropriadas e não coisas naturais, pois comê-las naturalmente seria um ato abominável e diabólico. Coisas semelhantes são significadas por
Comer as carnes dos reis, dos comandantes, dos cavalos e dos que montam neles, dos livres e dos servos (Ap. 19:18).
[26] Visto que a maioria das coisas na Palavra também tem um sentido oposto, assim, ‘comer’ e ‘beber’, nesse sentido, significam apropriar a si o mal e o falso e, assim, ser conjungido ao inferno, como se pode ver pelas seguintes passagens. Em Isaías:
“O Senhor Jehovih chamará naquele dia para o choro e para o pranto, e para a calvície e para vestir-se de cilício. Eis, alegria e regozijo: matar o boi e imolar o gado, comer a carne e beber o vinho. É para comer e beber, porque amanhã morreremos” (Is. 22:12, 13);
a devastação da igreja e a lamentação a respeito dela se descreve por ‘ser chamado naquele dia para o choro, o pranto, a calvície e o vestir-se de cilício’; a lamentação porque o vero pereceu é significada pelo ‘choro’, e porque o bem, pelo ‘pranto’; toda afeição do bem, pela ‘calvície’, e a afeição do vero pelo ‘cilício’; por ‘matar o boi e imolar o gado’ é significado extinguir o bem natural e o bem espiritual; por ‘comer carne e beber vinho’ é significado apropriar a si o mal e o falso; ‘carne’, aqui, significa o mal, ‘vinho’ o falso, e ‘comer e beber’ estes é apropriar a si.
[27] Em Ezequiel:
Foi dito ao profeta que comesse a comida por peso e com solicitude, e que bebesse água por medida e com espanto; e que comesse bolo de cevada feito com esterco; que assim os filhos de Israel comerão o seu pão imundo entre as nações onde serão dispersas, e lhes faltarão o pão e a água, e serão desemparados um varão e seu irmão, e definharão por causa da iniquidade (Ez. 4:10-17).
Por estas palavras no Profeta era representada a adulteração do Divino Vero ou da Palavra pela nação judaica. O ‘bolo de cevada feito com esterco’ significa essa adulteração; o ‘bolo de cavada’, o bem e vero natural, tal como é a Palavra no sentido da letra; o ‘esterco’, o mal infernal. Por isso se diz que ‘os filhos de Israel assim comerão o seu pão imundo’; ‘pão imundo’ significa o bem contaminado pelo mal, ou adulterado. Que ‘terão falta de pão e de água entre as nações onde serão dispersas’ significa que não terão mais o bem e o vero, por estarem nos males e falsos; as ‘nações’ significam os males e falsos; ‘ser disperso’ para lá é ser entregue a eles; pelo ‘varão e o irmão’, que serão desamparados, são significadas as fé e a caridade; ‘varão’ significa o vero da fé, ‘irmão’ o bem da caridade, e ser desamparado é plena extinção de um e outro. Como essas coisas são significadas por ‘comer pão e beber água’, por isso se diz que ‘definharão’ por causa da iniquidade; ‘definhar’ se diz da vida espiritual, quando perece.
[28] Como as ‘bestas’ significam afeições – algumas, afeições boas, e outras, afeições más – por isso foram instituídas leis para os filhos de Israel, com os quais a igreja era representativa, quanto a que bestas comeriam e que bestas não comeriam (Lv. 11:1 ao fim). Por essas leis era significado quais bestas representavam afeições boas seriam apropriadas, e quais representavam as más, que não seriam apropriadas, porquanto as afeições boas tornam o homem limpo, mas as más o tornam imundo. São significativas todas as coisas que há naquele capítulo em relação às bestas e aves e em relação aos seus cascos, pés e estômago, pelo que se distinguem as limpas das imundas.
[29] Em Isaías:
“Se ele caísse à direita, ainda teria fome; e se comesse à esquerda, eles não ficariam saciados; comerão, cada varão a carne de seu braço, Manassés a Efraim e Efraim a Manassés” (Is. 9:19-21).
Por estas palavras se descreve a extinção do bem pelo falso e do vero pelo mal. A extinção de todo bem e vero e vero, por mais que se buscassem, é significada por ‘se caísse à direita, ainda teria fome, e se comesse à esquerda, eles não ficariam saciados’; ‘cair’ e ‘comer’ tais coisas é buscá-las; ‘ter fome e não se saciar’ é não encontrar e, se encontrar, não poder, contudo, receber; ‘comerão, cada varão a carne de seu braço’ significa que o falso consumirá o bem, e o mal o vero, no homem natural; ‘Manassés a Efraim, e Efraim a Manassés’ significa que a vontade do mal consumirá o entendimento do vero, e o entendimento do falso consumirá a vontade do bem. (Essas coisas, porém, veem-se explicadas também acima, n. 386 e 600).
[30] A consumição de todo vero e bem é também significada
Pelo fato de comerem a carne dos filhos e filhas (Lv. 26:29),
e, também, por
“Os pais comerão os filhos... e os filhos comerão os pais” (Ez. 5:10);
os ‘pais’ significam os bens da igreja e, no sentido oposto, os seus males; os ‘filhos’ significam os veros da igreja e, no sentido oposto, os seus falsos; e as ‘filhas’ significam as afeições do vero e do bem e, no sentido oposto, as cobiças do falso e do mal; a mútua consumição e extinção desses é significada por ‘comê-los’. Por aí é evidente que essas palavras devem ser entendidas de outro modo que não segundo o sentido da letra.
[31] Em Mateus:
Na consumação do século será como antes do dilúvio: “comerão e beberão; contrairão casamento e dar-se-ão em núpcia” (Mt. 24:38; Lc. 17:26-28);
por ‘comer e beber’ e por ‘contrair casamento e dar-se em núpcia’ não se entende aqui comer e bem, nem contrair casamento e dar-se em núpcia, mas por ‘comer’ é significado apropriar a si o mal, por ‘beber’, apropriar a si o falso, por ‘contrair casamento e dar-se em núpcia’ é significado conjungir o falso ao mal e o mal ao falso, porque aí se trata do estado da igreja quando chega o juízo final, significado aqui pela ‘consumação do século’. Que então teriam fome e beberiam tanto o bem quanto o mal é evidente, porque nada há de mal em se comer e beber, e também porque assim faziam antes do dilúvio e nem por isso pereceram, mas por terem apropriado a si o mal e o falso e os conjungirem em si mesmos. São estas, pois, as coisas significadas por ‘comer e beber’ e por ‘contrair casamento e dar-se em núpcia’.
[32] Em Lucas:
O rico disse à sua alma: “Alma, tens muitos bens armazenados para muitos anos; descansa, come e bebe” (Lc. 12:19);
no mesmo:
“Se o servo dissesse em seu coração: O senhor demora a vir, e começar a espancar os servos... a comer, beber e se embriagar...” (Lc. 12:45);
e também pela ‘glutonaria’ e pela ‘embriaguez’, no mesmo:
Jesus disse: “Acautelai-vos, para que não pesem os vossos corações com glutonaria e embriaguez” (Lc. 21:34).
Parece que por ‘comer e beber’ e pela ‘glutonaria’ nessas duas passagens se entendem a luxúria e a intemperança, como têm os que se entregam somente ao apetite; este é, de fato, o sentido natural literal dessas palavras. Mas o sentido espiritual delas é apropriar-se o mal e o falso, como se pode ver pelas passagens citadas acima, onde ‘comer’ e ‘beber’ significam isto, e pelo fato de que a Palavra na letra é natural, mas interiormente é espiritual; esta é para os anjos e aquela é para os homens.
[33] Além dessas passagens da Palavra, muitas outras também podem ser citadas para atestar e confirmar que ‘comer’ significa receber, perceber e apropriar a si coisas tais de que alma se nutre, pois ‘comer’ espiritualmente não é outra coisa senão imbuir a mente de seu alimento, o que é querer saber, entender e tornar-se sábio pelas coisas que são da vida eterna. Que ‘comer’ signifique isto pode-se ver também pela significação de ‘pão’ e de ‘comida’, como também pela significação de ‘fome’ e ‘ter fome’, e de ‘vinho’ e ‘água’, de que se tratou acima em seus lugares. Visto que ‘comer’ significa perceber a qualidade, e isto se percebe pelo ‘sabor’, daí vem que, pela correspondência, nas linguagens humanas, ‘sabor’ e ‘saborear’ também se atribui à percepção da coisa, donde também se diz ‘sabedoria’.

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