AE 618

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E amargará o teu ventre”. Que isto signifique que interiormente haveria desprazer, porque foi adulterada exteriormente, vê-se pela significação de ‘amargar-se’ ou ‘amargor’, que é o desprazer oriundo do vero adulterado (de que se tratará abaixo), e pela significação de ‘ventre’, que é interiormente. Que ‘ventre’ seja interiormente é porque após isto se segue que ‘na boca fosse doce como mel’, e pela ‘boca’ se entende exteriormente, pois o que se toma na boca, é comido [mastigado???} e enviado ao ventre vai do exterior ao interior, pois entra nas vísceras do homem. Mas, a respeito da significação de ‘ventre’, dir-se-á na sequência. Que o ‘amargo’ e o ‘amargor’ signifiquem o desprazer pela adulteração do vero, e que, assim, ‘amargar’ signifique tornar-se desprazer, é porque o doce se torna amargo e, daí, um desprazer, pela mistura com algo ruim. Daí vem o amargor do absinto, do fel e da mirra. Ora, como o ‘doce’ significa o prazer pelo bem do vero e o vero do bem, assim ‘amargo’ significa o desprazer pelo vero adulterado. O desprazer ou amargor daí não é sentido por homem algum no mundo natural, mas pelo espírito e pelo anjo no mundo espiritual, pois todo bem do vero adulterado, quando se muda em sabor para eles, é sentido como amargor, porque os espíritos e anjos têm paladar, igualmente aos homens. Mas o paladar dos espíritos e dos anjos procede de origem espiritual, mas o dos homens de origem natural. O gosto amargo para os espíritos vem do vero do bem adulterado, mas o gosto amargo para os homens vem da mistura do doce com algo ruim. João sentiu o gosto amargo também por uma origem espiritual, pois estava em espírito; de outro modo não teria podido comer o livrinho. Por vero adulterado é significado o vero do bem aplicado ao mal e misturado ao seu falso, o que acontece quando os veros do sentido da letra da Palavra são aplicados a amores impuros e, assim, misturados aos males. Esse desprazer é o que é significado aqui pelo ‘amargor do ventre’.
[2] Dir-se-á também, em poucas palavras, o que é significado pelos interiores na Palavra, isto é, pelos interiores da Palavra. Os interiores da Palavra são as coisas contidas em seu sentido interno ou espiritual. Esses veros são os veros genuínos. Eles correspondem aos veros exteriores da Palavra, que são os do seu sentido externo ou natural, que se chama sentido da letra e literal. Quando os exteriores da Palavra, ou os veros da Palavra no sentido da letra e literal, são falsificados e adulterados, então os veros interiores da Palavra são falsificados e adulterados. Por esse motivo, quando o homem aplica a Palavra no sentido da letra aos amores dos amores terrestres, então ela se torna desprazer para os anjos, que estão no sentido interno ou espiritual da Palavra, e esse desprazer é como o desprazer do amargo. Por aí se pode ver que ‘o livrinho amargará’ e que ‘margou o ventre’ é significado que a Palavra era interiormente um desprazer. Mas esse desprazer, de agora se trata, é um desprazer espiritual, e o desprazer espiritual natural, que também aqui se entende por esse ‘amargor’, é que o vero da doutrina, que é o vero da doutrina interiormente coligido do sentido da letra da Palavra e chamado seu sentido literal, é um desprazer para aqueles que estão nos falsos do mal. Com efeito, trata-se do entendimento da Palavra pelo homens da igreja em seu fim, quando a maioria está nos falsos do mal, e os falsos do mal confirmados pelo sentido da letra da Palavra são prazerosos para eles, mas os feros confirmados pelo sentido literal da Palavra lhes são um desprazer. Isto também é significado por ‘o livrinho ter amargado o ventre’ e ‘na boca ter sido doce como mel’.
[3] Que ‘amargo’ signifique o vero do bem adulterado, pode-se ver também pela Palavra, onde se nomeia o ‘amargo’, como nas passagens que se seguem. Em Isaías:
“Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; os que põem as trevas por luz, e a luz por trevas; os que põem o amargo por doce, e doce por amargo!.... ai dos valentes para beber vinho, e varões de força para misturar a bebida forte!” (Is. 5:20, 22).
É evidente que o bem e vero adulterado é significado aqui pelo ‘amargo’, pois se diz: ‘Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; os que põem as trevas por luz, e a luz por trevas’, pelo que é significada a adulteração do bem e a falsificação do vero, pois o bem é adulterado quando ‘ao bem se chama mal’, e o vero é falsificado quando ‘põem-se a trevas por luz, a luz por trevas’; ‘trevas’ são os falsos, e ‘luz’ são os veros. Por estas explicações é evidente que as mesmas coisas são significadas por ‘por o amargo por doce, e o doce por amargo’. O mesmo é também significado por ‘Ai dos que são valentes para beber vinho, e varões de força para misturar a bebida forte’; pelos ‘valentes para misturar o vinho’ são significados os que adulteram o vero da Palavra, e pelos ‘varões de força para misturar a bebida forte’ são significados os que o falsificam; ‘vinho’ e ‘bebida forte’ são os veros da Palavra, e ‘valentes’ e ‘varões de força’ significam os que excedem em engenhosidade e sagacidade para adulterá-los.
[4] No mesmo:
“Chora o mosto, enfraquece a videira, gemem todos os alegres de coração... quando com cântico não bebem vinho; amarga será a bebida forte para os que a bebem” (Is. 24:7, 9);
pelo ‘mosto’ que chorará, e pela ‘videira’, que enfraquecerá, é significado o vero da Palavra e da igreja, que pereceu; ‘mosto’ significa o vero da Palavra, e ‘videira’ o vero da doutrina da igreja; ‘gemem todos os alegres de coração, e quando com cântico não bebem vinho’ significa que pereceu a bem-aventurança interna da mente e a felicidade de coração porque pereceu o vero do bem espiritual; ‘amarga será a bebida forte para os que a bebem’ significa o vero do bem, desagradável por causa de sua falsificação e adulteração.
[5] Em Moisés:
Que as águas em Marah, que não puderam ser bebidas por causa do amargor, foram curadas pela madeira lançada nelas (Êx. 15:23-25);
‘as águas em Marah, que não puderam ser bebidas por causa do amargor’ representavam os veros adulterados, pois as ‘águas’ significam os veros, e o ‘amargor’ a adulteração; a cura delas pela ‘madeira lançada’ representava o bem do amor e da vida, que dissipa os falsos, abre o vero e, assim, o restitui. Com efeito, todo vero é adulterado pelo mal do amor e da vida, por isso é aberto e restituído pelo bem do amor e da vida, pelo fato de que todo vero pertence ao bem, e o bem do amor é como o fogo pelo qual o vero aparece na luz.
[6] Algo semelhante é significado pelo
Caldo, no qual os filhos dos profetas puseram coloquíntidas ou uvas agrestes amargas, que Eliseu curou pondo farinha (2 Re. 4:38-41);
Pelo ‘caldo, no qual puderam coloquíntidas amargas’ é significada a Palavra falsificada, e pela ‘farinha’ adicionada, pela qual foi curado, é significado o vero do bem, pois é o vero do bem que dissipa os falsos de que vem a falsificação.
[7] Como os filhos de Jacob pervertiam todos os veros da Palavra e os falsificavam e adulteravam pela aplicação a si mesmos e aos amores terrestres, por isso se diz deles no cântico de Moisés:
Que da videira de Sodoma era a vide deles, e do campo de Gomorra; e que a uva deles era uva de fel, e tinham cachos de amargor (Dt. 32:32);
pela ‘videira’ é significada a igreja quanto ao vero, por conseguinte, também o vero da igreja; e pelas ‘uvas’ são significados os bens daí, que são os bens da caridade; e pelos ‘cachos’ os bens da fé. Daí é evidente que pelos ‘cachos de amargor’ são significados os bens da fé adulterados.
[8] No mesmo:
Que fossem dadas águas amaldiçoadas à esposa acusada de adultério pelo marido; se ela fosse culpada, aquelas águas seriam para ela por amargor, e inchar-se-ia o ventre e a coxa sucumbiria (Nm. 5:12-29).
Pelo casamento do varão com a esposa é significada a conjunção do vero e do bem, porquanto o amor verdadeiramente conjugal descende desse casamento espiritual. Assim, pelo ‘adultério’ é significada a conjunção do falso e do mal; por isso é que, ‘se fosse culpada, as águas se tornariam amargor’, pelo que é significada a adulteração do bem. E como o ‘ventre’ significava o amor conjugal, do mesmo modo que o ‘útero’ e também a ‘coxa’, daí era que o ‘ventre inchar-se-ia e a coxa sucumbiria’, pelo que é significado, no sentido espiritual, que pereceu o conjugal, ou o amor conjugal mesmo, espiritual e natural; o ‘útero’ ou ‘ventre’ significa esse amor espiritual, e a ‘coxa’ significa o mesmo amor, natural. Por aí se pode ver que pelo ‘amargo’ e pelo ‘amargor’, em geral, é significada a falsificação e a adulteração do vero e do bem, e que as várias espécies deles são significadas por ‘fel’, ‘absinto’, ‘mirra’, ‘uvas silvestres’, ‘coloquíntidas’ e muitas outras.

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