. [Vers. 1] “E foi-me dada uma cana como um cajado”. Que isto signifique o modo da visitação, isto é, do exame da qualidade da igreja quanto ao vero e quanto ao bem, vê-se pela significação de ‘cana’, que é aquilo pelo qual se examina a qualidade; por ‘medir’ é também significado examinar, e pela ‘medida’ a qualidade de uma coisa; assim, pela ‘cana’, com a qual foram medidos o templo e o altar, como se segue, ou pela ‘cana de medida’, é significado o modo de se examinar quanto à qualidade. Que isto seja o modo de examinar qual é a igreja quanto ao vero e quanto ao bem é porque se segue que ‘foram medidos o templo, o altar e os que adoram nele’, pelo que é significada a igreja quanto ao vero e quanto ao bem e, assim, quanto ao culto.
[2] Que a ‘cana’ signifique também a visitação é porque a visitação é o exame dos homens da igreja quanto à qualidade, e porque a visitação precede o juízo final, de que se trata a seguir. Qual é essa visitação ou exame pode-se ver pela visitação em Sodoma, à qual foram enviados primeiramente dois anjos, e por eles se fez a visitação ou o exame do que eles eram quanto à recepção do Divino Vero e do Divino Bem, pois aqueles anjos representavam o Senhor quanto ao Divino procedente. E depois que foi examinado que todos em Sodoma, além de Loth, não queriam recebe-los, mas causar-lhes dado, então veio a sua destruição, pela qual se entende o juízo final deles.
[3] Que tenha sido uma cana com que a cidade foi medida é porque pela ‘cana’ [calamum] ou ‘caniço’ [cannam] é significado o Divino Vero no último da ordem, e pelo ‘cajado’, ao qual a cana era semelhante, é significado o poder. E pelo vero no último da ordem e seu poder se faz toda visitação ou exame, pois todos os veros, desde os primeiros, formam o simultâneo, ou, coexistem, no último. Por causa disso, todas as coisas que se fazem pelo Divino, fazem-se dos primeiros pelos últimos; aqui, pois, a visitação ou o exame, em que o vero é significado pela ‘cana’ ou pelo ‘caniço’.
[4] Dá-se semelhantemente nas seguintes passagens no Apocalipse:
Que um dos sete anjos tinha uma cana de ouro com que era medida a cidade Jerusalém, e suas portas e seu muro; e que a cidade mediu doze mil estádios (Ap. 21:15, 16);
e, em Ezequiel:
Que na mão do anjo havia um fio de linho de uma cana de medida, e a cana era de seis braças, e que com ela foram medidos o comprimento, a largura e a altura do edifício, da porta, do pórtico, do átrio, do templo e várias outras (Ez. 40:3, 5, 6, 8, 11, 13, 17, e seq.; 41:1-5, 13, 14, 22; 42 ao fim).
Que pela ‘cana de medida’ aqui se entenda o modo de se examinar a igreja quanto ao vero e quanto ao bem pode-se ver pelo fato de que o anjo mediu cada coisa do tempo quanto ao comprimento, à largura e à altura, e pelo ‘comprimento’ é significado o bem, pela ‘largura’ o vero e pela ‘altura’ o grau de bem e de vero desde os supremos ou íntimos até os ínfimos ou últimos. (Que o ‘comprimento’ e a ‘largura’ signifiquem isso vê-se na obra O Céu e o Inferno, n. 197). Que a ‘cana’ signifique o vero nos últimos, pelo qual se fazem os exames, é evidente também pelo fato de na mão do anjo haver um fio de linho, e pelo ‘fio de linho’ é significado o vero; e também pelo fato de a cana ser de ‘seis braças’, e por ‘seis’ são significadas coisas semelhantes às que são significadas por ‘três’, a saber, os veros em todo complexo (vide acima, n. 384 e 532). Que ‘medir’ signifique examinar a qualidade de uma coisa ver-se-á no artigo seguinte.
[5] Pelo vero último, ou o vero no último da ordem, entende-se o vero sensual, como é o vero no sentido da letra da Palavra para aqueles que são meramente sensuais. O Divino Vero, na descida, procede segundo os graus, do supremo ou íntimo até o ínfimo ou último. O Divino vero no grau supremo é como é o Divino que procede de mais perto do Senhor, assim, como é o Divino Vero acima dos céus; este, por ser infinito, não pode vir à percepção de anjo algum. Mas o Divino Vero do primeiro grau é o que pode chegar à percepção dos anjos do céu íntimo ou terceiro, e é chamado Divino Vero celeste; deste vem a sabedoria daqueles anjos. O Divino Vero do segundo grau é o que chega à percepção dos anjos do céu médio ou segundo e faz a sabedoria e a inteligência deles, e é chamado Divino Vero espiritual. O Divino Vero do terceiro grau é o que chega à percepção dos anjos do céu mais externo ou primeiro, e faz a inteligência e o conhecimento deles, e é chamado Divino Vero celeste e espiritual natural. Mas o Divino Vero do quarto grau é o que chega à percepção dos homens da igreja que vivem no mundo, e faz a inteligência e o conhecimento deles; este é chamado Divino Vero natural. O seu último é chamado Divino Vero sensual.
[6] Esses Divinos Veros estão em ordem na Palavra segundo os seus graus, e o Divino Vero no último grau, ou no último da ordem, é como é o Divino Vero no sentido da Letra da Palavra para as crianças e para os mais simples, que são sensuais. Este Divino Vero é o que é significado pela ‘cana’ ou pelo ‘caniço’. E visto que os exames de todos se fazem por esse Divino Vero último, como foi dito acima, por isso as medições e as pesagens nas igrejas representativas se faziam por meio de canas ou caniços, pelos quais é significado esse Divino Vero. Que as medições tenham sido feitas por meio de canas, mostrou-se há pouco, acima; que por elas também se fizessem as medidas vê-se em Isaías:
“Pesam a prata com a cana” (Is. 46:6).
[7] Como a ‘cana’ significa o vero nos últimos, como é para os simples e para as crianças, que não são espirituais, mas naturais sensuais, por isso também se diz em Isaías:
“A cana esmagada, não a quebrará, e o pavio [linum] que fumega, não o extinguirá, e a verdade trará em juízo” (Is. 42:3);
aí se trata do Senhor, e por ‘a cana esmagada, não a quebrará' é significado que não fará dano ao Divino Vero sensual que por um tênue bem do amor começa a viver nos simples e nas crianças, nem o destruirá, pois o ‘pavio’ significa o vero, e ‘que fumega’ significa que vive por algum amor. E visto que um e outro, a saber, a ‘cana’ e o ‘pavio’ significam o vero, por isso também se diz do Senhor que ‘trará a verdade em juízo’, pelo que se entende que produzirá inteligência neles; o ‘juízo’ significa a inteligência.
[8] A ‘cana’ também significa o vero sensual, que é o último, como há nos homens naturais, mesmo os maus. No mesmo:
“O lugar árido se tornará um lago... grama em lugar de cana e junco” (Is. 35:7).
Estas coisas são a respeito da instauração da igreja pelo Senhor. E que então haverá inteligência pelo Divino Vero espiritual para aqueles que não tinham inteligência alguma antes é significado por ‘o lugar árido se tornará um lago’; e que então haverá conhecimento pelo Divino Vero natural para aqueles que antes tiveram somente o vero sensual é significado por ‘grama em lugar de cana e junco’; a ‘grama’ significa o conhecimento de origem espiritual, ou pelo qual o vero espiritual é confirmado, mas ‘ cana’ e o ‘junco’ significam o conhecimento de origem sensual, ou pelo qual as falácias do sentido são confirmadas. Esses conhecimentos, consideramos em si mesmos, é somente o ínfimo natural, que devem ser chamados materiais e corporais, nos quais há pouco ou nada de vida.
[9] No mesmo:
“Os ribeiros recuarão; diminuirão e secarão os rios do Egito; a cana e a ulva murcharão” (Is. 19:6).
Por estas palavras, no sentido espiritual, entende-se que toda inteligência do Divino Vero perecerá. ‘Os ribeiros recuarão’ significa que todas as coisas da inteligência espiritual esvair-se-ão; ‘diminuirão e secarão os rios do Egito’ significa que todas as coisas da inteligência natural perecerão; ‘a cana e a ulva murcharão’ significa que o vero último, que é chamado vero sensual, que é somente um conhecimento, desvanecerá; ‘ribeiros’ e ‘rios’ significam as coisas que são da inteligência; ‘Egito’ significa o natural; ‘cana e ulva’ significam o vero ou conhecimento sensual’; ‘recuar’, ‘diminuir’, ‘secar’ e ‘murchar’ significam perecer e desvanecer.
[10] No mesmo:
“Confias no cajado dessa cana esmagada, o Egito, no qual, quando um varão se inclina sobre ele, entra em sua mão, e a perfura; assim é o faraó, o rei do Egito, para todos os que confiam nele” (Is. 36:6);
pelo ‘Egito’ é significado o homem natural separado do espiritual, e o seu conhecimento, o qual, quando é separado da inteligência espiritual do homem, é tolo e aplicado para confirmar todo gênero de mal; por isso é um conhecimento falso, e aqui é chamado ‘cajado de cana esmagada’; a ‘cana’ é, como foi dito, o vero no último da ordem, que é o conhecimento sensual; ‘esmagado’ significa fraturado e não coerente com vero algum interior que faz a consciência; o ‘cajado’ é o poder daí de perceber e também de raciocinar sobre os veros. Isto é, pois, o que se entende por ‘quando um varão se inclina sobre ele, entra na sua mão e a perfura’; ‘inclinar-se sobre o cajado’ significa confiar em seu próprio poder de perceber os veros e de raciocinar sobre eles por si próprio; ‘entrar na mão’ e ‘perfurá-la’ significa destruir todo o poder intelectual, e ver e tomar meros falsos em lugar de veros. ‘Assim é o faraó, o rei do Egito, para todos os que confiam nele’ significa que tal é o homem natural separado do espiritual quanto aos conhecimentos e, daí, a inteligência, e o raciocínio por estes.
[11] Em Jó:
“Caia do ombro a minha espádua, e meu braço daí seja quebrado por uma cana; porque sobre mim está o pavor da destruição de Deus, e por causa de Sua majestade nada posso. Porventura fiz do ouro minha esperança? E ao ouro puro eu disse: Certeza minha?” (Jó 31:22-24).
Aí também se trata da confiança da própria inteligência, e por essas palavras, no sentido espiritual, se descreve que por elas nada se vê do vero, mas meramente o falso, que não é coerente com vero algum. A não coerência é significada por ‘caia do ombro a minha espádua, e meu braço daí seja quebrado por uma cana’; ‘espádua’, ‘ombro’ e ‘braço’ significam o poder, aí, o poder de entender e de perceber o vero; ‘cair do ombro’ e ‘ser quebrado por uma cana’ significam ser separado do poder espiritual de perceber o vero e, daí, ser iludido pelo homem sensual corpóreo e perecer pelo falso; a ‘cana’ é o vero no último da ordem, que se chama conhecimento sensual, o qual se torna meramente falso quanto é somente do homem natural separado do espiritual; ‘pavor da destruição de Deus’ significa a perda do entendimento de todo vero; ‘por causa de Sua majestade nada posso’ significa que nada do entendimento e da percepção do vero vêm do proprium do homem, mas tudo vem de Deus; ‘fazer do ouro a esperança e dizer ao ouro puro: Certeza minha’ significa que não confiara em si mesmo, crendo que algum bem viesse de si.
[12] Em Ezequiel:
“Para que conheçam todos os habitantes do Egito que Eu sou Jehovah, porque eles têm sido um cajado de cana para a casa de Israel. Quando te tomaram na mão, quebraste, traspassaste-lhes todo ombro; e quando se inclinaram sobre ti, fraturaste, e os fizeste estar [sobre] todos os lombos” (???) (Ez. 29:6, 7);
Aqui se dizem do Egito coisas semelhantes às de cima, e pelo ‘Egito’, aqui também, é significado o homem natural separado do espiritual, e o seu conhecimento, que, aplicado aos males, é meramente o falso. Estas coisas foram ditas respeito dos que são da igreja, que confiam na própria na inteligência. Os ‘filhos de Israel’ significam aqueles que são da igreja; a confiança deles é significada pelo ‘cajado de cana’. Que daí tenha perecido para eles toda faculdade de perceber o vero é significado por ‘quando te tomaram na mão, quebraste, e traspassaste-lhes todo ombro’; o ‘ombro’ significa o poder ou a faculdade de entender o vero; a sua perda é significada por ‘quando se inclinaram sobre ti, fraturaste’. Que daí seja perdido e dissipado todo bem do amor e da caridade é significado por ‘fizeste-lhes estar [sobre] todos os lombos’; os ‘lombos’ significam o casamento do vero e do bem; aqui, pois, significa que não vero não conjunto ao bem. O vero conjunto ao bem faz o bem do amor e da caridade, porque todo bem do amor e da caridade é formado pelos veros.
[13] Em David:
“Repreende a fera da cana,” ou do caniço, “o ajuntamento dos fortes entre os novilhos dos povos; o que calca aos pés as lâminas de prata, dispersa os povos, deseja a guerra; venham os gordos do Egito; a Etiópia apressará suas mãos a Deus” (Sl. 68:30, 31).
Trata-se aí do reino do Senhor. Que se deva precaver contra o conhecimento falso, isto é, do conhecimento falsamente aplicado pelo homem natural separado do espiritual, entende-se por ‘repreende a fera da cana’, do caniço ou do vime . Visto que esses conhecimentos persuadem fortemente, por serem oriundos das falácias dos sentidos, são chamados ‘ajuntamento dos fortes’. Os ‘novilhos dos povos’ são os bens da igreja que estão no homem natural; ‘lâminas de prata’ são os veros da igreja; ‘calcar aos pés’ e ‘dispersar’ é perder dispersar, o que é feito por aqueles que são naturais e sensuais, e pensar natural e sensualmente e não espiritualmente ao mesmo tempo, assim, pelos que pensam pelo homem natural e sensual separado do espiritual; esse homem se entende pela ‘fera da cana’ ou ‘do vime’. ‘Desejar a guerra’ significa os raciocínios contra os veros; ‘gordos do Egito’ e ‘Etiópia’ são os que estão no conhecimento das coisas espiritais e os que estão nas cognições do vero e do bem, que se aproximam do reino do Senhor porque estão na luz oriunda do homem espiritual.
[14] No Primeiro Livro dos Reis:
“Jehovah ferirá Israel assim como a cana se inclina nas águas, e arrancará Israel de sobre a boa terra” (I Re. 14:15).
A devastação da igreja entre os filhos de Israel é comparada à inclinação da cana ou do vime nas águas, porque pela ‘cana’ ou vime é significado o vero do homem sensual, que é o último, e esse vero, quando separado da luz do homem espiritual, é o falso, pois o homem sensual haure todas as coisas das aparências no mundo; daí, os raciocínios por elas sobre as coisas espirituais são meras falácias, e das falácias vêm os falsos. (O que são as falácias dos sentidos nas coisas espirituais, e que daí elas sejam falsos, vê-se na Doutrina da Nova Jerusalém, n. 53, e também acima, na Explicação do Apocalipse, n. 575; e que os conhecimentos sensuais sejam meras falácias quando o homem sensual raciocina por eles, acima, n. 569 e 581; e, também, o que é o sensual e o que é o homem sensual, na Doutrina da Nova Jerusalém, n. 50).
[15] Nos Evangelhos:
Puseram uma cana na [mão] direita do Senhor, e depois tomaram uma cana e com ela feriram a Sua cabeça (Mt. 27:29, 30; Mc. 15:19);
Também, puseram uma esponja numa cana e deram-Lhe de beber vinagre (Mt. 27:48; Mc. 15:36).
Que não conhece o sentido espiritual da Palavra pode crer que estas e várias outras coisas que são relatadas a respeito da paixão do Senhor não envolvem mais do que modos comuns de zombaria, ou seja, que ‘puseram uma coroa de espinhos sobre Sua cabeça’, que ‘Suas vestes foram repartidas e não a túnica’, que ‘ajoelharam-se diante d’Ele’ com o fim de zombar, e também, aqui, que ‘puseram uma cana na Sua [mão] direita e, em seguida, com ela feriram a Sua cabeça’, como também ‘que encheram uma esponja de vinagre ou vinho com mirra e, pondo-a numa cana, deram-Lhe de beber’. Cumpre saber, porém, que todas as coisas que são relatadas a respeito da paixão do Senhor significam a zombaria ao Divino Vero e, por conseguinte, a falsificação e adulteração da Palavra, porque o Senhor, quando esteve no mundo, era o Divino Vero mesmo, que na igreja é a Palavra. E como o Senhor era o Divino Vero no mundo, Ele permitiu aos judeus que O tratassem exatamente como tratavam o Divino Vero ou a Palavra, por sua falsificação e adulteração, pois eles aplicaram todas as coisas da Palavra aos seus amores e escarneceram de todo vero que discordasse de seus amores, assim como fizeram ao Messias mesmo, porque Ele não Se tornou Rei sobre o mundo interior e não os elevou à glória sobre todos os povos e nações. (Que todas as coisas que são relatadas sobre a paixão do Senhor signifiquem tais coisas, vê-se acima, n. 64, 83 e 195). Que, todavia, ‘tenham posto uma cana na mão do Senhor e, depois, O tenham ferido com ela na Sua cabeça’ significava que tinham falsificado o Divino Vero ou a Palavra e que tinham zombado inteiramente do entendimento do vero e da Divina sabedoria. Pela ‘cana’ é significado o falso nos extremos (como acima), e por ‘ferir a cabeça’ é significado rejeitar o entendimento do vero e a Divina sabedoria e zombar deles. E visto que ‘deram de beber vinagre ao Senhor’, e o ‘vinagre’ significa o que é falsificado, por isso também puseram uma esponja cheia de vinagre numa ‘cana’, pelo que é significado o falso nos extremos, que é o falso que sustenta.
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