AE 650

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “Uma besta que sobe do abismo lhes fará guerra”. Que isto signifique o assalto pelo amor infernal vê-se pela significação de ‘besta’, que é a afeição do homem natural em ambos os sentidos (de que se tratará a seguir); pela significação de ‘abismo’, que é o inferno (de que se tratou acima, n. 538); e pela significação de ‘fazer guerra’, que é assaltar, pois pelas ‘guerras’ na Palavra não são significadas as guerras que há em nosso mundo, mas as que há no mundo espiritual, as quais são, todas, lutas pelos falsos do mal contra os veros do bem. Que tais ‘guerras’ sejam significadas na Palavra ver-se-á na sequência, onde as ‘guerras’ são novamente citadas. Por aí se pode ver que pela ‘besta que sobe do abismo fará guerra a eles’, a saber, às ‘testemunhas’ ´s significado que o amor infernal oriundo dos falsos do mal atacará os veros do bem.
[2] Antes de se mostrar que pela ‘besta’ é significado o amor ou a afeição do homem natural dir-se-á alguma coisa a respeito do ataque. O amor infernal é principalmente o amor de si, pois o amor de si é o amor do proprium do homem, e o proprium do homem não é outra coisa senão o mal. Por isso, quanto mais o homem estiver nesse amor, mais estará contra o Senhor e, daí, contra o bem do amor e da caridade, contra o vero da doutrina e da fé, portanto, contra as ‘duas testemunhas’. Daí que os infernos onde reina o amor de si são os inferno mais medonhos e mais malignos, e diametralmente contra o Senhor, e daí atacam continuamente os bens do amor e da fé, porque estes são provenientes do Senhor somente, e eles são o Senhor no homem e no anjo. Que esses infernos sejam mais medonhos do que os outros pode-se ver pelo fato de eles continuamente aspirarem a morte daqueles que confessam o Divino do Senhor, por conseguinte, a morte daqueles que estão no bem do amor e no bem da fé no Senhor pelo Senhor.
[3] Que esses infernos sejam mais malignos do que os outros é porque quanto mais o homem está no amor de si, e, ao mesmo tempo, no amor da própria inteligência, mais está no lume natural e numa espécie de esplendor, pois o amor de si é como um fogo que acende esse lume. Daí é que podem engenhosamente pensar e raciocinar contra o Divino e contra todas as coisas do céu e da igreja. Algumas vezes fiquei espantado quando ou vi esses tais, que acreditavam que podiam mais do que os outros serem trazidos à recepção da fé, mas percebi que isto era impossível, pois quanto mais estiveram na luz corpórea, mundana e natural, mais estiveram na escuridão nas coisas celestes e espirituais. Essa escuridão foi vista inteiramente negra misturada a algo ígneo. Eu poderia confirmar isto por muita experiência, se houvesse lugar para demonstrar as experiências. O amor de si é o que se entende aqui especialmente pela ‘besta que sobre do abismo’, que fez guerras às duas testemunhas e as matou.
[4] Que a ‘besta’ signifique o amor ou a afeição do homem natural em ambos os sentidos pode-se ver por muitas passagens na Palavra. E como até agora se ignorou e parece estranho que as ‘bestas’ signifiquem o amor ou a afeição do homem natural, é necessário que isto seja confirmado pela Palavra. Que as afeições naturais sejam significadas pelas ‘bestas’ é porque essas afeições são inteiramente semelhantes às afeições das bestas, e o homem que não é imbuído de afeições espirituais pelos bens e veros do céu pouco difere das bestas. Com efeito, mais do que as bestas, ao homem é acrescentada a faculdade de pensar espiritualmente e, daí, de quer, pela qual pode eminentemente ver e perceber coisas abstratas; e si essa faculdade espiritual não for vivificada pelas cognições do vero e do bem, e, daí, pela fé e pela vida da fé, ele não é melhor do que as bestas, exceto somente porque pode pensar e falar por essa faculdade superior.
[5] Visto que as afeições do homem natural são significadas pelas ‘bestas’, por isso essas afeições, quando se apresentam à vista no mundo espiritual em forma de animais semelhantes, aparecem inteiramente como as formas de várias bestas, como cordeiros, ovelhas, cabras, cabritos, bodes, bezerros, bois, vacas, e também como camelos, cavalos, mulas, asnos, e ainda como ursos, tigres, leopardos, leões, assim como cães e serpentes de vários gêneros. Mas elas são somente aparências das afeições que há no espírito, as quais, quando aparecem, também se sabe que não somente elas vêm dali, mas também de quem vêm. Porém, tão logo as afeições neles cessam, também essas aparências cessam. Por aí também se pode ver de onde procede que as ‘bestas’ sejam nomeadas tantas vezes na Palavra.
[6] Mas, passemos às confirmações. Em David:
“Fizeste-O dominar sobre as obras de tuas mãos; todas as coisas puseste sob os Seus pés, o rebanho e a manada, e também as bestas dos campos, a ave do céu e os peixes do mar” (Sl. 8:6-8).
Essas palavras são a respeito do Senhor, de Quem se trata em todo esse capítulo, e do Seu domínio sobre todas as coisas do céu e da igreja. As coisas que são do céu e da igreja se entendem em várias passagens na Palavra pelas ‘obras das mãos de Jehovah’, e como o Seu domínios é sobre elas, e as coisas espirituais na Palavra são expressas pelas coisas naturais – pois a Palavra em seu seio em espírito - daí, por ‘rebanho’, ‘manada’, ‘bestas dos campos’, ‘aves do céu’ e ‘peixes do mar’ não se entendem esses animais, mas as coisas espirituais que são do céu e da igreja. Por ‘rebanho’ e ‘manada’ são significadas as coisas espirituais e as naturais que são de origem espiritual; pelo ‘rebanho’, a saber, por ‘cordeiros’, ‘cabritos’, ‘cabras’, ‘ovelhas’ e ‘carneiros’, as coisas espirituais; e pela ‘manada’, que são os ‘bezerros’, ‘bois’, ‘vacas’ e ‘camelos’ as coisas naturais oriundas das espirituais. Pelas ‘bestas dos campos’ são significadas as afeições do homem natural; pelas ‘aves dos céus’ as cognições daí, e pelos ‘peixes do mar’ os conhecimentos naturais do homem sensual. De outra maneira, o que seria descrever o domínio do Senhor sobre elas?
[7] No mesmo:
“Fazes destilar uma chuva de benevolências, ó Deus; Tua herança... cansada confirmarás; Tua fera”, Tua assembleia, “habitarão nela” (Sl. 68:9, 10);
aí a ‘fera’ está claramente em lugar do povo que recebe o influxo do Divino Vero proveniente do Senhor, pois da ‘herança de Deus’, pela qual é significada a igreja, se diz ‘Tua fera’, Tua assembleia, ‘habitarão nela’; pela ‘chuva de benevolências’ é significado o influxo do Divino Vero proveniente da Divina clemência.
[8] No mesmo:
Jehovah, “Que envia fontes nos rios, vão entre os montes, dão de beber a toda fera; os jumentos selvagens matam a sua sede; junto a eles habita a ave dos céus, de entre os ramos proferem a voz. ... Que faz germinar a relva para a besta, e a erva para o serviço do homem, para tirar o pão da terra. ... Dispões as trevas para que se faça a noite, na qual sai toda fera da floresta;... mar grande e largo de espaço, no qual há o réptil inumerável, as feras pequenas com as grandes” (Sl. 104:10-12, 14, 20, 25).
Essas palavras também são a respeito do Senhor, e por elas é descrita a instauração da igreja entre os gentios. Por isso, pelas ‘feras’, ‘bestas’ e ‘aves’ são significadas coisas tais que são da igreja no homem.
[9] Cumpre saber que em muitas passagens ora se diz ‘besta’ e ora ‘fera’, e pela ‘fera’ não se entende a fera no sentido envolvido na ideia de feras, pois o termo ‘fera’ na língua hebraica é derivado do vocábulo que significa vida; assim, em algumas passagens, por ‘fera’ deve-se dizer, de preferência, animal. Isto também se pode ver pelo fato de que os ‘quatro animais’, nos quais os querubins foram vistos – pelos quais são significadas a providência e a proteção em Ezequiel (1:10) são chamados ‘feras’, do mesmo modo que em João, no Apocalipse, onde se trata dos ‘quatro animais ao redor do treno, pelos quais também se entendem os querubins. No entanto, na Palavra se faz adequada distinção entre ‘bestas’ e ‘feras’, e pelas ‘feras’ são significadas as afeições naturais do homem que são de sua vontade, e pelas ‘feras’ as afeições naturais do homem que são de seu entendimento. Visto que o termo ‘fera’ na língua hebraica é derivado do vocábulo que significa vida, por isso Eva, esposa de Adão, foi chamada por esse vocábulo. Isto é dado como premissa para que se saiba o que é significado pela ‘fera’ e o que é significado pela ‘besta’ no sentido próprio.
[10] O que é significado por ‘Jehovah envia fontes nos rios, vão entre os montes, dão de beber a toda fera do campo, os jumentos selvagens matam a sede, junto a eles habita a ave dos céus’, foi explicado acima (n. 483); que ‘Jehovah faz germinar a relva para a besta, e a erva para o serviço do homem, para tirar o pão da terra’ significa a instrução e a nutrição naturais e espirituais do homem pelos veros da Palavra, para que daí haja o bem do amor e da caridade; pela ‘relva’ é significado o vero do homem natural, que é o vero do conhecimento (vide acima, n. 507); pela ‘besta’ é significada a sua afeições, que quer ser instruída e nutrida espiritualmente; pela ‘erva’ é significado o vero espiritual do homem; pelo ‘homem’, a inteligência daí, e pelo ‘pão’ é significado o bem do amor e da caridade, que é nutrido pelos veros. Como pelas ‘trevas’ e pela ‘noite’ é significado o lume do homem natural, que é como noite relativamente à luz espiritual do homem, pela ‘fera da floresta’ a afeições dos conhecimentos, pelo ‘mar grande e largo de espaço’ o seu natural, pelo ‘réptil inumerável’ o conhecimento aí, e pelas ‘feras pequenas e grandes’ as várias afeições, é evidente o que é significado por ‘dispões as trevas para que se faça a noite, na qual sai toda fera da floresta; o mar grande e largo de espaço, no qual há o réptil inumerável, as feras pequenas com as grandes’.
[11] No mesmo:
“Semearão campos e plantarão vinhas, e darão o fruto do provento; e Ele os abençoará para que sejam muito multiplicados; e a besta deles não diminuirão, mas são diminuídos e curvados por causa da veemência da malícia e do desgosto” (Sl. 107:37-39).
Trata-se em todo esse capítulo do advento do Senhor e da redenção por Ele. Que então eles terão veros, pelos quais a igreja será implantada neles, é significado por ‘semearão campos e plantarão vinhas’; que assim eles terão os bens da igreja e daí os veros crescerão é significado por ‘darão o fruto do provento’ que ‘Jehovah os10 abençoará, para que sejam muito multiplicados’; que então hão de permanecer neles todas as boas afeições do homem natural é significado por ‘a besta deles não diminuirá’; que de outro modo essas afeições haviam de perecer pelos males é significado por ‘são diminuídos e curvados por causa da veemência da malícia e do desgosto’.
[12] No mesmo:
“Louvai a Jehovah... ó baleias e todos os abismos… a fera e toda besta, o réptil e” e toda “ave de asa” (Sl. 148:7, 10).
Nesse salmo são enumeradas muitíssimas no mundo que não têm vida, as quais louvarão a Jehovah, como o ‘fogo’, a ‘saraiva’, a ‘neve’, o ‘vapor’, o ‘vento de procela’, os ‘montes, as ‘colinas’, as ‘árvores’, os ‘frutos’, o ‘cedro’, como também, aqui, as ‘feras’, as ‘bestas’, os ‘répteis’ e as ‘aves’, que, todavia, não podem louvar a Jehovah. Quem não vê que a numeração de tais coisas na Palavra Divina seria supérflua, se cada uma delas não significasse algo que louva a Jehovah no homem, isto é, que pode prestar culto? Pela ciência das correspondências se sabe que as ‘baleias’ significam os conhecimentos do homem natural no geral, que os ‘abismos’ e os ‘mares’ significam o natural mesmo, onde os conhecimentos estão, que as ‘feras’ e as ‘bestas’ significam as afeições do homem natural, tanto as que são de seu entendimento quanto as que são de sua vontade, que os ‘répteis’ significam o sensual, que é o último do homem natural, e que as ‘aves de asa’ significam o cogitativo daí.
[13] No mesmo:
Jehovah, “Que prepara a chuva para a terra, Que faz germinar a relva para os montes, Que à besta a sua comida, os filhos do corvo que invocam” (Sl. 147:8, 9).
Cada uma destas coisas também significam coisas espirituais que pertencem ao céu e à igreja. O que seria para a Palavra - que ensina ao homem unicamente o caminho para o céu, que são os veros da fé e os bens do amor – dizer a respeito de Jehovah que Ele ‘prepara a chuva para a terra, faz germinar a relva para os montes, dá às bestas a comida e aos filhos do corvo que O invocam’? Estas coisas, porém, são dignas da Palavra Divina quando pela ‘chuva’ se entende o influxo do Divino Vero, pelos ‘montes’ o bem do amor, por ‘fazer germinar a relva’ a instrução do homem natural pelas cognições da Palavra, pelas ‘bestas’ as afeições do homem natural, que desejam ser daí nutridas. A nutrição é significada por ‘dar comida’. E como os ‘filhos do corvo’ significam os homens naturais, que estão num lume tenebroso pelas falácias a respeito dos veros Divinos, lume no qual estiveram muitos dos gentios, por isso se diz que ‘dá aos filhos do corvo que invocam’, pois e eles é concedido invocar a Jehovah, mas não aos filhos do corvo.
[14] No mesmo:
‘Minha é toda fera da floresta, as bestas em milhares de montes; conheço toda ave dos montes, e a fera dos Meus campos está comigo” (Sl. 50:10, 11).
Estas coisas foram ditas, de fato, a respeito dos sacrifícios, com os quais o Senhor não Se deleita, mas com a confissão de coração e a invocação. Contudo, pela ‘fera da floresta’, pelas ‘bestas nos montes’, pela ‘ave dos montes’ e pela ‘fera dos campos’ são significadas coisas semelhantes às de cima, a saber, as que estão no homem da igreja.
[15] No mesmo:
“Tua justiça é como os montes de Deus, os Teus juízos são grandes abismos; guardas o homem e a besta, ó Jehovah” (Sl. 36:6);
por ‘homem’ e ‘besta’ são significadas a afeição interior que é espiritual, da qual vem a inteligência, e a afeição exterior, que é natural, da qual vem o conhecimento correspondente à inteligência.
[16] Coisas semelhantes são significadas por ‘homem’ e besta’ nas seguintes passagens. Em Jeremias:
Disse o Deus de Israel: “Eu fiz a terra, o homem e a besta, que estão sobre as faces da terra, por Meu grande poder [virtutem]” (Jr. 27:5, 36:29);
no mesmo:
“Eis que dias virão... em que semearei a casa de Judah com semente de homem e semente de besta” (Jr. 31:27);
no mesmo:
“Ainda se ouvirá neste lugar, do qual dizeis: Ele foi devastado para que não haja homem e não haja besta, e nas cidades de Judah, e nas ruas devastadas de Jerusalém, para que não haja homem e não haja habitante, e não haja besta, voz de regozijo e voz de alegria” (Jr. 33:10-12);
no mesmo:
“Desolação haverá” em toda a terra, “para que não haja homem e besta” (Jr. 32:43);
no mesmo:
“Ferirei os habitantes desta cidade, e o homem e a besta; de grande peste morrerão” (Jr. 21:6);
no mesmo:
“Subiu contra” Babel “uma nação do setentrião; ela porá a sua terra em desolação, para que não haja nela habitante; desde o homem até a besta se dispersaram, foram-se” (Jr. 50:3);
no mesmo:
“Minha ira e Minha inflamação foi derramada11 sobre este lugar, sobre o homem e sobre a besta” (Jr. 7:20);
em Ezequiel:
“Quando a terra tiver pecado contra Mim... quebrar-lhe-ei o cajado do pão, e enviarei nela a fome, e cortarei dela o homem e a besta” (Ez. 14:13, 17, 19);
no mesmo:
“Estenderei Minha mão sobre Edom, e cortarei dela o homem e a besta” (Ez. 25:13);
no mesmo:
“Destruirei toda besta” do Egito “de sobre as muitas águas, para que não as turve mais o pé do homem, nem as turve o casco da besta” (Ez. 32:13);
no mesmo:
“Multiplicarei sobre vós o homem e a besta, para que cresçam e frutifiquem” (Ez. 36:11);
em Sofonias:
“Consumindo consumirei todas as coisas de sobre as faces da terra... consumirei o homem e a besta; consumirei a ave dos céu, e os peixes do mar, e os tropeços com os ímpios, e cortarei das faces da terra o homem” (Sf. 1:2, 3);
em Zacarias:
Disse o anjo que veio para medir Jerusalém: “Corre, fala... dizendo: Jerusalém habitará nos arredores mais do que a multidão de homens e de bestas no seu meio” (Zc. 2:3, 4);
no mesmo:
“Confortem-se as vossas mãos... porque o templo será edificado. Pois antes deste dia não houve preço de homem nem preço de besta, pois não houve do adversário paz para o que sai e para o que entra” (Zc. 8:9, 10).
[17] Nessas passagens, ‘homem’ significa o interior o espiritual e ‘besta’ o exterior ou natural; por conseguinte, ‘homem’ significa a afeição espiritual do vero, da qual vem toda inteligência, e ‘besta’ a afeição natural correspondente à espiritual. Que o exterior ou natural seja significado pela ‘besta’ é porque o homem, quanto ao homem externo ou natural, não é senão uma besta, pois desfruta de semelhantes cobiças e também de volúpias, apetites e sentidos, de modo que o homem, quanto a essas coisas, é semelhante à besta, pelo que o homem natural pode ser chamado de homem animal. Que, porém, o homem interno ou espiritual seja significado por ‘homem’ é porque quanto ao seu interno ou espiritual é um homem; este desfruta de afeições do bem e do vero tais as que há nos anjos do céu, e porque o homem, por meio destas coisas que há em si, governa o seu homem natural ou animal, que é uma besta.
[18] Visto que o homem espiritual e natural é significado por ‘homem’ e ‘besta’, por isso na história da criação (capítulo 1 de Gênesis) é relatado que no mesmo dia, a saber, o sexto, foram criadas as bestas e também o homem, e depois que ao homem foi dado o domínio sobre as bestas. a respeito da criação das bestas e do homem no mesmo dia, e a respeito do domínio do homem sobre as bestas, assim se lê em Gênesis:
Disse Deus: Produza a terra a alma vivente segundo a sua espécie, [a besta] e o que se move, e a fera da terra segundo a sua espécie; e assim se fez. E fez Deus a fera da terra segundo a sua espécie, e a besta segundo a sua espécie, e todo réptil do humo segundo a sua espécie... E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança; e dominarão sobre os peixes do mar, e sobre a ave dos céus e sobre a besta, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que rasteja sobre a terra. E houve tarde e manhã, o dia sexto” (Gn. 1:24-31);
pela criação ‘do céu e da terra’ nesse capítulo descreve-se, no sentido espiritual, a nova criação ou regeneração do homem da Igreja Antiquíssima; daí é que pela ‘besta’ aí é significado o homem externo ou natural, pelo ‘homem’ o interno ou espiritual, e pelo ‘domínio sobre as bestas’ aí entende-se o domínio do homem espiritual sobre o natural.
[19] Que tenha sido dado ao homem dessa igreja conhecer todas as afeições do homem natural, para que dominasse sobre elas, é significado por essas palavras em Gênesis:
“Formou Jehovah... do humo toda besta do campo, e toda ave dos céus, e os trouxe ao homem, para ver o que os chamaria. E tudo o que o homem chamava, a alma vivente, esse era o seu nome. E o homem chamava os nomes de toda besta e da ave dos céus, e de toda fera do campo” (Gn. 2:19, 20);
por ‘chamar o nome’, no sentido espiritual, é significado conhecer a qualidade da coisa, ou qual ela é; assim, aqui, quais eram todas as afeições, cobiças, volúpias, apetites, como também pensamentos e inclinações do homem natural, e de que maneira concordariam com as afeições e percepções do homem natural e as elas corresponderiam. Com efeito, por criação foi concedido ao homem espiritual ver todas as coisas naturais do homem e ao mesmo perceber a sua concordância e discordância com o espiritual, para que pudesse governa-lo, e admitir as concordantes e rejeitar as discordantes, tornando-se assim espiritual mesmo quanto aos efeitos, que se fazem por meio do homem natural. (Essas coisas, porém, veem-se mais amplamente explicadas nos Arcanos Celestes, n. 142-146).
[20] Visto que por ‘homem’ na Palavra é significado propriamente o homem interno ou espiritual, e por ‘besta’ o externo ou natural, por isso, por ordem de Deus, as bestas e as aves foram introduzidas com Noé na arca, a cujo respeito assim se lê em Gênesis:
“Disse Jehovah a Noé:... De toda besta limpa tomarás para ti sete [e] sete, macho e fêmea;”... e tomou “de toda besta limpa e da besta não limpa, e da ave, e de tudo o que rasteja sobre a terra; duas [e] duas entraram para Noé na arca, macho e fêmea” (Gn. 7:1-9);
pelo ‘dilúvio’ de Noé é descrito, no sentido espiritual, a destruição da Igreja Antiquíssima e também o juízo final sobre os homens daquela igreja, e por ‘Noé e seus filhos’, no mesmo sentido, entende-se e descreve-se a igreja sucedente, que deve ser chamada Igreja Antiga. Daí se segue que pelas ‘bestas’ introduzidas na arca com Noé entendem-se as afeições do homem natural correspondentes à afeição espiritual, as quais estiveram no homem daquela igreja. (Mas essas coisas também se veem explicadas nos Arcanos Celestes).
[21] Visto que por ‘homem’ é significado o homem interno espiritual, por ‘besta’ o externo ou natural, e por ‘Egito’ o homem natural separado do espiritual, que é inteiramente perdido e não se chama mais homem, mas besta, por isso onde se trata da saída do Egito se relata
Que Jehovah fez chover saraiva, à qual foi misturado fogo, e feriu tudo o que há no campo, desde o homem até a besta (Êx. 9:22-25).
(A cujo respeito também se vê nos Arcanos Celestes.) Por causa da representação e, daí, a significação da mesma coisa, também
Jehovah feriu a “todo primogênito na terra do Egito, desde o homem até a besta” (Êx. 12:12-29).
Mas, por outro lado, aos filhos de Israel, pelos quais foi representada a igreja, foi ordenado
Que sacrificassem a Jehovah todos os primogênitos do homem e da besta (Nm. 18:15).
Como tais coisas foram representadas e, daí, significadas por ‘homem’ e ‘besta’, por isso, de um ritual santo aceito na Igreja Antiga,
O rei de Nínive proclamou jejum, e mandou que nenhum homem nem besta saboreassem e bebessem, e que homem e besta se cobrissem de saco (Jn. 3:7, 8).
[22] Visto que pelas ‘besta’ são significadas as afeições em ambos os sentidos, por isso foi proibido fazer figura de qualquer besta, a cujo respeito se lê em Moisés:
Não fareis para vós “figura de qualquer besta que há na terra, figura de qualquer ave de asa que voa sob o céu, figura de qualquer réptil na terra, figura de qualquer peixe que há nas águas sob a terra” (Dt. 4:17, 18).
A causa disso era que a descendência de Jacob que, por causa da representação da igreja com eles, eram chamados ‘filhos de Israel, estiveram no externos sem o interno, isto é, eram na maioria meramente naturais; por isso, se fizessem para si alguma figura de besta ou de ave, as quais significavam afeições e coisas semelhantes, fariam delas ídolos para si e as adorariam. Esta foi também a causa por que os egípcios – com os quais as coisas representativas foram mais conhecidas do que entre os outros povos – fizeram para si figuras de bestas, tais como de novilhos, de serpentes e de muitas outras, a princípio não por causa do culto, mas por causa da significação. Mas os seus descendentes, que de internos tornaram-se externos, por conseguinte, meramente naturais, consideraram-nas não como representativas e significativas, mas como coisas santas da igreja e, daí, dedicaram a elas um culto idolátrico. Daí é que aos descendentes de Jacob, por serem homens inteiramente externos e, assim, idólatras de coração, foi proibido fazer para si figuras delas.
[23] Por exemplo, eles tinham adorado bezerros no Egito e, depois, no deserto, porque o bezerro significava a primeira afeição do homem natural unida ao seu bem da inocência. Que os gentios em vários lugares tenham adorado serpentes era porque a serpente significava o sensual que é o último do homem natural e a sua prudência; e assim em relação às demais.
[24] Como as ‘bestas’ significavam várias coisas do homem natural, por isso também foi ordenado algumas vezes que, quando dessem cidades e regiões à maldição, (???) também trucidassem as bestas, pelo fato de que as ‘bestas’ representavam os males e as coisas profanas que estavam nos homens que eram entregues à maldição. Porquanto todas as espécies de bestas significavam várias coisas que estão nos homens da igreja, por isso foram estabelecidas leis a respeitos das bestas, quais seriam e quais não seriam comidas (Levítico 11); ‘as que seriam comidas’ significavam os bens, e ‘as que não seriam comidas’ significavam os males. Com efeito, a igreja naquele tempo era uma igreja representativa, e por isso cada uma das coisas que foram prescritas era representativa e significativa, principalmente as bestas. A respeito disso se lê em Moisés:
“Distinguireis entre a besta limpa e a imunda, e entre a ave imunda e a limpa, para que não façais abomináveis as vossas almas pela besta e a ave;... e sereis santos para Mim” (Lv. 20:25, 26).
[25] Por aí se pode ver agora de onde procede que os sacrifícios de vários gêneros de bestas foram permitidos, como os de cordeiros, ovelhas, cabritos, cabras, bezerros, bois, e também de pombas e rolinhas, a saber, porque significavam coisas espirituais e coisas naturais de origem espiritual, ou seja, os ‘cordeiros’ a inocência, as ‘ovelhas’ a caridade, os ‘bezerros’ e ‘bois’ as afeições do homem natural correspondentes às afeições do homem espiritual. Daí era que as bestas para os sacrifícios eram variadas segundo as causas por que eram oferecidos, o que não teria acontecido a não ser cada sacrifício de bestas significasse coisas tais que são da igreja.
[26] Como o homem da igreja de hoje dificilmente pode ser levado a crer que pelas ‘bestas’ e ‘feras’ na Palavra sejam significadas afeições do bem e do vero, as quais são do homem da igreja, e isto porque parece estranho que alguma besta signifique algo do homem, por isso irei citar ainda muitas passagens da Palavra que o confirmam. Em Ezequiel:
“Diz ao... rei do Egito e à sua multidão: A quem és semelhante na tua altura? Eis a Assíria, um cedro no Líbano; bela de ramo e floresta sombrosa; (???) alta se fez em sua altura mais que todas as árvores do campo, e seus ramos se multiplicaram por muitas águas...; em seus ramos se aninharam todas as aves dos céus, e sob os seus ramos pariram todas as feras do campo, e em sua sombra habitaram todas as grandes nações; bela foi em sua magnitude;... mas porque és elevado em altura”, serás cortado, “sobre a sua ruina habitará toda ave dos céus, e sobre os seus ramos estarão de toda fera do campo” (Ez. 31:2, 3, 5-7, 10, 12, 13);
pelo ‘rei do Egito’ e por ‘sua multiplicação’ é significado o homem natural com os conhecimentos aí; por ‘Assíria, um cedro no Líbano’ é significado o racional que vem dos conhecimentos de uma parte e do influxo do vero espiritual de outra; por ‘bela de ramo e floresta sombrosa’ é significada a inteligência pelos veros racionais por meio dos conhecimentos.
[27] Pela ‘altura, mais que todas as árvores do campo’ é significada a elevação até o interior racional, que vem do espiritual; pelos ‘ramos multiplicados por muitas águas’ é significada a abundância pelos veros espirituais que vêm das cognições do vero da Palavra; pelas ‘aves dos céus que se aninharam em seus ramos’ são significados os pensamentos espirituais nas coisas racionais, pois o racional é o meio entre o homem interno espiritual e o externo natural; por ‘[de toda] fera do campo que pariram sob seus ramos’ são significadas as afeições dos conhecimentos racionalmente percebidos.
[28] Pelas ‘grandes nações que habitaram em sua sombra’ são significados os bens das afeições no homem natural; por ‘bela em altura’ é significada a inteligência; mas pela ‘ave dos céus e pela fera do campo que habitarão sobre sua ruina em seus ramo’ são significados os falsos dos pensamentos e os males das cobiças, os quais ele tem por ‘ser elevado em altura’, isto é, porque se ensoberbeceu por causa do amor da própria inteligência. Que os pensamentos do vero e as suas afeições sejam significados pelas ‘aves dos céus e as feras do campo’ é evidente, pois se diz que ‘grandes nações habitarão em sua sombra’.
[29] Em Daniel:
“Eis uma árvore no meio da terra, e sua altura era grande; ... estendeu-se até o céu, e sua vista até o fim... da terra; sua folhagem era bela, e suas flores muitas, e nela havia comida para todos. Sob ela tinha sombra a besta do campo, e nos seus ramos habitavam as aves do céu, e dela se nutria toda carne. ... Um Vigia e Santo desceu do céu, clamando: ...Cortai a árvore, e amputai os seus ramos, sacudi a folhagem... dispersai a sua flor; a besta fugirá de sob ela, e as aves de seus ramos; mas deixai o tronco da raízes... na terra, e em cadeia de ferro e de bronze, e seja tingido na erva do campo e no orvalho dos céus, e parte sua com a besta, por relva da terra; mudarão seu coração de homem, e ser-lhe-á dado um coração de besta” (Dn. 4:10-16).
Isto foi um sonho de Nebuchadnezar, rei de Babel, e por ele se descreve a instauração da igreja celeste e seu crescimento até o seu ponto mais alto, e, em seguida, a sua destruição por causa da dominação até sobre as coisas santas da igreja, e porque reivindicou para si direitos sobre o céu.
[30] Pela ‘árvore no meio da terra’ é significada aquela igreja; por ‘sua altura’ é significada a extensão da percepção e, daí, da sabedoria; por ‘sua vista até o fim da terra’ é significada a sua extensão até os últimos da igreja; por ‘sua folhagem bela’ e por ‘sua flor muita’ são significadas as cognições e as afeições do vero e bem e, daí, a inteligência; pela ‘comida para todos nele’ é significada a nutrição celeste que vem do bem e, daí, do vero; pela ‘besta do campo que tinha sombra nela’ e pelas ‘aves dos céus que habitavam em seus ramos’ são significadas as afeições do bem e, daí, as cognições e as percepção do vero, que, por serem a comida espiritual, diz-se que ‘dela se nutria toda carne’.
[31] Todavia, por causa da dominação sobre as coisas santas do céu e da igreja pelo amor de si, sobre as quais os babilônicos finalmente reivindicam direitos para si, segue-se a descrição de sua ruína por estas palavras: “Um Vigia e Santo desceu do céu, clamando: Cortai a árvore, e amputai os seus ramos, sacudi a folhagem, dispersai a flor, e a besta fugirá de sob ela, e as aves de seus ramos’, pois neles o amor de si e, daí, a exaltação da mente, cresceram a ponto de reivindicarem para si direitos sobre as coisas santas da igreja e mesmo sobre o céu. Quando isto aconteceu, então tudo da igreja pereceu, assim como toda percepção e cognição do bem e do vero, pois está fechado o interno da mente onde está o espiritual, e domina o externo, onde há o natural, e assim o homem se torna sensual, a ponto de pouco diferir das bestas.
[32] Pelo ‘tronco das raízes’, que deixariam na terra, é significada a Palavra, que é entendida somente quanto à letra, a qual é somente um cognitivo assentado na memória e saindo saí na linguagem; pelas ‘cadeias de ferro e de bronze’ é significado que os veros e bens interiores são encerrados e mantidos presos nos últimos; o ‘ferro’ é o vero nos últimos, e ‘bronze’ é o bem nos últimos, e estes, separados dos interiores, são falsos e males. E como o homem da igreja então se torna quase como a besta quanto ao entendimento e a vontade, pois os males das afeições e os falsos dos pensamentos dominam, se diz ‘parte sua estará com a besta, por relva na terra’, e que ‘seu coração de homem será mudado, e ser-lhe-á dado um coração de besta’. Que essa mudança e inversão aconteça por causa dos direitos reivindicados para si sobre as coisas santas da igreja e, finalmente, sobre o céu, vê-se pelos versículos 30 a 32 desse capítulo, onde há estas palavras:
“O rei disse: Não é esta a grande Babel que eu edifiquei para casa do reino, pela força de minha fortaleza, e para glória de minha honra? Ainda estava esta palavra na boca do rei, [quando] uma voz caiu do céu, dizendo: O reino passará de ti, e te expulsarão do homem, e com a besta do campo será a tua habitação; eles te farão comer [gustare] erva como os bois, até que saibas que o Altíssimo domina no reino do homem, e o dá a quem quer”.
[33] Que ‘Nebuchadnezar’ como rei de Babel no início signifique a igreja celeste e o seu crescimento até o ponto máximo da sabedoria vê-se também em Daniel, onde se trata da estátua vista por ele em sonho. Ali se diz:
“O Deus dos céus deu em tua mão os filhos do homem... a besta do campo e a ave dos céus, e te fez dominar sobre todos; tu és a cabeça” da estátua “que é ouro” (Dn. 2:37, 38);
pela ‘cabeça da estátua’, que era de ouro, é significada a igreja celeste, que é a principal de todas. Que essa igreja seja significada no princípio pelo ‘rei de Babel’ é porque a igreja, que depois se tornou Babel ou Babilônia, começa pelo culto do Senhor e pelo amor a ele, e então reina neles o zelo de estendê-la e aperfeiçoá-la pelos santos bens e veros do céu, mas isto por uma causa ainda latente, que é o amor de dominar, que, todavia, não rompe senão sucessivamente. Mas muitas coisas a respeito disto serão ditas onde se tratar da Babilônia.
[34] Em Oséias:
“Farei para eles naquele dia uma aliança com a fera da terra, e com a ave dos céus e o réptil da terra; e quebrarei da terra o arco, e a espada e a guerra, e os farei deitar em segurança, e esponsar-te-ei comigo na eternidade” (Os. 2:18, 19).
Essas palavras são a respeito da instauração de uma nova igreja pelo Senhor; dela se trata aí. Que então Jehovah, isto é, o Senhor, não fatia aliança com a fera do campo, nem com a ave dos céus, nem com o réptil da terra, mas com os homens, nos quais seria instaurada a igreja, é evidente; por isso, por elas são significadas coisas tais que que são da igreja no homem, a saber, pela ‘fera do campo’ a afeição das cognições do vero, pela ‘ave dos céus’ o pensamento racional pelo espiritual, e pelo ‘réptil da terra’ o conhecimento do homem natural, especialmente o conhecimento sensual. Que então ‘quebrará da terra o arco e a espada’ significa que destruirá os falsos que combatem os veros da doutrina; e que não haverá mais disputa alguma entre os veros e falsos e bens e males é significado por ‘esponsar-te-ei comigo na eternidade’.
[35] Em Isaías:
“A fera do campo Me honrará, os dragões e as filhas da coruja, pelo que darei águas no deserto, rios na solidão, para dar de beber ao Meu povo, Meu eleito” (Is. 43:20).
Que por ‘fera do campo’, ‘dragões’ e ‘filhas da coruja’ aqui não se entendam fera do campo, dragões e corujas é evidente, pois eles não podem honrar a Jehovah; que se entendam os homens da igreja vê-se pelo que se segue, pois se diz: ‘para dar de beber ao Meu povo, Meu eleito’; por isso, pela ‘fera do campo’ são significadas as afeições das cognições do vero, por ‘dragões’ as ideias naturais, e pelas ‘filhas da coruja’ as afeições sensuais, porque o sensual é afetado pelos veros e os vê nas trevas, assim como as corujas veem os objetos na noite.
[36] E visto que essas coisas são significadas, é evidente que por elas se entendem os gentios com os quais a nova igreja devia ser instaurada, pois eles, antes da reforma, estiveram numa tal afeição obscura e no pensamento natural. Por ‘dar águas no deserto e rios na solidão’ é significado imbuir com os veros e, daí, com inteligência aqueles que antes estiveram na ignorância; ‘águas’ são os veros, ‘rios’ são a inteligência, ‘deserto’ e ‘solidão são a ignorância; ‘dar de beber ao povo de Jehovah e Seu eleito’ significa instruir aqueles que estão nos veros da fé e no bem da caridade; diz-se ‘povo’ a respeito dos que estão nos veros da fé, e ‘eleito’ dos que estão no bem da caridade.
[37] Em Joel:
“Porventura não foi cortada a comida, alegria e regozijo, diante de nossos olhos da casa de nosso Deus?...Suspira a besta, ficaram confusas as manadas de boi, por não terem pasto; também os rebanhos dos gados ficaram desolados;... a besta do campo berra a Ti, porque se secaram os rios de águas, e o fogo comeu os habitáculos do deserto” (Jl. 1:16, 18, 20).
Essas palavras são ditas a respeito do estado da igreja, quando nela não há mais os veros da doutrina e o bem da vida. Pela ‘comida que foi cortada da casa de Deus’ é significada a nutrição espiritual, que vem dos veros oriundos do bem; ‘casa de Deus’ significa a igreja; ‘suspira a besta, ficaram confusas as manadas de boi’ significa a falta de afeições do vero e, daí, de cognições no homem natural, e a dor por esse motivo; ‘manadas de boi’ significam as coisas que há no homem natural em todo o complexo.
[38] Que ‘não há pasto’ significa que não há instrução; ‘os rebanhos de gados ficaram desolados’ significa a falta do vero e do bem espiritual, que pertencem à fé e à caridade; a ‘besta do campo berra a Ti’ significa a dor dos que estão na afeição natural e, daí, no desejo das cognições do vero e do bem; ‘secaram-se os rios de águas’ significa os veros da doutrina dissipados pelo amor natural; ‘o fogo comeu os habitáculos no deserto’ significa esse amor e, daí, a destruição das cognições do vero; ‘habitáculos do deserto’ são as coisas que há no entendimento e na vontade em tal homem, as quais, de outro modo, receberiam os veros e bens da igreja.
[39] No mesmo:
“Teme, ó terra, regozija e alegra-te, porque Jehovah tem feito grandes coisas12; não temais, bestas dos Meus campos, porque ervosos se tornaram os habitáculos do deserto, porque a árvore dará o seu fruto, a figueira e a videira darão a sua força. Filhos de Sião, regozijai e alegrai-vos em Jehovah” (Jl. 2:21-23).
Essas palavras são a respeito da instauração da igreja pelo Senhor, e pela ‘terra’, que temerá, regozijará e se alegrará, é significada a igreja e seu prazer; a sua instauração pelo Senhor é significada por ‘Jehovah tem feito grandes coisas’; assim, pelas ‘bestas dos Seus campos’ se entendem aqueles que estão nas afeições do bem e desejam a instrução da Palavra; ‘bestas’ são aqueles que estão nas afeições do bem do homem natural, e ‘campos’ são os doutrinais da Palavra.
[40] Que ‘ervosas se tornaram os habitáculos do deserto’ significa que as cognições do vero e do bem estão naqueles em quem não as tinham antes; ‘a árvore dará fruto’ significa a produção do bem da vida por meio dessas cognições, pois a ‘árvore’ significa o homem da igreja, em particular a mente imbuída de cognições, e ‘fruto’ significa o bem da vida; a ‘figueira e a videira darão sua força’ significa a produção efetuada pelo bem natural e espiritual ao mesmo tempo. Como as ‘bestas dos campos’, a ‘árvore’, a ‘figueira’ e a ‘videira’ significam coisas tais que há no homem da igreja, por isso se diz: ‘filhos de Sião, regozijai e alegrai-vos em Jehovah’; pelos ‘filhos de Sião’ se entendem os que são da igreja celeste; ‘regozijar’ se atribui ao prazer do bem, e ‘alegrar-se’ à amenidade do vero.
[41] Em Ezequiel:
“Naquele dia Gog virá sobre a terra de Israel... e então haverá grande terremoto sobre a terra de Israel, e tremerão diante de Mim os peixes do mar, e a ave dos céus, e a fera do campo, e todo réptil que rasteja sobre a terra, e todo homem que há sobre as faces da terra” (Ez. 38:18-20);
‘Gog’ significa a santidade externa sem a santidade interna, assim, aqueles em quem há tal santidade; o ‘terremoto’ significa a mudança de estado da igreja; ‘tremerão os peixes do mar, a ave dos céus, a fera do campo, o réptil que rasteja e todo homem’ significa que serão mudadas no homem todas as coisas que são da igreja nele; os ‘peixes do mar’ são os conhecimentos, as ‘aves dos céus’ são os pensamentos daí, as ‘feras do campo’ são as afeições daí, o ‘réptil da terra’ são os pensamentos e as afeições no sensual corpóreo, e o ‘homem’ são todas essas coisas, das primeiras até às últimas. De outro modo, o que seria o fato de eles tremerem diante de Jehovah?
[42] Em Zacarias:
“Haverá naquele dia um grande tumulto... Judah lutará contra Jerusalém;… e assim haverá praga de cavalo, de mula, de camelo e de asno, e de toda besta que estiver em seus acampamentos;... então tudo o que restar subirá... a Jerusalém” (Zc. 14:13-15).
Assim se descreve o último estado da velha igreja e o primeiro da nova. O último estado da velha igreja é descrito pelo ‘grande tumulto, quando Judah lutará contra Jerusalém’, pelo que se entende a mudança então e a luta do amor do mal contra os veros da doutrina da igreja; pela ‘praga de cavalo, de mula, de camelo, de asno e de toda besta’ são significadas coisas tais que ferem e destroem a igreja e a vida espiritual dos homens da igreja, e por ‘cavalos, mulas, camelos e asnos’ as coisas que são do entendimento e da vontade deles, por conseguinte, as que são de seus pensamentos e afeições. Mas o que significado em particular por ‘cavalo’, ‘mula’, ‘camelo’ e ‘asno’ foi dito em outro lugar. Aqui se dirá somente que a ‘besta’ significa a afeição do homem natural, e a ‘praga da besta’ o ferimento e a destruição dessas afeições.
[43] Em Jeremias:
“Até quando pranteará a terra, e a erva de todo campo se secará? Por causa da malícia dos que nela habitam serão consumidas as bestas e as aves” (Jr. 12:4);
por ‘terra’ entende-se a igreja; pela ‘erva do campo’ é significado o vero da igreja nascido e nascente; por ‘prantear’ e ‘secar-se’ é significado perecer e ser dissipado pelas cobiças, e pelas ‘bestas’ e pela ‘ave’, que serão consumidas, são significadas as afeições do bem e, daí, as cognições do vero. Que estas iriam perecer por causa dos males na igreja é o que se segue, pelo que também se diz: ‘por causa da malícia dos que habitam na terra’.
[44] Em Isaías:
“Serão deixadas juntamente a ave dos montes e a besta da terra, mas as aves abominá-lo-ão, e toda besta da terra o desprezará” (Is. 18:6).
Essas coisas de dizem da ‘terra sombreada com as asas’, pela qual se entende a igreja, que, da obscuridade em que está, compreende coisas imaginárias em lugar de veros, e daí entra na igreja e na negação deles. Por ‘ave’ e ‘besta’, também aí, são significadas as cognições do vero e as afeições do bem, tanto racionais quanto naturais, de que se dizem ‘abominar’ e ‘desprezar’. É evidente que a ave e toda besta não iriam abominar nem desprezar, mas, sim, as afeições do bem e as cognições do vero, isto é, aqueles que estão nelas.
[45] Em Oséias:
“Assaltam, sangues alcançam sangues; ... e definhará todo aquele que habita nela, desde a fera do campo e até à ave dos céus, e também os peixes do mar serão colhidos” (Os. 4:2, 3);
também aqui, por ‘fera da terra’, ‘ave dos céus’ e ‘peixes do mar’ são significadas coisas semelhantes às de cima.
[46] Em Ezequiel:
“Tu, filho do homem, dize a toda ave de toda asa, e a toda fera do campo: Ajuntai-vos e vinde; ajuntai-vos das redondezas ao Meu sacrifício que sacrifico para vós, um sacrifício grande sobre os montes de Israel, para comerdes carne e beberdes sangue; carne de fortes comereis, e sangue dos príncipes da terra bebereis, carneiros, cordeiros e cabritos, e bezerros, todos cevados de Basan. Comereis gordura até vos saciardes, e bebereis sangue até vos embriagardes, do Meu sacrifício, que sacrifico para vós. E vos saciareis na Minha mesa com o cavalo e o carro, com o forte e com todo varão de guerra;... Assim darei Minha glória entre as nações" (Ez. 39:17-21).
Estas palavras foram ditas a respeito da convocação dos gentios à igreja e da recepção por eles do vero da doutrina no bem do amor, que é o bem da vida, e da inteligência deles nas coisas espirituais daí; por isso, pela ‘ave de toda asa’ e por ‘toda fera do campo’, que ajuntar-se-iam dos arredores para o grande sacrifício sobre os montes de Israel, entendem-se todos, em qualquer estado que estejam, quanto à percepção do vero e quanto à afeição do bem; por ‘ave de toda asa’ entendem-se todos, em qualquer percepção do vero que estejam; por ‘toda fera do campo’ todos, qualquer que seja a afeição do bem; e por ‘ajuntarem-se dos arredores’ é significado os que estão fora da igreja, de todas as partes.
[47] Pelo ‘grande sacrifício’ é significado o culto ao Senhor pela fé e pelo amor, pois os sacrifícios em geral representavam isso; pelos ‘montes de Israel’ são significados os bens do amor espiritual; por ‘comer carne’ e ‘beber sangue’ é significado apropriar a si o bem do amor e o vero desse bem; por ‘comer a carne dos fortes e beber o sangue dos príncipes da terra’ é significada essa apropriação; os ‘fortes’ (ou bois) significam as afeições do homem natural, e os ‘príncipes da terra’ os principais veros da igreja; por ‘carneiros’, ‘cordeiros’, ‘cabritos’, ‘bezerros’, ‘cevados de Basan’, são significadas todas as coisas que são da inocência, do amor, da caridade e do bem; ‘cevados de Basan’ são os bens do homem natural de origem espiritual.
[48] Daí é evidente o que é significado por ‘comer carne até ficarem saciados’ e por ‘beber sangue até ficarem embriagados’, a saber, que seriam cheios de todo bem do amor e vero da fé; por ‘saciar-se na mesa do Senhor com o cavalo e com o carro, com o forte e com todo varão de guerra’ é significado o entendimento do vero; pelo ‘carro’, a doutrina do vero; pelo ‘forte e varão de guerra’ é significado o vero do bem que luta contra os falsos do mal e o destrói. Como essas coisas foram ditas à respeito da convocação dos gentios à igreja do Senhor, por isso se diz: ‘Assim darei a Minha glória entre as nações’; ‘glória’ significa o Divino vero na luz.
[49] Que a ‘ave de toda asa’ e a ‘besta do campo’ signifiquem essas coisas, pode-se ver pelas passagens até aqui explicadas e também por esta, em Isaías:
“Dito do Senhor Jehovah, Que congrega todos os expulsos de Israel: Ainda vos congregarei aos seus congregados; toda fera dos Meus campos, vinde para comer, toda fera na floresta” (Is. 56:8, 9);
pelos ‘expulsos de Israel’, aos quais o Senhor congregará, são significados todos na igreja que estão nos veros do bem, separados daqueles que ali estão nos falsos do mal. Eles também se entendem feras ‘feras dos campos do Senhor Jehovih’, pois os ‘campos’ significam a igreja quanto à implantação do vero da doutrina. Mas os gentios que estão fora da igreja são significadas pela ‘fera na floresta’; a ‘floreta’ significa o homem natural e o sensual, e ‘fera’ o seu conhecimento e, daí, a inteligência obscura. Que pela ‘fera do campo’ e pela ‘fera na floresta’ sejam significadas essas coisas é evidente, pois se diz: ‘Vinde, toda fera dos Meus campos, e toda fera na floresta, para comer’; ‘comer’ significa a instrução e a apropriação.
[50] Como a maioria das coisas na Palavra tem também um sentido oposto, assim também a ‘besta’ e a ‘fera’. Nesse sentido, as ‘bestas’ significam as afeições más, que são as cobiças de adulterar e de destruir os bens da igreja, e ‘feras’ significam as cobiças de falsificar e de destruir os veros da igreja.
[51] Nesse sentido são nomeadas as ‘bestas’ e as ‘feras’ nas seguintes passagens. Em Ezequiel:
“Suscitarei sobre eles um só Pastor, que os apascentará, Meu servo David; Ele lhes será por Pastor. ... Então farei com eles uma aliança de paz, e farei cessar a fera má da terra, para que habitem no deserto confiadamente, e durmam nas florestas;... Não serão mais por presa às nações, e a fera da terra não os devorará, mas habitarão confiadamente, sem haver quem os amedronte” (Ez. 34:23, 25, 28).
Essas palavras são a respeito do advento do Senhor, do estado bem-aventurado do céu e daqueles que virão da igreja ao novo céu. Pelo ‘Pastor, o servo David’, que Jehovah suscitará, entende-se o Senhor, que é chamado ‘Servo’ pelo fato de servir e ministrar, isto é, prestar usos (vide acima, n. 409); por ‘fazer com eles uma aliança de paz’ é significada a conjunção com o Senhor pelo Divinos procedentes d’Ele, os quais são os bens do amor e os veros da doutrina da Palavra, assim, pela Palavra; por ‘fazer cessar da terra a fera má’ é significado que as cobiças e as concupiscências más não mais os invadirão nem destruirão.
[52] Por ‘habitar no deserto confiadamente, e dormir nas florestas’ é significado que serão protegidos contra a infestação delas, ainda que estejam neles e eles estejam entre elas; o ‘deserto’ e a ‘floresta’ são onde há tais coisas (por elas se entende algo semelhante ao que está em Isaías 11:7-9). Visto que as cobiças do mal e do falso destroem o homem da igreja, por isso se diz: ‘Não serão mais por presa às nações, e a fera da terra não os devorará’, pois pelas ‘nações’ são significadas as cobiças do mal, e pelas ‘feras da terra’ as cobiças do falso.
[53] Em Jeremias:
“Minha herança tornou-se... como leão na floresta; levantou contra Mim a sua voz, por isso a odeio; a ave Zabuah é a herança;... a ave ao redor dela;... ajuntai-vos a toda fera do campo, vinde comer; muitos pastores destruíram a Minha vinha” (Jr. 12:8-10).
Essas palavras são a respeito da devastação da igreja pelos falsos do mal. Pela ‘herança’ é significada a igreja; pelo ‘leão da floresta’, que contra Deus levanta a voz, é significado o falso do mal em todo o conjunto; a ‘ave Zabuah’ significa os raciocínios pelos falsos’; a ‘fera do campo’, que se ajuntará para comer, significa as cobiças pelos falsos para destruir os veros da igreja, e como se entende a igreja que assim é destruída, por isso se diz: ‘muitos pastores destruíram a Minha vinha’; pela ‘vinha’ é significada a igreja espiritual, ou a igreja quanto à afeição do vero. Visto que pela ‘vinha’ é significada a igreja, segue-se que pela ‘fera do campo’ é significada a cobiça de falsificar e assim destruir os veros da igreja.
[54] Em Isaías:
“Não haverá leão, o predador das feras não subirá por ele, nem será achada ali” (Is. 35:9).
Aí se trata do advento do Senhor e de Seu reino nos céus e nas terras, e por ‘leão’ e ‘predador das feras’ são significadas coisas semelhantes às de cima. Que por ‘fera’ aí não se entenda a fera, qualquer um poder ver.
[55] Em Oséias:
“Encontrá-los-ei como um urso desfilhado, e rasgarei a clausura do corações deles, e os consumirei como um leão feroz; uma fera do campo os despedaçará” (Os. 13:8);
também aqui, pelo ‘leão’ e pela ‘fera do campo’ são significadas coisas semelhantes às de cima.
[56] Em Sofonias:
Jehovah “estenderá Sua mão sobre o setentrião, e destruirá a Assíria, e porá Nínive em assolação, um lugar seco como o deserto; e descansarão em seu meio rebanhos, toda fera da nação; tanto o pelicano quanto o marreco [anataria] pernoitarão em suas romãs13; uma voz cantará na janela, uma seca no limiar, porque o seu cedro se despiu; tal é a cidade alegre, que habita confiadamente, dizendo em seu coração: Eu, e nada mais além de mim! Como se tornou um desolação, leito de feras, todo aquele que passa sobre ela assoviará e moverá sua mão” (Sf. 2:13-15).
Assim é descrita a devastação da igreja pelos falsos da doutrina que vem da própria inteligência. Pelo ‘setentrião’, sobre o qual Jehovah estenderá a mão, é significada a igreja que está nos falsos; por ‘Assíria’, que Jehovah destruirá, são significados os raciocínios pelos falsos; por ‘Nínive’, a qual ‘porá em assolação, um lugar seco como o deserto’, são significados os falsos da doutrina; por ‘rebanhos’, ‘fera da nação’, ‘pelicano’ e ‘marreco’ são significadas as afeições do falso e os falsos mesmos, interiores e exteriores.
[57] Pelas ‘romãs’, nas quais eles repousarão, são significadas as cognições do vero oriundas da Palavra, falsificadas; pela ‘voz na janela’ é significada a pregação do falso; pela ‘sequidão no limiar’ é significada a desolação total do vero; pelo ‘cedro’ que se despiu ´s significado o racional destruído; pela ‘cidade alegre que habita confiadamente’ é significada a doutrina do falso com que se deleitam e na qual repousam; ‘dizendo em seu coração: Eu, e nada mais além de mim’ significa o orgulho da própria inteligência; pelo ‘leito de fera’ é significado o estado da igreja devastada quanto aos veros; por ‘todo aquele que passa sobre ela assoviará, moverá a sua mão’ são significados o desprezo e a rejeição por aqueles que estão nos veros e bens da doutrina.
[58] Em Moisés:
“Darei paz na terra, para vos deitardes confiadamente, e não haja quem vos amedronte; e farei cessar da terra a fera má, e a espada não passará por vossa terra” (Lv. 26:6);
por ‘paz na terra, para se deitarem confiadamente, e não haja quem os amedronte’ é significada a proteção contra a irrupção do falso na igreja, pela confiança no Senhor; por ‘fazer cessar da terra a fera má’ é significada a imunidade contra a afeição e a cobiça do falso; e pela ‘espada’ que ‘não passará pela terra’ é significado que o falso não mais destruirá o vero.
[59] No mesmo:
“Enviarei a vespa antes de ti, e expelirá o heveu, o cananeu, o heteu de diante de ti; não o expelirei diante de ti num só ano, para que talvez a terra não se torne uma solidão, e se multiplique sobre ti a fera do campo; pouco a pouco o expelirei de diante de ti, até que te frutifiques e herdes a terra” (Êx. 23:28-30);
“enviarei a vespa antes de ti’ significa o temor daqueles que estão nos falsos do mal; ‘e expelirá o heveu, o cananeu e o heteu’ significa a fuga dos falsos que vêm dos males; ‘não o expelirei de diante de ti num só ano’ significa a fuga ou a remoção apressada deles; ‘para que talvez a terra não fique desolada’ significa a deficiência então e o pouco da vida espiritual; ‘e se multiplique sobre ti a fera do campo’ significa o afluxo dos falsos provenientes dos amores de si e do mundo; ‘pouco a pouco e expelirei de diante de ti’ significa a remoção gradativa segundo a ordem; ‘até que te frutifiques’ significa segundo aumento do bem; ‘e herdes a terra’ quando estiver no bem e for regenerado. (Essas coisas, porém, se veem mais amplamente explicadas nos Arcanos Celestes, n. 9331-9338).
[60] Coisas semelhantes são significadas por estas palavras em Moisés:
“Jehovah Deus expelirá... as nações... gradativamente de diante de ti; não poderás [destruí-las] de pronto, para que a fera do campo não se multiplique contra ti” (Dt. 7:22);
pelas ‘nações’ expulsas e expelidas da terra de Canaan pelos filhos de Israel são significados os males e falsos de todo gênero; pela ‘terra de Canaan’, a igreja, e pelos ‘filhos de Israel’ os homens da igreja. Por isso, pela ‘fera do campo’ que se multiplicaria contra eles, são significadas as cobiças do falso do mal, porque o homem que é reformado e regenerado até que haja a igreja nele é reformado e regenerado pouco a pouco, pois é concebido de novo, nasce e é criado, o que acontece quando são removidos os males e os falsos daí, que há nele por nascimento e hereditariedade. Isto não se faz num só momento, mas por um curso considerável da vida. Por aí é evidente o que se entende no sentido espiritual por ‘as nações não serem expelidas num só ano’, mas ‘gradativamente’ e ‘pouco a pouco’, ‘para que a fera do campo não se multiplique contra ti’, pois se os males e os falsos daí fossem removidos logo, então o homem dificilmente teria alguma vida, porque a sua vida, na qual nasceu, é a vida do falso e das cobiças, que são removidos na proporção que entram o bem e o vero, já que por estes são removidos aqueles.
[61] Como pela ‘fera’, no sentido espiritual, são significadas as cobiças do falso do mal, e pelas ‘aves’ os pensamentos e os raciocínios por estes, e como o homem da igreja perece espiritualmente por eles, por isso, em várias das passagens da Palavra onde se trata da devastação da igreja, se diz que ‘seriam dados por comida às feras e às aves’, como nas seguintes passagens. Em David:
“Pisoteia” a videira “o javali na floresta, e a fera dos campos apascenta-se nela” (Sl. 80:13);
em Oséias:
“Devastarei a sua videira e a sua figueira... e farei dela uma floresta, e a fera do campo a comerá” (Os. 2:12);
em Ezequiel:
“Enviarei sobre vós a fome, e a fera má, e te farão desfilhado” (Ez. 5:17).
Essas palavras são a respeito de Jerusalém, pela qual se entende a igreja. No mesmo:
“Dá-lo-ei à fera, para ser devorado” (Ez. 33:27);
no mesmo:
“As ovelhas foram dispersas, sem pastos, e [tornaram-se] comida para toda fera do campo” (Ez. 34:5, 8);
no mesmo:
“À fera da terra e à ave dos céus te dei por comida” (Ez. 29:5);
no mesmo:
“Sobre as faces do campo te lançarei, e farei habitar sobre ti toda ave dos céus, e saciarei de ti a fera de toda a terra” (Ez. 32:4);
em Jeremias:
“Será o cadáver deles por comida à ave dos céus e às bestas da terra” (Jr. 16:4; 19:7; 34:20);
em Ezequiel:
“À ave que voa, de toda asa, e à fera do campo, dei-te por comida” (Ez. 39:4);
em David:
“Deram o cadáver de Teus servos [por comida} à ave dos céus, a carne de Teus santos à fera da terra” (Sl. 79:2);
em Jeremias:
“Visitarei sobre eles com quatro gêneros... com a espada para matar, com os cães para dilacerar, e com as aves dos céus e as bestas da terra para devorar e para destruir” (Jr. 15:3).
[62] Nessas passagens, pelas ‘feras e aves’ são significados os falsos oriundos das cobiças do mal e dos raciocínios. e visto que pelas ‘nações’ na terra de Canaan são significados os males e falsos da religião e do culto, por isso os filhos de Jacob não sepultavam os cadáveres dos gentios que matavam na guerra, mas os deixavam para serem devorados pelas aves e pelas feras. Isto, porém, não era por ordem Divina, mas por crueldade inata àquele povo, assim, por permissão, para que tais coisas fossem representadas.
[63] Em David:
“O adversário afrontou a Jehovah, e um povo insensato desdenhou o Teu nome; não dês à besta a alma da pomba...; não Te esqueças perpetuamente da vida de Teus aflitos” (Sl. 74:18, 19);
pelo ‘adversário’ que afrontou a Jehovah é significado o inferno e o mal daí; pelo ‘povo insensato’ que desdenhou o Seu nome são significados os falsos que são contra os veros da doutrina; ‘povo’ se diz dos que estão nos veros e, no sentido oposto, dos que estão nos falsos, que são o ‘povo insensato’; e o ‘nome de Jehovah’ significa o vero da doutrina e da igreja; ‘não dês ``a besta a alma da pomba’ significa não dê espiritualmente o bem àqueles que estão nas cobiças do mal; pela ‘vida dos aflitos’ é significada a vida espiritual opressa pelos males e falsos.
[64] Em Habacuque:
“A violência do Líbano te cobriu, e a devastação das bestas as apavorará, por causa dos sangues dos homens e da violência da terra, da cidade e de todos os que habitam nela” (Hb. 2:17);
pela ‘violência do Líbano’ é significada a violência feita aos veros percebidos da Palavra pelo homem racional, pois ‘Líbano’ significa a igreja quanto à percepção do vero pelo homem racional; pela ‘devastação das bestas’, que apavorará, é significada a destruição das verdades pelas cobiças do mal; pelos ‘sangues’ é a violência feita pelos males aos veros da Palavra; e pela ‘violência da terra, da cidade e de todos os que habitam nela’ é significada a violência feita pelos falsos aos veros e bens da igreja e à sua doutrina oriunda Palavra.
[65] Em Moisés:
“O dente das feras enviarei sobre eles, com o veneno dos répteis da terra” (Dt. 32:24);
pelo ‘dente das bestas’ é significado o sensual quanto às cobiças do mal, por o ‘dente’ corresponde ao último da vida do homem, que é o sensual; pelo ‘veneno dos répteis da terra’ são significadas as falsidades daí, que por meio de falácias do homem sensual pervertem astutamente os veros.
[66] Em Ezequiel:
“Quando entrei e vi, eis uma abominação de toda imagem de réptil e de besta, e todos os ídolos da casa de Israel pintados na parede, ao redor” (Ez. 8:10);
por essas e muitas outras coisas que foram mostradas ao profeta são significadas as medonhas cobiças e falsidades em que estiveram os israelitas, pelo fato de estarem nos externos e não nos internos, e como eles foram tais, converteram todas as coisas representativas em idolátricas. Daí veio a idolatria deles e também a de muitas nações. Assim, pelas ‘bestas’ e ‘répteis’, das quais fizeram para si imagens, por causa da significação das afeições do bem e da prudência, foram representadas medonhas cobiças do mal e do falso, pois assim acontece quando o homem natural separado do espiritual considera as coisas santas. Daí é que elas foram chamadas ‘ídolos da casa de Israel. Pela ‘parede ao redor’, na qual foram vistas pintadas, são significados os interiores em toda parte no homem natural, pois pelo ‘teto’ é significado o íntimo, pelo ‘solo’ ou ‘pavimento’, o último, pelas ‘paredes’ os interiores, e pela ‘casa’ o homem mesmo quanto às coisas que são de sua mente. O homem natural é interior e exterior; o interior natural é onde residem as coisas impuras do homem, e o exterior não as divulga, mas simula coisas boas, justas e sinceras.
[67] Como as ‘feras’ e as ‘bestas’ significavam os bens do entendimento e os bens da vontade, que são das afeições, e os antigos, que conheciam as correspondências, fizeram figuras representativas e significativas – as quais, a princípio, eles não adoravam, mas que, depois, foram adoradas como Divinas em si por aqueles que de internos se tornaram meramente externos – por isso as feras e bestas se tornaram ídolos, como é evidente em Isaías:
“Curvou-se Bel, abaixou-se Nebo; os ídolos deles são feras e bestas” (Is. 46:1).
Lê-se em Isaías a profecia
Sobre as bestas do meio-dia (Is. 30:6 e seq.),
pelas quais são significadas as adulterações do bem e as falsificações do vero, onde nascem todos os gêneros de males e falsos naqueles que na igreja estão somente nos externos; chamam-se ‘bestas do meio-dia’ porque estão naqueles que têm a Palavra, pela qual podem estar na luz do vero, que é o ‘meio-dia’.
[68] Em Daniel:
Viu em visão, quando era noite, quatro bestas subindo do mar; “a primeira era como um leão, mas tinha asas de águia; ... a outra semelhante a um urso; ... a terceira como um leopardo, que tinha quatro asas; e a quarta era terrível e temível” (Dn. 7:2-7);
pela ‘besta subindo do mar’ aí é significado o amor de domínio, ao qual as coisas santas da Palavra e da igreja servem de meio; e pelas ‘quatro bestas’ é significado o seu aumento sucessivamente; por isso se diz da última besta ‘terrível e temível’. (Essas coisas, porém, veem-se explicadas parcialmente acima, n. 316 e 556).
[69] Quase as mesmas coisas são significadas no Apocalipse:
Pela besta subindo do mar (Ap. 13:1-10);
Pela besta subindo da terra (Ap. 13:11-18);
Pela besta escarlate (Ap. 17:3);
Pela besta saindo do abismo (ap. 17:8).
(A respeito dessas bestas se diz, além disso, em Ap. 19:19, 20; cap. 20:10). Mas que cobiças do mal e do falso são significadas especificamente por cada uma das ‘bestas’, ver-se-á abaixo, onde se tratar dessas bestas.
[70] Por aí se pode ver agora o que se entende por estas palavras em Marcos:
“O Espírito, impelindo" a Jesus, “fê-lo sair ao deserto, e estava... no deserto por quarenta dias... e estava com as bestas, e os anjos O serviam” (Mc. 1:12, 13).
O fato de o Senhor ter estado no deserto por quarenta dias representava a duração de todas as tentações, as quais Ele suportou e sustentou crudelíssimas, mais do que todos em todo o mundo. Não que Ele tenha sido tentado somente então, mas desde a infância até o último de Sua vida no mundo. A última tentação d’Ele foi no Gethsemane. Com efeito, pelas tentações Ele subjugou todos os infernos e também glorificou o Seu Humano. (A respeito, porém, das tentações do Senhor, vide na Doutrina da Nova Jerusalém, n. 302). E como as tentações surgem por maus espíritos e gênios que vêm do inferno, assim, pelos infernos, donde surgem os males e falsos e suas cobiças e concupiscências, por isso pelas ‘bestas’ aí, com as quais esteve, não se entendem bestas, mas os infernos e, daí, o surgimento dos males; e pelos ‘anjos’, que O serviam, não se entendem anjos, mas os Divinos veros, pelos quais, de Seu próprio poder, venceu e subjugou os infernos. (Que pelos ‘anjos’ na Palavra sejam significados os veros vide acima, n. 130, 200, 302 e 593).

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