AE 659

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. “E não permitirão que seus corpos sejam postos em sepulcros.” Que isto signifique a rejeição e a danação deles vê-se pela significação de ‘não serem postos em sepulcros’ ou ‘não serem sepultados’, que é a danação eterna, pois ‘ser sepultado’ significa na Palavra o despertar na vida [eterna] e a ressurreição, pois quando o homem morre e é sepultado, ele estão desperta ou ressurge na vida eterna. Com efeito, o homem vive após a morte igualmente vive no mundo, mas depõe o corpo terrestre ou material, que lhe tinha servido de uso no mundo, e continua a vida num corpo espiritual; por isso o sepultamento é apenas a rejeição da pele [exuviae], por assim dizer, que trazia consigo no mundo natural. Que o ‘sepultamento’ signifique o despertar na vida eterna, ou ressurreição, é porque os anjos não sabem o que é a morte do homem nem o que o seu sepultamento, visto que eles não têm ideia alguma da morte nem, por conseguinte, do sepultamento, mas percebem todas as coisas espiritualmente. Por isso, onde é nomeada na Palavra a ‘morte’ do homem, em lugar dela esses percebem a sua transmigração de um mundo a outro; e onde o ‘sepultamento’ é nomeado, percebem a sua ressurreição na vida. Daí se segue que ‘não ser sepultado’ significa a não ressurreição na vida, mas a danação, pela qual se entende a morte espiritual. De fato, todo homem desperta e ressurge após a saída do mundo, mas alguns para a vida e outros para a danação. E como ‘ser sepultado’ significa a ressurreição para a vida, daí ‘não ser sepultado’ significa a danação, mas, aqui, daquele que rejeitam os bens do amor e os veros da doutrina, que são significados pelas ‘duas testemunhas’. Por isso, por ‘não serem postos em sepulcros’ ou ‘não serem sepultados’ não se entende a danação, a não ser na ideia daqueles que condenam os bens do amor e os veros da doutrina. O que significam, pois, na Palavra, os ‘sepulcros’ e também ‘ser sepultado’ e ‘não ser sepultado’, pode-se ver pelas passagens que se seguem.
[2] Que os ‘sepulcros’ signifiquem coisas imundas, por conseguinte, também infernais, por causa dos cadáveres e dos ossos que há neles, vê-se por muitas passagens na Palavra, como em Isaías:
“Um povo que Me provoca à ira continuamente diante de Minhas faces... que queima incenso sobre tijolos, que se senta em sepulcros e pernoitam em lugares devastados, que come carne de porco” (Is. 65:3, 4);
‘provocar Jehovah à ira diante de Suas faces’ significa pecar contra os veros e bens da Palavra e afastar-se do culto ali ordenado; as ‘faces de Jehovah’ são as coisas que se acham reveladas na Palavra; ‘queimar incenso sobre tijolos’ significa o culto pelos falsos da doutrina ( ‘tijolos’ são os falsos da doutrina, e ‘queimar incenso’ é o culto pelos falsos); ‘sentar-se em sepulcros’ significa estar em amores impuros; ‘pernoitar em lugares devastados significa permanecer e viver nos falsos (‘lugares devastados’ são onde não há veros); ‘comer carne de porco’ significa apropriar a si os males infernais.
[3] Em Moisés:
“Todo aquele que tocar, na superfície do campo, em um traspassado à espada, ou em mortos, ou em osso de homem, ou em sepulcro, imundo será por sete dias” e depois será purificado (Nm. 19:16, 18);
por ‘tocar’, na Palavra, é significado comunicar; por isso, para que não fossem comunicados os falsos e males, e assim apropriados, foi proibido que tocassem coisas imundas, aqui em ‘traspassado à espada’, ‘mortos’, ‘osso de homem’ e ‘sepulcro’, porque ‘traspassado à espada’ significa o que perece pelos falsos e, daí, é condenado ao inferno; os ‘mortos’, os que perecem pelos males; o ‘osso de homem’ significa o falso infernal e ‘sepulcro’ o mal infernal.
[4] Em Ezequiel:
“Pranteia sobre a multidão do Egito, e faze-a descer... com os que descem à cova;... no meio dos traspassados à espada cairão; ...ali está a Assíria e toda a sua congregação; em redor dela os seus sepulcros, todos os traspassados que caíram à espada, aos quais foram dados sepulcros nos lados da cova, e sua congregação está ao redor de seu sepulcro. ... Elão e toda sua multidão está ao redor de seu sepulcro, todos os incircuncisos traspassados... à espada” (Ez. 32:18, 20. 22-24);
pela ‘multidão do Egito’ são significados os conhecimentos do homem natural, que são mortos, porque não descem nem se formam como efeitos, conclusões e confirmações pelos veros do homem espiritual; por ‘Assíria’ são significados os raciocínios por tais conhecimentos; por isso, ‘pranteia sobre a multidão do Egito, e faze-a descer com os descem à cova’ significa a dor por causa da danação dos que estão nesses; pela ‘cova’ é significado o inferno onde reinam tais conhecimentos mortos, isto é, os conhecimentos separados dos veros, porque são aplicados para confirmar os falsos da doutrina e os males da vida; pelos ‘traspassados à espada’ são significados, aqui como acima, os que são condenados ao inferno por causa dos falsos; ‘ali está a Assíria e toda a sua congregação’ significa os raciocínios por esses falsos; pelos ‘sepulcros’ que estão ao redor da Assíria e nos lados da cova, onde estão ‘Elão’ e ‘todos os incircuncisos traspassados à espada’ são significados os infernos onde estão esses falsos, isto é, os que estão nesses falsos.
[5] Cumpre saber que os falsos e males de todo gênero correspondem às coisas imundas e repugnantes que há no mundo natural; os falsos e males mais medonhos, às coisas cadaverosas e também às coisas fétidas excrementícias, e os falsos e males mais brandos, às coisas pantanosas. Daí é que as moradias dos que estão nos infernos em tais falsos e males aparecem semelhantes a covas e sepulcros, e, se quiseres crer, tais gênios e espíritos também habitam em sepulcros, latrinas e pântanos que há em nosso mundo, embora eles o ignorem. A razão disso é que essas coisas correspondem, e as que correspondem, conjuntam. O mesmo se pode concluir pelo fato de que, para aqueles que foram assassinos e envenenadores, e também para os que sentiram prazer em violar mulheres, nada é mais prazeroso do que o odor cadaveroso; e para aqueles foram atraídos pelo amor de dominar, e também para os que sentiram prazer nos adultérios e nenhum prazer nos casamentos, nada há mais prazeroso do que o odor excrementício; e, para aqueles que se confirmaram nos falsos e extinguiram em si a afeição do vero, nada há de mais prazeroso do que o odor pantanoso e também o de urina. Daí é que os infernos em que eles estão aparecem segundo os prazeres correspondentes, alguns como covas e outros como sepulcros.
[6] Daí também é evidente de onde provinha
Que os possessos por demônios ficavam em sepulcros e saíam dali (Mt. 8:28 e seq.; Mc. 5:2, 3, 5; Lc. 8:27),
a saber, porque esses possessos, quando viveram no mundo, estiveram nos falsos do mal, ou nas cognições da Palavra, as quais fizeram mortas pelo fato de as terem aplicado para confirmar os males e também para destruir os veros genuínos da igreja, principalmente os veros a respeito do Senhor, da Palavra e da vida após a morte; essas cognições mortas são chamadas ‘tradições’, na Palavra. Daí era que os obsessos por elas, os quais se tornaram demônios,
Ficavam em sepulcros, e os demônios mesmos foram expulsos e entraram em porcos, que se precipitaram no mar (Mt. 8:31-33).
Que ‘tenham sido expulsos e tenham entrado em porcos’ {foi porque, quando viveram no mundo, estiveram em sórdida avareza}18, pois tal avareza corresponde aos porcos e estes a significam19. Que ‘se tenham precipitado no mar’ foi porque o ‘mar’ aí significa o inferno.
[7] Em David:
“Fui contado com os que descem à cova, tornei-me como um varão sem força; entre os mortos, esquecido, como os traspassados que jazem no sepulcro, dos quais não Te lembraste mais, e que foram cortados da Tua mão. Puseste-me na cova dos inferiores, nas trevas, nas profundezas. ... Acaso será narrada no sepulcro a Tua misericórdia, a verdade... na perdição?” (Sl. 88:4-6, 11).
Aí se trata das tentações; no sentido supremo, das tentações do Senhor, que são descritas quais foram, a saber, que Ele Se viu como se estivesse no inferno, entre os condenados, pois as tentações que o Senhor sofreu foram atrozes e enormes assim. Por isso, ‘fui contato com os descem à cova’ significa que Ele Se viu como se estivesse no inferno (a ‘cova’ é o inferno); ‘tornei-me como varão ser força’ significa que então Se viu sem poder, pois as tentações imergem o homem nos falsos e males, os quais não têm poder algum; ‘entre os mortos, esquecido’ significa entre aqueles que nada têm de vero e de bem e são, por causa disso, rejeitados; ‘como os traspassados que jazem no sepulcro’ significa como os que estão nos falsos do mal (os ‘traspassados significam os que perecem pelos falsos, e o ‘sepulcro’ significa o inferno, pelo fato de os que estão no inferno estarem espiritualmente mortos); ‘dos quais não te lembraste mais, e que foram cortados de Tua mão’ significa privados de todo vero e bem; ‘puseste-me na cova dos inferiores’ significa nos lugares do inferno onde há os tais; ‘nas trevas’ significa como se nos falsos; ‘nas profundezas’ significa como se nos males;
[8] Segue-se, então, a súplica pela dor, para que fosse liberto das tentações, e entre as causas há também esta: ‘Acaso será narrada no sepulcro a Tua misericórdia, e a verdade na perdição?’ significa que no inferno, onde estão e de vêm os males e falsos, o Divino Bem e o Divino Vero não podem ser pregados; ‘misericórdia’ é o Divino Bem do Divino Amor, e ‘verdade’ é o Divino Vero da Divina Sabedoria; ‘sepulcro’ é o inferno onde estão e de onde vêm os males, e ‘perdição’ é o inferno onde estão e de onde vêm os falsos. Por aí também é evidente que pelo ‘sepulcro’ se entende o inferno, pelo fato de aqueles que estão no inferno estarem espiritualmente mortos.
[9] Em Isaías:
“Para que pusesse os ímpios em seu sepulcro, e os ricos em suas mortes” (Is. 53:9).
Também essas palavras são a respeito do Senhor, de Quem se trata em todo esse capítulo. Aqui, porém, trata-se de Sua vitória sobre os infernos. Pelos ‘ímpios’ aos quais ‘poria no sepulcro’ entendem-se os maus que seriam lançados no inferno; aqui, o ‘sepulcro’ está claramente em lugar de ‘inferno’, que é chamado ‘sepulcro’ por causa dos espiritualmente mortos que estão ali; e pelos ‘ricos’ aos quais ‘poria em suas mortes’ se entendem os que da igreja estão nos falsos do mal, que são chamados ‘ricos’ por causa das cognições do vero e do bem que eles têm da Palavra. Os falsos do mal são significados pelas ‘mortes’, pois os que estão neles são espiritualmente mortos.
[10] Aqueles pensam o mal a respeito de Deus e do próximo e, todavia, falam bem, e aqueles que pensam insensatamente a respeito dos veros da fé e dos bens do amor mas falam sensatamente, esses são interiormente sepulcros caiados exteriormente, segundo estas palavras do Senhor:
“Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque vos fazeis semelhantes a sepulcros caiados, que por fora até parecem belos, [mas] por dentro estão cheios de ossos dos mortos e de toda imundície” (Mt. 23:27, 29; Lc. 11:47, 48).
[11] E em David:
“Não há o que reto em suas bocas; no meio deles há perdições; sepulcro aberto é a garganta deles; com sua língua lisonjeiam” (Sl. 5:10);
‘na boca’ significa exteriormente; ‘no meio’, interiormente. Que haja interiormente o inferno é significado por ‘a garganta deles ser sepulcro aberto’; e que exteriormente haja a hipocrisia e o que é como se fosse são é significado por ‘com a língua lisonjeiam’. Por estas e outras passagens na Palavra pode-se ver o que é significado pelo ‘sepulcro’.
[12] Quando, pois, se trata daqueles que estão nos falsos do mal, então pelo ‘sepulcro’ deles se entende o inferno, do qual vem e no qual está o falso. Onde, porém, se trata daqueles que estão nos veros do bem, então pelo ‘sepulcro’ se entende a remoção e a rejeição do falso do mal, e pelo ‘sepultura’ se entende o despertar e a ressurreição na vida, e também a regeneração, porque no homem que está nos veros do bem o falso do mal é removido e rejeitado ao inferno, e ele ressurge quanto aos interiores, que são de seu espírito, e entra na vida do vero do bem, que é a vida espiritual. É neste sentido que se entende a ‘sepultura’ nas passagens que se seguem.
[13] Em João:
“Não vos admireis, porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a voz do Filho do homem, e sairão; os que fizeram o bem, para a ressurreição da vida, mas os que fizeram o mal, para a ressurreição do juízo” (Jo. 5:28, 29).
Por essas palavras não se entende que aqueles que estão nos sepulcros ou nas tumbas hão de ouvir a voz do Senhor e sair, porque após a morte todos vivem igualmente homens, tal como no mundo, com a única diferença de que após a morte vivem no corpo espiritual e no material. Por isso, ‘sair dos sepulcros’ significa sair do corpo material, o que acontece primeiro com cada um logo após a morte, e depois quando o juízo final é feito, pois então os exteriores são removidos e os interiores são abertos em todos aqueles em que isto não se fez antes. Aqueles nos quais os interiores são celestes ressurgem para a vida, mas aqueles nos quais os interiores são infernais ressurgem para a morte. É isto que se entende por ‘os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida, mas os que fizeram o mal, para a ressurreição do juízo’.
[14] Que isto seja ‘sair dos sepulcros’ ou das ‘tumbas’ vê-se ainda mais evidentemente em Ezequiel:
“Eis que Eu abrirei os vossos sepulcros, e vos farei subir de vossos sepulcros, povo Meu, e vos trarei à terra de Israel... para que conheçais que Eu sou Jehovah, quando Eu tiver aberto os vossos sepulcros, e vos tiver feito subir de vossos sepulcros, povo Meu, e tiver posto Meu espírito em vós, para que vivais, e vos tiver posto sobre a vossa terra” (Ez. 37:12-14).
Aí se trata dos ‘ossos secos’ vistos pelo profeta sobre as faces do vale, nos quais apareceram nervos, subiu a carne e foram cobertos de pele, e que, depois que lhes foi enviado o espírito de Deus, reviveram e se puseram de pé. Que por esses ‘ossos’ se entenda toda a casa de Israel, diz-se abertamente nestas palavras:
“Filho do homem, esses ossos são toda a casa de Israel. Eis que dizem: Secaram-se os nossos ossos, e pereceu nossa esperança; fomos cortados” (Ez. 37:11).
Essa casa foi assemelhada a ossos secos porque eles estavam nos falsos e males, os quais não têm vida alguma, por causa da não correspondência com o céu quanto aos nervos, à carne e à pele, pois os ‘ossos’ significam os veros no último da ordem, sobre os quais se fundamentam os veros espirituais, mas os ‘ossos secos’ significam os falsos do mal. Daí se pode ver que ‘abrir os sepulcros, e fazer subir o povo dos sepulcros’ significa erguer dos falsos do mal, assim, dos mortos, e introduzir os veros do bem, assim, a vida, a qual é o ‘espírito de Deus’ pelo qual reviveram. É isto, portanto, que é ‘fazer subir dos sepulcros o povo’. A igreja, que será formada por eles, é significada pela ‘terra de Israel’ à qual serão trazidos e sobre a qual serão postos.
[15] Em Mateus é relatado
Que após a paixão do Senhor os sepulcros foram abertos, e muitos corpos dos que dormiam saíram dos sepulcros e entraram na cidade santa, e apareceram a muitos (Mt. 27:52, 53).
‘Os sepulcros foram abertos’ e ‘muitos corpos dos que dormiam apareceram’ significa o mesmo que acima, em Ezequiel, onde se diz que ‘Jehovah abrirá os sepulcros e os fará subir dos sepulcros’, a saber, a regeneração e a ressurreição dos fiéis para a vida. Não que esses corpos mesmos, que jaziam nos sepulcros, tenham ressuscitado, mas que apareceram, para que fossem significadas tanto a regeneração quanto a ressurreição para a vida, pelo Senhor. Além disso, por essas mesmas palavras entendem-se aqueles que na Palavra são chamados ‘acorrentados na cova’, aos quais o Senhor libertou, quando completou toda a obra de redenção, pois muitos fieis não puderam ser salvos antes que o Senhor viesse ao mundo e subjugasse os infernos. Nesse meio tempo, até o advento do Senhor, eles foram detidos nos lugares que são chamados ‘covas’, e foram libertos pelo Senhor logo após o Seu advento. Essas covas eram também representadas pelos ‘sepulcros’ que se abriam, e os que estavam ali eram representados pelos que ‘dormiam’, os quais ‘apareceram a muitos na cidade santa’ após a ressurreição do Senhor, como foi dito. A ‘cidade santa’ era Sião e Jerusalém, mas por elas se entende o céu, aonde eles foram levados pelo Senhor, pois essas duas cidades eram mais profanas do que santas. Por aí se pode ver o que foi representado e significado por esse milagre e por esse aparecimento.
[16] Visto que a ‘terra de Canaan’ significa não somente a igreja, mas também o céu, e o ‘sepulcro’ significa a ressurreição para a vida, por isso
Abrahão comprou de Efrom um campo, no qual estava a caverna de Macpela, que está diante de Manre (Gn. 23);
E ali foram sepultados Abrahão, Isaque e Jacob, com as suas esposas (Gn. 23; 25:9, 10; 35:29; 49; 50).
Cada uma das coisas que são relatadas a respeito dessa caverna, a saber, que estava ‘no campo de Efrom, que está diante de Manre’, e várias outras coisas, significavam a ressurreição para avida (as quais se vêm explicadas nos Arcanos Celestes). Por isso José também determinou
Que fizessem subir os seus ossos para a terra de Canaan (Gn. 50:24-26),
o que também se fez (Êx. 13:19; Js. 24:32), e isto porque a ‘terra de Canaan’, como se disse, significava a Canaan celeste, que é o céu. Por causa da representação, pela sepultura, da ressurreição no céu, também
David e os reis depois deles foram sepultados em Sião (1 Re. 2:10; 11:43; 14:17, 18; 15:8, 24; 22:50; 2 Re. 8:24; 12:21; 14:20; 15:7, 38; 16:20).
A razão disso era porque ‘Sião’ significava a igreja celeste e o céu, onde está o Senhor.
[17] Que a ‘sepultura’ signifique a ressurreição pode-se ver também pelo fato de dizer dos mortos, em várias passagens, que eles ‘se ajuntaram a seus pais’ e ‘ao seu povo’. ‘Aos pais’, em Gênesis:
Jehovah disse a Abrahão: “Tu virás aos teus pais em paz, e serás sepultado em boa velhice” (Gn. 15:15);
e, no Segundo Livro dos Reis,
Jehovah disse a respeito de Josias, rei de Judah: “Eis que Eu te ajunto a teus pés, e será ajuntando em teu sepulcro em paz" (2 Re. 22:20).
E ‘aos povos’, em Gênesis:
“Abrahão expirou e morreu em boa velhice, velho e saciado [de dias], e ajuntou-se a seu povo” (Gn. 25:8);
em outra passagem:
“Isaque expirou e morreu, e ajuntou-se aos seus pais, velho e saciado de dias” (Gn. 35:29);
e em outra passagem:
“Jacob... expirou, e ajuntou-se a seu povo” (Gn. 49:33);
‘aos pais’ e ‘ao povo’ é aos seus, isto é, aos semelhantes a si na outra vida, pois cada um vem, após a morte, aos semelhantes, com os quais viverá na eternidade. Não se pode dizer ‘ajuntado’ aos pais e ao povo no sepulcro, pois também se diz de Abrahão, quando morreu, que ele ‘ajuntou-se aos pais’ e ‘ajuntou-se ao povo’, e foi sepultado num sepulcro novo, onde não havia antes nenhum de seus pais ou de seu povo, além de Sara.
[18] Em Jó:
“Saberás que teu tabernáculo é a paz... e teus filhos [liberi] serão como a erva da terra; virás ao sepulcro na velhice, como o subir do feixe em seu tempo” (Jó 5:24-26);
pelo ‘tabernáculo’, na Palavra, é significada a santidade do culto e o bem do amor, porque o culto Divino nos tempos antiquíssimos se fazia em tabernáculos, e como o culto deles era pelo bem do amor celeste, por isso pelo ‘tabernáculo’ é também significado esse bem. Como o bem celeste é a paz genuína, por isso se diz: ‘Saberás que teu tabernáculo é a paz’. Os veros desse bem, e o seus aumentos, são significados pelos ‘filhos’, que ‘serão como erva da terra’, pois ‘filhos’ [filii] e ‘filhos’ [liberi] significam os veros do bem, semelhantemente à ‘erva da terra’. Que viria ao céu, após ter-se imbuído de sabedoria, é significado por ‘virás ao sepulcro na velhice’; a ‘velhice’ significa a sabe, e ‘vir ao sepulcro’ ou ‘ser sepultado’ significa a ressurreição. Como é esta que se entende aqui, por isso se diz: ‘como o subir do feixe no seu tempo’.
[19] Por esses poucos exemplos pode-se ver que os ‘sepulcros’, por causa dos cadáveres e ossos inanimados ali, significam as coisas infernais, mas o ‘sepultamento’ significa a rejeição delas, por conseguinte, também a ressurreição, pois quando o homem rejeita ou despoja o seu corpo material, então se reveste do espiritual, com o qual ressurge. Daí é, também, que a morte mesma do homem, no sentido espiritual, significa a continuação de sua vida, embora signifique, num sentido mau, a danação, que é a morte espiritual. Visto que o ‘sepultamento’, no que concerne ao homem, significa a ressurreição e também a regeneração, por isso o ‘sepultamento’, no que concerne ao Senhor, significava a glorificação do Seu Humano, pois o Senhor glorificou todo o Seu Humano, isto é, o fez Divino; por isso, com este glorificado, isto é, feito Divino, Ele ressuscitou no terceiro dia. Se isto não tivesse ocorrido, nenhum homem teria podido ressurgir para a vida, pois a ressurreição do homem para a vida vem unicamente do Senhor, e, de fato, pelo fato de Ele ter unido o Divino ao Seu Humano. Por essa união, que se entende propriamente pela glorificação, o homem tem a salvação. Isto é, também, o que envolve o fato de
O Senhor ter dito da mulher que derramou o unguento balsâmico sobre a Sua cabeça que ela fez isto para o sepultamento d’Ele (Mt. 26:7, 12; Mc. 14:8; Jo. 12:7),
pois pela ‘unção’ é significada essa glorificação, e como daí o homem tem a salvação, por isso Ele disse a respeito daquela mulher:
“Amém vos digo, onde quer for pregado este evangelho em todo o mundo, contar-se-á também o que ela fez, em sua memória” (Mt. 26:13).
Isto também foi representado pelo fato de
O varão que foi lançado no sepulcro de Eliseu ter revivido, quando tocou os ossos dele (2 Re. 13:20, 21),
pois Eliseu representou o Senhor quanto ao Divino Vero e este faz a vida do céu na qual o homem ressurge.
[20] Visto que ‘ser sepultado’ e a ‘sepultura’ significam tanto a ressurreição na vida quanto a regeneração, por isso ‘não ser sepultado’ e ‘ser tirado dos sepulcros’ significam a não ressurreição para o céu nem a regeneração, mas a ressurreição para o inferno, por conseguinte, a danação, como nas passagens que se seguem. Em Isaías:
“Tu és lançado de teu sepulcro como rebento abominável, vestimenta dos mortos, dos traspassados à espada, os que descem às pedras da cova, como cadáver pisado. Não te ajuntarás aos que estão no sepulcro, pois tua terra destruíste, teu povo mataste. Não será nomeada eternamente a semente dos maliciosos” (Is. 14:19, 20).
Essas palavras são a respeito do rei de Babel, por quem é significada a profanação do Divino Vero. Por isso, ‘tu és lançado de teu sepulcro’ significa que é condenado ao inferno; ‘como rebento abominável, vestimenta dos mortos, dos traspassados à espada’ significa a falsificação do vero e a sua profanação; ‘rebento abominável’ é o vero falsificado; ‘vestimenta dos mortos, dos traspassados à espada’ é o vero adulterado e completamente destruído por falsos medonhos; ‘os que desceram às pedras da cova, como cadáver pisado’ significa ao inferno, onde estão os falsos do mal; ‘cadáver pisado’ significa o espírito infernal em quem tudo é espiritualmente morto por causa do bem completamente destruído; ‘não te ajuntarás aos que estão no sepulcro’ significa a não consociação com aqueles ressuscitaram para a vida, pois ‘estar no sepulcro’ ou ‘ser sepultado’ significa essa ressurreição e, vice versa, ‘lançado do sepulcro’, a danação; ‘destruíste a tua terra, mataste o teu povo’ significa que pelos falsos do mal destruiu a igreja e os que estão nos veros do bem ali; ‘não será nomeada eternamente a semente dos maliciosos’ significa a dissociação e a eterna separação.
[21] Em Jeremias:
“Jehovah disse a respeito dos filhos e das filhas que nasceram neste lugar, e a respeito de suas mães, que os pariram, e a respeito de seus pais, que os geraram nesta terra: De mortes dolorosas morrerão, de modo que não serão pranteados nem sepultados; serão para esterco, sobre as faces da terra, serão consumidos ou pela fome ou pela espada, para que o cadáver deles seja por comida às aves dos céus e às bestas da terra” (Jr. 16:3, 4).
Essas palavras são a respeito da igreja devastada quanto a todo bem e vero. Por ‘filhos e filhas’ e por ‘mães e pais’, no sentido espiritual, não se entendem filhos e filhas, mães e pais, mas os veros e bens da igreja, tanto exteriores quanto interiores; ‘filhos e filhas’ são os veros e bens exteriores; ‘mães e pais’ são os veros e bens interiores, que são chamados ‘mães e pais’ porque geram e produzem os exteriores. Que ‘morrerão de mortes dolorosas, de modo que não serão pranteados nem sepultados’ significa a condenação ao inferno por causa dos falsos medonhos; ‘serão para esterco sobre as faces da terra’ significa o infernal espúrio, que é o mal que conspurca o bem e o vero da igreja; ‘serem consumidos ou pela espada ou pela fome’ significa ser destruído pelos falsos e males; ‘para que o cadáver seja por comida às aves dos céus e às bestas da terra’ significa consumido e para ser ulteriormente consumido pelas cobiças do amor do falso e do mal.
[22] No mesmo:
“Vem um tumulto até o fim da terra, porque há um pleito de Jehovah contra as nações; entrará em juízo com toda carne, entregará os ímpios à espada. Os traspassados de Jehovah naquele dia estarão desde um fim da terra até [o outro] fim da terra; não serão pranteados, nem recolhidos, nem sepultados; serão por esterco sobre as faces da terra” (Jr. 25:31, 33).
Por essas palavras é descrita a devastação da igreja em seu fim, quando ocorre o juízo final. O ‘tumulto até o fim da terra, porque há pleito de Jehovah contra as nações’ significa a consternação de todos os que são igreja quando são visitados e os seus males são desvendados; ‘terra’ é a igreja, ‘nações’ são os que estão nos males e, abstratamente, os males, e o ‘pleito de Jehovah’ contra elas é a visitação e a desvendamento; ‘entrará em juízo com toda carne’ significa o juízo universal que acontece no fim da igreja; ‘entregará os ímpios à espada’ significa que os infiéis perecerão por seus falsos; ‘os traspassados de Jehovah naquele estarão desde um fim da terra até seu [outro] fim’ significa aqueles que perecem pelos falsos de todo gênero; ‘traspassados de Jehovah’ são os que perecem pelos falsos; ‘desde um fim da terra até o [outro] fim’ significa das primeiras às últimas coisas da igreja, assim, os falsos de todo gênero; ‘não serão pranteados, nem recolhidos, nem sepultados’ significa que não há mais restauração alguma nem salvação, mas condenação; ‘pranteado’ significa a dor por causa de tal estado do homem, e ‘não pranteado’ significa não haver dor, porque o homem é tal que não há restauração; ‘serão por esterco sobre as faces da terra’ significa meramente o falso e o mal, sem recepção alguma da vida do céu, porque o homem é meramente morto se não recebe a vida por meios dos veros da fé e dos bens da caridade, pois está meros falsos do mal e em males do falso, que são ‘o cadáver e o esterco sobre as faces da terra’.
[23] No mesmo:
“Contra os profetas que profetizam” mentira em nome de Jehovah: ... “Os povos, aos quais eles profetizam, serão atirados nas ruas de Jerusalém, por causa da fome e da espada; não haverá quem os sepulte, a eles, suas esposas, e os seus filhos e as suas filhas” (Jr. 14:15, 16);
‘não ser sepultado’, também aqui, está em lugar de não ressurgir para a vida, mas para a danação. (As demais coisas veem-se explicadas acima, n. 652). No mesmo:
“Naquele tempo... tirarão de seus sepulcros os ossos dos reis de Judah, e os ossos de seus príncipes, e os ossos dos sacerdotes, e os ossos dos profetas, e ossos dos habitantes de Jerusalém, e os espalharão ao sol e à lua e a todo o exército dos céus a que amaram e aos quais serviram, e após os quais andaram, e aos quais buscaram, e aos quais se curvaram. Não serão recolhidos nem sepultados; serão por esterco sobre as faces da terra” (Jr. 8:1, 2);
por ‘tirar os ossos dos sepulcros’ é significado dissociar dos povos, isto é, tirar da comunhão com aqueles que estão do céu e lançar fora, entre os condenados, o que acontece quando os maus entram nas sociedades dos bons e então são descobertos e lançados fora, porque isto se diz dos sepultados, os que ‘são ajuntados aos seus povos’, como se disse acima a respeito de Abrahão, Isaque e Jacob. Assim, ‘ser tirado dos sepulcros’ é ser expulso do meio deles. Todos os que são da igreja, e também todas as coisas da igreja, são significados pelos ‘reis, príncipes, sacerdotes, profetas e habitantes de Jerusalém’; pelos ‘reis’, os veros mesmo da igreja em todo o conjunto; pelos ‘príncipes, os veros principais; pelos ‘sacerdotes’, os bens da doutrina; pelos ‘profetas’, os veros da doutrina; pelos ‘habitantes de Jerusalém’, todas as coisas da igreja que daí dependem.
[24] Aqui, pelos ‘ossos deles’, que serão tirados, são significados os falsos e males, que nada têm em comum com os veros e bens; ‘espalhá-los ao sol, à lua e a todo o exército dos céus’ significa entrega-los aos amores diabólicos e, daí, aos males e falsos que vêm do inferno, pois o ‘sol’ significa o amor em ambos os sentidos, a ‘lua’ a fé, em ambos os sentidos, derivada desse amor, e o ‘exército dos céus’ os falsos e males de todo gênero; aqui, pois, ‘espalhar os seus ossos’ é entregá-los completamente, para que não sejam senão amores e cobiças do mal e do falso; ‘a que amaram, aos quais serviram, e após os quais andaram, aos quais buscaram, e aos quais se curvaram’ significa a afeição e a inclinação exteriores e interiores, e o culto daí; ‘não serão recolhidos, nem serão sepultados’ significa que nunca retornarão às sociedades que são do céu, mas permanecerão entre os que estão no inferno; ‘serão por esterco sobre as faces da terra’ tão morto e imundo que é lançado fora e pisado. Por aí se pode ver o que é significado por
O rei Josias tirar os ossos do sepulcro e os queimar sobre o altar (2 Re. 23:16);
Os cães devorarem Jezabel no campo, sem haver quem a sepultasse (2 Re. 9:10);
Jeoiaquim, filho de Josias, rei de Judah, ser sepultado em sepulcro de jumento, arrastado e lançado além das portas de Jerusalém (Jr. 22:19).
[25] Algo semelhante é significado por ‘ser sepultado em Thophet’ e ‘no vale de Hinnom’, em Jeremias:
“Eis que dias vêm... em que não se dirá mais Thophet, ou vale do filho de Hinnom, mas vale de matança; e sepultarão em Thophet, por não haver lugar; e o cadáver deste povo será por comida às aves do céu e à besta da terra, sem haver quem as afugente" (Jr. 7:32, 33);
e, no mesmo:
“Quebrarei este povo e esta cidade como se quebra um vaso do oleiro, que não se pode mais consertar, e sepultarão em Thophet, por não haver lugar para ser sepultado... e porei esta cidade como Thophet” (Jr. 19:11, 12);
‘Thophet’ e ‘vale de Hinnom’ significavam os infernos; ‘Thophet’ o inferno de trás, que é chamado ‘diabo’ e ‘vale de Hinnom’ o inferno defronte, que é chamado ‘satanás’, porque todos os lugares na cidade de Jerusalém e fora dela correspondiam a lugares no mundo espiritual. Nesse mundo, as habitações são segundo a ordem Divina; no meio estão os que se acham na máxima luz, ou sabedoria, nos limites os que estão na mínima; ao oriente e ocidente, os que estão no amor, ao meio-dia e ao setentrião, os que estão na inteligência. Qual é a ordenação em todo o céu, tal é também em cada sociedade ali, tal é cada cidade e ali e, semelhantemente, também em cada casa, e isto porque as formas menores nos céus são todas semelhanças da forma máxima. E como ‘Jerusalém’ significava o céu e a igreja quanto à doutrina, assim também eram representativos os lugares ali em relação às regiões e às distâncias desde templo e desde Sião. Por isso, como Thophet e o vale de Hinnom eram lugares imundíssimos e atrozmente idolátricos, estes representavam e, daí, significavam os infernos. Por aí é evidente o que significa ‘ser sepultado em Thophet e no vale de Hinnom’.

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