. “Dizendo: Os reinos do mundo tornaram-se de nosso Senhor e de Seu Cristo”. Que isto signifique todas as coisas nos céus e nas terras sujeitas ao Senhor, quando os maus foram separados dos bons, e o Divino Bem e o Divino Vero procedentes do Senhor foram claramente recebidos, vê-se pela significação de ‘reinos do mundo’ quando se tornaram do Senhor, que é o Divino procedente do Senhor sendo recebido pelo amor e pela fé (de que se tratará a seguir); e pela significação de ‘do Senhor e de Seu Cristo’, que é o Senhor quanto ao Divino Bem do Divino Amor e quanto ao Divino Vero procedente desse Amor. Ver-se-á abaixo que o Senhor é chamado ‘Senhor’ por causa do Divino Bem, e ‘Cristo’ por causa do Divino Vero.
[2] Que o ‘reino do Senhor’ seja a recepção do Divino Bem e do Divino Vero, assim, naqueles que recebem, pode-se ver pelo fato de que nos anjos do céu e nos homens da igreja o Senhor reina por meio daquilo que procede d’Ele, o que comumente se chama Divino Bem e Divino Vero, como também justiça e juízo e, ainda, amor e fé. São estas as coisas pelas quais o Senhor reina e, por conseguinte, são propriamente o reino do Senhor propriamente naqueles que as recebem, pois quando elas reinam nos anjos e nos homens, então o Senhor mesmo reina, já que as coisas que procedem d’Ele são Ele mesmo. O Senhor no céu não é outro senão o Divino procedente.
[3] De fato, o Senhor governa são só aqueles que recebem d’Ele as coisas Divinas celestes e espirituais, mas também aqueles que as não recebem, como é o caso de todos no inferno. Todavia, não se pode dizer que aí haja o reino do Senhor, porquanto não querem ser governados pelo Divino que procede e segundo as suas leis da ordem, e mesmo negam o Senhor e se afastam d'Ele. Não obstante, o Senhor os governa, não como súditos e cidadãos do reino, mas como refratários e rebeldes, mantendo-os em vínculos para que façam mal a si mesmos mutuamente e principalmente àqueles que são do Seu reino.
[4] Que o reino do Senhor seja aquilo que procede d’Ele e é recebido pode-se ver pelas passagens na Palavra onde o ‘reino de Deus’ é mencionado, como na oração do Senhor:
“Venha o Teu reino, seja feita a Tua vontade, como no céu também na terra” (Mt. 6:10).
Que pelo ‘reino’ aí entenda-se a recepção do Divino Bem e do Divino Vero, que procedem do Senhor e nos quais o Senhor está nos anjos do céu e nos homens da igreja é evidente, pois se segue: ‘seja feita a Tua vontade, como no céu também na terra’. A vontade de Deus é feita quando essas coisas são recebidas de coração e alma, isto é, pelo amor e pela fé.
[5] E, em outra passagem:
“Buscai primeiro o reino dos céus e a sua justiça, então... todas as coisas vos serão acrescentadas” (Mt. 6:33).
Pelo ‘reino dos céus’ entende-se, no sentido espiritual, o Divino Vero, e pela ‘justiça’ o Divino Bem, pelo que se diz: ‘Buscai primeiro o reino dos céus e a sua justiça’; e, no sentido supremo, pelo ‘reino dos céus’ entende-se o Senhor, porquanto Ele é tudo em todo o Seu reino, e pela ‘justiça’, no mesmo sentido, é significado o mérito do Senhor. E visto que o homem que é governado pelo Senhor não quer nem ama senão as coisas que são do Senhor, ele é conduzido, sem que o saiba, às coisas felizes na eternidade. Por isso se diz que ‘todas as coisas lhe serão acrescentadas’, pelo que se entende que todas as coisas que contribuem para a sua salvação sucederão segundo o seu desejo. (???)
[6] Visto que o céu é céu pela recepção do Divino Vero proveniente do Senhor, do mesmo modo que a igreja, por isso o céu e a igreja se entendem no sentido comum pelo ‘reino de Deus’ e pelo ‘reino dos céus’; por isso aqueles que recebem o Divino Vero são chamados ‘filhos do reino’, em Mateus:
“O campo é mundo, a semente... são os filhos do reino, o joio são os filhos do mal” (Mt. 13:38).
É evidente que aqueles que recebem o Divino Vero se entendem pelos ‘filhos do reino’, pois se diz que ‘a semente são os filhos do reino, e o joio são os filhos do mal’; pela ‘semente’ se entende o Divino Vero e pelo ‘joio’ o falso infernal. E são chamados ‘filhos’ porque ‘filhos, no sentido espiritual da Palavra, significam os veros e, no sentido oposto, os falsos, conforme se vê acima (n. 166).
[7] Além disso, que o ‘reino de Deus’ signifique a igreja quanto aos veros do bem, e também o céu, vê-se também acima (n. 48); e que o ‘reino de Deus no homem’ signifique estar pelo Senhor nos veros do bem, assim, na sabedoria e, daí, no poder de resistir aos falsos e males, e que, assim, ‘reinar’ se atribua somente ao Senhor, também acima (n. 333).
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