AE 684

Apocalipse Explicado
Emanuel Swedenborg
Explicatione super Apocalypsin — Interpretacao Espiritual do Livro da Revelacao

. É dito que ‘os reinos do mundo tornaram de nosso Senhor e de Seu Cristo’ e por isso é significado que então o Divino Bem e o Divino Vero são recebidos quando os maus foram separados dos bons e lançados no inferno, porque então os céus, tanto os superiores quanto os inferiores, podem estar na iluminação e, assim, na percepção do bem e do vero. Isto não acontecer enquanto os maus estão conjuntos aos bons, pois enquanto não podem ser abertos os interiores dos anjos que estão nos céus inferiores, mas somente os seus exteriores; e o Senhor não reina nos externos separados dos internos nos espíritos e nos homens, mas nos internos e, por estes, nos externos. Por isso, antes de serem abertos os interiores dos anjos do céu mais externo, interiores esses que são espirituais e celestes, esse céu não é o reino do Senhor tal como se tornou depois da separação dos maus do meio deles.
[2] É dito que ‘os reinos do mundo tornaram-se do nosso Senhor e de Seu Cristo’, e pelo ‘Senhor’, aí, entende-se o mesmo que por ‘Jehovah’ no Velho Testamento e por ‘Pai’ no Novo, a saber, o Senhor quanto ao Divino mesmo e, também, quanto ao Divino Bem. E por ‘Cristo’ se entende o mesmo que por ‘Deus’ no Velho Testamento e por ‘Filho de Deus’ no Novo, a saber, o Senhor quanto ao Divino Humano e, também, quanto ao Divino Vero. Com efeito, por ‘Cristo” é significado o mesmo que por ‘Ungido’, ‘Messias’ e ‘Rei’, e por ‘Ungido, Messias e Reis’ entende-se o Senhor quanto ao Divino Vero e, também, quanto ao Divino Humano quando esteve no mundo, pois então o Senhor quanto ao Seu Humano era o Divino Vero. Assim, pois, o mesmo é significado por ‘Ungido de Jehovah’, pois o Divino mesmo, que é chamado ‘Jehovah’ e ‘Pai’, e que em Sua essência era o Divino Bem do Divino Amor, ungiu o Divino Humano, que é chamado ‘Filho Deus’ e era, em Sua essência, o Divino Vero, quando esteve no mundo. Com efeito, a ‘unção’ significava que o Divino Humano do Senhor procederia de Seu Divino mesmo, por conseguinte, o Divino Vero de Seu Divino Bem mesmo.
[3] Daí é evidente que só o Senhor quanto ao Divino Humano foi essencialmente o ‘Ungido de Jehovah’, e que os reis e sacerdotes foram chamados ‘ungidos de Jehovah’ representativamente, pois o ‘óleo’ com que se fazia a unção significava o Divino Bem do Divino Amor. Ora, visto que no Senhor era o Divino Vero que era ungido pelo Divino Bem, daí vem que por ‘Cristo’ e, semelhantemente, ‘Messias’ e ‘Ungido’, como também ‘Rei’, é significado o Divino Vero procedente do Divino Bem do Divino Amor. Que isto seja assim pode-se ver pelas passagens na Palavra onde se nomeiam ‘Cristo’, ‘Messias’ e ‘Ungido’.
[4] Que ‘Cristo’ seja ‘Messias’ ou ‘Ungido’ vê-se em João:
André “encontrou o seu irmão, Simão, e lhe disse: Achamos o Messias, que é, se traduzires, Cristo” (Jo. 1:41);
e, no mesmo:
A mulher samaritana disse: “Sei que vem o Messias, que é chamado Cristo” (Jo. 4:25),
pelo que é evidente que o Senhor é chamado ‘Cristo’ pelo fato de ser o Messias, cujo advento foi predito na Palavra do Velho Testamento, pois ‘Ungido’ se diz ‘Cristo’ na língua grega e ‘Messias’ na hebraica, e o rei é ungido. Daí é que o Senhor é chamado ‘Rei de Israel’ e ‘Rei dos judeus’, o que também declarou diante de Pilatos, donde foi escrito na cruz:
“Rei dos Judeus” (Mt. 27:11, 29, 37, 41; Lc. 23:1-4, 35-40);
e em João:
“Disse Natanael:... Tu és o Filho de Deus, o Rei de Israel” (Jo. 1:48).
[5] E visto que ‘Ungido’, ‘Cristo’, ‘Messias’ e ‘Rei’ são sinônimos, assim também ‘Filho de Deus’, e cada um desses nomes significa no sentido espiritual o Divino Vero. Que ‘Rei’ signifique isso vê-se acima (n. 31, 553 e 625). Que ‘Filho de Deus’ também o signifique é porque os ‘filhos’ significam na Palavra os veros; assim, ‘Filho de Deus’ significa o Divino Vero. Que ‘filhos’ signifiquem os veros vê-se acima (n. 166). O mesmo é também significado por ‘Cristo’ e por ‘Messias’.
[6] Que ‘Cristo’ signifique o Divino Vero vê-se em Mateus:
“Não queirais ser chamados rabi; um é vosso Mestre, o Cristo” (Mt. 23:8);
por ‘rabi’ e ‘mestre’ é significado aquele que ensina a Palavra, assim, abstratamente, a doutrina do Vero e, no sentido supremo, o Divino Vero, que é Cristo. Que seja somente o Divino Vero é o que se entende por ‘Não queirais ser chamados rabi; um é vosso Mestre, o Cristo’.
[7] No mesmo:
“Vede que ninguém vos seduza, pois muitos virão em Meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo, e seduzirão a muitos. ... Se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo, ou ali, não creiais, porque surgirão falsos cristos e falsos profetas” (Mt. 24:4, 5, 23, 24; Mc. 13:21-23).
Por essas palavras não se deve entender que surgirão os que se dizem Cristo ou cristos, mas que falsificarão a Palavra e dirão que isto ou aquilo é o Divino Vero, quando não é. Os que confirmam os falsos pela Palavra se entendem pelos ‘pseudocristos’, e os que extraem falsos da doutrina pelos ‘pseudoprofetas’, pois nesses dois capítulos se trata da sucessiva devastação da igreja, assim, da falsificação da Palavra e, finalmente, da profanação do vero aí. (Essas coisas, porém, se veem amplamente explicadas nos Arcanos Celestes, n. 3353-3356 e 3897-3901).
[8] E visto que ‘Filho de Deus’ também significa o Divino Vero, como foi dito há pouco, por isso algumas vezes se diz:
‘Cristo, o Filho de Deus” (Mt. 26:63; Mc. 14:61; Lc. 4:41; 22:66 ao fim, Jo. 6:69; 11:26, 27; 20:31).
Em suma, o fato de o Senhor no mundo ter sido chamado ‘Cristo’, ‘Messias’, ‘Ungido’ e ‘Rei’ era n’Ele, só, estava o Divino Bem do Divino Amor, do qual procede o Divino Vero, e isto era representado pela unção, pois o ‘óleo’ com que se fazia a unção significava o Divino Vero. Por isso os reis, quando eram ungidos, representavam o Senhor e eram chamados ‘ungidos de Jehovah’. Contudo, somente o Senhor quando ao Divino Humano foi o Ungido de Jehovah, porque o Divino Bem do Divino Amor estava n’Ele, e este era Jehovah e Pai, do qual o Senhor teve o Ser da vida, pois se sabe que foi concebido de Jehovah. Assim, pelo Divino Bem do Divino Amor, que estava n’Ele pela concepção, o Senhor o Divino Vero quanto ao Seu Humano, quando esteve no mundo. Por aí se pode ver que somente o Senhor foi essencialmente o Ungido de Jehovah, e os reis foram chamados ‘ungidos de Jehovah’ representativamente. Daí é, agora, que o Senhor, quanto ao Divino Humano, foi chamado ‘Messias’ e ‘Cristo’, isto é, ‘Ungido’.
[9] Isto se pode ver também pelas passagens que se seguem. Em Isaías:
“O Espírito do Senhor Jehovih está sobre Mim; por isso Jehovah Me ungiu para evangelizar aos pobres, enviou-Me para ligar os quebrantados de coração, para pregar a liberdade aos cativos, aos presos, olhos ao cego [???]; para proclamar o ano do beneplácito de Jehovah e o dia da vingança de nosso Deus, e para consolar todos os que choram” (Is. 61:1, 2).
Essas palavras são ditas claramente a respeito do Senhor. Foi o Seu Divino Humano que o Senhor Jehovih ungiu para evangelizar os pobres e O enviou para ligar os quebrantados de coração e várias outras coisas, pois o Senhor as operou por Seu Humano. (Mas cada uma delas aí se veem explicadas acima, n. 183, 375 e 612).
[10] Em David:
“[Por que] se tumultuaram as nações, e o povos meditam vaidade? Estabeleceram os reis da terra, e os dominadores conspiraram juntamente contra Jehovah e contra Seu Ungido. ... Eu ungi o Meu Rei sobre Sião, monte de Minha santidade. Anunciarei o estatuto. Jehovah Me disse: Tu és Meu Filho, Eu hoje Te gerei; pede-Me, e darei as nações por Tua herança, e os fins da terra por Tua possessão. ... Beijai o Filho, para que não Se ire, e pereçais no caminho, porque em breve se abrasará a Sua ira. Bem-aventurados todos os que n’Ele confiam” (Sl. 2:1, 2, 6-8, 12).
É evidente que pelo ‘Ungido de Jehovah’ se entende o Senhor quanto ao Divino Humano, pois é dito: ‘Jehovah Me disse: Tu és Meu Filho, Eu hoje Te gerei; beijai o Filho, para que não pereçais. Bem-aventurados todos os que n’Ele confiam’. De fato, no sentido da letra essas palavras se dizem de David, mas por ‘David’, na Palavra, entende-se o Senhor quanto ao Divino Vero ou como Rei (vide acima, n. 205). E é também evidente que aí se trata do advento do Senhor e, finalmente, do juízo vindo d’Ele e, depois, de Seu reino sobre todas as coisas do mundo.
[11] As coisas espirituais que se encerram e são significadas em cada uma dessas expressões são estas: ‘As nações se tumultuaram, e os povos meditam vaidade’ significa o estado da igreja e do primeiro céu que passou; ‘nações’ são os que estão nos males, e ‘povos’ os que estão nos falsos (vide acima, n. 175, 331 e 625); ‘estabeleceram os reis da terra, e os dominadores conspiraram juntamente contra Jehovah e contra Seu Ungido’ significa os falsos da igreja e os seus males, que são inteiramente contra o Divino Bem e contra o Divino Vero, assim contra o Senhor; os ‘reis da terra’ são os falsos da igreja, os ‘dominadores’ são os seus males, ‘Jehovah’ é o Senhor quanto ao Divino mesmo, assim, quanto ao Divino Bem, e ‘Ungido’ é o Senhor quanto ao Divino Humano, assim, quanto ao Divino Vero.
[12] “Eu ungi Meu Rei sobre Sião, o monte de Minha santidade’ significa o Humano do Senhor quanto ao Divino Vero procedente do Divino Bem do Seu Divino Amor e, daí, o Seu reino sobre todas as coisas do céu e da igreja; ‘Sião’ e ‘monte de santidade’ são o céu e a igreja, por conseguinte, todas as coisas do céu e da igreja; ‘anunciarei o estatuto’ significa o arcano da providência e da vontade Divina; ‘Jehovah Me disse: Tu és Meu Filho, Eu hoje Te gerei’ significa o Senhor como Ungido, Messias, Cristo e Rei, assim, quanto ao Seu Humano concebido e então nascido do Divino mesmo ou Jehovah; ‘hoje’ significa o que é estatuído de eternidade, e considera daí a conjunção e a união efetuadas no tempo.
[13] ‘Pede-Me, e darei as nações por Tua herança, e os fins da terra por Tua possessão’ significa o Seu reino e domínio sobre todas as coisas do céu e da igreja, que serão d’Ele; ‘beijai o Filho’ significa a conjunção com o Senhor pelo amor (‘beijar’ significa a conjunção pelo amor); ‘para que não se ire, e pereçais no caminho’ significa para que os males vos não invadam e sejais condenados, pois ‘irar-se’, onde se trata do Senhor, significa a aversão dos homens para com Ele, assim, a ira deles e não do Senhor; e são os males que se daí e, daí, se iram; ‘porque em breve se acenderá a Sua ira’ significa o juízo final e a expulsão dos maus ao inferno; ‘bem-aventurados os que n’Ele confiam’ significa a salvação pelo amor e pela fé no Senhor.
[14] No mesmo:
“És muito mais belo que os filhos dos homens; a graça se derramou sobre os Teus lábios; ... cinge a Tua espada à coxa, ó Poderoso em Tua glória [decore] em Tua honra; e em Tua honra monta, cavalga sobre a palavra da verdade e da mansidão de justiça, e Tua destra Te ensinará maravilhas. Agudas são as Tuas flechas; os povos cairão debaixo de Ti, os adversários do Rei de coração. Teu trono, ó Deus, está no século e na eternidade. Cetro de retidão é o cetro do Teu reino. Amaste a justiça e tiveste ódio ao mal. Por isso Deus, o Teu Deus, Te ungiu com óleo de regozijo mais do que teus companheiros; mirra, aloé e cássia em todas as Tuas vestes. ... As filhas do reino estão entre as Tuas preciosidades. Estabelece a rainha à Tua direita em ouro fino de Ofir” (Sl. 45:2-9).
Que também essas palavras tenham sido ditas a respeito do Senhor é evidente por cada uma das coisas nesse Salmo. Assim, é a respeito d’Ele que se diz: ‘Ungiu-Te Deus, o Teu Deus, com óleo de regozijo, mirra, aloé e cássia; e todas as Tuas vestes’. O que isto significa pode-se ver pela série, a saber, que a Ele pertença a Divina Sabedoria e d’Ele venha a doutrina do Divino Vero é significado por ‘és muito mais belo que os filhos dos homens, a graça se derramou sobre os Teus lábios’; ‘belo’ significa a sabedoria, ‘filhos dos homens’ significam os que são inteligentes nos Divinos veros e ‘lábios’ significam as coisas doutrinais.
[15] A Sua onipotência pelo Divino Vero procedente do Divino Bem e, daí, a destruição dos falsos e dos males, e a subjugação dos infernos, são significadas por ‘cinge a espada à coxa, ó Poderoso em glória e honra, e na Tua honra monta, cavalga sobre a palavra da verdade... a Tua destra Te ensinará maravilhas; agudas são as Tuas flechas; os povos cairão debaixo de Ti, os inimigos do Rei de coração’; pela ‘espada’ é significado o vero que luta contra o falso e o destrói; pelo ‘carro’, a doutrina do vero, do mesmo modo que pela ‘palavra da verdade’; por ‘cavalgar’ é significado instruir e lutar; pela ‘destra’ a onipotência; pelas ‘flechas’ são significados os veros que lutam; pelos ‘povos’ os que estão nos falsos do mal, e pelos ‘adversários do Rei’ os que são contra os veros, assim, os infernos.
[16] Que daí Ele tenha o reino e o domínio na eternidade é significado por ‘Teu trono, ó Deus, está no século e na eternidade; cetro de retidão é o cetro do Teu reino’; ‘cetro de retidão’ é o Divino Vero, ao qual pertence o poder e o reino. Visto que libertou os bons da danação ao destruir os males pelo fato de o Divino mesmo ter-se unido ao Seu Humano, isto é significado por ‘amaste a justiça e tiveste ódio ao mal; por isso Deus, o Teu Deus, Te ungiu com óleo de regozijo mais do que os teus companheiros’; ‘amar a justiça e te ódio ao mal’ significa libertar os bons da danação destruindo os males; ‘ungir com óleo de regozijo’ significa unir-Se por meio de vitórias nas tentações; ‘Deus, o Teu Deus’ significa a união recíproca do Humano com o Divino e do Divino com o Humano.
[17] Os Divinos veros unidos aos Divinos bens são significados por ‘ungiu com mirra, e aloé e cássia, todas as Tuas vestes’; ‘mirra’ significa o bem do último grau, ‘aloé’ o bem do segundo, e ‘cássia’ o bem do terceiro, semelhantemente a essas três coisas aromáticas misturadas ao óleo de oliva, donde se tinha o ‘óleo de santidade’ com que se fazia a unção (Êx. 30:23, 24); esse ‘óleo’ significava o Divino Bem do Divino Amor, e as ‘vestes’ que eram ungidas significam os Divinos veros.
[18] Que aqueles que são de Seu reino tenham afeições espirituais do vero é significado por ‘as filhas do reino entre as Tuas preciosidades’; as ‘filhas do reino’ são as afeições espirituais do vero, que são chamadas ‘preciosas’ quando os veros são genuínos. Que o céu e a igreja estejam sob a Sua proteção e a Ele conjuntos porque estão no amor a Ele e oriundo d’Ele é significado por ‘a rainha à Tua direita em ouro fino de Ofir’; a ‘rainha’ significa o céu e a igreja, ‘à direita’ significa na proteção pela conjunção com Ele, e ‘ouro fino de Ofir’ é o bem do amor ao Senhor.
[19] No mesmo:
“Firmei aliança com Meu eleito, jurei a David, Meu servo: até à eternidade estabelecerei a Tua semente, e edificarei em geração e geração o Teu trono. ... Falaste em visão ao Teu Santo, e disseste: Pus auxílio no poderoso, exaltei o eleito dentre o povo, achei David, Meu servo; com o óleo de Minha santidade O ungi, com quem Minha mão será firme, também o Meu braço O fortalecerá; ... Esmagarei diante d’Ele os Seus adversários, e aos que O odeiam ferirei;... porei no mar a Sua mão, e nos rios a Sua direita; Ele Me chamará: Meu Pai és Tu, ó Meu Deus, e a Rocha de Minha salvação. Eu O porei também por Primogênito, mais alto que os reis da terra;... e Minha aliança será firme com Ele. E porei na eternidade a Sua semente, e o Seu trono como os dias dos céus. ... Uma vez jurei por Minha santidade, não mentirei a David, Sua semente estará na eternidade, e Seu trono como sol diante de Mim, como a lua, firme na eternidade, testemunha fiel nas nuvens” (Sl. 9:3, 4, 19-21, 23, 25-29, 35-37).
Que por ‘David’ aqui não se entenda David, mas o Senhor quanto ao Seu reino, que é o Divino espiritual e se chama Divino Vero, é vê-se ainda mais evidentemente pelas coisas que aí se dizem a respeito de David, a saber, que ‘sua semente e seu trono serão como os dias dos céus, e como sol e a lua na eternidade, que ‘porá no mar a mão e nos rios a destra’, que ‘chamará a Jehovah de Pai’ e que ‘será primogênito mais alto que os reis da terra’, além de muitas outras coisas que não podem ser ditas a respeito de David, de seus filhos e de seu trono. Que por ‘David’ se entenda na Palavra o Senhor vê-se acima (n. 205).
[20] Mas, quanto a cada uma das coisas: ‘Firmei aliança com Meu eleito, jurei a David, Meu servo’ significa a união do Divino mesmo com o Humano; ‘firmar aliança’ significa unir-se, ‘jurar’ significa confirmar a união, ‘eleito’ se diz por causa do bem e ‘servo’ por causa do vero; ‘até à eternidade estabelecerei a Tua semente, e edificarei em geração e geração o Teu trono’ significa o Divino Vero e o céu e a igreja provenientes d’Ele; ‘semente’ é o Divino Vero e são aqueles que recebem, e ‘trono’ é o céu e a igreja.
[21] ‘Falaste em visão ao Teu Santo’ significa o arcano profético sobre o Senhor; ‘Pus auxílio no poderoso, exaltei o eleito dentre o povo’ significa o Divino Vero pelo qual o Divino Bem opera todas as coisas; este se chama ‘auxílio no poderoso’ e, em outras passagens, ‘destra de Jehovah’; a Divina majestade e o poder por este é significado pela ‘exaltação do eleito dentre o povo’; ‘achei David, Meu servo, com o óleo de santidade O ungi’ significa o Senhor quanto ao Divino Humano e a união com o Divino mesmo, união essa que se chama glorificação, na Palavra do Novo Testamento; essa união se entende por ‘ungi com óleo de santidade’, pois ‘óleo de santidade’ significa o Divino Bem do Divino amor, e ‘ungi’ significa unir-se ao Divino Vero, que foi do Humano do Senhor no mundo.
[22] ‘Com quem Minha mão será firme, também o Meu braço O fortalecerá’ significa a onipotência daí; ‘mão’ significa a onipotência do vero oriundo do bem, e ‘braço’ a onipotência do bem por meio do vero; ‘esmagarei diante d’Ele os Seus adversários, e aos que O odeiam ferirei’ significa a luta com a vitória contra os falsos e males, assim, contra os infernos.
[23] ‘Porei no mar a Sua mão, e nos rios a Sua direita’ significa a extensão do domínio e do reino d’Ele sobre todas as coisas do céu e da igreja, pois os ‘mares’ e os ‘rios’ são os últimos do céu, e os últimos significam todas as coisas; ‘Ele Me chamará: Meu Pai és Tu, ó Meu Deus, e a Rocha de Minha salvação’ significa o Divino Humano, que é o Filho de Deus, que foi concebido e então gerado d’Ele; e visto que daí houve para o Humano do Senhor o Divino Vero e o Divino poder, Ele é também chamado ‘Deus’ e ‘Rocha da salvação’; ‘Eu O porei também por Primogênito, mais alto que os reis da terra’ significa que, assim, está acima de todo bem e vero do céu e da igreja, porque os bens e veros aí são provenientes d’Ele; ‘e Minha aliança será firme com Ele’ significa a união eterna; ‘porei na eternidade a Sua semente, e o Seu trono como os dias dos céus’ significa aqui como acima; ‘dias dos céus’ são os estados de todos os céus, que vêm do Seu Divino.
[24] ‘Uma vez jurei por Minha santidade, não mentirei a David’ significa a confirmação eterna, porque vem do Divino a respeito do Senhor e da união de Seu Humano com o Divino mesmo; ‘Sua semente estará na eternidade, e Seu trono como sol diante de Mim, como a lua, firme na eternidade’, semelhantemente ao que se diz acima, onde se diz da ‘semente’ e do ‘trono’, ‘como o sol e a lua’, porque ‘sol’ se atribui (???) à eternidade quanto ao Divino Bem, e ‘lua’ (???) quanto ao Divino Vero, pois estes são significados por ‘sol’ e lua’; ‘testemunha fiel nas nuvens’ significa o reconhecimento e a confissão pela Palavra a respeito do Divino no Humano do Senhor; que isto seja a ‘testemunha nas nuvens’ vê-se acima (n. 10, 27, 228, 392 e 649).
[25] No mesmo:
“Lembra, ó Jehovah, a David, todo o seu labor; que jurou a Jehovah, fez voto ao Forte de Jacob: Se eu entrar na tenda de minha casa, se subir no estrado do meu leito... antes que tenha encontrado um lugar para Jehovah, habitáculos para o Forte de Jacob. Eis que ouvimos sobre Ele em Efrata, encontramo-Lo nos campos da floresta. Entraremos em Seus habitáculos, curvar-nos-emos no escabelo de Seu pés. Levanta-Te, Jehovah, ao lugar de Teu repouso, Tua e a arca de Tua fortaleza. Teus sacerdotes se vestem de justiça, e Teus santos jubilarão. Por causa de David, Teu servo, não desvies as faces de Teu Ungido”. … Em Sião “farei germinar o chifre de David, prepararei uma lâmpada para Meu Ungido; vestirei de vergonha os Seus adversários, mas sobre Ele florescerá a Sua coroa” (Sl. 132:1-3, 5-10, 17, 18).
Também aqui, por ‘David’ e ‘Ungido’, ou Cristo, não se entende David, mas o Senhor quanto ao Divino Humano, pois se diz que ‘Seus habitáculos’, ou seja do Forte de Jacob, ‘são achados em Efrata’, que é Belém, e que ‘curvar-se-iam ao escabelo de Seus pés’. Que seja assim, por cada uma das coisas explicadas em ordem ficará mais evidente.
[26] ‘Que jurou a Jehovah, fez voto ao Forte de Jacob’ significa a afirmação irrevocável diante do Senhor, que é chamado ‘Jehovah’ por causa do Divino nos primeiros, e ‘Forte de Jacob’ por causa do Divino nos últimos, nos quais o Divino poder está em sua plenitude. ‘Se eu entrar na tenda de minha casa, se subir no estrado do meu leito’ significa que não entrará nas coisas que são da igreja e as que são de sua doutrina, nem as conhecerá; ‘tendas da casa’ significa as coisas santas da igreja, e ‘estrado do leito’ a sua doutrina; ‘antes que tenha encontrado um lugar para Jehovah, habitáculos para o Forte de Jacob’ significa antes de Eu conhecer o advento do Senhor e os arcanos da união de Seu Humano com o Divino. Estes são, no sentido supremo, o ‘lugar de Jehovah’ e os ‘habitáculos’ do Divino Humano do Senhor.
[27] ‘Eis que ouvimos sobre Ele em Efrata, encontramo-Lo nos campos da floresta’ significa no sentido espiritual da Palavra e também no natural, pois ‘Efrata’ e Belém’ significam o espiritual natural, e ‘campos da floresta’ o natural, uns e outros da Palavra, onde o Senhor é encontrado; ‘entraremos em Seus habitáculos, curvar-nos-emos no escabelo de Seu pés’ significa que aí Ele é encontrado, pois Ele é a Palavra; ‘Seus habitáculos’ aí são as coisas que pertencem ao sentido espiritual da Palavra, por conseguinte ao céu, pois estas são o sentido espiritual da Palavra; e ‘escabelo dos Seus pés’ são as coisas que pertencem ao sentido natural da Palavra, e, por conseguinte, é também a igreja, porque na igreja estão os Divinos veros nos seus últimos, que servem de escabelo dos pés às coisas espirituais da Palavra e dos céus, assim, ao Senhor mesmo, que neles habita.
[28] ‘Levanta-Te, Jehovah, ao lugar de Teu repouso, Tua e a arca de Tua fortaleza’ significa a união de Seu Divino com o Humano no Senhor e, daí, a paz em todos no céu e na igreja; o ‘repouso de Jehovah’ é essa união, e a ‘arca de Sua fortaleza’ é o céu e a igreja; ‘Teus sacerdotes se vestem de justiça, e Teus santos jubilarão’ significa daí o culto pelo amor dos que estão no bem celeste e o culto pela caridade dos que estão no bem espiritual, pois ‘sacerdotes’ são os que estão no reino celeste do Senhor, e chamam-se ‘santos’ os que estão no reino espiritual.
[29] ‘Por causa de David, Teu servo, não desvies as faces de Teu Ungido’ significa para que sejam inflamados pelo amor e iluminados pela luz do vero, quando o Divino Bem unir-se ao Divino Vero no Senhor, assim, o Divino mesmo ao Humano e o Humano ao Divino, pois ‘David’, como ‘servo’ significa o Humano do Senhor quanto ao Divino Vero, ‘Ungido’ significa este unido ao Divino Bem; ‘Suas faces’ significam o Divino amor e a iluminação daí; ‘em Sião farei germinar o chifre de David’ significa o poder do Divino Vero vindo d’Ele no céu e na igreja; ‘prepararei uma lâmpada para Meu Ungido’ significa a iluminação do Divino Vero pela união do Divino e do Humano no Senhor; ‘lâmpada’ é o Divino Vero quanto à iluminação; ‘vestirei de vergonha os Seus adversários’ significa a subjugação dos infernos e a dissipação dos males ali; ‘mas sobre Ele florescerá a Sua coroa’ significa a eterna e perpétua vitória sobre eles.
[30] Por essas passagens citadas pode-se ver que o Senhor é chamado ‘Ungido’, que é Messias ou Cristo’, por causa da união do Divino Bem com o Divino Vero no Seu Humano, pois por essa união o Humano do Senhor entende-se pelo ‘Ungido de Jehovah’.
[31] Semelhantemente, no Primeiro Livro de Samuel:
“Jehovah julgará os fins da terra, e dará força ao Seu Rei, e exaltará o chifre de Seu Ungido” (1 Sm. 2:10).
Essas palavras estão na profecia de Hannah, mãe de Samuel, antes que houvesse um rei ou ungido sobre Israel. Assim, por ‘Rei’ e ‘Ungido’ aí entende-se o Senhor, ao qual ‘foi dada a força’ e ‘exaltado o chifre’ quando o Divino foi unido ao Humano; pela ‘força’ é significado o poder do bem sobre o mal, e pelo ‘chifre’ o poder do vero sobre o falso. Diz-se do vero que ‘é exaltado’ quando se torna interior e também se torna no mesmo grau mais poderoso.
[32] Semelhantemente é a significa de ‘Ungido’ nas Lamentações:
“O fôlego de nossas narinas, o Ungido de Jehovah, foi capturado nas covas deles; a respeito d’Ele disséramos: À Sua sombra viveremos entre as nações" (Lm. 4:20);
pelo ‘Ungido de Jehovah’, aqui, entende-se, no sentido da letra, o rei que foi capturado, mas no sentido espiritual entende-se o Senhor, pelo que é chamado ‘fôlego de nossas narinas’, isto é, a vida da percepção do bem e do vero; ‘capturado nas covas’ significa rejeitado por aqueles que estão nos falsos do mal; ‘covas’ são os falsos da doutrina; ‘viver à Sua sombra’ significa estar sob Sua proteção contra os falsos do mal, que são as ‘nações’.
[33] Visto que por ‘Ungido’, ‘Messias’ ou ‘Cristo’ é significado o Senhor quanto ao Divino Humano, assim, quanto ao Divino Bem unido ao Divino Vero, por isso a ‘unção’ significa essa união. A respeito dela assim disse o Senhor:
“Eu estou no Pai e o Pai em Mim; ... crede em Mim, que Eu estou no Pai e o Pai em Mim” (Jo. 14:7-11);
e, em outra passagem:
“O Pai e Eu somos um;... conhecei e crede que Eu estou no Pai, e o Pai em Mim” (Jo. 10:30, 38).
E como isto era representado pela unção de Aarão e de seus filhos, por isso
As coisas santas dos filhos de Israel, que eram de Jehovah mesmo, foram dadas a Aarão e aos seus filhos pela unção (Nm. 18:8).
As coisas santas, que eram de Jehovah, dadas pela unção a Aarão e aos seus filhos, são enumeradas nos vers. 9 a 19 desse capítulo. Vide, porém, as coisas que foram ditas anteriormente a respeito das unções, por exemplo, que só o Senhor, quando ao Divino Humano, foi o ‘Ungido de Jehovah’, porque n’Ele estava o Divino Bem do Divino Amor, que era significado pelo ‘óleo’, e os que os outros, ungidos com óleo, apenas O representaram (n. 375). Essas coisas foram ditas a respeito do ‘Ungido de Jehovah’, porque o ‘Ungido de Jehovah’ é o Cristo, para que se saiba que pelo ‘Senhor e Seu Cristo’ nessa passagem do Apocalipse não se entendem dois, mas entende-se um só, ou que são um só, como o ‘Ungido de Jehovah’ e o ‘Cristo do Senhor’ (Lc. 2:26).
[34] Visto que aqui se trata do Senhor, para quer se saiba por que Ele é chamado Cristo, isto é, Messias ou Ungido, importa explicar as coisas que se leem em Daniel a respeito do Messias:
“Setenta semanas foram determinadas sobre o teu povo e sobre a cidade de tua santidade, para consumar a prevaricação, e para selar o pecado, e para expiar a iniquidade, e para trazer a justiça dos séculos, e para selar a visão e o profeta, e para ungir o Santo dos santos. Sabe, pois, e percebe: desde a saída da Palavra até ser restituída e edificada Jerusalém, até o Príncipe Messias, setenta semanas. Depois de sessenta e duas semanas será restaurada e edificada com ruas e poços, mas na angústia dos tempos. Mas depois de sessenta e duas semanas será cortado o Messias, mas não para Si. Então o príncipe do povo que virá destruirá a cidade e o santuário, de modo que seu fim será com inundação, e até o fim da guerra são determinadas desolações. Confirmará, todavia, a aliança com muitos em uma semana, mas no meio da semana fará cessar o sacrifício e o minchah. Finalmente, sobre a ave das abominações haverá desolação, e até a consumação e o determinado destilará sobre a devastação” (Dn. 9:24-27).
O sentido dessas palavras foi investigado e explicado por muitos eruditos, mas somente quanto ao sentido da letra e não ainda quanto ao sentido espiritual, pois esse sentido foi até agora desconhecido no mundo cristão. Nesse sentido, as coisas seguintes são significadas por essas palavras: ‘Setenta semanas foram determinadas sobre o teu povo’ significa o tempo e o estado da igreja que então existia com os judeus, até o seu fim; ‘sete’ e ‘setenta’ significam o que é pleno, do princípio ao fim, e ‘povo’ significa que então eram da igreja; ‘e sobre a cidade de tua santidade’ significa o tempo e o estado do fim da igreja quanto à doutrina do vero proveniente da Palavra; a ‘cidade’ significa a doutrina do vero, e ‘cidade da santidade’ o Divino Vero que é a Palavra.
[35] ‘Para consumar a prevaricação, e para selar o pecado, e para expiar a iniquidade’ significa quando não houver senão os falsos e males na igreja, assim, quando a iniquidade estiver completa e consumada, pois antes de isso acontecer o vim não virá, pelas razões mostradas no opúsculo Do Juízo Final. Porque, se fosse antes, pereceriam os bons simples, os quais foram conjuntos, quanto aos externos, àqueles que simulam os veros e bens e fingem hipocritamente nos externos. Por isso se acrescenta: ‘para trazer a justiça dos séculos’, que significa para salvar aqueles que estão no bem da fé e da caridade. ‘E para selar a visão e o profeta’ significa para serem cumpridas todas as coisas que há na Palavra; ‘para ungir o Santo dos santos’ significa para unir o Divino mesmo ao Humano no Senhor, pois este é o ‘Santo dos santos’.
[36] ‘Sabe, pois, e percebe: desde a saída da Palavra’ significa desde o fim da Palavra do Velho Testamento, porque este foi cumprido no Senhor, porquanto todas as coisas da Palavra do Velho Testamento tratam do Senhor e da glorificação de Seu Humano, assim, do Seu domínio sobre todas as coisas do céu e do mundo; ‘até ser restituída e edificada Jerusalém’ significa quando uma nova igreja foi instaurada; ‘Jerusalém’ significa essa igreja, e ‘edificar’ significa instaurar de novo; ‘até o Príncipe Messias’ significa até o Senhor, e o Divino Vero n’Ele e proveniente d’Ele, pois o Senhor é chamado ‘Messias’ por causa do Divino Humano, e ‘Príncipe’ por causa do Divino Vero.
[37] ‘Setenta semanas’ significa o tempo e o estado plenos; ‘depois de sessenta e duas semanas será restaurada e edificada com ruas e poços’ significa o tempo e o estado plenos após o advento d’Ele até quando a igreja for instaurada com seus veros e sua doutrina; ‘sessenta’ significa o tempo e o estado plenos quanto à implantação do vero, do mesmo modo que os números ‘três’ ou ‘seis’, e ‘dois’ significa essas coisas quanto ao bem; assim, ‘sessenta e duas’ significa o casamento do vero com uns poucos bens; as ‘ruas’ significam o vero da doutrina, e os ‘poços’ a doutrina; (o que são as ‘ruas’, vide acima, n. 652, e o que são os ‘poços’ ou ‘cisternas’, n. 537); ‘mas na angústia dos tempos’ significa árdua e dificilmente, porque é nos gentios, com que há pouca percepção do vero espiritual.
[38] ‘Depois de sessenta e duas semanas’ significa após o tempo e o estado plenos da igreja instaurada quanto ao vero e o bem; ‘será cortado o Messias’ significa que se afastarão do Senhor, o que é feito principalmente pelos babilônicos, pela translação do Divino poder do Senhor aos pontífices e, assim, pelo não reconhecimento do Divino no Seu Humano; ‘mas não para Si’ significa que, no entanto, Seu é o poder e Seu é o Divino.
[39] ‘Então o príncipe do povo que virá destruirá a cidade e o santuário’ significa que assim perecerão a doutrina e a igreja, pelos falsos; ‘cidade’ significa a doutrina, ‘santuário’ a igreja e ‘príncipe que virá’ o falso reinante; ‘de modo que seu fim será com inundação, e até o fim da guerra são determinadas desolações’ significa a falsificação do vero até que não haja luta alguma entre o vero e o falso; ‘inundação’ significa a falsificação do vero, ‘guerra’ significa a luta entre o vero e o falso, ‘ desolação’ significa o estado último da igreja, quando não houver mais vero algum, mas meramente o falso.
[40] ‘Confirmará, todavia, a aliança em uma semana’ significa o tempo da Reforma, quando de novo houver a leitura da Palavra e o reconhecimento do Senhor, a saber, do Divino no Seu Humano; esse reconhecimento e, daí, a conjunção com o Senhor pela Palavra é significada pela ‘aliança’, e o tempo da Reforma por ‘uma semana’; ‘mas no meio da semana fará cessar o sacrifício e o minchah’ significa que, todavia, não há interiormente vero e bem no culto naqueles que são reformados; ‘sacrifício’ significa o culto pelos veros, e ‘minchah’ o culto pelos bens; por ‘meio da semana’ não é significado o meio desse tempo, mas o estado íntimo nos reformados, pois o ‘meio’ significa o íntimo, e ‘semana’ o estado da igreja. A razão de não haver interiormente vero e bem no culto após a Reforma é por que assumiram a fé como o essencial da igreja e a separaram da caridade, e quando a fé é separada da caridade, então não há vero nem bem no íntimo do culto, pois o íntimo do culto é o bem da caridade, e deste procede o vero da fé.
[41] ‘Finalmente, sobre a ave das abominações haverá desolação’ significa a extinção de todo vero pela separação entre a fé e a caridade; a ‘ave das abominações’ significa a fé só, assim separada da caridade, pois a ‘ave’ significa o pensamento a respeito dos veros da Palavra e o entendimento deles, os quais se tornam ‘ave das abominações’ quando não há afeição espiritual alguma do vero que ilumine e ensine o vero, mas somente a afeição natural, que é por causa da reputação, da glória, da honra e do ganho; essa afeição, como é infernal, é abominável, porque daí há meramente falsos; ‘e até a consumação e o determinado destilará sobre a devastação’ significa o seu extremo, quando nada mais houver do vero e da fé, quando ocorre o juízo final.
[42] Que essas últimas palavras em Daniel tenham sido preditas a respeito da Igreja Cristã é evidente pelas palavras do Senhor em Mateus:
“Quando virdes a abominação da desolação, predita pelo profeta Daniel, estar no lugar santo, quem lê, preste atenção” (Mt. 24:15),
pois nesse capítulo se trata da consumação do século, assim, da devastação sucessiva da Igreja Cristã; por isso a devastação dessa igreja se entende por essas palavras em Daniel. (O que, porém, é significado por elas no sentido espiritual foi explicado nos Arcanos Celestes, n. 3652). Por aí se pode agora ver o que é significado por ‘os reinos do mundo tornaram-se do Senhor e do Seu Cristo’. Do mesmo modo, o que é significado pelo ‘Cristo’ do Senhor ou ‘Cristo do Senhor’, em Lucas:
Simeão “foi revelado pelo Espírito Santo que não veria a morte antes de ver o Cristo do Senhor” (Lc. 2:26).

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